Índice: Revista#1
- Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica
- Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo
- Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar
- António Ferreira: um guião é como uma lista de compras
- Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe
- Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria
- Perfil: Neil Labute – matem o dramaturgo
- Dexter: o mundo ao contrário
- My Blueberry Nights: o néon da paixão
- Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica
- The Servant: parasitas da alma
Pedro Marta Santos é o guionista do momento: em breve estrearão dois projectos de sua autoria. O primeiro é muito aguardado biopic sobre Amália Rodrigues (”Amália”) e o segundo é uma série televisiva dedicada à figura de Salazar (”A Vida Privada de Salazar”). Os dois projectos são uma produção da VC Filmes, uma nova divisão da Valentim de Carvalho liderada por Manuel S. Fonseca. Tudo ingredientes suficientes para uma conversa interessante.
Sobre “Amália”
APAD – Como surgiu um projecto tão marcante como o biopic sobre Amália?
PEDRO MARTA SANTOS – Na cabeça sempre atenta do Manuel Fonseca, o director da Valentim de Carvalho Filmes. Estando esta empresa associada ao Grupo Valentim de Carvalho, detentor dos direitos musicais de uma vasta discografia amaliana, a pergunta para nós foi: como não o fazer?
APAD – Sentiu o peso da responsabilidade ao escrever um guião sobre uma figura nacional?
PMS – Senti, provavelmente como um argumentista grego sentiria ao escrever um guião sobre Maria Callas. Como diria o Alvin Sargent ( guionista de seis dos melhores filmes norte-americanos dos últimos 40 anos – “”Straight Time”, “Julia”, Bobby Deerfield”, “Paper Moon”, “I Walk the Line” e “Stalking Moon” – e autor dum filmezinho oculto chamado “Homem-Aranha 2”), “com o grande poder vem a grande responsabilidade”.
O potencial poder comunicativo de um filme sobre Amália é imenso, mas a responsabilidade é ainda maior.
APAD - Como foi a organização narrativa de uma história tão grande e diversificada? Quais foram os pontos chave para estruturar o guião?
PMS – Depois de quatro meses a ler todas as notas de rodapé, ver todas as imagens e escutar todas as gravações actualmente disponíveis sobre – e com – Amália Rodrigues, surgiram de forma natural duas ou três linhas de força, ideias recorrentes impressas na vida e palavras da Amália: a sua personalidade exterior procurava sempre a alegria, mas encontrava quase sempre a solidão; a dimensão popular de Amália foi, em grande medida, um sistema de fuga a uma dimensão interior marcada pelo isolamento; e, a sintetizar, a Amália-mulher era solar, viva, de resposta sempre pronta, mas acabava por cair num “looking for love in all the wrong places”.
Encontrada a chave do conceito, o resto tornou-se mais fácil.
APAD - Como decidiu as personagens da vida de Amália que deviam entrar e as que deviam ficar de fora?
PMS – Nalguns casos, através da regularidade e intensidade com que a própria Amália falava delas ao longo dos anos. Noutros casos, pela intuição da força dramatúrgica que algumas delas poderiam desempenhar em pontos decisivos do conflito.
Nas primeiras versões, havia figuras apaixonantes (Rui Valentim de Carvalho, Alberto Janes, Frederico Valério) que tivemos de reduzir ou, simplesmente, anular pela reduzida potencialidade dramática no quadro da história que queríamos contar.
APAD – Que preocupações teve com a escrita dos diálogos?
PMS – Primeiro e sempre: cumprirem a sua função informativa no desenvolvimento da acção. Em segundo lugar: nunca se substituírem a ela.
Por último: encontrar um registo naturalista mas envolvente, que fizesse jus à inteligência espontânea e ao registo emocional de Amália.
Tudo adaptado às pequenas nuances próprias a cada época do tempo de acção (de 1920 a 1974, com um preâmbulo-epílogo em 1984).
APAD – Como se documentou (livros, filmes, áudios, testemunhos reais) sobre a figura?
PMS – Com voracidade conscienciosa e a ajuda da Manuela Martins, a excelente jornalista que nos ajudou a fazer o trabalho de pesquisa.
APAD - Qual é o peso da música no guião? Como se estrutura uma história sobre uma cantora?
PMS – Como imagina, o peso é grande. No entanto, não podemos ceder à preguiça de uma abordagem meramente ilustrativa – a voz e o génio de Amália são tão claros que é um impulso tentador – como não podemos fazer depender a estrutura do argumento da evolução na carreira da cantora (suponho que isto servirá para qualquer “biopic” musical).
Em “Amália”, o que nos interessou mais foi o reflexo da vida na música, não o oposto.
APAD - Como foi o processo de escrita? Pode-nos contar um pouco sobre os pequenos dramas diários da escrita do filme? Como é trabalhar em equipa?
PMS – Nem o grande Billy Wilder se considerou auto-suficiente para escrever certos projectos a solo – os seus melhores filmes como realizador/guionista são os que partilhou na escrita com Charles Brackett, primeiro, e I.A.L. Diamond, depois (também é verdade que acabou por se chatear com ambos).
Eu e o João Tordo, conscientes da nossa fraca natureza e importantes limitações, adoptamos outra estratégia: depois de eu escrever o tratamento, ele escreveu a primeira versão do guião. Eu escrevi a segunda versão sobre a dele, e ele fez o mesmo para escrever a terceira – e assim sucessivamente.
Para a versão final, trocamos ideias como adultos e discutimos como adolescentes. Foi divertido, e o ego de ambos sobreviveu.
APAD – Como foi a relação com o realizador? Em que momentos concordaram e divergiram?
PMS – Foi óptima. O Carlos Coelho da Silva tem um instinto forte para as soluções visuais, o que facilita a vida ao argumentista. No que divergimos, não houve nada que um bom tinto alentejano não tenha resolvido a contento.
Sobre “A Vida Privada de Salazar”
APAD – Como surgiu o projecto?
PMS – Das piores coisas que um argumentista pode fazer é repetir-se, mas: Uma vez mais, a ideia surgiu da mente hiper-activa do director da VC Filmes, Manuel Fonseca.
APAD – Que características acha mais importantes para a escrita de uma mini-série televisiva?
PMS – Ter a percepção da mente humana de Linda La Plante (“Prime Suspect” 1 a 3), o sentido do espectáculo de J.J. Abrams (“Lost”), o “timing” nas réplicas de Aaron Sorkin (“West Wing”, “Studio 60 on the Sunset Strip”) e o entendimento da alma de Krzysztof Piesiewicz (“Dekalog”, a “trilogia das cores” de Kieslowski). Na ausência de tudo isso, é rezar para descobrir três coisas:
- uma premissa à prova de bala
- uma personagem principal cujos conflitos possam ser traduzidos em acção e sustentem satisfatoriamente a intriga ao longo de 180 minutos
- um olhar, um ponto de vista muito específico sobre os objectivos e motivações do(s) protagonista(s)
APAD – Que ingredientes deve ter uma série histórica?
PMS – O principal – e mais complexo – parece-me ser o equilíbrio exacto entre factos e ficção. Numa série histórica, a realidade nunca é suficiente, mas se os factos nucleares não são respeitados, perde-se o mais importante: a verosimilhança.
APAD – Que estratégia usou para estruturar a série e os seus episódios?
PMS – Antes de mais, encontrar o ponto de vista: adoptamos o de Christine Garnier, a mais célebre – e pública – amante de Salazar, uma jornalista francesa que conhece o presidente do Conselho no Verão de 1951 e sobre ele escreverá o elegíaco “Mes Vacances avec Salazar”. Na nossa ficção, Christine é uma narradora omnisciente – e não necessariamente panegírica – da vida privada do ditador.
Depois, foi necessário encontrar o tom e o ritmo da progressão dramática relativamente a cada uma das figuras cruciais – mulheres, na sua maioria – no percurso do cidadão António de Oliveira Salazar, tomando opções quanto à forma como elas se entrecruzam, e quanto à função de “espelho” (reflexo de uma faceta e tempo precisos do protagonista) que cada uma delas desempenha na intriga global.
APAD – Quais são os pontos marcantes do guião? Sobre o que é a série?
PMS – Os pontos marcantes são os que correspondem, na nossa interpretação, às situações decisivas da vida privada do ditador: o primeiro momento em que rejeita alguém; o primeiro momento em que é rejeitado – este definidor de todo o seu percurso futuro, inclusive no plano político; e o único momento em que arrisca prescindir do poder em benefício de uma vida familiar, mais “normalizada”.
A série lança mais perguntas do que oferece respostas, mas talvez se possa dizer que “A Vida Privada de Salazar” é sobre a forma como um homem nega intimamente tudo aquilo que defendeu publicamente.
O Salazar privado é, em certa medida, o oposto do “orgulhosamente sós”.
APAD – Como trabalha para ter um leque de personagens diferenciadas?
PMS – Há várias técnicas, e cada argumentista tem a sua. Encontrar as fraquezas de carácter específicas a cada personagem parece-me um bom princípio.
APAD – Teve algumas restrições de produção ou realização durante a escrita?
PMS – Nenhuma, a não ser o sempre desagradável choque com a realidade que implica não ter dez milhões de dólares à disposição para rebentar pontes e pôr dez mil figurantes no Terreiro do Paço com trajes de época.
APAD – Como se documentou para escrever a história?
PMS – Novamente através de todas as fontes bibliográficas e videográficas disponíveis em Portugal, além de depoimentos de recolha própria e uma pesquisa coordenada, uma vez mais, pela expeditíssima Manuela Martins.
APAD – A série terá alguma revelação surpresa sobre a personalidade de Salazar?
PMS – Várias. Teremos todo o interesse e prazer em que as descubram numa noite de Novembro próximo, na SIC.
APAD – Que complicações surgiram no decorrer destes dois projectos? Há algum episódio mais caricato ou problemático no processo de escrita destes dois projectos?
PMS – Não houve qualquer complicação que exceda os limites naturais de um país pequeno com alguns problemas em lidar de forma clara e desempoeirada com o seu passado recente. O resto foi o Paraíso.
Sobre o Ofício de ser Guionista
APAD – Três dicas para escrever uma boa história.
PMS – É um lugar-comum, mas as palavras de William Goldman no seminal “Adventures in the Screen Trade” ainda são o que de mais importante li até hoje sobre a escrita de argumento: “um argumento é estrutura”.
Acrescentaria: um argumento são três coisas – estrutura, estrutura e estrutura.
Um guião é como um castelo de cartas. Se alguma carta está mal disposta no conjunto, ou colocada no local errado, o castelo desmorona-se.
Sem estrutura não há drama. Sem drama não há conflito. Sem conflito não há argumento. Sem argumento não há filme, e tenho que voltar ao jornalismo.
APAD – Três dicas para construir uma personagem cativante.
PMS – Responder às seguintes três perguntas:
- O que é que esta personagem quer?
- Do que é que ela tem mais medo?
- Se estivesse a morrer, qual a última coisa que diria (obviamente, sem ser “Rosebud” ou “Fredo…”)?
APAD – Três dicas para construir uma cena forte.
PMS – Entrar na cena o mais tarde possível.
- Sair da cena o mais cedo possível.
- Pelo meio, pôr as personagens a falar o menos possível.
APAD – Três dicas para escrever um bom diálogo.
PMS – Escrever pouco (“action is character”, e o resto é conversa).
- Como diria o sádico Hitchcock, escrever as cenas de amor como cenas de acção e as cenas de acção como cenas de amor.
- Tratar todos os diálogos como um duelo de vida ou morte (mesmo que se trate de pedir um café e uma torrada).
APAD – Como é ser argumentista em Portugal?
PMS – À excepção das pessoas que dão todo o seu talento e suor para permitir que existam telenovelas em Portugal prontas à velocidade da luz, não existem argumentistas em Portugal. Ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica.
Tento escrever guiões de longa-metragem há 10 anos, e neste momento tenho o raríssimo privilégio de trabalhar numa estrutura onde sou tratado como um guionista. Espero que haja muitos mais rapidamente. Quanto mais houver, mais todos beneficiam do triunfo de cada um.
APAD – Como é a sua relação com produtores e realizadores?
PMS – A melhor possível. Tive a sorte de escrever filmes (alguns não se concretizaram por minha culpa ou devido a problemas de financiamento, outros estão em fase de montagem financeira) para Alexandre Valente, Leonel Vieira e António-Pedro Vasconcelos, e todos eles têm uma visão particular, mas extremamente válida, do que pode ser uma parte nuclear do futuro cinema português.
APAD – É um guionista que não está agrupado em nenhuma empresa de guionismo. Prefere o trabalho independente ou em pequenas equipas?
PMS – Em pequenas equipas. Não no acto da escrita, que só é funcional se for essencialmente solitário (daí, p. ex., a opção de escrever o “Amália” a quatro mãos, mas à distância). Mas o trabalho de equipa é imprescindível nas várias fases do desenvolvimento do projecto, na pré-produção, no acompanhamento da rodagem e nas fascinantes excitações sinfónicas da pós-produção.
É outra das – poucas – verdades absolutas em cinema: o cinema é uma arte eminentemente colectiva.
APAD – Acha que em Portugal existe uma verdadeira indústria audiovisual (mesmo que pequena)?
PMS – Não. Mas estou convicto de que a VC Filmes lhe poderá responder de outra maneira daqui a cinco anos.
APAD – Quais são os seus próximos projectos?
PMS – Velar pela saúde narrativa de uma comédia romântica.



4 comentários
jorge arada says:
Nov 7, 2008
Porque é que quando sai um novo filme,musica,programas para televisão, etc o/os autores dos mesmos são relegados para um canto muito longe onde é proscrito e mal pago,ás vezes não são pagos e eu sou um desses casos e assim não se dá valor ou melhor, dão a quem aparece.É pena,como diz o ditado”Quem não aparece esquece”.
cinematake1 says:
Nov 18, 2008
Cá estaremos para ver essa “maravilha” de filme…mas tenho reservas em saber se estás à altura de poder recriar a vida de Amália.
p.s. Porque é que o Vicente do Ó se afastou do projecto????
argumentistas.org » Actualidade Notícias » “Amália” chega hoje às salas says:
Dez 4, 2008
[...] » Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica [...]
argumentistas.org » Actualidade Associados Notícias » A Vida Privada de Salazar na SIC says:
Fev 9, 2009
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