por Jorge Palinhos1

Matem o dramaturgo

Um perfil de Neil Labute

Qualquer artigo sobre Neil LaBute sofre da recorrência de um campo semântico específico. Provocador, malévolo, “the meanest man in Hollywood”, “bad boy”, irreverente, politicamente incorrecto, etc., são palavras que surgem em quase todos os perfis, biografias, entrevistas ou referências a este dramaturgo, guionista, encenador e realizador norte-americano. Palavras que terão atingido o seu clímax justamente na primeira peça que levou ao palco: Filthy Talk for Troubled Times – em que um espectador abandonou a sala aos gritos de “Matem o dramaturgo”.E, contudo, as suas peças de teatro são encenadas em todo o mundo – como, recentemente A Gorda (Fat Pig) no Teatro Villaret – e Labute é frequentemente convidado para encenar as suas próprias peças por algumas das mais prestigiadas companhias americanas e inglesas, como a Steppenwolf Theatre Company, o Almeida Theatre, o MCC Theater e o Ambassador Theatre Group.

Foi como argumentista e realizador que saltou para a ribalta: a sua primeira obra cinematográfica, In the Company of Men, conquistou o galardão de melhor realizador do primeiro Festival de Sundance; a sua comédia Nurse Betty recebeu o prémio de melhor argumento e foi nomeado para a Palma de Ouro em Cannes, tendo a sua protagonista, Rennée Zellweger, recebido o Globo de Ouro de Melhor Interpretação. LaBute foi também responsável pela realização de Possessão, uma adaptação do romance homónimo de A.S. Byatt, com Aaron Eckhart e Gwyneth Paltrow, entre outros, e um remake algo falhado de The Wicker Man.

Nascido em 1963 em Detroit, no seio de uma família operária, LaBute era o mais novo de três irmãos, tendo a tempestuosa relação dos seus pais inspirado a sua obra In a Dark Dark House. O seu primeiro contacto com o teatro foi ainda no ensino secundário, onde começou a participar nos grupos de teatro escolar como actor e em que escrevia peças que depois apresentava aos professores sob pseudónimo na esperança de que estes quisessem encená-las.

Uma bolsa de estudo levou-o à Universidade Brigham Young, no Utah, onde conheceria o seu cúmplice de longa data, Aaron Eckhart, e se converteria à Igreja dos Santos dos Últimos Dias, embora, mais tarde, a sua peça Bash: Latter-Day Plays, onde se apresentam mórmones devotos a terem várias atitudes muito duvidosas, tenha levantado polémica no seio da sua igreja e levado ao seu afastamento. Posteriormente estudou Dramaturgia na Universidade de Nova Iorque, mas, mais uma vez, a sua atitude provocadora gerou inimizades e controvérsias.

Em 1997, com o dinheiro da indemnização que dois amigos tinham recebido por um acidente, aventura-se no seu primeiro filme. Com 25 000 dólares filmou In The Company of Men, sobre dois homens que se vingam das suas frustrações amorosas numa mulher surda. Com a película mais barata, fazendo a rodagem em locais gratuitos e com actores voluntários consegue filmar todas as sequências antes de ficar sem dinheiro e sem película. O filme é enviado ainda sem montagem para o Festival de Sundance e é aceite, o que permite a Labute obter financiamento adicional para acabar a montagem e distribuir o filme, que acaba por ser premiado naquele festival, entre aplausos, polémicas, acusações de misoginia e elogios de feminismo.

Corpulento, moreno, de óculos graduados e um ar eternamente cansado, não é preciso perspicácia para ver de onde surgem tantos textos polémicos e personagens dúbias. Cordial e prestável, é fácil detectar o sentido de humor acutilante que atenua uma honestidade e um prazer quase infantil de provocar o interlocutor. Neil Labute escreve histórias sobre pessoas normais que não conseguem esconder os seus piores impulsos, e essas histórias muitas vezes são inspiradas nas suas próprias experiências. Como em A Gorda, uma das suas obras mais recentes, onde um homem se envergonha de manter uma relação com uma mulher particularmente volumosa, e que foi escrita após uma tentativa de dieta falhada por parte do autor.

Agora, a sua obra mais recente, Reasons to be Pretty, está em estreia na ultra-comercial Broadway. Neil Labute parece algo preocupado com a reacção do público à ferocidade da sua escrita e das suas personagens. Mas parece pouco provável que este novo público concretize o que o espectador da sua primeira peça não teve pejo em proclamar.

Filmes que escreveu
– In the Company of Men (1997)
– Your Friends & Neighbors (1998)
– Tumble (2000)
– The Shape of Things (2003)

Peças de Teatro que escreveu
– Filthy Talk For Troubled Times (1992)
– In the Company of Men (1992)
– Bash: Latter-Day Plays (1999)
– The Shape of Things (2001)
– The Distance From Here (2002)
– The Mercy Seat (2002)
– Autobahn (2003)
– Fat Pig (2004)
– This Is How It Goes (2005)
– Some Girl(s) (2005)
– Wrecks (2005)
– In A Dark Dark House (2007)
– Reasons to be pretty (2008)

Alguns links recomendados
Perfil no Yahoo Movies
Página no IMDB
Entrevista na revista Salon
Entrevista na revista Bomb
Artigo de Neil LaBute sobre o teatro americano
Artigo de Neil LaBute sobre os títulos das suas obras

  1. Além de trabalhar como tradutor e coordenador editorial, Jorge Palinhos publicou três peças de teatro, das quais duas foram premiadas com o Prémio Miguel Rovisco e o Prémio Manuel Deniz-Jacinto. Tem também escrito guiões para curtas-metragens de cinema de animação e de imagem real, algumas das quais foram já produzidas ou estão em fase de produção. []