por Tiago R. Santos
(argumentista, autor de «Call Girl», «Atrás das Nuves» e «Star Crossed». É também membro da direcção da APAD.)

Há um episódio que representa, na perfeição, o que significa ser guionista em Portugal. Há pouco mais de um mês, o Call Girl foi editado em DVD. A Anabela, uma senhora muito simpática que tem um café na minha rua, comprou uma cópia. Ela sabe que fui eu que escrevi o filme. O diálogo foi o seguinte:

“Olá Tiago, olha, comprei o ‘Call Girl’.”

“Porreiro. Obrigado.”

“Sabes o que é que era giro? Se pedisses aos actores para me assinarem a capa”

“Não sei, acho que é um bocado estranho. Não falo com eles há algum tempo… Não sei se me apetece fazer isso. Ter que lhes telefonar e tal…”

“Ok, pronto, tá bem, paciência”

“Mas, se quiseres, eu posso assinar”

“Porque é que quero a tua assinatura?”

“Porque fui eu que escrevi o filme?”

(momento de pausa, silêncio algo desconfortável)

“Nã, deixa estar”

“Já agora, gostaste?”

“Ainda não acabei de o ver. Adormeci a meio. Mas tem muitos palavrões, não tem?”.

O que é perfeitamente normal. Ser guionista não é para quem ser famoso. Para isso existem os ‘reality shows’ e a prática de futebol. Só deve haver uma motivação para quem deseja escrever para o cinema e televisão: uma vontade irresistível de contar estórias. Nada mais. Porque só assim se justifica a vida instável e solitária que se segue, horas e horas sozinhos num quarto, ao cansaço de escrever e ao alívio de terminar um projecto segue-se rapidamente o desespero de não ter nenhum trabalho em mãos, aquele sentimento que nunca se vai trabalhar outra vez, que é desta, é desta que vão descobrir que eu nem sequer sei escrever e que todas as minhas ideias são no fundo cópias de coisas melhores que vi e ouvi.

É realmente muito divertido.

E como é que tudo começou? Simples. Fui jornalista durante alguns anos (os media portugueses são uma óptima escola de escrita criativa), depois andei por Nova Iorque, escrevi dois guiões em inglês, voltei, o António-Pedro Vasconcelos leu o segundo, gostou, convidou-me para trabalhar no Call Girl.

E depois fui trabalhando e continuo a trabalhar, sempre à espera de não ser apanhado. E, quando alguém me pede conselhos, digo para não me chatearem. E quando insistem e percebo que tenho que dizer alguma coisa para me deixarem beber em paz, acho que a única coisa de que me lembro é ‘escreve sempre aquilo que gostarias de ver. Tu és a tua primeira audiência.’

O que, para um jovem guionista Português, é a receita perfeita para uma vida de probreza e desemprego, porque a grande maioria da ficção televisiva nacional tem um formato de cento e setenta e três episódios e eu não consigo ver novelas. Tentei, mas acabo sempre a gritar com a televisão e já tenho problemas que cheguem com os vizinhos. E isso é outra coisa: os vizinhos nunca gostam de guionistas. Como são pessoas que passam o dia em casa, estão convencidos que não trabalhamos ou que vendemos droga.

Se depois de lerem isto tudo, ainda quiserem ser guionistas, óptimo. Parabéns, bem vindo ao clube, vais gostar disto aqui, o céu por vezes está azul e não há nada como ver o que escreveste no ecrã, seja ele grande ou pequeno. Se nunca sequer pensaste em escrever e só leste este texto porque pensavas que era sobre outra coisa qualquer, espero que olhes para os pobres escritores de outra forma. Quando vires um, e eles são reconhecíveis pela barba de cinco dias e os olhos cansados, dá-lhe uma palavra de alento, um cigarro e, pelo amor de Deus, não lhe digas que adormeceste a meio do episódio.