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Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos

Dexter: o mundo ao contrário

Editado por João Nunes • 11 Out 2008 • Categoria: Análise, Dossier

por Daniel Ribas ((Daniel Ribas é argumentista e investigador da Universidade de Aveiro. Prepara uma tese de doutoramento sobre os filmes de João Canijo. É também professor do Instituto Politécnico de Bragança.))

O Mundo ao Contrário

Sobre «Dexter»

Há algo de surpreendente em “Dexter”. A série, que caminha para a terceira temporada nos Estados Unidos (começará a emitir agora em Setembro), é um resultado da produtora americana ShowTime (responsável por outras séries de sucesso como «Erva/Weeds», «Californication» e «L World»). É certo que, no centro da estrutura dramática do guião, está algo que até é cliché: um vigilante que decide fazer justiça pelas próprias mãos. Mas, apesar disso (ou até por causa disso), a série consegue sempre surpreender-nos, já que, jogando com essas expectativas, é capaz de trazer muitos pormenores novos. O primeiro deles, que tem tudo a ver com o centro desta estrutura, é o seu herói: Dexter é o nosso vigilante, mas é também a personagem que provoca mais compaixão no espectador.

Assim dito, talvez seja importante esclarecer qual é a linha narrativa da série: Dexter é um especialista de ciências forenses, que trabalha no departamento de homicídios da polícia de Los Angeles. É ele que trabalha sobre os vestígios de sangue nas cenas de crime. Contudo, Dexter assassina criminosos à noite, depois do trabalho. Para ele (e para o código do seu pai adoptivo, Harry), estes assassínios têm que ser justificados e, por isso, Dexter investiga a fundo (por conta própria) estes criminosos e só os mata quando a investigação policial normal não os consegue acusar. A grande justificação narrativa para este comportamento serial-killer de Dexter é um episódio na sua infância: ele foi resgatado por Harry (o seu futuro pai adoptivo, portanto) numa cena de crime terrível, dentro de um vagão, onde a mãe tinha sido morta e o sangue cobria Dexter de vermelho.

Para além deste comportamento desviante, Dexter tenta manter uma vida normal com a sua irmã, Debra e com Rita, a sua namorada. Este conjunto de personagens obriga Dexter a interagir e a fugir da sua ausência de sentimentos (é ele próprio que o repete, diversas vezes). A grande linha narrativa da primeira temporada é a investigação sobre um serial killer que, descobrir-se-á mais tarde, tem uma ligação afectiva com Dexter (não dizemos mais para não estragar o visionamento a quem ainda não viu). Na segunda temporada, o departamento de homicídios descobre o local onde as vítimas de Dexter eram abandonadas (no meio do mar). Uma caça ao homem começa: a caça a Dexter…

A estrutura narrativa básica da série é, portanto, a vida de um departamento de homicídios. Contudo, ao contrário de outras séries semelhantes, em «Dexter» o cerne da acção policial está na descoberta de serial-killers em vez dos vulgares crimes passionais. Desta forma, a série organiza-se através da sucessiva descoberta de provas que encontrem o assassino (um pouco à semelhança de filmes que lidam com o mesmo tipo de criminosos). Na segunda temporada isso torna-se mais óbvio desde o primeiro episódio, o que leva mesmo à entrada em cena de uma nova personagem: o agente especial Frank Lundy, funcionário do FBI e destacado para criar uma task-force sobre o assassino.

Para além destas linhas narrativas, há histórias secundárias que multiplicam as vidas de Dexter: os namorados de Debra (e a sua vida como investigadora no departamento), a vida de Rita (com os seus filhos e o seu ex-marido) e até a vida social dos colegas de trabalho. Estas diversas linhas narrativas pretendem apenas servir a história e a personalidade de Dexter (esta é uma série de uma personagem, ao contrário de outras que apostam em ensembles de actores). É por isso que cada episódio é estruturado como uma “aprendizagem” de Dexter, as suas diversas mudanças e o impacto que o mundo à sua volta tem em si. Cada episódio é, por isso, bastante redondo, mesmo que haja uma linha narrativa comum a cada temporada (até por causa disso, cada episódio começa com o resumo do que aconteceu até então). Para além disso, no fim dos episódios (por norma, embora nem sempre) um novo problema é lançado, de forma a que a curiosidade se mantenha e a audiência deseje o próximo capítulo.

Esta estruturação é acompanhada com uma constante sensação de perigo: que Dexter seja apanhado. Esta consciência leva-nos, provavelmente, à grande atracção da série: cada espectador sofre de uma luta interior entre amar e odiar Dexter, em se sentir identificado e em repulsá-lo. Mesmo que seja óbvio um sentimento de identificação dominante, há algumas vezes em que Dexter é caracterizado mesmo como um serial-killer. Aí o equilíbrio torna-se instável e fica essa sensação de estranheza que é também a sensação que nos faz manter colados ao desenvolvimento da série.

Outra das características marcantes de «Dexter» é a sua voz-off, que acompanha todos os episódios e que pontua os diferentes momentos da narrativa. É também a voz-off que nos permite, nos momentos mais delicados, estabelecer uma identificação, além de acentuar a importância do nosso one-man-show. E, ao contrário do que poderia ser previsível, a voz-off funciona, já que a série serve para entrar no interior dos pensamentos e da forma de actuar de Dexter.

É neste sentido que «Dexter» nos parece uma das melhores séries que estão actualmente em exibição, sobretudo pela capacidade de confrontar os dois lados da barricada (o bom e o mau) e através desse caos lançar-nos no turbilhão dos sentimentos paradoxais. Esta é a série, também, que relança um grande actor: Michael C. Hall, responsável por outra grande personagem (David Fisher), na série «Sete Palmos de Terra». Resta, por isso, a curiosidade de saber para onde vai a próxima temporada e para onde poderão ir os argumentistas da série…



Trailer da Terceira Época de «Dexter»

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