Índice: Revista#1
- Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica
- Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo
- Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar
- António Ferreira: um guião é como uma lista de compras
- Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe
- Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria
- Perfil: Neil Labute – matem o dramaturgo
- Dexter: o mundo ao contrário
- My Blueberry Nights: o néon da paixão
- Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica
- The Servant: parasitas da alma
por Jorge Vaz Nande (argumentista do Bode Expiatório e colaborador das Produções Fictícias)
Oito ideias – tópicos de reflexão
- Como se sabe qual é a actriz mais burra num plateau?
- É a que anda a dormir com o argumentista.
Piada americana
Estas são algumas impressões, pressentimentos e tendências que, ao longo do meu pouco tempo de profissão (mais aquele que com ela namorei), fui guardando na carteira mental.
O registo duma obra cultural é absurdamente alto
Começando pelo vil metal: desde o dia 12 de Março de 2005 que o registo de uma obra intelectual ou artística na Inspecção-Geral das Actividades Culturais custa €25 de emolumentos, mais € 0,30 de portes. Até ao dia anterior, a taxa de emolumentos mantinha-se como sempre tinha estado, ou seja, € 0,90. Num dia, a subida foi de 2778 por cento. O registo da obra cultural não é constitutivo do direito de autor sobre ela, mas isso não significa que seja um luxo. Se tivermos em conta que este registo é obrigatório para um argumentista que se quiser candidatar a um apoio estatal, temos um relance da máquina governamental a funcionar em toda a sua beleza. A redução deste valor deve ser sumariamente exigida – isto se queremos assumir que vivemos numa sociedade que realmente valoriza a criação enquanto factor de desenvolvimento.
O argumentista é um autor
Tanto o é que Guillermo Arriaga prefere a designação "escritor de cinema" para o vincar ainda mais. Enquanto autor, o argumentista é a face duma ideia particular de linguagem, de narrativa e de mundo e, enquanto contador de histórias contemporâneo por excelência, é o último elo numa cadeia que se estende até Homero, até ao Gilgamesh, até ao primeiro homem que pintou a parede duma caverna. Talvez demore tempo até que na ficção audiovisual nacional haja uma acumulação assinalável do mesmo tipo de marcas autorais que nos permitem dizer que um filme é um Wilder, um Potter, um Mamet, um Sorkin, um Ball, mas o medo é o pior veneno em Portugal – não sejamos cúmplices dele. Um filme "escrito por…" pode vender um DVD tão bem como um filme "realizado” ou “produzido por…". Cultive-se a originalidade das vozes.
A ficção audiovisual é um negócio
O sistema de produção português encontrou uma maneira de funcionar com base nas mecânicas dos subsídios1 e não nas do negócio, sem ter chegado a experimentar2 um sistema de produção e um modelo de negócio semelhantes àqueles com que Roger Corman trabalha há 50 anos: um número enorme de sucessivas produções assentes em micro-orçamentos, rodagens extremamente rápidas, histórias fortes e sensacionalistas e elencos reduzidos ao mínimo. Cada uma destas produções poderá não ter uma rentabilidade muito grande, mas cobre o investimento inicial com um retorno menor e, como tal, garante o capital indispensável para partir para a seguinte. Isto faz escola e, mais importante, poderá gerar o impulso necessário para o avião levantar por si só.
O argumento é um negócio
A famosa greve americana de 2007-2008 mostrou que o poder dos argumentistas americanos vem, para além de um óbvio respeito mútuo entre as classes profissionais do espectáculo, de uma assunção óbvia: a de que o produto escrito é uma mais-valia económica; é mais facilmente exportável e, como tal, rentável; e é mais facilmente sindicado e reposto. No fim de contas, o produto escrito é preferido porque é mais visto – o que talvez sirva para explicar porque é que os reality-shows derivaram rapidamente de uma promessa da "vida real" para um formato que, mais ou menos ficcionado, visivelmente incorpora uma linha narrativa. A força dos argumentistas vem da sua união, mas também da sua capacidade de gerar dinheiro e de fazer a indústria avançar. Aqui residiu a peculiaridade da greve, mal entendida pela Esquerda portuguesa: é que ninguém queria mais interrompê-la do que os próprios argumentistas. Se a indústria ficasse prejudicada, eles seriam imediatamente arrastados. Mas o avanço daquela (nos mares da distribuição digital) não podia ser feito à custa deles. A sua autoria dá-lhes o direito a participar nos lucros feitos com base nos produtos por eles escritos. E, para reger isso, estão as 600 páginas do contrato-base da WGA. Nós não temos um contrato-base. Temos uma tabela de referência que sofre por não existirem padrões de negócio estabelecidos. O esforço futuro da APAD deve ser no sentido de alargar a base de sócios (talvez pela redução da jóia de entrada?), de modo a aumentar o seu poder de representatividade e, como tal, influenciar a definição de modelos de negócio específicos dentro da indústria de espectáculo portuguesa.
O online é um negócio
Edward Zwick e Marshall Herskovitz, dois dos maiores produtores de Hollywood ("O Último Samurai", "Traffic", "I Am Sam", "Blood Diamond"), tiveram uma ideia para uma série televisiva que não conseguiram vender. Então, o passo seguinte foi dizer "Porque não pô-lo na Internet?". E assim nasceu o Quarterlife. Meses depois, com comunidade criada e tudo, foi a primeira série de webisódios "exportada" para os tradicionais ecrãs de televisão. A benesse da distribuição online, principalmente se apoiada nos modelos publicitários da SlateV, do Hulu ou do site do South Park, serve tanto o espectador — que vê quando quer -, como o anunciante – que só paga a publicidade que é efectivamente vista—, como o difusor – que fica sem intermediários entre si e o seu público. Para além do mais, o produto está sempre disponível – portanto, a receita publicitária do primeiro episódio do South Park não se esgota numa transmissão, estendendo-se e multiplicando-se até à eternidade… juntemos-lhe ferramentas como o Revver ou o programa de partilha de lucros publicitários que o YouTube implementou para perceber que este tipo de distribuição não é uma mera descarga de consciência – é uma forma de ganhar dinheiro que sustenta já uma série de autores.
Olhar para Espanha
Vivemos ao lado – mesmo – de uma cinematografia que vence Oscares, com realizadores, actores e argumentistas que se souberam exportar. Porque é que nós não o conseguimos? Vamos continuar a comparar Salazar com Franco? Ou a queixarmo-nos de que somos um país muito pequeno? Então, talvez devamos…
Olhar para o outro lado do mundo
A Film Comission da Nova Zelândia, antípoda com metade do nosso tamanho, quis impulsionar a existência de uma cinematografia nacional nos anos 80. Para tal, seleccionou formadores internacionais em diferentes disciplinas (um deles foi Linda Seger, que esteve em Julho a orientar um workshop no Festival de Avanca) para darem aulas a um grupo de neo-zelandeses. Entre estes, estava Peter Jackson. Esse grupo começou a escrever, a produzir, a filmar e também a dar formação às gerações posteriores de cineastas neo-zelandeses. Resultado: um cinema bem interessante, com características muito próprias, alto potencial de exportação e de geração de receitas, promotor turístico do seu país e, acima de tudo, cool. Sem grandes preocupações de se estar a fazer uma obra-prima e com a simples pretensão de fazer um filme interessante, as coisas aconteceram – e aconteceram até a’ "O Senhor dos Anéis".
Olhar para a Nigéria
A Nigéria não tem salas de cinema, mas com 300 realizadores a produzirem uma média anual de 2400 filmes orçamentados entre os 10 mil e os 25 mil dólares, consegue gerar receitas na ordem dos 286 milhões de dólares por ano. A Nigéria pode estar no 158º lugar do ranking do Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, mas tem a terceira maior indústria de cinema do mundo depois da Índia e dos EUA.
Devemos sempre olhar para a Nigéria. Sempre.
- Nem todo: na televisão, as telenovelas e as séries cómicas de grande público, responsáveis pela formação de um enorme número de profissionais, contrariam esta afirmação e antecipam o passo seguinte: o da existência de um sector privado de produção autónomo, que aposta principalmente na originalidade narrativa, e não na segurança do banal ou do pequeno escândalo, para conquistar a sua audiência. Mas quando? [↩]
- Não é bem verdade – quem vir os filmes que o Repórter X fez para a Invicta Filmes percebe que, com todos os defeitos que possam ter, há neles mais energia e imaginação do que em muitos produtos actuais. [↩]

