Entrevistas APAD - Tiago Santos
Editado por Daniel Ribas • 15 Jan 2008 • Categoria:Tiago Santos é um novo nome no panorama dos argumentistas portugueses. Com uma ligação próxima ao realizador António-Pedro Vasconcelos, Tiago Santos é o argumentista de «Call Girl», que pode agora ser visto nas salas de cinema.
1 – Sobre o que é, do ponto de vista do argumentista, «Call Girl»?
Call Girl é, na minha perspectiva, um filme sobre a venda da alma. Sei que isto parece daquelas teorias metafóricas que se usam para justificar histórias aparentemente banais, mas foi sempre assim que pensei o filme enquanto o escrevia. Há uma frase que sinto que assinala isso. Mouros vira-se para Maria e afirma: “Não temos alma nem moral. O que nós somos, querida, é o próximo passo da evolução humanaâ€. É uma visão futura, pessimista e lógica do mundo em que puderemos viver se o actual estado de coisas não se alterar, se os ideiais continuarem a desaparecer, se os pontos de referências morais colapsarem e tudo o que valer é o sucesso material ou o alcance de objectivos a qualquer custo.
Tentativas de intelectualizar o meu trabalho à parte, é também uma história clássica de amores perdidos, de traições e sacanices, recheado de pessoas não recomendáveis com uma linguagem que fariam corar de vergonha um futebolista (não destes modernos que se vestem de fato, estou a falar dos jogadores à antiga, que tinham bigode e cospiam para cima das pessoas).
2 – Sobre o processo de escrita deste filme: como surgiu a ideia e como foi a relação de trabalho com António-Pedro Vasconcelos antes das filmagens?
A ideia base é do António-Pedro Vasconcelos e não tenho qualquer associação ou interferência com a sua génese. Aliás, no outro dia estive a rever as notas que ele me deu quando começámos a falar do filme e a linha geral das personagens e do enredo já estavam, ainda de que de uma forma bruta, deliniados na cabeça dele.
A partir desse momento, foram mais de dois anos de trabalho e uma relação profissional e pessoal óptima. Como é natural, houve perÃodos de entusiasmo e de desapontamento. Uma segunda versão que o levou a dizer ‘estou com muitas dúvidas, não acredito em nada disto’. Mas, ao mesmo tempo, senti dele sempre uma constante e enorme confiança no meu trabalho. Call Girl foi o meu primeiro trabalho como guionista e, digo-o sem problemas, não puderia ter tido melhor sorte. O papel do António-Pedro Vasconcelos na minha ‘carreira’ (aspas propositadas) não foi apenas uma sorte, mas algo pelo qual lhe vou estar sempre agradecido. Tudo o que fiz depois é uma consequência dessa crença nas minhas capacidades.
3 – Qual foi o teu papel durante a filmagem?
Objectivamente, nenhum. Quis acompanhar a rodagem por simples interesse pessoal, profissional e um embaraçoso entusiasmo juvenil. Ficava num canto, falavam apenas quando se dirigiam directamente a mim e tentava não tropeçar em nenhum cabo. Não queria ser um daqueles escritores que acha as suas palavras intocáveis nem me meter no trabalho dos outros. Dito isto, houve também algumas cenas que precisaram de ser adaptadas às condições de produção, ou outras que necessitavam de reescrita e o facto de estar presente nas filmagens ajudou a que isto fosse feito. E, algo importante para o orgulho de qualquer escritor, ajudaram também a que não me sentisse ultrapassado em todo este processo.
4 – O que achas sobre a passagem do teu guião a filme?
Tenho várias sensações. A primeira reacção, quando o vi pela primeira vez numa sala de montagem, foi de puro entusiasmo e contentemento. Senti-me como se tudo aquilo fosse um mundo com o qual eu não estava relacionado e foi uma experiência algo surreal, como se eu tivesse que me relembrar constantemente que ‘foste tu que escreveste isto!’. Acho que o trabalho de todos envolvidos no filme (realizador, actores, director de fotografia, etc.) foi notável. Depois, quando o vi numa sala de cinema cheia de pessoas, na ante-estreia, foi um pouco mais surpreendente. Os espectadores tiveram reacções que não esperava, em particular na forma exuberante com que se manifestaram perante o humor do filme. Ou seja, ver o filme serve-me também de aprendizagem, detectar e prever de forma mais correcta a reacção dos espectadores às linhas de diálogo e situações criadas. O que acho agora, cinco visionamentos depois, é que é melhor não voltar a ver Call Girl durante uns tempo. Tudo o que vejo são defeitos (os meus), cenas que preferia ter escrito de outra forma, diálogos que me fazem arrepiar de maus, etc.
5 – Há várias semelhanças entre «Call Girl» e «Lugar do Morto», filme decisivo da carreira de António-Pedro Vasconcelos (mulher fatal; homem em conflito interior: polÃcia no primeiro caso, jornalista no segundo; uma intriga policial de fundo). Foi consciente? De que forma um argumentista como tu entra na carreira de António-Pedro Vasconcelos?
Não. Vi o Lugar do Morto há muitos anos e não o revi desde então. Mas não é a primeira vez que me dizem isso, o que é curioso. Suponho que seja um tema querido ao APV…
A forma como entrei na carreira do APV conta-se em poucas palavras. Tinha acabado de chegar de Nova Iorque, onde durante mais de dois anos estive a estudar, a escrever guiões em inglês, a servir às mesas e a meter-me no mais variado e não recomendáveis tipo de confusões. Quando cheguei, o Miguel Meneses, amigo actor, disse-me que gostava de apresentar um projecto ao APV, que ele já conhecia pessoalmente. Trabalhámos e enviámos o documento. O APV convidou-nos para almoçar num restaurante italiano no bairro alto. Muito simpático, e durante a degustação de um linguini com ameijoas, disse que não estava interessado no projecto. Como ainda aprendi algumas coisas em Nova Iorque, tinha comigo o Strange Everyday People, um dos meus guiões, que lhe pedi para ler, só naquela, porque ‘tinha curiosidade de saber a sua opinião’. Dias mais tarde, num email que devia ter guardado e não o fiz, o APV respondeu a dizer que tinha gostado bastante da minha escrita e referiu um projecto para o qual precisava de um escritor. E assim nasce o Call Girl, no que me diz respeito.
6 – Maria foi escrita a pensar em Soraia Chaves?
Não, mas parece, não é? Mérito dela, claro, que tornou a personagem sua. Neste momento, não imagino qualquer outra pessoa a vestir aquela pele. Durante o meu processo de escrita, e até agora, nunca penso em actores concretos, as personagens são como pessoas sem feições. É quase como se apenas lhes conseguisse distinguir as silhuetas.
7 – Quando estás a escrever um guião como «Call Girl», como é o teu processo: as personagens aparecem primeiro ou um esboço da intriga? Como é construir esta história?
No Call Girl, como já referi, a ideia bruta do enredo já estava definida pelo APV antes de eu entrar no projecto. Para mim, o mais importante, até para acertar e decidir o tom do filme, foi a criação da personagem da Maria. Cedo concordámos que esta mulher teria que ser segura, decidida e confortável na sua pele. Ou seja, alguém que se recusa a ser vitimizada. Ou, como ela diz no filme, ‘Não sou uma puta de coração de ouro à espera de ser salva’. A partir daÃ, começei a pensar no Call Girl como um filme noir pós-moderno, com personagens sacanas e diálogos crús e espirituosos. Foi este o ponto de partida.
8 – O argumentista está sempre no «fio da navalha». Como é escrever as cenas escaldantes do filme?
Achas que o argumentista está sempre no fio da navalha? Sinceramente, nunca o senti. Mesmo agora, quando tantas pessoas referem, de forma algo negativa, o uso do vernáculo nos diálogos, não me sinto colocado em causa. São opiniões, que aceito, mas dificilmente vão alterar aquilo que gosto ou acho justo para determinado filme. Quanto à cena escaldante do filme (sim, porque considero haver apenas uma), escrevi-a como se fosse outra qualquer. Sabia que era importante para o enredo e tinha bem definidos os objectivos para as personagens naquele momento. Quero com isto dizer que não tive dificuldade em a escrever porque nunca a considerei gratuita. Seria outra coisa, por exemplo, se escrevesse uma cena de sexo convencional, daquelas que param a história por motivos puramente voyeuristas, dois corpos nús de actores que finguem copular. Acho que não o saberia fazer. O Orson Welles dizia que as cenas de sexo, para ele, estragavam os filmes e destruÃam a sua capacidade de ilusão. Porque sabemos, na grande maioria dos casos, que é sexo encenado. Aliás, tenho algum orgulho do facto de não haver uma única cena do género, contrariando a expectativa de tantos e tantos adolescentes hormonais (desculpem).
9 – O que te inspira a ser argumentista? Que filmes te inspiram?
A vontade de contar histórias, inventar situações, criar diálogos. É esse o meu único objectivo, imaginar mundos e, tempo mais tarde, perceber que eles se materializaram. Continuar a sentir que aquilo que crio vai, durante duas horas, captar a atenção de milhares de desconhecidos, que eles vão rir, chorar ou emocionar-se com algo que não existia antes de ti. Isso é que me inspira, assim como a certeza de que não há mais nada que preferisse fazer.
Acho que tudo me inspira, não apenas filmes. Por vezes música (no primeiro guião que escrevi, God Complex, ouvi compulsivamente Fiona Apple, por exemplo). Muitas vezes livros, autores como Don Delillo ou Cormac McCarthy ou Ruben Fonseca. Depois, mais ligado ao cinema e ao teatro, a minha primeira grande inspiração foi o Tarantino, o Cães Danados e o Pulp Fiction. Mas muitos mais. David Mamet, por certo, Paul Thomas Anderson também. Também clássicos, Howard Hawks e Billy Wilder. Lembro-me uma vez, em Nova Iorque, estava a assistir a uma conferência com o Tim Blake Nelson e ele falava de um livro e de como sentia que todos os filmes e livros e músicas que tinham passado pela sua vida foram quase uma preparação para o ler. Sinto um pouco o mesmo em relação ao meu trabalho de escrita. Tudo ajudou.
Ah, e o nome do livro que o Tim Blake Nelson estava a ler? ‘Blindness’, do José Saramago.
10 – Quais são os teus próximos projectos? Podes revelar-nos um pouco sobre eles?
Nunca gosto muito de falar de coisas que ainda não fiz, mas posso dizer que estou a trabalhar, em conjunto com a PatrÃcia Muller, no próximo filme do Jorge Queiroga, para a Filmes do Tejo, e que estou a iniciar novo projecto com o António-Pedro Vasconcelos.
Coisas já escritas, trabalhei no Star Crossed, da Yellow Pictures Productions, que vai estrear em 2008, e no Pica Filme, comédia de adolescentes independente produzida pela Gil & Miller que vai bater o recorde de palavrões no cinema português. Se as pessoas já ficaram impressionadas com o Call Girl, acho que com o Pica vão fazer piquetes à porta e gritar pela defesa dos bons costumes. Adorava que isso acontecesse.


