Livros: Kaufman vs. McKee
Editado por Daniel Ribas • 16 Mar 2009 • Categoria: Artigos, DossierÍndice: Revista#2
- Editorial – Dossier APAD 2
- Nuno Artur Silva sobre as PF
- Adriano Luz sobre a Casa da Criação
- Nuno Bernardo sobre a beActive
- Empresas de guionistas – directório
- Alexandre Valente e o seu “Second Life”
- Relatório McKee
- Livros: Kaufman vs. McKee
- Sobre os Direitos de Autor do Argumentista
- The Day the Earth Stood Still: Análise Comparativa
- Italiano para Principiantes: uma luminosa lição de simplicidade narrativa
- Faust
por Jorge Palinhos
(Além de trabalhar como tradutor e coordenador editorial, Jorge Palinhos publicou três peças de teatro, das quais duas foram premiadas com o Prémio Miguel Rovisco e o Prémio Manuel Deniz-Jacinto. Tem também escrito guiões para curtas-metragens de cinema de animação e de imagem real, algumas das quais foram já produzidas ou estão em fase de produção.)

Story – Substance, Structure, Style and the Principles of Screenwriting Robert McKee Regan Books Nova Iorque 1997 Adaptation, ou Inadaptado, em português, escrito por Charlie Kaufman, é provavelmente um dos filmes mais vistos pelos guionistas do cinema ocidental. Nele retrata-se Charlie Kaufman, um guionista conceituado em busca um sentido pessoal para a adaptação de um livro de não-ficção sobre orquídeas. Charlie tem um irmão, Donald Kaufman, que, decidido a enveredar por uma carreira de sucesso como argumentista de Hollywood, frequenta alguns cursos de escrita de argumento, escreve um thriller e consegue de imediato contratos milionários, enquanto Charlie continua a marcar passo no seu esforço por um história original e com significado. Donald, e Charlie mais tarde, recorrem ao livro e seminário Story, de Robert McKee, interpretado no filme por Brian Cox, e os conselhos deste acabam por garantir o sucesso profissional de Donald e a resolução, mesmo que a contragosto, dos problemas de Charlie.
Se o livro e seminário de Robert McKee eram já afamados em Hollywood, a sua citação ficcional em Inadaptado tornou-o culto mundial, sendo hoje McKee o mais influente guru da escrita para audiovisual e Story a obra de referência de muitos guionistas. Story é um tomo de mais de 400 páginas preenchidas por uma linguagem límpida e opinativa, que cobre praticamente todos os aspectos da escrita para cinema. Partindo de Aristóteles, figura tutelar deste género de livros, McKee defende que a importância das histórias se deve à sua capacidade de nos interpelarem eticamente e revelarem caminhos de vida, numa altura em que outras formas de conhecimento, como a filosofia, a ciência e a religião se tornaram demasiado esotéricas ou vazias para o grande público. Daí, entende autor, se explica o enorme incremento da arte narrativa em todo o lado: livros, filmes, teatro, televisão, jogos, Internet, etc. Só que, insiste McKee, apesar da quantidade, esta arte está em declínio devido à perda de valores sociais comuns e à perda do craft – a oficina de contar histórias.
Se nos EUA proliferam cursos de escrita criativa e guionismo, McKee acusa estes cursos de encarem a narrativa do lado de fora, focando aspectos como a linguagem e os códigos e esquecendo os princípios intrínsecos da narrativa. A narrativa é 75% de estrutura e 25% do resto, diz o autor, por isso o seu livro assenta baterias na questão estrutural, começando por apresentar alguma terminologia básica da estrutura narrativa como: estrutura, evento, valores da história, cena, beat, sequência e acto; e debruçando-se depois sobre aquilo que McKee designa por triângulo de enredos. Este triângulo tem como vértices três concepções narrativas: a concepção clássica ou arqui-enredo, a concepção minimalista ou mini-enredo e a anti-estrutura ou anti-enredo. A primeira concepção, o arqui-enredo, é descrita como uma história de uma personagem que luta contra forças de antagonismo exteriores para conseguir o seu desejo profundo, até um final fechado de mudança absoluta e irreversível.
A segunda concepção, o mini-enredo, consiste numa redução destes princípios à sua essência, enquanto o anti-enredo, a terceira concepção, tenta inverter os princípios clássicos da narrativa. Se à partida a tese parece clara, logo adiante, McKee reconhece a existência de mais dois tipos de enredo: o não-enredo (histórias sem progressão narrativa ou estudos de personagem) e o multi-enredo (em que a narrativa é fragmentada em várias narrativas de várias personagens). Para evitar transformar o seu triângulo num pentágono, o autor coloca o não-enredo fora do triângulo e arruma o multi-enredo num lado entre os vértices arqui-enredo e mini-enredo. O objectivo desta construção algo artificial é a defesa da superioridade do enredo clássico, ou arqui-enredo, sobre os outros. Tal superioridade assentará em aspectos mentais – o arqui-enredo é o que melhor reproduz a forma como analisamos a nossa própria experiência – e pragmáticos – está subjacente às histórias com mais sucesso comercial.
No início de Inadaptado, o protagonista busca o sentido da adaptação do livro The Orchid Thief, mas após o seminário de McKee, a exploração das personagens passa para segundo plano e assistimos ao desenrolar da construção narrativa. Será que passamos de um mini-enredo ou de um não-enredo para um arqui-enredo? Não é fácil aplicar na prática as diferenças entre estas classificações: a partir de que momento é que um arqui-enredo passa a ser um mini-enredo? E como distinguir um não-enredo de um mini-enredo? Quantas personagens são precisas para fazer um multi-enredo? A questão de o arqui-enredo ser o enredo clássico, sendo os outros invenções recentes, parece-me dúbia. Eurípides já havia no seu tempo virado de pernas para o ar as noções de tragédia e comédia, D. Quixote, considerado o primeiro romance moderno, já tinha subvertido as regras do romance e em Hamlet temos o próprio protagonista a protelar ao máximo o conflito dramático que o afecta.
McKee aborda em seguida a questão dos géneros. Num capítulo curto, onde consegue abranger nada menos que 25 géneros diferentes, com breves caracterizações e exemplos, o autor limita-se a juntar os géneros de enredos clássicos (Policial, Terror, Comédia), com variações temporais (Drama Histórico), questões de verosimilhança (Biografia, Docudrama) e técnica (Animação, Musical), chegando a classificar (de modo pouco abonatório) o Art Film como género, e admitindo que todos estes géneros se misturam e ramificam uns nos outros. Para McKee, o género tem interesse enquanto quadro de expectativas da audiência e estrutura para os guionistas, qual rima e métrica da narrativa. Contudo, ao longo do livro o autor dá poucas pistas sobre o uso do género para a construção do guião. Inadaptado começa como um filme sem género, ou talvez art film, e, após o seminário de McKee, transforma-se num thriller, seguindo escrupulosamente todas as regras deste género, tornando-se, porém, indistinto de outros filmes similares.
Tendo aberto o caminho para o destino onde queria chegar, McKee lança-se finalmente naquilo que lhe interessa: a construção do suposto enredo clássico ou arqui-enredo. Este é o coração e alma do livro. McKee analisa com profundidade e abrangência a estrutura fílmica clássica de Hollywood. Fala da necessidade de ter uma ideia controladora da história, da construção do enredo como construção retórica de uma demonstração argumentativa – ideia proposta por Lajos Egri, mas que McKee não cita -, da apreciação de valores, da progressão de argumentos e contra-argumentos até à demonstração final (positiva, negativa ou irónica), do desejo do protagonista como motor da história, da empatia entre protagonista e público, da construção de situações de risco emocionalmente significativas, da construção do incidente inicial, do incremento das complicações, da arquitectura dos actos, do ritmo, dos subenredos, da construção das cenas, do texto e subtexto, do clímax, dos turning points, da composição, da progressão, da ascensão, da crise, da resolução, etc., etc.
São capítulos repletos de observações perspicazes sobre construção – por exemplo: a utilização de subenredos para retardar o incidente inicial, a necessidade de restringir o número de clímaxes, o clímax como imagem-chave de todo o enredo, a distinção entre sistemas de imagens internas e externas – que constituem um dos mais incontornáveis estudos recentes sobre estrutura narrativa do cinema clássico americano. Do cinema clássico americano, pois Story ignora quase por completo quase todas as experiências narrativas recentes, como os próprios filmes de Charlie Kaufman, de Quentin Tarantino, de Christopher Nolan, dos irmãos Coen, e outras cinematografias, por vezes de tanto sucesso como a americana, como o cinema asiático, o cinema indiano e até o cinema europeu.
Em Inadaptado, após o seminário de McKee, a história torna-se num thriller previsível, engenhoso, bem feito, mas sem alma, sem interesse emocional ou personagens cativantes. E é isso que falta em Story. Fortíssimo em estrutura, o livro desleixa claramente a construção das emoções e das personagens, que no meu entender são a carne e o sangue das histórias. E por isso Inadaptado, sendo o filme que fez disparar a popularidade do livro e do seu autor, é também a sua principal crítica, ao demonstrar que a estrutura narrativa, a que McKee atribui toda a importância, pode originar filmes e histórias competentes, mas só por si não faz bons filmes e boas histórias.
Story é um livro altamente recomendado a todos os argumentistas. É de tal modo abrangente e perspicaz que é difícil não retirar dele dicas e ideias preciosas, que ajudarão a melhorar bons guiões. É, no entanto, necessário ter em mente os princípios de que o livro parte, e que estes princípios são, por vezes, questionáveis. Convém ter em atenção que o autor incide principalmente no estudo de alguns guiões que, independentemente dos seus méritos, nem sempre se podem considerar obras-primas cinematográficas (Rocky, O Fugitivo, Chinatown, Casablanca). E que os conselhos constantes do livro, podendo ajudar o argumentista no trabalho de construção do enredo, não garantem por si uma boa história, continuando a recair nos ombros do guionista a fatia do leão de fazer a história ser habitada por ideias com sentido, personagens vivas e emoções verdadeiras.
Uma última nota: a curta bibliografia final do livro omite quase todos os estudos recentes sobre guionismo e narrativa, ainda que seja duvidoso que McKee tenha elaborado a sua obra sem consultar trabalhos como os de Lajos Egri, Syd Field, Linda Seger, Christopher Vogler, Yves Lavandier, entre outros. Mesmo que Story supere a bibliografia de muitos destes autores, um pouco de transparência intelectual não teria ficado nada mal.

Na verdade a fonte de Mckee anteiror a todos esses nomes, é John Howard Lawson e Keneth Rowe, a quem ele paga tributo no começo do livro.