António Ferreira (realizador, argumentista e/ou produtor de filmes como "Esquece tudo o que te disse" e "Respirar debaixo de água") é um dos novos e promissores autores do cinema português.

APAD – Como produtor, como reconheces um bom guião? Que qualidades tem de ter para dizeres: quero comprar com este projecto.

António Ferreira – Procuro sobretudo pegar em projectos com os quais me identifique e que veja que têm possibilidades de chegar à produção. A ZED tem se caracterizado por produzir filmes narrativos, que abordam questões actuais, sejam elas de carácter político ou sociais. Não há formulas para guiões ou filmes de sucesso, por isso muitas vezes o que me guia é a intuição relativamente ao guião e a quem está por detrás dele.

APAD – Recebes muitos guiões? Quantos deles tem o mínimo de qualidade? Que erros consideras mais comuns num guionista que está a começar?

AF – Sim recebo bastantes. A grande maioria é de fraca qualidade. Normalmente o que recebo varia entre a tentativa de comédia (que normalmente cai na caricatura desinteressante) e a tentativa de filme poético (com os tiques bem portugueses do suposto filme de autor). Quando recebo alguma coisa com interesse, procuro saber mais da pessoa que escreve, bem como ler outras coisas que tenha escrito. Acho que o maior problema dos guiões escritos em Portugal, é o vazio de ideias por detrás das histórias… ou se perdem em formalismos e ensaios estéticos, ou acham que o que vai ter sucesso é uma história tipo “malucos do riso”. Por isso olho sempre para a ideia que está por detrás de uma história e se essa história está bem contada e adequada ao meio cinematográfico. 

APAD – Tu escreves muitas vezes com guionistas ou com outros realizadores. Como é a vossa relação? Como é o vosso método?

AF – Costumo dizer que escrevo mais por necessidade do que por vocação, pois a escrita é uma actividade que envolve muita disponibilidade mental, que eu com as funções de realizador e de produtor vou tendo cada vez menos. Quando me associo a alguém na escrita, procuro uma pessoa que ache que tem a sensibilidade e o talento adequados para o projecto em causa. Por vezes escrevemos em conjunto, através de reuniões e trocando versões por email, noutras circunstâncias vou apenas acompanhando o processo de escrita juntamente com o argumentista, sendo que este é que faz o trabalho de colocar no papel o guião propriamente dito. 

APAD – Quais são as etapas por que passa a escrita de um guião para ti? Escreves logo em formato de argumento? Recorrer a métodos como os cartões na parede ou a leitura falada dos diálogos?

AF – Normalmente esboço um esqueleto do argumento, divisão por cenas ou sequências, e também costumo usar o método dos cartões na parede. Depois costumo começar a “pôr carne” em cima desse esqueleto (diálogos, desenvolvimento da cena, etc), melhorando-o versão após versão. Normalmente estou a mexer no argumento até muito perto da filmagem. Gosto de trabalhar um pouco com os actores antes de fazer uma versão final do guião. 

APAD – Em termos de estrutura do guião segues algum modelo, como a estrutura dos três actos? Tens algum conselho em termos da estrutura do filme?

AF – Sim, tenho em conta os modelos clássicos, mas não os sigo cegamente. Quando escrevo tenho muito claro que história quero contar e os personagens que tenho. Estes factores são o meu “farol” na escrita de um argumento e são eles que determinam o ritmo e tom do guião.

APAD – O que faz uma boa cena e um bom diálogo? Tens algumas dicas ou conselhos?

AF – Eu não acho muito estimulante um tipo de cinema mais contemplativo, como tal, acho que cada cena deve contribuir para o avanço da narrativa e deve ter uma função clara no argumento. Se uma cena não acrescenta informação, deve na minha opinião desaparecer, até porque a minha experiência diz-me que são essas cenas que depois desaparecem na montagem. Como tal, para mim uma boa cena é aquela que faz avançar a narrativa. Um bom diálogo é aquele que caracteriza o meu personagem e nos dá a informação necessária ao avanço da narrativa, de preferência de uma forma credível e subtil. 

APAD – Quando estás a escrever tens algum tipo de preocupações de produção?

AF – Infelizmente sim, pois é inevitável como produtor abstrair-me completamente dos aspectos da produção enquanto escrevo. Mas sou da opinião que no momento da escrita não nos devemos limitar por questões de produção. Esses ajustes devem ser feitos mais tarde, quando o processo de produção se inicia.

APAD – Costumas apresentar os teus projectos? Tens algum conselho para quem faz um pitch?

AF – Infelizmente o modo de financiamento em Portugal não passa por convencermos quem financia da validade do projecto numa sessão de pitching (é tudo feito através de dossiers). Todavia acho importante sermos capazes de resumir o nosso filme num par de parágrafos, ajuda-nos a ter em mente sobre o que é o nosso filme.

APAD – Qual é a relação entre um guiao e a versão final do filme? O que muda de uma etapa para a outra? Como é o trabalho com os actores?

AF – Muda muito. Costumo dizer que um guião é como uma lista de compras que levamos para a rodagem. Essa lista contém os ingredientes necessários a cozinhar o meu filme. Depois é na montagem que os misturo em diferentes proporções. Por isso também quando filmo não tenho planificações ou storyboards. É no set, com o trabalho com os actores e com o director de fotografia que tomo as decisões. Do mesmo modo, é na montagem, olhando para o que consegui adquirir no “supermercado”, que decido como vou encadear os planos. Por isso, vejo um filme como um longo processo de criação, dinâmico, que se vai adaptando às circunstâncias do processo de filmagem. Como tal, depende de filme para filme as diferenças entre o que estava escrito e o que depois apareceu no écran.

APAD – O que achas que o digital trouxe de novo ao cinema? Qual é a tua experiência com o formato?

AF – Acho que o digital veio trazer facilidades de produção a quem tem menos recursos financeiros, embora isso não seja propriamente um milagre, pois os custos de produção de um filme não são apenas os da película. Eu pessoalmente sou um fã de novas tecnologias e desejo a morte súbita ao 35mm, que é um suporte dispendioso, difícil de trabalhar, que consome tempo e dinheiro. As novas câmaras de alta resolução já têm uma qualidade suficiente para os meios de exibição que existem e o 35mm só sobrevive ainda por falta de uma rede de distribuição em alta definição que começa agora a aparecer. Também não devemos esquecer que a vida de um filme no grande écran é pouco mais de 1 ano (exibição comercial e festivais) e que o resto da vida de um filme será em DVD e outros formatos digitais. Por isso, é cada vez mais absurdo utilizar como suporte a película.

APAD – Achas possível falarmos de uma indústria portuguesa de cinema?

AF – Acho possível e desejável. São conhecidas as limitações de mercado cinematográfico em Portugal, mas isso não significa que os nossos filmes não possam aspirar a uma dependência cada vez menor de subsídios e a alcançarem uma saudável relação com o público. Se os nossos filmes tivessem mais espectadores, fazer-se-iam com certeza mais filmes e haveria consideravelmente mais financiamento para as produções. É assim em outros países europeus, até de menor dimensão do que o nosso. Agora claro que isso só se conseguirá com mais produção cinematográfica que nos trará diversidade e com filmes que sejam menos voltados para o umbigo dos realizadores e que procurem mais uma relação de comunicação com o público. Na minha opinião, os principais responsáveis pelo estado mórbido da cinematografia portuguesa são os criadores (realizadores e argumentistas) e do poder de decisão que continua a esbanjar recursos em projectos que nunca deveriam ter saído do papel.