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Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos

Nuno Artur Silva sobre as PF

Editado por Daniel Ribas • 16 Mar 2009 • Categoria: Dossier, Entrevistas


Nuno Artur Silva é um dos rostos mais visíveis das Produções Fictícias, uma empresa exclusivamente de argumentistas que domina o mercado nacional de ficção. Eis um bom pretexto para uma entrevista e para perceber como nasce, cresce e solidifica uma empresa de sucesso.

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APAD – Pode explicar-nos como surgiram as Produções Fictícias? Em que momento e de que forma se transformam numa empresa? Nuno Artur Silva – Eu trabalhava como freelancer, escrevendo textos para publicações e teatro, por iniciativa própria, a maior parte das vezes fazendo eu próprio de raíz as edições e as produções. Durante vários anos tentei apresentar projectos à única estação existente, a RTP, sem êxito. Por fim, no início dos anos 90, consegui ter uma reunião com o José Nuno Martins, na altura um dos directores da RTP2. Ele passou os meus textos para o Zé Pedro Gomes e o Miguel Guilherme, que estavam à procura de um autor para os sketches que iam fazer no programa do Joaquim Letria. Eles convidaram-me para escrever para eles (depois saiu o Miguel e entrou o António Feio) e desde aí comecei a trabalhar regularmente para televisão. O convite seguinte veio do Herman, ainda estava a trabalhar com o Zé Pedro e o António. O Herman começou por me convidar para fazer as aberturas de stand up do novo programa dele, o Parabéns. Depois desafiou-me para crónicas de rádio e entrevistas históricas. Nesta fase já não conseguia fazer tudo sozinho, ainda por cima continuando a dar aulas de Português no liceu, e desafiei os meus amigos dos projectos de teatro e edições. O Miguel Viterbo, o Rui Cardoso Martins e o José de Pina. Em 1993 começámos a assinar com o nome Produções Fictícias. A ideia inicial era fazer ficção e não só humor. Mas os convites que apareciam, e apareciam cada vez mais nesse ano em que abriram os canais privados, eram para programas de humor. Estivemos três anos a trabalhar na casa uns dos outros, sem grande organização. E éramos cada vez mais: primeiro veio o Nuno Markl, depois a Patrícia Castanheira, a Maria João Cruz, o João Quadros. Em 1996, eu deixei de dar aulas e decidi formalizar as Produções Fictícias como empresa.

APAD – Qual é a estrutura em que assentam as PF? Pode-nos explicar o que são os Autores Associados? NAS – Em quinze anos as PF foram evoluindo e desenvolveram novas áreas de actuação. Hoje em dia definimo-nos como rede criativa. No essencial é um modelo que vive da ligação dos vários departamentos: Original, Agência, New Media, Júnior, Empresas, Formação e Produção. A marca principal e o centro de actividade são o mesmo de sempre, a criação de conteúdos originais e a agência de autores e marcas. Os autores associados são autores representados pelas PF, que se caracterizam por escreverem para vários meios e plataformas, e por terem uma ligação mais próxima e privilegiada com a empresa, não só no sentido de poderem participar de diferentes maneiras nos diversos projectos da rede criativa, como também no sentido de poderem ver os seus projectos individuais apoiados e desenvolvidos pelas estruturas das PF.

APAD – Como nascem os projectos? Partem de uma pessoa, de brain-stormings criativos, ou são na sua maioria encomendas? Pode dar-nos exemplos? NAS – Nascem de todas as maneiras que podem nascer. Ou por iniciativa da empresa, isto é, dos directores de departamentos ou da direcção geral, que propõem ideias e formatos aos autores, ou por iniciativa dos autores, que podem abrir os seus projectos a outros autores ou simplesmente pedir apoio para o desenvolvimento deles; ou ainda por encomenda ou desafio exterior às Produções. Exemplos são muitos: O Inimigo Público nasce de uma ideia exterior às Produções, o Daniel Deusdado propõe-nos fazer um jornal satírico, depois de estudada a hipótese, decidimos apresentar o projecto ao Público, quando o Público aprova, convidamos o Luís Pedro Nunes para director e montamos um equipa a partir dos nossos autores e de outros exteriores às PF. Os Contemporâneos partem de uma encomenda da RTP para um programa de humor, de sketches, com um grupo de novos actores, incluindo o Bruno Nogueira. Nós, PF Original, criámos o conceito, formatámos e escolhemos as equipas de autores, actores e produção (obviamente, com a aprovação da RTP). Terceiro exemplo, Gato Fedorento, o conceito e todo o projecto são dos quatro Gatos, as PF agenciam e produzem. Etc, etc, etc. Cada projecto tem um modelo próprio.

APAD – Como funciona a escrita em equipa? Que métodos são usados para que o trabalho seja simultaneamente criativo e produtivo? NAS – Há sempre um responsável pelo trabalho, normalmente um criativo sénior (ou excepcionalmente dois) isto é, com experiência, que deve criar as condições para que os outros autores estejam motivados e dêem o seu melhor.

APAD – As PF são conhecidas pelo humor mas nos últimos anos tem escrito em quase todos os formatos, desde seriados até telefilmes. Como é que escolhe o(s) argumentista(s) certos para cada projecto? NAS – Ao escolhermos as equipas temos que conhecer muito bem as características de todos os autores, associados e agenciados das PF e temos de ter em conta não só as características de escrita como também outras mais relacionadas com a capacidade de trabalhar em equipa, de reescrever e alterar as ideias e os guiões, em tempo útil, e também de apresentar soluções para os inevitáveis problemas de produção. Para além, claro, do fundamental, que é ir ao encontro do que os autores querem fazer.

APAD – Hoje em dia as PF já não escrevem apenas guiões. Como foi o crescimento das PF? Houve necessidade de evoluir noutras direcções? Porque começaram a produzir os vossos textos? A entrada do autor nos créditos de produção tem a ver essencialmente com o controlo criativo. Em processos de produção colectiva, normalmente sob pressão de tempo e dinheiro, como é a televisão ou o cinema é muito difícil defender as ideias e a história original. Essa defesa do nosso trabalho tem mais condições de ser bem sucedida se os autores tiverem uma palavra a dizer no final cut e na direcção de todo o processo. O facto de ser co-produtor pode implicar risco financeiro mas também pode implicar um ganho financeiro acrescido, para além do ganho como autores.

APAD – Como funciona a relação de uma produtora de conteúdos com as estações de televisão? O que acha do presente estado do audiovisual português? NAS – Depende de quem está à frente, quer da produtora de conteúdos, quer da estação de televisão, claro. Funcionamos da simples encomenda à boa cooperação criativa. E às vezes à pura ausência de contacto. Sobre o presente estado do audiovisual português, é difícil sintetizar tudo numa resposta de questionário. Vamos tentar por tópicos: as televisões continuam a não investir o suficiente na diversidade dos modelos de ficção, para além das telenovelas; os canais cabo não têm dinheiro para criar séries alternativas; o único género que vive um momento de criatividade assinalável é o humor porque consegue existir com orçamentos baixos; a televisão generalista portuguesa é genericamente deprimente e tende a piorar; o cinema português procura novos modos de produção e financiamento, mas ainda não é clara a distinção entre o ICA e o FICA, faltam novos produtores, e continua-se a não investir no essencial: histórias, argumentos; o meu optimismo inabalável acredita que a situação há-de melhorar.

APAD – Até onde podem ir as PF? O que é que gostariam de fazer? O que é que não fariam nunca? NAS – O que nós gostávamos era de não estar tão dependentes de contratos pontuais avulsos, gostávamos de poder desenvolver projectos com um horizonte temporal mais alargado, gostávamos de, para além de ter contratos para um programa, ter contratos-programa. Gostávamos de não estar tão dependentes da decisão de apenas dois ou três directores de programas para poder colocar as nossas séries no ar, gostávamos que houvesse mais canais, mais estações, mais hipóteses de distribuição. Não gostaríamos de chegar a uma situação em que temos de fazer coisas em que não acreditamos para sobreviver.

APAD – As PF são a maior empresa portuguesa de argumento. Acha que há um humor PF? Ou uma escrita PF? NAS – Dentro das PF há muitos autores e, portanto, muitos estilos diferentes. O que nós queremos, cada vez mais, é deixar na retaguarda a marca PF e dar a conhecer o trabalho de cada um dos autores. É um processo natural, primeiro foi uma batalha para nos impormos como uma equipa de argumentistas, para criar a marca PF. Agora é a própria marca que esconde, obviamente de forma involuntária, o nome dos autores que aqui trabalham. O nosso esforço tem sido, já desde há algum tempo, promover esses autores e criar condições para eles desenvolverem o seu trabalho e serem reconhecidos. Há uma marca PF, mas ela é feita das marcas que é capaz de gerar e pelos autores independentes que nela trabalham.

APAD – De que forma as PF se têm adaptado às novas tecnologias (Internet, telemóvel)? NAS – Desde logo percebendo que criar um conteúdo hoje é pensar na sua existência nas diversas plataformas, nomeadamente nas emergentes. E depois criando um departamento próprio, o PF New Media, com uma estratégia própria, articulada com a rede PF. Um departamento que, num curto espaço de tempo, organizou o primeiro Festival de Microfilmes de Lisboa, fez o primeiro programa para Mobile TV (“Quinze”) e, com o SAPO Vídeos, montou a primeira televisão de entretenimento independente online, em Portugal, o PFtv.

APAD – Como escritor e criativo o Nuno tem com certeza também o seu método. Escreve todos os dias? Em que lugar ou momento sente que está mais inspirado? Como organiza as suas ideias e projectos? NAS – Tenho ideias todos os dias e todos os dias tomo notas dessas ideias e das suas possibilidades. Depois procuro encontrar momentos em que possa estar focado na escrita e desenvolvimento dessas ideias. Desde que apresentámos a nova estrutura e estratégia das PF, no dia 20 de Janeiro, com a nova distribuição de trabalho, ganhei tempo para os meus projectos de autoria mais pessoal. Ao fim de quinze anos, já era tempo de delegar funções organizativas e de representação e negócio. E estão muito bem delegadas. Mantenho as funções de direcção geral e estratégica mas agora posso dedicar-me mais ao meu trabalho como autor associado das PF.

APAD – Se algum jovem guionista quiser mostrar o seu trabalho às PF, como deve fazer? Há espaço para novos autores nas PF? Tem algum conselho para quem esteja a começar? NAS – As PF estão sempre abertas e interessadas em novas ideias e novos autores. Quem quiser pode apresentar o seu trabalho. Mas é fundamental perceber que não basta ter uma ideia, é preciso apresentá-la e defendê-la e depois, claro, saber desenvolvê-la. Um bom caminho é frequentar os nossos workshops.

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