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Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos

Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo

Editado por João Nunes • 11 Out 2008 • Categoria: Dossier, Entrevistas

Nuno Markl dispensa apresentações. Guionista, humorista, bloguista, radiofonista, autor de sucesso e personalidade pública, as suas opiniões, ideias e até preconceitos são sempre provocadores e inspiradores.

APAD – O humor aprende-se com os mestres, aprende-se com os livros ou aprende-se fazendo? Que mestres e livros recomendas?

NUNO MARKL - Para mim, o humor nasce de uma mistura de todas essas coisas. Talvez não tanto com os livros; sempre me fez alguma confusão que se escrevam livros sobre como fazer humor. Acho que uma pessoa que tem a frieza de sistematizar os seus supostos conhecimentos de comédia num compêndio téorico é, à partida, a menos indicada para explicar a outros como fazer rir! Por alguma razão os tipos que escrevem os livros sobre como escrever comédia são desprovidos de qualquer curriculum apreciável na área. Porquê? Porque estão a escrever teorias sobre como escrever piadas, em vez de as fazer. Acho que, em parte, o humor nasce de uma predisposição natural que a pessoa tenha para isso; não imagino um tipo sem qualquer pendor nato para o humor a conseguir ter uma carreira bem sucedida nessa área, e penso que não serão “os mestres” nem livros da especialidade que o conseguirão ajudar. Para lá desse pendor nato – que, muitas vezes, surge no ser humano como um mecanismo de defesa, como foi o meu caso, dado que era um miúdo tímido, solitário e algo enxovalhado, na escola – acho que se aprende muito vendo boa comédia. Eu sei que há colegas meus que se recusam a ver comédia de outras pessoas, porque sentem que ficam demasiado formatados e perdem frescura e originalidade, mas eu não concordo com isso. Acho a comédia um organismo vivo, um monstro que evolui e que ganha novas formas a partir de formas anteriores. Nenhuma coisa nova de comédia surge de geração espontânea, do nada; tudo surge a partir de algo que está atrás. Quando me dizem coisas como, “então e o The Office, do Ricky Gervais, não é novo e genial?”. Confirmo que é das maiores obras-primas da comédia mundial, mas, como o próprio Gervais admite, o The Office nunca teria surgido se ele não tivesse visto e amado o filme This is Spinal Tap, do Rob Reiner, o pai de todos os documentários cómicos forjados. Isto é uma ilustração fantástica do que é a comédia e de como é uma criatura em constante mutação. É isso que é fascinante nela.

APAD – Como reconheces uma boa idéia? Que características deve ter essa ideia? Como é trabalhada?

NM – Não há nada mais relativo do que aquilo a que chamamos uma boa ideia, porque depois entram todas as variáveis e nuances. Para começar, aquilo que é uma boa ideia cómica para mim, pode não ter graça nenhuma para o meu vizinho do lado. É por isso que a comédia acaba por ser a arte de tentar agradar não a toda a gente, mas – de preferência – ao maior número possível de pessoas! Depois, mesmo que tenhamos algo que consideramos “uma boa ideia”, e que os nossos colegas de trabalho considerem também “uma boa ideia”, assim que ela se transforma num sketch ou num episódio de sitcom, ou num filme cómico, ou seja no que for, quando damos por nós a olhar para o texto completo, pode dar-se o caso de começarmos a pensar: “Ora bolas, quando era só uma ideia, tinha muito mais piada do que agora que é um guião”. E há ainda mais uma variável possível: mesmo que a nossa “boa ideia” tenha sido transformada num “bom guião”, uma coisa é ela funcionar no papel; a outra é quando as câmaras começam a filmar e os actores a interpretá-la. Esse pode ser o momento trágico em que nos apercebemos que a nossa “boa ideia”, em teoria, podia parecer magnífica no papel, mas, na prática, não resulta. Nunca sabemos no que vai resultar aquilo que nos parece uma boa ideia. Se achamos mesmo que é uma boa ideia, não temos outro remédio senão acompanhá-la e trabalhá-la com um cuidado de ourives desde que a transformamos num texto e no momento em que ela é transformada em algo de concreto, seja um sketch, um episódio, um filme. Ter aquilo que consideramos uma “boa ideia” é um desafio tremendo, porque tê-la é mesmo só o começo. A hora da verdade sobre a qualidade da nossa ideia só acontece mais tarde. E tanto pode ser um momento encantador, como pode ser um momento terrivelmente frustrante. Curiosamente, não sei se tenho uma veia masoquista, mas uma das coisas que mais adoro na minha profissão é a incerteza sobre se a ideia “brilhante” que nos surgiu vai acabar transformada numa coisa capaz de nos orgulhar a vida toda ou em algo totalmente falhado. Se resultar em algo de falhado, convém não entrar logo em depressão: às vezes basta que realizadores e actores não estejam exactamente no mesmo comprimento de onda que nós, quando a escrevemos, para que falhe. O que não quer dizer, portanto, que a ideia seja má. Mas não sacudo a água do capote: muitas vezes nós, argumentistas de humor, ficamos iludidos com a categoria de uma ideia a que só nós é que achamos graça. Há que ter a humildade de ouvir quem nos rodeia e de admitir que há coisas que só resultam para nós. E se assim for, mais vale ter outra ideia…

APAD – Que diferença há entre o humor de sketch, o humor de sitcom, e o humor de filme? Quais são essas diferenças especificas?

NM – A maneira mais fácil de explicar isso acaba por ser com os três níveis de rapidez, eficácia e poder de síntese que cada uma dessas linguagens pede. Como é óbvio, o humor de sketch convém que seja curto, concentrado, uma verdadeira flecha a acertar em cheio no “funny bone” do espectador. A sitcom já permite mais tempo de desenvolvimento e o filme ainda mais que a sitcom. No entanto, que isso não sirva de desculpa para se engonhar em qualquer um destes dois formatos. Eu acho sempre que quer a sitcom, quer o cinema cómico só têm a ganhar se forem buscar alguma da rapidez e concisão à linguagem do sketch. Mas isto é uma teoria muito grosseira, porque dentro dos sketches, das sitcoms e dos filmes há um não mais acabar de estilos de humor. Eu adoro os filmes do Wes Anderson, por exemplo; acho-os comoventes mas também hilariantes, e no entanto levam o seu tempo, não procuram desesperadamente “punchlines” nem vivem obcecados com o poder de síntese. E é por isso que são geniais.

APAD – Como constróis uma personagem cômica? Inspiras-te no real ou inspiras-te noutras personagens? Como sabes se uma personagem tem pernas para andar?

NM – Pela minha experiência, acho que não há mais nada contraproducente do que uma pessoa sentar-se em frente ao computador, concentradíssima, com a missão “não saio daqui hoje enquanto não criar uma personagem”. As melhores personagens que criei não surgiram dessa forma, surgiram de observação e, às vezes, por acidente. Um exemplo: a personagem do chato, que o Nuno Lopes faz n’ Os Contemporâneos. Nasceu de um misto entre a minha intenção de pegar nessa característica tão portuguesa de dizer mal de tudo e de dizer às pessoas para trabalharem (quando muitas das pessoas que dizem isso não fazem nada) e de uma conversa absolutamente descontraída entre mim e a minha namorada. Por alguma razão, começámos a dizer um ao outro coisas disparatadas como “vai mas é trabalhar” e a criarmos situações em que fantasiávamos dizer isso às pessoas que menos mereceriam ouvir tal coisa. E tudo isto ainda sem sequer imaginar que isso poderia resultar num sketch. E foi no carro, com ela, enquanto trocávamos essas frases só pelo gozo, que eu de repente pensei que isto podia dar um sketch recorrente interessante: uma personagem que não faz nada e cuja vida é dizer aos outros para irem trabalhar e a insultá-los pelas razões mais inesperadas. Tomei logo nota no “bloco de notas” do telemóvel (tenho um polegar extremamente desenvolvido!) e depois, com o meu parceiro de escrita, o Francisco Martiniano Palma, começámos a desenvolver a personagem e a colocá-la numa série de situações. O resto da equipa adorou o boneco e ele foi atribuído ao Nuno Lopes, que tomou a decisão de o caracterizar daquela maneira. E eu acho hilariante. Há muita gente que adora a personagem, mas há também aqueles que dizem que estamos a gozar com os deficientes. Mas não, eu não vejo aquela personagem como um deficiente. Vejo-o como um tipo cuja única deficiência, e, no fundo, aquilo que o fez ficar daquela forma retorcida e estranha, é o facto de passar toda a sua vida a queixar-se. Ele ficou como que feito de câimbras, provocadas pela tensão em que anda. É um grandíssimo trabalho do Nuno Lopes, e é um processo orgânico incrível, a maneira como vamos afinando o boneco em constante comunicação com ele. Nós escrevemos um texto, o Nuno recebe-o e de vez em quando telefona-nos a expor-nos ideias ou sobre a caracterização dele, ou de insultos extra que ele inventa e que são sempre hilariantes. O Nuno é um actor de sonho para um argumentista, porque não só faz brilhantemente aquilo que escrevemos, como dá um input criativo espantoso.

APAD – Costumas também escrever com outras pessoas. Como funciona essa escrita a várias mãos? Que diferença encontras em relação aos textos que escreves a solo?

NM – Encontrar um parceiro ideal de escrita é das coisas mais difíceis que existem. E é quase tão importante como ter perfeita empatia sexual com a mulher que se ama! Eu tenho a sorte de ter trabalhado, ao longo da minha carreira, com pessoas com quem tinha uma empatia humorística perfeita, como o Ricardo Araújo Pereira, o João Quadros, o Filipe Homem Fonseca, o Eduardo Madeira, entre outros, e isso torna o trabalho muito mais divertido e profícuo. Actualmente, custa-me sequer considerar a hipótese de emparelhar com outra pessoa que não o Francisco Palma, porque chegamos a um ponto em que percebemos exactamente a mente um do outro, em que estamos em sintonia numas coisas e em que, nas coisas em que não estamos em sintonia, as nossas diferenças servem para afinarmos as ideias um do outro. Também gosto de escrever a solo, e acho que toda a gente deve escrever coisas a solo, de vez em quando, porque serão sempre, obviamente, mais pessoais. Mas há projectos em que só faz bem trabalharmos em conjunto com outras pessoas, porque nos apercebemos muito mais depressa do que poderá ou não funcionar.

APAD – Escreves todos os dias? Guardas um bloco com idéias? Que hábitos de escrita manténs?

NM – Todos os dias. Mesmo quando estou de férias, tenho tendência a tomar nota de ideias. As ideias são bens demasiado preciosos para pensarmos que se mantêm na nossa cabeça quando voltamos “à civilização”. Já perdi imensas ideias que me pareciam boas, porque achei que não me ia esquecer delas. Por isso tomo nota delas ou num pedaço de papel, ou no tal “bloco de notas” do telemóvel ou então, se tiver o computador por perto, abro logo um documento de Word e escrevo-as. Não tenho propriamente um bloco com ideias, mas tenho uma pasta no meu computador cheia de idéias e esboços. Para sketches, para sitcoms, para filmes. Sei que boa parte delas nunca serão concretizadas, mas paciência!

APAD – Há fórmulas ou estruturas para escrever uma piada? Quais são os teus segredos?

NM – Convém ter uma noção do “timing” das coisas. O “timing” é tudo, em comédia. Falar em fórmulas ou estruturas é, uma vez mais, estar a tornar um processo que deve ter muito de orgânico e instintivo, numa coisa maquinal e rígida. Quando dou “workshops” nas Produções Fictícias, o ponto em que insisto mais é na questão da palha. Escrevam tudo o que vos vem à cabeça. Releiam. E depois sejam implacáveis a cortar o que está a mais. E no humor, o que está a mais é o que não tem qualquer utilidade para essa coisa simples e elementar que é fazer rir e contar uma história. Porque tudo é uma história – até o mais curto sketch. Às vezes, no começo, é complicado a uma pessoa perceber exactamente o que é a palha, porque tudo lhe parece bom. Mas com o tempo vamos aprendendo a ser implacáveis com o nosso próprio trabalho e a perceber que às vezes aquela conversa toda que achamos do melhor que já escrevemos na nossa vida… é palha.

APAD – Quando sabes que um texto está pronto? Dedicas muito tempo à reescrita?

NM – Algum tempo. Depende do projecto – há projectos, sobretudo os mais comerciais e que impõem um ritmo de produção e de trabalho mais veloz, em que às vezes não dedicamos tanto tempo à reescrita como gostaríamos. Mas é sempre essencial reler e reescrever, e tentarmos ao máximo, na medida do possível, afinar um texto até termos a certeza de que não vamos enviar para os actores uma coisa na qual tenhamos qualquer tipo de dúvida.

APAD – Para alem do talento e do trabalho árduo, que características tem de ter um humorista? Que conselhos dás para se gerir uma carreira em Portugal?

NM – Acima de tudo, estarem preparados para fazer muito pouco trabalho realmente pessoal. Pelo menos nos primeiros anos de trabalho, tem de se aceitar fazer muita coisa com a qual não nos identificamos, mas aprende-se imenso com isso. Eu não me identificava minimamente com o programa Ai os Homens, e, no entanto, uma das primeiras coisas que escrevi quando cheguei às Produções Fictícias, foi o sketch humorístico desse programa, o Jóni Bigode, interpretado pelo António Feio. Fã que sou do António Feio, tive depois a felicidade de trabalhar com ele num registo onde ambos estávamos muito mais contentes – a série Paraíso Filmes ou a tradução e adaptação dos textos dos Monty Python que fiz para a peça que ele encenou, recentemente – mas o Ai os Homens foi a coisa mais distante do meu universo em que trabalhei. Mas não me arrependo nada, aprendi muito. É melhor afinarmos a nossa escrita num tipo de programa que não nos diga muito, do que começar logo a escrever, cheio de expectativas, para um programa que está mais próximo do que achamos que é o nosso humor e falharmos nele. Outro conselho é resistir à tentação de aceitar muitos projectos. Eu aqui há tempos era assim, tudo me parecia um desafio aliciante, e o humor pede concentração e dedicação, e é impossível emprestar a nossa concentração e a nossa dedicação a uma quantidade imensa de coisas. Infelizmente, os argumentistas portugueses são, de uma forma geral, tão escandalosamente mal pagos, que, para viver, por vezes não têm outro remédio senão aceitarem mais projectos do que deveriam estar a fazer.

APAD – O que achas que os novos formatos – no telemóvel ou internet – estão mudar na escrita de humor? Achas que esse é o futuro?

NM – Aqui há tempos teria respondido que não, que a televisão continua a ser quem dita as regras. Agora, felizmente, já não estou assim tão certo disso. Um exemplo concreto e nacional é o programa onde estou a trabalhar, Os Contemporâneos. A quantidade de pessoas que me diz que espera que os sketches sejam postos no You Tube ou no site da RTP para os ver, é tremenda. Há toda uma geração que perdeu a paciência para estar sentada num sofá à espera que comece o seu programa favorito. As pessoas sabem que, no dia seguinte, vão poder, na Internet, construir a sua grelha e ver tudo quando e onde lhes apetecer. Isto começa a acontecer um pouco por todo o lado. Na América, as grandes estações estão a disponibilizar os episódios das suas maiores séries on-line, minutos após elas acabarem de ser transmitidas na televisão. Mais incrível ainda: há séries que estreiam exclusivamente na net, o que permite às estações de televisão testar o seu impacto junto do público antes de as estrearem na TV. E, é claro, há cada vez mais gente a criar conteúdos exclusivos para Internet, coisas que nunca serão vistas na televisão e que estão já formatadas para serem vistas nestes formatos – net, telemóveis, consolas portáteis, iPods. E já não falamos só de amadores, que vêm a Internet como uma opção rápida e barata onde podem disponibilizar o seu trabalho; vemos profissionais a criarem conteúdos de muita qualidade para estes novos suportes. Um dos casos mais falados nos últimos tempos é o do Joss Whedon, criador da série Buffy Caçadora de Vampiros, que desenvolveu uma mini-série hilariante, muitíssimo bem escrita e produzida, em três actos, apresentada sob a forma de um vídeo-blog, o Dr. Horrible. Outro dia subscrevi também o videopodcast do The Onion, o famoso jornal cómico americano, que todos os dias oferece no seu site um noticiário falso hilariante, em vídeo. E estava a ver isso no meu iPhone, com uma qualidade de imagem e som espantosas e estava a pensar como, de facto, o mundo mudou… E não é preciso olhar para o estrangeiro para ver experiências interessantes e bem sucedidas na Internet. Por exemplo, é muito interessante o percurso da equipa portuguesa da BeActive, que anda a vender os seus conceitos de ficção interactiva – como o Diário de Sofia ou o T2 Para 3 – a grandes produtoras internacionais.

APAD – Como achas que está o mercado de televisão em Portugal para os argumentistas?

NM – Não está grande coisa, como sempre. Os argumentistas portugueses são mal pagos e parcamente respeitados. Lembro-me sempre da história real que me contaram de um produtor da televisão portuguesa que se referiu aos argumentistas como “a pior corja que há no meio”. Quando, na verdade, somos os mais inofensivos e achincalhados! Uma pessoa habitua-se, porque o amor pela arte de contar histórias sobrepõe-se a esse tipo de coisa, mas sinto que ainda se respeita muito pouco a pessoa que tem as idéias e as escreve. Foi interessante, de repente, que o mundo percebesse, à conta da greve dos argumentistas americanos, que existem uns tipos que, se por algum motivo param de trabalhar, as pessoas deixam de ver as séries que gostam. A greve deles foi inspiradora, de certa maneira, embora duvide que uma mobilização daquelas funcionasse, em Portugal. Lá, eles são a indústria que se sabe; cá nós continuamos muito no “cada um por si”.

APAD – Que tendências consideras mais interessantes no actual panorama global?

NM – Agrada-me muito a melancolia que, de repente, entrou no humor. E que foi trazida, recentemente, pelo Ricky Gervais. Não só a melancolia, mas o embaraço – coisas que, à partida, não parecem material passível de provocar ataques de riso. Uma das coisas que gosto tanto no episódio especial final do The Office inglês, como no episódio especial final do Extras é que, a dada altura de ambos, o Gervais e o Merchant entram por caminhos melodramáticos sem que o espectador se aperceba como raio é que de repente deixou de se rir para ficar comovido. Acho isso extraordinário, acho que abre enormes horizontes para a comédia, essa capacidade de, sem deixar de ser comédia, poder, de vez em quando, ser uma coisa triste e poética. De certa maneira isso não é novo – se virmos bem, o Chaplin já fazia isso. Mas hoje, sobretudo a escola britânica faz isso com uma sofisticação e uma fluidez que são de deixar uma pessoa boquiaberta.

APAD – O que dirias a um jovem guionista que quer fazer carreira na comédia?

NM – Que se mantenha fiel ao que acredita, sem deixar de considerar a tal hipótese de ter de escrever coisas para programas que, à partida, estão longe daquilo em que acredita. Porque uma pessoa tem de ganhar a vida, e é raro que se comece logo a escrever aquilo que se quer. Que ainda assim, escrevendo esses programas, tente manter-se fiel ao máximo àquilo em que acredita e ao seu humor. Que não tenha medo de experimentar e que tenha sempre em mente a ideia de que é melhor um falhanço interessante do que um sucesso banal. Que use essa ferramenta extraordinária que estava longe de ser o que é hoje quando eu comecei, e que é a Internet: que mostre ao mundo alguns textos num blog, que ouse pegar numa câmara de telemóvel e num programa rudimentar de edição de imagem e que, basicamente, faça coisas. Quando as coisas são boas, acabam por ser notadas, mais cedo ou mais tarde. E que não desista… e que tenha paciência, que às vezes, neste ofício, as coisas demoram a concretizar-se ou a ter o resultado que esperávamos.

APAD – Achas que as empresas de guionismo têm futuro?

NM – Acho que sim, precisamente por causa do mundo cão que está lá fora para os argumentistas. Tudo o que possa ser uma união que faça a força, é de ter em conta.

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