Alexandre Valente e o seu “Second Life”
Editado por Daniel Ribas • 16 Mar 2009 • Categoria: Actual, DossierÍndice: Revista#2
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- Nuno Bernardo sobre a beActive
- Empresas de guionistas – directório
- Alexandre Valente e o seu “Second Life”
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- Livros: Kaufman vs. McKee
- Sobre os Direitos de Autor do Argumentista
- The Day the Earth Stood Still: Análise Comparativa
- Italiano para Principiantes: uma luminosa lição de simplicidade narrativa
- Faust
No final de Janeiro, esteou nas salas «Second Life», um projecto da Utopia Filmes e do produtor Alexandre Valente. Depois de «Corrupção» e de «O Crime de Padre Amaro», Alexandre Valente resolveu assumir o comando da realização. Pretexto suficiente para uma entrevista onde se fala dos ingredientes mais significativos do filme.

APAD – De que trata o filme? Alexandre Valente – O filme é uma reflexão de vida, trata sobre a consciência das nossas decisões sobre o nosso destino nesta viagem de vida que deve ser vivida com felicidade.
APAD – Quando surgiu a idéia? Em que medida este é um projeto autobiográfico? AV – A ideia surgiu em 14 de Dezembro de 2007 e foi escrita uma scaletta por mim em apenas uma noite, resultado de 40 anos em espera. Autobiográfico sim, espero que abrangente a todos nós.
APAD – Apesar de ser um projeto pessoal esta história tem alguns dos ingredientes que fizeram os anteriores sucessos da Utopia Filmes. Quais são esses ingredientes para se conseguir bons números de bilheteira? AV – Os ingredientes nos filmes são tão necessários quanto os actores, os técnicos, as câmaras, o som. Não se podem nunca separar da ambição de um projecto. Quanto a mim os ingredientes é estar atento àquilo que o público quer… O público tem!
APAD – Como foi o processo de escrita? Houve várias versões e várias reescritas? Em que medida a história inicial se transformou numa história diferente, e porquê? AV – O processo de escrita foi muito saudável: todo motorizado por mim e aberto a todos os meus colaboradores e amigos que quiseram apreciar, participar, dentro da estrutura que eu tinha idealizado. A história é diferente logo pela estrutura que eu tinha pensado no inicio.
APAD – Em que medida é que os actores e a rodagem mudaram a versão final do guião? Respeitaram escrupulosamente o texto ou foram introduzindo mudanças de acordo com as oportunidades? Em que medida é que o final cut é diferente da ultima versão do guião? AV – Como é sabido o argumento é sempre alvo de um processo de destruição desde o momento em que passa do papel para o processo industrial de fazer um filme, seja em que fase se considerar, desde a preparação onde os décores e os actores apresentados e ou disponiveis, mudam desde logo o script; depois na rodagem onde cada um dos actores interpreta o personagem que construiu, a iluminação e as condicionantes de toda uma rodagem nos obrigam a tomar decisões de improviso sobre o mesmo script, até ao momento em que nos deparamos com todo o script subdividido em cenas várias na mesa de montagem, que nos convida a testar possibilidades e a tomar decisões que por vezes nem por sombra, se aproximam do argumento inicial. Tudo isto fruto de uma liberdade criativa que qualquer ser inteligente deve experimentar. O caso particular do Second Life é um exemplo vivo dessa destruição do argumento original, pois mudei, troquei, fiz e refiz tudo em todas as fases para chegar ao actual alinhamento final onde tudo faz sentido hoje e nem por sombras estava espelhado no argumento incial nem tão pouco no de inicio de filmagens.
APAD – Como foi para o produtor Alexandre Valente estar do outro lado da barricada, a escrever e a realizar? Foi difícil conciliar os diferentes papeis? AV – Sempre me considerei um realizador, autor, em todos os projectos que fiz, mas na sombra. A produção por ser o sector mais abrangente e de maior responsabilidade de um filme, sempre me fez sentir realizado por poder contribuir com as exigências técnicas bem como artisticas que um filme carece, pelo que o sabor provado nesta experiência não foi diferente nem novidade. Tive apenas de cuidar muito bem da separação de funções no que ao aspecto financeiro se obriga num filme onde se mistura as funções. Por isso sempre respeitei o orçamento que a gestão financeira me disponibilizou e dentro do qual criei as melhores soluções sem nunca ultrapassar o mesmo.
APAD – O Second Life teve vários realizadores com diferentes experiências. Como foi o processo da realização? Cada um estava focado em diferentes aspectos do filme? Como foi a gestão desta equipa? AV – Não teve vários, teve um consultor sem o qual o filme não seria o que é, e deve muito a esse mesmo consultor experiente sem o qual não teríamos este filme que dá pelo nome de Nicolau Breyner. Teve um realizador técnico que com ele desenhei a rodagem e a decoupage do filme em termos de cobertura de acção de nome Miguel Gaudêncio, e teve a dádiva celestial de ter o melhor realizador de todos a quem se deve o grande mérito deste filme, chamado de Bernardo Sassetti pois sem dúvida alguma foi com a sua contribuição que o filme é o filme que é hoje. Por último teve-me a mim seja nos décores, na direcção dos actores, da plástica e da montagem final conjuntamente com a acumulação de todos os outros trabalhos necessários a um filme, atrás referidos.
APAD – Alguns actores como Luis Figo e José Carlos Malato são figuras publicas mas têm pouca experiência de representação. Como foi trabalhar com eles num outro papel? AV – Foi genial e o filme fala por si nesse campo.
APAD – Como surgiu a idéia de ter um protagonista estrangeiro como? AV – Sendo que a Utopia é uma empresa afirmada e reconhecida em Portugal, é chegada a hora de alcançar novos mercados pelo que só com ingredientes como este se poderá desenhar o caminho para os alcançar.
APAD – Como conseguiram conciliar personagens a falarem português e inglês na história? AV – E também Italiano… Tudo isso foi conciliado desde a escrita do argumento ao acompanhemento diário de coach com os actores.
APAD – Este é um dos primeiros projectos a ser financiado pelo FICA. Como foi o processo de atribuição do fundo? Quais as virtudes que um filme ou uma produtora tem de ter para concorrer a este fundo? AV – No caso da Utopia onde o investimento do FICA é indirecto, ou seja não é atribuido aos projectos mas sim às decisões da produtora, a grande vantagem é a de alavancar projectos que sem esta mais valia não poderiam ser realizados em tempo.
APAD – A Utopia Filmes caracteriza-se cada vez mais pela realização de filmes de produtor, na melhor tradição americana. AV – Não sei se isso é um elogio mas seja como seja, acho o modelo Americano é já bastante experimentado em sucesso pelo que não perco tempo a desenhar nenhum outro quando este tem provas dadas. Apenas adapto à minha realidade.
APAD – Achas que esta é uma forma de trabalhar que faltava em Portugal? AV – Portugal está cilindrado em tabus e fórmulas que deve obrigatoriamente acompanhar as novas tendências e formas de trabalhar.
APAD – Qual achas que deve ser o teu papel enquanto produtor? AV – Aquele que me fizer sentir bem com a vida e com os projectos que eu decidir produzir.

Parece-me uma vergonha como podem ter entrevistado e publicado uma entrevista com um cancro do cinema português. Este blog devia proteger os criadores e autores.
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