The Strike
Editado por Daniel Ribas • 5 Mai 2008 • Categoria: APAD, NotíciasThe strike
Um artigo de opinião de Bernardo Camisão
Finalmente, a greve chegou ao fim. Tal o país implorava. Televisões regionais, paradas; aquelas cuja grelha de programação era exclusivamente nacional, à beira da extinção. Os piquetes nos vários centros de produção espalhados pelo país fora impediram a rodagem de vários filmes nacionais e co-produções. As televisões públicas de sinal aberto aguentaram-se com o que podiam: telenovelas brasileiras, sobretudo, velhos formatos de reality-show, pouco mais…¦ Mas o maior impacto foi no prime time: as séries portuguesas de qualidade, as apostas da "nova grelhaâ", desapareceram subitamente. Valeu às televisões a passagem de concursos milionários, algum futebol, mas os espectadores da "generalista" não foram nessa cantiga da programação "cabo".
Todos respiraram de alívio quando a greve chegou ao fim. Os produtores portugueses compreenderam as reivindicações dos argumentistas e aceitaram a justa percentagem dos dividendos do enorme mercado de DVD’s de ficção portuguesa. E sobretudo, aumentaram a percentagem dada aos autores de todo o conteúdo de internet e new media, cujas receitas de publicidade são já avultadas…
Ter estado em Los Angeles durante parte do perÃíodo de greve dos argumentistas norte americanos da WGA (Writers Guild of America) foi uma coincidência e uma oportunidade excepcional. Primeiro, de vincar o apoio da APAD (por mais simbólico que tenha sido); depois, de observação e vivência pessoal; finalmente, de percepção das características que nos unem. Porque o nosso trabalho é igual — tudo começa com uma folha em branco — e a luta dos argumentistas americanos é exactamente a nossa: condições para que o trabalho criativo seja reconhecido e todos compreendam a sua importância universal: liberdade, expressão, identidade.
O exemplo norte-americano traz muitas ilações para a sobrevivente paisagem audiovisual portuguesa. Sobretudo a da força de uma classe e da instituição que a representa. A mesma força vital que queremos que a APAD tenha para os argumentistas portugueses. Mesmo com todas as diferenças. A greve resultou porque a WGA tem força no seio da sua comunidade. Enquanto durou a greve, Los Angeles tornou-se efectivamente uma cidade diferente. Sem rodagens (boicotadas pela greve); sem pessoas a escreverem nos cafés (a vida dos argumentistas era o piquete!); sem globos de ouro (a grande vitória), quase sem óscares (a cartada final). Todos sabiam que as consequências poderiam ser duras nas suas vidas pessoais, como na greve de há 20 anos, onde muitos argumentistas chegaram a ter de vender as suas casas. Mas o que estava a ser negociado hoje era o seu futuro e por isso é que foram implacáveis, com uma organização férrea, piquetes constantes, intransigência negocial, boicote a qualquer tipo de filmagens… e muito humor à mistura, nos blogues, nas manifestações, em todas as (muitas) actividades paralelas que realizaram.
Podemos sempre dizer que Portugal é diferente, que as comparações são cómicas, a distância absurda. Mas os valores pretendidos são os mesmos: a defesa do trabalho criativo.
A realidade americana é que a força da WGA vem de uma prática e de mecanismos de organização do audiovisual muito mais sofisticados, por comparação connosco, mas igualmente imprescindíveis (a tabelagem das remunerações, a formalização dos contratos, a fiscalização dos processos, os direitos de autor, a deontologia da profissão). Há um quadro formal da WGA que dá garantias de qualidade a todo o processo — quer para o argumentista, quer para o produtor, o investidor, o público — e o facto é que a televisão, o cinema e a internet efectivamente trabalham, por definição, com a WGA. Não a cem por cento, não em todos os projectos, mas na maioria dos projectos profissionais. Esta organização consubstancia necessariamente uma valorização do papel do argumentista.
Foi da consciência dessa força, bem como da importância das questões em causa, que surgiu a greve. E quando a WGA faz greve, todo o show business pára. Filmes, televisão, talk-shows, tudo pára. E tudo parou. Em Portugal não temos o mercado, a organização, não temos sequer uma indústria audiovisual. Podemos até considerar que não precisamos. E a APAD não tem (ainda…) força para se fazer escutar. Mas precisa de fazer barulho para cumprir os seus objectivos, neste caso, valorizar a profissão de argumentista.
Uma ideia: da mesma forma que a WGA acolhe um registo de argumentos audiovisuais, se os argumentistas portugueses adoptassem para a APAD essa posição pró-activa, nós mesmos ficaríamos mais defendidos num mercado extremamente agressivo. Não para que a APAD ou quem quer que seja diga o que "é" ou "não é" um argumento. Lidamos com palavras, ideias, criatividade, imaginação. E isso não se regula. Mas um trabalho frágil e dependente de terceiros como o de "argumentista português" precisa de uma união que defenda os seus direitos. Todo o trabalho criativo precisa de condições, todo o trabalho colectivo, de regulação. Porque não aprender com as boas práticas da indústria de cinema americano?
Bernado Camisão
Argumentista
