Nuno Bernardo é o principal responsável pela beActive uma produtora que tem conquistado o mundo com novos conteúdos televisivos para os novos media: telemóvel e internet. Pretexto para perceber como funciona a empresa e de que forma são escritos os seus guiões.

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APAD – Pode explicar-nos o que é a beActive? Que projectos e produtos têm? O que é que a diferencia das demais produtoras? Nuno Bernardo: A beActive é uma empresa especializada na produção de entretenimento com uma filosofia multiplataforma. Nascida em 2002, a empresa desde sempre se focou em cruzar medias tradicionais – TV, Rádio, Imprensa – com os novos medias, nomeadamente a Internet e os Telemóveis. Além deste foco numa produção para diversos medias, a empresa aposta muito na internacionalização como forma de expansão da sua actividade comercial. Foi a primeira produtora nacional a vender um formato “made in Portugal” a nível internacional, assinando um contrato de co-produção com um dos maiores estúdios de Hollywood, a Sony Pictures Television.

APAD – Como nascem os projectos da beActive? Quem os cria? Como se decide em que projecto apostar? NB: Os produtos desenvolvidos pela beActive nascem dentro da empresa, a partir do trabalho dos guionistas permanentes da empresa (em staff ou em regime de colaboração). O trabalho de desenvolvimento foca-se em criar projectos com viabilidade comercial (a partir da nossa presença nos principais mercados internacionais), com uma vertente multiplataforma e que acima de tudo conte uma história universal, capaz de atrair audiências nos quatro cantos do mundo.

APAD – Como desenvolvem uma ideia de forma a poder ser um projecto vendável? A que elementos dão mais importância? NB: O processo que leva uma ideia até ao produto final pode ser um caminho algo tortuoso, que nos ocupa vários anos, ou algo que se desenvolve em dois ou três meses, como foi o caso do T2 para 3. O projecto vendável em última análise definido pelo mercado: normalmente levamos as ideias às feiras e mercados internacionais e é a partir da interacção com distribuidores e canais de TV internacionais que percebemos quais são as ideias mais viáveis, aquelas que vale a pena apostar e aquelas que talvez devam voltar à gaveta!

APAD – Como é o processo de escrita de cada projecto? Por quantas mãos passa até à versão final do guião? NB: Nós tentamos que o Guião passe pelo maior número de mãos possíveis. Por exemplo, terminamos agora a escrita de 22 episódios da nova temporada da série T2 para 3, que contou com 6 guionistas, em diferentes partes do processo criativo. Por exemplo, tivemos um guionista só a escrever os diálogos de duas personagens. O nosso objectivo é reunir as melhores pessoas à volta das nossas histórias, isto porque não existem dois guionistas iguais: uns são melhores a estruturar histórias, outros a escrever diálogos, outros em drama e outros em comédia. Por isso achamos que reunir todos estes talentos complementares, adicionando muito script editing, irá, certamente fortalecer os guiões.

APAD – O Diário de Sofia distingue-se pela sua interactividade, isto é, pela participação do público na construção da história. Acha que futuro passa pelo envolvimento cada vez maior do espectador? NB: Acho que a interactividade é uma forma de envolver mais o espectador, mas existem outras. Actualmente vivemos numa cultura de “excesso” de histórias, em que tudo já foi feito, tudo já foi visto. Por isso cada vez é mais difícil captar o espectador. Por exemplo, Hollywood aposta cada vez mais na tecnologia para envolver o espectador, para o colocar no meio da história: no 3D, no som surround, nos efeitos especiais, etc. Nós, por outro lado, apostamos em usar os novos “media” para tornar as nossas personagens mais reais, mais imersivas na vida do nosso espectador.

APAD – Com "O Diário de Sofia" e o "T2 para 3" a beActive criou uma ficção de curta duração – em que alguns episódios têm apenas 2 a 5 minutos. Que especificidades têm de ter as histórias com esta duração? NB: Para a a criação destes pequenos episódios vamos buscar muitos conceitos ao mundo das curta-metragens, da publicidade e dos vídeo-clips. Manter o espectador atento, especialmente na Internet, com tanta oferta, tantos “pop-ups” é quase uma arte, e por isso necessitamos de “clifhangers”, de “punch lines”, de todos aqueles truques que nos ensinam quando começamos a aprender a escrever um guião. Precisamos é de os atirar todos ao mesmo tempo – mas de uma forma orgânica – para manter o espectador interessado. Além disso apostamos em criar personagens fortes, os verdadeiros “amigos” da audiência, personagens com as quais o espectador se relacione, ou seja algo que o “obrigue” a ver o episódio até ao final e o convença a voltar no dia seguinte.

APAD – A beActive aposta também nos novos meios como a ficção para internet ou telemóveis. Que diferenças encontra em relação aos meios de difusão tradicionais, sobretudo ao nível do guião? NB: Escrever para a Internet e telemóveis obriga a um grande poder de síntese. De contar a história de uma forma que é quase oposta a forma de escrever para cinema (que é mais pausada, mais orientada para os grande ambientes).

APAD – A beActive produz sobretudo em séries para jovens ou para crianças. Porquê esta opção? NB: Por dois motivos. Primeiro porque acredito que só podemos escrever (honestamente) sobre aquilo que já vivemos, que já sentimos. Sendo a equipa da beActive uma equipa Sub-35, apenas escrevemos para públicos até essa idade. Por outro lado, como focamos nos novos media, os jovens e os adolescentes são os públicos ideiais para as nossas produções. Mas sentimos que o mercado está a mudar, por isso em breve vamos alargar os nossos públicos alvo (isto porque, infelizmente, estamos também a ficar mais velhos).

APAD – A beActive exporta formatos originais para diversos países. Como conseguiram entrar em mercados tão competitivos como o inglês ou o americano? Até que ponto acompanham o processo de adaptação desses formatos? NB: A decisão de apostar no mercado internacional está na génese da empresa. Sendo uma produtora vocacionada para um nicho de mercado: produções interactivas para jovens e adolescentes, seria quase impossível sobreviver em Portugal, se pensarmos que apenas os canais generalistas tem capacidade de produzir conteúdos próprios, e mesmo esses focam as suas apostas em produtos de mass market, em programas de entretenimento e telenovelas ou séries para “toda a família”. Logo, sendo a beActive uma produtora focada em algo que está fora do “prime time” dos canais de TV nacionais, não conseguiria sobreviver se não apostasse na internacionalização. E isto só se conseguiu com muita perseverança, numa aposta em sermos diferentes e por tentarmos criar histórias universais que possam captar audiências em Portugal, no Reino Unido, na China ou no Brasil. Sempre que possível, e sempre que estamos a tratar de mercados com grande dimensão, como são o Reino Unido, os E.U.A., a América Latina, tentarmos estar sempre envolvidos, quer na re-escrita dos guiões, quer na supervisão da produção. Por um lado garantimos que o produto é executado da forma que achamos mais correcta, mas por outro serve muito como processo de aprendizagem para os membros da beActive porque podem assim contactar com realidades (e muitas vezes escalas e valores de produção) diferentes da Portuguesa.

APAD – A beActive tem uma imagem sofisticada e inovadora. Que preocupações têm a nível da "embalagem" nos vossos produtos? NB: A imagem é tudo, não estivéssemos nós na indústria da criatividade. Se não consegues criar uma boa imagem, uma boa apresentação, um logo cativante, materiais de promoção apelativos, que garantias vais dar aos teus clientes que és capaz de transformar 100 páginas de texto num programa ou filme visualmente cativante?

APAD – Na sua opinião quais são os ingredientes para uma série de sucesso? Os ingredientes são diferentes em Portugal dos de outros países do mundo? NB: Cada mercado tem as suas especificidades, o que faz com quase sempre, uma produção local, com actores locais, focando realidades locais, tenham sempre mais sucesso do que produtos importados. No entanto, existem muitas histórias universais que cativam audiências em qualquer parte do mundo. Histórias em que os espectadores se revejam nelas.

APAD  – Se algum jovem guionista quiser mostrar o seu trabalho à beActive, como deve fazer? Há espaço para novos guionistas na beActive? Tem algum conselho para quem esteja a começar? NB: A beActive recebe várias propostas de novos guionistas todas as semanas. Infelizmente, são poucos os casos em que aproveitamos estes contactos. A principal razão tem a ver com o pouco “trabalho de casa” que estes candidatos fazem. Ou seja, não verificam se aquilo que escrevem é adequado à actividade da empresa. Se a beActive produz série juvenis, não faz sentido enviar-nos um guião para um filme “art-house”, porque apesar de ser escrito por um guionista muito talentoso, de nada nos serve, porque não produzimos cinema artístico. O que quero dizer é que interessa-nos bastante encontrar novo talento, mas talento que queira escrever produtos similares ao que criamos. A melhor forma, e temos sugerido a quem nos contacta, é escrever um episódio de uma das séries que temos em Produção (Ex: T2 para 3 Remodelado) e enviar-nos. Só desta forma vamos perceber se o candidato enquadra-se no modelo e no estilo de trabalho da beActive.