por António Lourenço

faustbig

A ÓPERA FAUSTO DE Charles GOUNOD voltou novamente no Teatro Nacional S.Carlos, passados mais de 20 anos. Esta ópera efectuou mais de 30 Produções, até à transição do século, após a sua estreia em 1 de Dezembro de 1865. Ao longo do século XX o entusiasmo declinou, pelo que as últimas récitas foram nas temporadas de 1965/66 e 1981/82.

Relativamente ao Libreto  damos 2 exemplos, do início da Ópera em 4 Actos:
Libreto (ou seja as palavras que são cantadas, neste caso em francês):

Libreto
Acto 1
Nº1-Introdução
I.O Gabinete de Fausto
Cena 1
Fausto,  sozinho.

nº2-Cena e coro
É noite. Fausto está sentado diante de uma mesa cheia de pergaminhos. O candeeiro esta prestes a apagar-se. À sua frente um livro aberto.
FAUSTO(canta)
Nada! Em vão interrogo, na ardente vigília, A natureza e o Criador;
Nenhuma voz  sussurra ao meu ouvido, uma palavra consoladora! Triste e solitário…(fecha o livro e levanta-se; desponta o dia; abre a vidraça)
…Morte quando virás tu abrigar-me sob a tua asa?…
…Chego ao termo da viagem, e com esta poção, serei o único dono do meu destino! (no momento em que leva a boca o frasco, ouvem-se lá fora vozes de raparigas).
Coro de mulheres.

Vejamos agora o resumo, em português para que o espectador compreenda o que se passa em cena:
ActoI
Alemanha, século XVI. Sozinho Faust medita sombriamente sobre a sua existência passada, na busca da Sabedoria, questionando, Deus e o Homem. Deseja a morte. Mistura a bebida e prepara-se para bebê-la. Mas, pára a sua acção ouvindo o canto das camponesas… Amaldiçoa o Deus e invoca os poderes infernais. Aparece de repente Méphistophélès trajando com elegância…

Os libretistas vão buscar às grandes obras literárias o assunto para elaborar o texto ou poema que será musicado, pelo compositor, com a orquestra em função do Canto, entre recitativo e Ária, numa interdependência entre música e texto, com postura já não Italiana mas nacionalista (a partir do Romantismo, com o seu expoente máximo na Alemanha, que influencia a música em todos os géneros). Em França o espirito racional dos Iluministas, limita a absorção do Romantismo exacerbado alemão. Numa união de duas estéticas e recuperação de elementos da tradição cultural nacional, cria-se uma identidade nacional, do qual poderemos citar as chamadas "Mélodies", a "Grand Ópera" e o Drama Lirico, este influenciado por Verdi. É nesta categoria que podemos situar o Fausto.

A lenda do Dr. Fausto, no início do séc. XVI, encontra-se em fontes populares germânicas, em forma de conto e em forma dramática (às vezes com Marionetes). A história do amargurado e insatisfeito Dr. Fausto, que pactua com o diabo na intenção de recuperar a juventude e os seus prazeres, serviu de base às obras de vários escritores: Christopher Marlowe (1564-1593) ou Thomas Man (1875-1955). Mas foi Johann von Goethe (1749-1832), que fica célebre desde a edição da 1ª das duas grandes partes, em 1808. Esta obra irá influenciar todas as adaptações quer literárias, quer musicais, ou ainda na Pintura e outros campos artísticos. Goethe torna-o universal, pois Fausto procura a própria essência primordial da vida fazendo um pacto com o diabo para atingir a Felicidade (vendendo a sua alma, convicto que atingir a Juventude é impossível). O diabo também lhe vai conceder  uma paixão exacerbada por Gretchen (Margarida na Ópera), jovem de coração puro, mas cuja relação fará a desgraça de ambos. Na  2ª parte, editada em 1832, Fausto vai percorrer várias jornadas na procura da felicidade, em que haverá talvez momentos felizes.

A importância desta obra-prima, na cultura Europeia é incomensurável, inspirando inúmeras obras. Diversas foram as criações musicais e os libretistas que adaptaram o texto de Goethe: Louis Sphr (1784-1859), com a ópera "Faust"; Hector Berlioz, em 1846,  com "A Danação de Fausto" entre Ópera e Cantata, baseadas na 1º Parte; Schumann, em 1853, com "Cenas do Fausto" é uma Oratória; Franzlitz, em 1857, com "Sinfonia Fausto"; com coro e as três personagens: Fausto, Gretchen e Méphistophéles; Arriago Boito (1842-1918), em 1868, com a Ópera "Mefistofele", cujo Libreto é o que se aproxima mais do texto original, tendo sido escrito pelo próprio compositor (o que é raro); outro compositor, Gustav Mahler, em 1910, com a sinfonia nº8 (dos Mil,) usou a 2ª parte do texto; Ferruccio Busoni (1866-1924), numa adaptação afastada de Goethe, com elementos da obra de Marlow; e Charles Gounod, em 1859, com Faust, que é, das suas Óperas, a que teve maior sucesso e foi a mais importante das suas composições, influenciando compositores franceses das gerações seguintes e que se viria a enquadrar no "Drame Lyrique"; foi fulcral a utilização da obra de Goethe no Romantismo europeu.

Faust é, assim, o percurso de um homem buscando a essência da Felicidade, a luta entre o bem e o mal, confundindo-se as forças sobrenaturais e misticas, que provocam a irracionalidade do ser humano; é o encontro da salvação através da pureza.

Gounod iniciou  a composição da ópera Faustem 1856, partindo da obra de Goethe trabalhada pelos libretistas Michel Carré (1821-1872) e Jules Barbier (1825-1897). Mais tarde estes libretistas iriam colaborar, em outras óperas, com Gounod.