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Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos

Italiano para Principiantes: uma luminosa lição de simplicidade narrativa

Editado por Daniel Ribas • 16 Mar 2009 • Categoria: Análise, Dossier

por Maria João Cordeiro
(Maria João Cordeiro, doutorada em Cultura Alemã pela Universidade Nova de Lisboa, é docente do Instituto Politécnico de Beja e investigadora do Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da Universidade Católica Portuguesa. Os seus actuais interesses de investigação prendem-se, nomeadamente, com o cinema como fonte de reflexão crítica sobre a contemporaneidade.)

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Italiano para Principiantes de Lone Scherfig, vencedor de um Urso de Prata no Festival de Berlim de 2001, é o 12.º filme realizado à luz dos preceitos estéticos proclamados em 1995 por Dogme 95, um grupo de cineastas dinamarqueses empenhados no retorno à castidade cinematográfica e à renúncia de artifícios especiais que impliquem a distorção da realidade.

O manifesto de Dogme 95 estipula, por exemplo, que as filmagens ocorram in loco, recorrendo a câmaras portáteis e utilizando apenas luz e som naturais. Este almejado regresso à “inocência e simplicidade cinematográficas dos irmãos Lumière”(1) tem por objectivo fulcral aproximar o cinema da sua essência narrativa, isto é, “forçar a verdade a sair das personagens e dos cenários”(2).

Italiano para Principiantes, realizado de acordo com as regras de uma dogmática austeridade artística e os meios mais rudimentares da produção cinematográfica, é, com efeito, uma delicada obra de sólida construção narrativa, assente no progressivo entrelaçar de histórias de solidão de pessoas comuns até à feliz conclusão do puzzle de pares românticos.

Scherfig principia por apresentar o grupo de corações solitários: Andreas, pastor recentemente viúvo, acaba de chegar à cidade para substituir o padre local, que perdeu a fé em Deus após a morte da mulher, e encontra uma igreja vazia e espiritualmente abandonada; Jørgen Mortensen, o tímido recepcionista de hotel, vive atormentado com a perda de potência sexual que dura há quatro anos; Halvfinn é um arisco e grosseiro empregado de restaurante, que acaba por ser despedido; Olympia é uma empregada de padaria incrivelmente desastrada (vítima provável de síndrome alcoólica fetal); já vai no 47.º emprego e vive com o pai doente, rancoroso e agressivo. Giulia, a jovem empregada de restaurante apaixonada por Jørgen, espera que o milagre do amor aconteça e que ele repare nela; Karen, uma cabeleireira generosa e sensível, tem a cargo a mãe alcoólica, que, durante uma hospitalização, a tenta persuadir a aumentar-lhe a dose de morfina; perante o insuportável sofrimento da mãe, Karen cede e acaba por contribuir para a sua morte.

Esta constelação de gente sofredora representa um multifacetado conjunto de problemas humanos de que se compõe afinal o lado trágico da vida: morte, doença, humilhação, solidão, alcoolismo, desemprego, eutanásia, culpa, impotência são tratados sem fórmulas simplistas ou exagero dramático, encaixando com naturalidade na realidade sombria de vidas banais. Como afirma Scherfig numa entrevista (3), o filme é uma espécie de “caixa de Pandora”, que revela muito do horror e da tristeza presentes no mundo e cujas personagens foram inspiradas em pessoas da vida real.

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Estes temas são abordados com a complexidade e a problematização ética que lhes são devidas (a irresolução de Jørgen perante a ordem do chefe para que despeça o amigo Halvfinn; sentirá Olympia alívio ou dor ao encontrar o pai cruel morto no sofá? O dilema interior de Karen perante a súplica da mãe para lhe minorar o sofrimento e assim precipitar a sua morte; um pastor revoltado com Deus pela morte da mulher).

Italiano para Principiantes não estagna, porém, neste fundo cinzento e amoral da existência humana, trabalhando sim sobre a fundamental dualidade que a caracteriza: a vida não implica só carregar fardos pesados, tem também um lado risonho, bom e leve.

Scherfig retrata a insegura e por vezes inconsciente busca de amor de pessoas que aprendem lentamente a desenredar-se dos seus traumas e dores pessoais, abrindo o coração à descoberta. A aprendizagem inerente a cada novo começo é simbolizada pelo curso de Italiano, onde Halvfinn, Jørgen, Andreas, Karen, Giulia e Olympia acabam por encontrar-se. Aprender uma nova língua é começar verdadeiramente do zero, expor-se a outra latitude cultural, enveredar pelo desconhecido, superar inibições e vencer o medo de errar.

As personagens de Italiano para Principiantes aprendem a começar uma nova vida após a dor da perda que as verga. Sendo o italiano a língua-mito da aventura e do romance, trata-se aqui de aprender a amar o outro: algo que não surge caído do céu, mas pode ser a doce recompensa da iniciativa pessoal. Karen inscreve-se no curso para voltar a ver Halvfinn, que por três vezes a visitara (em vão) para cortar o cabelo, desencadeando o jogo da atracção; Halvfinn tem de modificar o seu carácter agreste se quiser reconquistar Karen; Jørgen supera a timidez e procura finalmente Giulia, que, apesar de italiana, se inscreve também no curso. Andreas decide assistir às aulas e sair da solidão em que mergulhou. Olympia é, por fim, a habilidosa patrocinadora da viagem do grupo a Itália, financiando-a com dinheiro herdado do pai.

Partindo dos mundos claustrofóbicos das personagens (representados pelos espaços exíguos como o quarto de hotel, o minúsculo salão de cabeleireiro, o restaurante, a padaria, onde as personagens parecem aprisionadas), o filme evolui progressivamente para o espaço amplo de possibilidades que é a sala de aula (enorme e em forma de anfiteatro), onde mesmo assim os poucos participantes se sentam afastados uns dos outros: as mulheres de um lado e os homens de outro. Por fim, chega-se às cenas de rua em Veneza, com gôndolas e canais em pano de fundo: subitamente, em radical oposição ao silêncio de todo o filme, ouve-se a melodia terna de um piano, e todos se juntam para uma fotografia de grupo. Todos, à sua maneira, conseguiram escapar ao rigor do Inverno da vida numa acabrunhada Escandinávia e encontrar a doce luz do amor em Itália.

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1 Peter Schepelern, “Film According to Dogma – restrictions, obstructions and liberations”, http://www.dogme95.dk/news/interview/schepelern.htm.

2 Lars von Trier e Thomas Vinterberg, “The Vow of Chastity”, 13 de Março 1995. Disponível em http://www.dogme95.dk/the_vow/vow.html.

3 Stephanie Bunbury, “Lessons in life – and Dogme”, 16 Junho de 2002. Disponível em www.theage.com.au/articles/2002/06/15/1023864363264.html.

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