Adriano Luz é um dos actores mais conhecidos do cinema e televisão portuguesas. Contudo, a nossa entrevista tem outro propósito: falar da Casa da Criação, da qual Adriano Luz é o director. A Casa da Criação é uma empresa de guionistas do grupo Plural Entertainment (ex-NBP) e é o grupo responsável por grande parte dos sucessos actuais da TVI. O exemplo máximo é o mega-sucesso "Morangos com Açúcar".

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APAD – Pode explicar-nos como surgiu a Casa da Criação? Adriano Luz – Quando a Casa da Criação surgiu eu ainda não estava na NBP – agora Plural Entertainment. E ela nasceu pela necessidade de o grupo ter um gabinete de escrita que pudesse ser um dos pólos onde se desenvolvia projectos para televisão. De princípio ele era gerido por um autora – a Maria João Mira – e tinha, fundamentalmente, jovens guionistas. Neste momento a Casa da Criação já não é isso. É dirigido por mim, que não sou autor. Eu tenho, se quiser, um olhar que é mais da realização, da dramaturgia. Faço uma ponte entre os autores – os jovens guionistas iniciais evoluíram para autores. Por isso, neste momento temos alguns autores e muitos guionistas.

APAD – Como está estruturada a Casa da Criação? AL – A Casa da Criação funciona assim: temos coordenadores de projecto e, actualmente, três equipas a escrever em simultâneo. Essas três equipas são dirigidas por um coordenador, que é, normalmente, o autor da ideia ou do desenvolvimento da ideia da sinopse inicial. Essa pessoa coordena uma equipa de 5, 6 guionistas e fazemos um entrega semanal, em média, de cinco ou seis guiões. Este coordenador tem como função principal responder pela qualidade e pelo resultado final das novelas.

APAD – Como é que os projectos nascem? Da NBP? AL – Normalmente os projectos não vêm da NBP. Nós desenvolvemos na Casa da Criação projectos, ideias e sinopses que muitas vezes são afectadas pelo cliente. Por hipótese: o cliente pode pedir que o projecto não se passe no local x, mas sim no local y, por uma questão de estratégia, muitas vezes da própria empresa, neste caso a TVI. A partir de uma ideia nossa (Casa da Criação), ela depois é afectada por opções e opiniões da realização do grupo da Plural Entertainment e também pela TVI. Há uma quantidade de pessoas que afectam a sinopse final. Desde o realizador, que é o director-geral do projecto até à TVI. Vou-lhe dar um exemplo: eu peço a três ou quatro dos nossos autores para me apresentarem projectos de uma próxima novela. Depois apresentamos aqui internamente e avaliamos, também, dentro da Plural Entertainment. E depois é apresentada à TVI e a TVI decide qual é a sinopse que mais lhe interessa fazer num determinado momento. Mas também pode acontecer o contrário: ser encomendada à Casa da Criação, como hipótese, uma ideia para ser escrita uma novela que comece, eventualmente, nos Açores ou na Madeia ou em Trás-os-Montes. Isto é, não é tanto no conteúdo, mas às vezes algumas balizas são atiradas à Casa da Criação ou pela TVI ou pela própria Plural.

APAD – A Casa da Criação é mais conhecida pelas telenovelas da TVI. Pode dizer-nos que outro tipo de projectos a Casa da Criação está a escrever? AL – A Casa da Criação escreve para lá das telenovelas. Os projectos que têm mais visibilidade são, claro, as telenovelas (já que são aquelas que têm uma produção continuada). O que não invalida que nós tenhamos outro tipo de projectos, ainda que não estejam a ser feitos actualmente. O que nós temos em carteira são séries, um projecto para telemóveis (que chegamos a gravar dois episódios de dois minutos cada), e temos um projecto para uma espécie de foto-novela. Nós temos estes projectos só que, às vezes, não encontramos interlocutores, nem clientes. E as telenovelas ocupam-nos muito tempo. Também escrevemos na Casa da Criação alguns "Casos da Vida" (que é uma série que se afasta do conceito das novelas). Temos também um filme escrito para os "Morangos", e eu espero que ele venha a ser rodado. Está acabado e aprovado pela TVI, só falta mesmo encontrarmos o timing certo.

APAD – Pode-nos dizer qual é o rácio actual entre as telenovelas adaptadas de formatos estrageiros e aquelas que são ideias originais da Casa da Criação? AL – Neste momento só temos uma adaptação que é o "Lalola". De resto, tudo é original: "A Doce Fugitiva" (já acabamos de a escrever, mas ainda não acabou de ser gravada), "A Vida Inteira" (que estamos agora a escrever), os "Morangos com Açúcar" (já com seis anos). Já agora digo-lhe os autores da Casa da Criação: a Patrícia Muller ("A Vida Inteira"), a Sandra Santos ("A Doce Fugitiva"), o José Pinto Carneiro (que tem feito os últimos "Morangos") e o António Barreira (que esteve no "Fascínios"). Estes são os nossos autores que mais projectos desenvolvem.

APAD – Como é o método de trabalho diário na Casa da Criação? AL – Ainda que não havendo um horário muito específico, há um consenso entre as 10h e as 18h. Cada equipa de guionistas está em salas diferentes, escrevem em mesas comuns onde a comunicação é mais fácil (os guionistas não estão isolados), e onde estão todos a olhar uns para os outros, para que possa haver diálogo. A escrita é muito uma escrita em grupo. Depois temos uma sala de reuniões grande, onde cada equipa faz reuniões de plano, onde fazem a planificação de alguns episódios. Depois de fazerem a planificação de 20 episódios (normalmente são 20), fazem o que nós chamamos as grelhas de cada episódio. Essa grelha é depois aprovada pelo coordenador e só depois de aprovada a grelha é que se passa para a parte dos diálogos e do desenvolvimento das cenas. Esta é a metodologia da Casa da Criação que já é anterior a mim, mas pareceu sempre que funciona.

APAD – Há uns tempos tínhamos a ideia de que a Casa da Criação tinha um rácio de escrever um episódio por dia. Isso ainda é assim? AL – Sim, sim. Tem que ser. Um é o mínimo, que é para entregar cinco episódios por semana. Às vezes terá que ser mais um bocadinho, mas menos nunca será.

APAD – Já nos falou das vossas salas e gostaríamos de saber que tipo de preocupações tiveram no espaço, já que é um espaço para criativos. AL – É essencial ter luz. Não conhece o espaço?

APAD – Vocês tinham antes um espaço no Estoril. AL – Sim, esse no Estoril era numa vivenda. Os autores preferem estar no centro de Lisboa, mesmo que não vivam em Lisboa (é uma questão de estar mais perto do mundo). As nossas salas são amplas, são mesas únicas grandes, cada um no seu computador e todos virados uns para os outros. E todas estas salas dão para a rua (é na Rua do Alecrim) e portanto têm imensa luz. Temos também uma cozinha para alguns que mandam vir comida (os nossos guionistas para além do salário, têm um subsídio de refeição). E a cozinha também serve de sala de fumo. Depois temos o gabinete da Lúcia Feitosa, que é a pessoa que trabalha comigo na direcção da Casa da Criação e temos o meu gabinete para quando lá vou. Temos também uma sala de massagens, para uma massagista que lá vai duas vezes por mês (duas vezes por mês sem encargo nenhum para os autores). Eu intervenho mais no início das telenovelas do que quando elas já estão em velocidade cruzeiro. Ou intervenho quando há algum "problema" entre a produção e a Casa da Criação.

APAD – Acha que já há algum tipo de linguagem Casa da Criação? AL – Eu acho que sim. Se me perguntar se eu sei definir, eu não sei. Nós já tivemos alturas em que as novelas que estavam a dar desde as 19h até à noite eram da Casa da Criação. E com êxito. Neste momento é "A Doce Fugitiva" e os "Morangos com Açúcar" (aí sim, já acho que há uma marca Morangos). Quando a Casa da Criação, há anos a esta parte, tem pelo menos uma telenovela antes do prime-time e, pelo menos, outro no prime-time deve haver (e há, seguramente) uma marca Casa da Criação. Se há uma linguagem eu não sei, porque todos os autores são diferentes e é natural e saudável que haja mudanças. Provavelmente quando a Casa da Criação era dirigida pela Maria João Mira era mais provável que essa marca fosse nítida, já que tudo era filtrado pela sensibilidade da Maria João Mira. Como agora não é filtrado pela sensibilidade de uma só pessoa – é filtrado por cada autor – é provável que haja mais diversidade.

APAD – Como falou que tem uma visão um pouco exterior do mundo dos guionistas, acha que actualmente, no panorama do audiovisual português, os guionistas passaram a ser uma parte importante do processo? AL – Eu acho que os argumentistas ganharam importância. Ainda não é como no Brasil onde os guionistas são verdadeiras vedetas. Mas, no guionismo para televisão, os guionistas têm importância. Há uns anos atrás, quando eu entrei para a Casa da Criação – e não tenho qualquer mérito no que vou dizer, porque foi para aí que as coisas caminharam – qualquer um dos guionistas que lá estava – e eles sabem – eram descartáveis. Neste momento há guionistas na Casa da Criação que têm uma importância para a empresa e para a TVI que jamais tiveram há três anos atrás. Neste momento já são pessoas quase imprescindíveis para o grupo e para a TVI. Mas temos mais guionistas para além da Casa da Criação (falando do ponto de vista do cliente TVI): o Rui Vilhena, a Maria João Mira, Tozé Martinho, têm uma importância capital para a TVI. O que me agrada é que, para além destes que são os mais velhos, os nossos jovens guionistas (digo jovens porque andam na geração dos 30) também têm uma importância para a TVI. Já não são os miúdos da Casa da Criação, são guionistas respeitados e considerados e imprescindíveis para a TVI.

APAD – Do ponto de vista mais geral – televisão e cinema – como acha que está o actual panorama? AL – Eu tenho uma opinião da vocação da televisão que não é exactamente a mesma no cinema. Algum do cinema que anda a ser feito preocupa-me um bocado. Eu chamo-lhe televisão em ecrã grande. É um cinema em que eu, como actor, não me revejo de forma alguma. E estou a falar de filmes como "Second Life", eventualmente o "Contrato", "Corrupção" e outro que tais. Se é por aqui que nós criamos a indústria de cinema, tenho as minhas dúvidas. Se calhar aqui em Portugal conseguimos fazer indústrias de alheiras de Mirandela, mas se tentarmos fazer salsichas iguais às alemãs não vamos conseguir fazer. O que está a acontecer com o cinema é que não é nada específico português. É um cinema igual ao que vemos ali ao lado, mas o outro é melhor. É um cinema que não me interessa a mim. Mas mais importante do que isso: não sei se é por ali que se faz uma indústria de cinema. Não foi assim que os espanhóis fizeram a indústria de cinema. E agora já se está a fazer filmes em inglês, que eu acho até um bocadinho parolo. Mas, em relação à televisão, já acho diferente, porque a nossa ficção para televisão são as telenovelas e, muito provavelmente, para o ano que vem, depois deste tempo de crise, acho que nos podemos dar por satisfeitos de como está a situação. Fez-se o "Equador", o que é um grande mérito da TVI e da Plural, mas não sei se tão cedo há vontade financeira para gerar um projecto tão caro como o "Equador" foi. Duvido que as televisões em geral vão gastar dinheiro em ficção. O mercado publicitário está a retrair-se e quando a publicidade se retrai tudo o resto se retrai. No caso do cinema acho que, neste momento, há um nó com a vinda destes novos produtores, que eu conheço (por exemplo, o Alexandre Valente quando ele trabalhava para o Paulo Branco). Há um nova vontade de fazer filmes como "O Crime do Padre Amaro" ou "Amália". Contudo, enquanto eu percebo o "Amália" já não consigo perceber o "Second Life", nem o novo filme do Leonel Vieira (de quem eu gosto imenso) falado em inglês. Isso é que me confunde um bocado, ao não perceber bem o que se quer fazer com o cinema. A televisão, neste aspecto, é mais clara, tem objectivos mais claros: criar audiência, e está a fazê-lo. Pode dizer-me que o cinema também está a tentar fazê-lo, mas o problema é que aquele modelo se vai esgotar. E as audiências que o cinema tem? Por exemplo, o "Corrupção" estava a pensar fazer muito mais do que o que fez. Claro que os "Morangos" também é um bocadinho desse cinema e eu não duvido que vá ser um êxito, já que é uma marca que está feita. Ah! A Casa da Criação também já escreveu alguns textos de teatro quer para os "Morangos" quer para outras coisas mais pioneiras, como, por exemplo, para uma peça de teatro que eu encenei. Quanto mais a Casa da Criação brincar nestes domínios (que não são a sua praia) melhor será, mais coisas aprendem. Então se nós falarmos de teatro, há muito poucos a escreverem teatro em Portugal. E com a carpintaria própria do teatro, provavelmente só a Luísa Costa Gomes e mais ninguém.

APAD – Se algum jovem guionista quiser mostrar o seu trabalho à Casa da Criação, como deve fazer? Há espaço para novos autores na Casa da Criação? Tem algum conselho para quem esteja a começar? AL – O nosso modelo de gestão não é exactamente como o das Produções Fictícias. As pessoas que entram para a Casa da Criação são contratadas, há um ordenado. A Casa da Criação é uma empresa que tem todos os dias telenovelas no ar. O trabalho na Casa da Criação é por objectivos, embora haja prémios quando as novelas são aumentadas. O que eu quero dizer com isto é que, neste momento, eu não posso meter ninguém. Eu faço um esforço tremendo para não ter que dispensar ninguém. E sentimos que o que aí vem não vai ser melhor. A ser, é pior. Neste momento nós temos que fazer uma ginástica para nos mantermos todos. Não estou a dizer que é uma ginástica impossível, porque vai ser possível, seguramente. Normalmente, o que nós fazemos quando precisamos de alguém, é abrir um concurso. Tem sido assim que as pessoas têm entrado. Não quer dizer que não o voltemos a fazer. Vamos voltar a fazê-lo assim que sintamos necessidade. Mas tão cedo, confesso que não estou à espera de meter pessoas.