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Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos

Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica

Editado por João Nunes • 11 Out 2008 • Categoria: Análise, Dossier

por Daniel Ribas1

Teorias e Conspirações sobre a Comédia Romântica

Sobre «Sex and the City», de Michael Patrick King

Um dos grandes lançamentos do Verão, acompanhando a tendência de transformação das séries de televisão em filmes para cinema, foi a de «Sexo e a Cidade». Não é que esta tendência nos tenha trazido muito boas aparições: desde «Get Smart/Olho Vivo» até «Ficheiros Secretos», as adaptações apenas nos trouxeram um leve sabor a um episódio mais comprido. Para além disso, os argumentistas de Hollywood confrontaram-se com um problema: em que género encaixar estes episódios de televisão em ponto grande. É verdade, apesar das séries terem uma personalidade vincada, o formato cinema obriga a uma nova fórmula, que permita, sobretudo, aguentar séries que durarão 50 minutos e que passam, desta forma, para o dobro do tempo. «Sexo e a Cidade» não foi excepção. O género importado foi o da comédia romântica e o resultado, na nossa opinião, não foi o melhor.

A narrativa – mais uma vez iniciada e contada pela voz de Carrie – apanha as quatro protagonistas num patamar diferente da vida: todas elas estão agora apaixonadas e a viver com os seus respectivos homens. Por um lado, Charlotte e Miranda casaram e tiveram filhos (a de Charlotte é adoptada); por outro, Samantha vive agora em Los Angeles com um actor de Hollywood (sendo a sua agente). Finalmente, Carrie juntou-se com Mr. Big, o eterno e adiado amor da série de televisão. Na verdade, o filme começa com a decisão de ambos em se casar. Contudo, Mr. Big/John acaba por deixar Carrie pendurada no dia de casamento. É a oportunidade para o filme dar um longo tempo para a recuperação emocional de Carrie e a respectiva reconciliação com Mr. Big. Durante esse tempo, veremos as voltas que as vidas das suas três amigas dão.

A fórmula da comédia romântica está de lá da forma mais clara: um par de apaixonados surgem juntos (outras derivações da fórmula mostram dois amigos/conhecidos que ainda não sabem que estão apaixonados) e prestes a serem felizes (no caso em apreciação Carrie e Mr. Big estão juntos, felizes e vão casar-se). Contudo, um obstáculo surge, obrigatoriamente a partir de um mal-entendido (no caso Mr. Big tem dúvidas e ao tentar telefonar para Carrie esta não atende). Esse obstáculo leva a uma ruptura "inconciliável". Mas, como não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe, o tempo acaba por "reconciliar" os dois pombinhos. No entretanto, o filme tem que se divertir com a "recuperação" de ambos e mostrar – através das histórias paralelas – que eles foram feitos um para o outro (no caso é a história de Miranda e o suposto problema causado por ela – quando diz a Mr. Big na noite anterior ao casamento que irá fazer uma asneira – que irá fazer a revelação aos olhos de Carrie).

Lentamente porque o filme tem que durar mais tempo, lá caminhamos para o fim, que já advinháramos no início. «O Sexo e a Cidade», enquanto série, não fugia a um certo romantismo, reconhecemos. Contudo, mesmo sem sermos fãs, também reconhecemos que a série trazia para a ribalta os little problems das mulheres e uma forma desinibida de os mostrar. Deixando de lado o problema de saber se esses problemas são, de facto, os que interessam, na série a estrutura usada fazia algum sentido e deixava no ar a pequena tristeza da solidão de Carrie. Esse lado nova-iorquino era sedutor…

Com este episódio grande em forma de comédia romântica, «O Sexo e a Cidade» nivelou a sua estrutura pelas menos inspiradas películas de Hollywood: abriu a audiência e afunilou a sedução. Uma pergunta surge, como é óbvio: de que forma poderia a série transportar o seu ar cosmopolita sem se tornar uma comédia romântica insípida? Talvez o grande problema seja mesmo o ponto de partida: todas as quatro amigas estão arranjadas e essa normalização é o que retira a carga de novidade que a série tinha (até Samantha se normalizou…). Não sabemos que outros caminhos poderiam surgir, mas uma piscadela de olho a Woody Allen talvez servisse para repor os níveis de inspiração necessários. Assim, como chegou ao cinema, apenas servirá para rever e olhar as criações estilísticas da moda nova-iorquina. É pouco, demasiado pouco.

  1. Daniel Ribas é argumentista e investigador da Universidade de Aveiro. Prepara uma tese de doutoramento sobre os filmes de João Canijo. É também professor do Instituto Politécnico de Bragança. []
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