No âmbito de uma colaboração com um dos operadores de televisão, tomei contacto com uma série de guiões e projectos de ficção e de outros programas de entretenimento, apresentados por empresas ou autores independentes. Pude verificar que há projectos que têm uma apresentação deficiente. A boa apresentação permite «uma boa nota» para o projecto ainda antes de ele ser apreciado em profundidade.

Nesse sentido, e com o conhecimento do operador, lembrei-me que seria útil para os membros da APAD ter à mão um guia com sugestões úteis para a apresentação de guiões e projectos. Estas sugestões devem ser adaptadas a cada projecto específico, mas eu recomendo vivamente que tentem segui-las o mais completamente que for possível.

Os autores mais experientes poderão sorrir perante estas sugestões, de tão elementares que são algumas delas. Mas os nossos sócios mais jovens certamente precisam de ajuda nesta matéria. E acreditem-me: vi e li projectos de pessoas experientes tão mal amanhados que será útil a todos reflectirem sobre o que a seguir se segue. Este é um texto aberto. Quem quiser, pode dar também as suas sugestões e acrescentar-se ou corrigir-se aqui. Estas sugestões estão pensadas para projectos ficcionais, devendo ser adaptadas consoante o projecto concreto.

1. Os projectos são apresentados em duas cópias.

2. Os projectos devem ser endereçados à pessoa ou departamento correcto. Não se sabendo o nome, é conveniente um contacto telefónico prévio.

3. Os projectos devem ter boa apresentação formal: colocados dentro de um dossier manuseável; em folhas A4; em corpo de letra legível (corpo 12); com todas as partes separadas e, se necessário, com um índice e nºs de páginas. Fica sempre bem uma carta anexa, apresentando o projecto.

4. O projecto começa pelos elementos identificativos:

  • a. Título
  • b. Género ou formato (drama, comédia, humor, talk show, etc.)
  • c. Número de episódios previsto
  • d. Autor ou autores, produtora externa caso haja
  • e. Moradas, telefones, endereços electrónicos
  • f. Data ou datas (da entrega e do registo, por exemplo)

5. A primeira página após os elementos identificativos deve conter a sinopse. A sinopse é um elemento fundamental e obrigatório de um projecto televisivo. Nenhum projecto deve ser apresentado sem a sinopse. Se o autor não apresenta uma sinopse significa ou desleixo na apresentação do projecto ou que não soube resumir o guião.

6. A sinopse é um pequeno resumo de todo o programa ou série. Deve resumir a acção e as personagens num número de palavras reduzido. A sinopse deve também conseguir dar o tom do projecto (se é comédia deve sugerir a comicidade; se é dramático deve sugerir o dramatismo, etc). Não esquecer que quanto mais curta for a sinopse, maior é a possibilidade de que seja lida integralmente pela pessoa ou pessoas a quem se endereçou.

7. A sinopse deve:

  • a. Ter uma estória atractiva. Indicar claramente qual o conflito ou quais os conflitos do argumento e quem é ou quem são os protagonistas.
  • b. Ser escrita no presente.
  • c. Usar frases curtas e vocabulário simples.
  • d. Ignorar detalhes.
  • e. Evitar a adjectivação, primar pela descrição da acção fundamental.
  • f. Ser curta possível. A sinopse não deve ter mais de dois ou três parágrafos. É preferível que inclua menos do que mais, pois poderá o argumento ser desenvolvido noutro lugar do projecto.

8. A sinopse pode ser antecedida pela story line, que resume numa frase, em poucas palavras, toda a estória, como se fosse um «super-subtítulo» do projecto. A vantagem da story line é chamar a atenção de quem vai apreciar o projecto e ao mesmo tempo deixar implícito que o autor ou autores têm ideias muito claras sobre o projecto.

9. A story line é muito útil em projectos de séries: deve apresentar-se uma story line por cada um dos episódios já idealizados. Assim, quem tem a seu cargo apreciar o projecto compreende que o autor ou autores têm capacidade para levar a cabo os guiões de toda a série, e não apenas aquele ou aqueles que fazem parte do projecto apresentado.

10. Outro elemento fundamental na apresentação dos projectos é a lista das personagens. A lista das personagens deve fazer parte integrante de qualquer projecto. A sua inclusão revela que o autor ou autores têm o projecto bem pensado e permite a quem ler os projectos compreender melhor os guiões. Há guiões complexos, com muitas personagens, que exigem um contínuo regressar à lista de personagens.

11. A lista de personagens:

  • a. Deve ser descendente, partindo dos protagonistas para os secundários principais.
  • b. Deve excluir personagens muito secundários ou figurantes.
  • c. Deve incluir, de cada personagem: o nome, a idade aproximada, o sexo, e uma descrição extremamente breve, no máximo duas linhas (profissão, grupo social, estado civil, característica psicológica ou comportamental, aparência física).
  • d. Deve incluir de cada personagem a relação familiar, se a houver, com pelo menos uma das outras personagens presentes na lista.
  • e. Sendo uma série longa ou com um grande número de personagens, é muito útil juntar um diagrama ou uma «árvore genealógica» que reuna num só olhar personagens principais e secundárias.

12. O projecto deve ser acompanhado de um guião de um episódio, ou de uma sequência ou de duas ou mais cenas dialogadas. Este elemento mostra a capacidade do autor ou autores de concretizar o projecto.

13. As cenas devem estar bem apresentadas formalmente, utilizando as maiúsculas e minúsculas, o negro e o itálico para destacar indicações de realização, personagem que fala ou age ou descrições de acções não-verbais. Cada cena deve indicar se é interior ou exterior, local, e se é de dia ou de noite. As indicações de acção não devem ser extensas nem devem tentar substituir o realizador. Devem cingir-se às descrições sem as quais não se entende a cena.

14. O projecto deve incluir no final, se possível, currículos do autor ou autores e da empresa produtora, se for caso disso.

15. Se for possível, o projecto ficará enriquecido com imagens ou desenhos que ajudem a visualizar os locais e personagens.

16. Pode ser aconselhável, em alguns casos, uma breve memória justificativa, também muito curta, que indique, se houver nisso interesse, o público-alvo ou os públicos-alvos que se pretende atingir ou que se pensa que podem ser os adequados para o projecto. Também se justifica a memória justificativa no caso de um projecto infantil (explicando aspectos ligados à adequação pedagógica, etc.) ou um projecto histórico (explicando que passa em breve o centenário da personagem ou evento retratado, etc.).

17. Os projectos devem ser adequados ao operador ou operadores e ao mercado português. É desaconselhável, por exemplo, apresentar projectos de grande orçamento e de provável impossível concretização (ficção científica, co-produção em vários países, ficção histórica de grande orçamento, etc.).
18. Os autores devem defender os seus projectos. Antes de os apresentar, devem registá-los no Estado.
19. Há autores que têm a possibilidade de juntar ao projecto uma maquete/piloto em VHS ou DVD, em especial se este é apresentado por uma empresa produtora. A maquete/piloto é uma mais-valia, mas não é essencial, não devendo esmorecer os autores que não têm essa possibilidade.

20. Se achaste estas sugestões úteis, aceita então esta sugestão final: lê-as outra vez antes de entregares o teu projecto e verifica, uma a uma, se as cumpriste, caso elas sejam adequadas ao projecto. Boa sorte!

Eduardo Cintra Torres
17 de Março de 2004