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Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos

Relatório McKee

Editado por Daniel Ribas • 16 Mar 2009 • Categoria: Actual, Dossier

por Manuel Pureza
(Manuel Pureza é assistente de realização e realizador, tendo vencido o Primeiro Prémio de Cinema Universitário no Festival Castelo em Imagens em 2006, presidido por Lauro António, com a curta "Os Conquistadores" e tendo estado presente na primeira edição do MoteLX com a curta "Room/Mate". É actualmente presidente da Uzi Filmes – associação juvenil de cinema.)

mckee

Em Novembro do ano que passou, Robert McKee esteve em Lisboa com o seu famoso seminário Story. Organizado em Portugal pela MixReel, o seminário teve lugar na Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa, tendo sido precedido por uma curta sessão na Fnac.

Foi, creio, mais do que o mero interesse de profissionais do meio que compôs o auditório onde as sessões se realizaram. A fama de Robert McKee e do seu livro são transversais a muitas áreas e chega aos interessados sob diversas formas (quem não se lembra de Brian Cox a interpretá-lo em Adaptation?) e isso ficou claro no público que esteve presente.

A leitura (ou não) de Story a priori, teve, por certo, efeitos diferentes entre quem assistiu ao seminário. As reacções finais não foram consensuais precisamente por isso. Há quem tenha visto no seminário uma espécie de “encenação” ipsis verbis das palavras escritas no livro; há quem tenha visto nisso um complemento à medida. De uma maneira ou de outra, Robert McKee é uma figura incontornável da escrita de argumento e o seu livro uma boa reflexão sobre os modelos aristotélicos.

Deixando claro que não apresenta uma fórmula com essa sua reflexão, mas que antes faz uma espécie de levantamento das formas intrínsecas aos vários tipos de narrativas, o autor divide este seu seminário em três dias, sendo o primeiro centrado na ideia do “escritor e a arte da história”, começando com um breakdown do conceito de estrutura, e da maneira como ela varia e responde a circunstâncias, personagens, géneros e sentidos. A tabela de conteúdos para este dia oferecia outros pontos de interesse mais abstractos que não foram de todo incluídos na apresentação, ou que de certa maneira ficaram demasiado diluídos num discurso já quase mecânico e automático (recorde-se que Story começou por ser apresentado sobre a forma de seminário em 1983). O segundo dia de seminário aprofundava a noção dos elementos da estrutura, como “os princípios da construção de uma história”, sendo salientadas as noções: dos três actos e sua construção, das cenas, de composição, crise, clímax e resolução, e antagonismos. O terceiro dia fechava as noções intrínsecas à estrutura, reforçando a ideia de construção da personagem, que vagueia por um mundo de forças em oposição que geram problemas e uma procura de soluções. O seminário fechou com a análise cena a cena do filme Casablanca, considerado por McKee como o mais brilhante script alguma vez escrito para a tela, sendo sabido, no entanto, que muitos críticos apontam o filme como não tendo tido nunca um script pré-definido e que tudo era feito numa base de trabalho diário de alterações substanciais, como se pode comprovar na secção de trivia do Internet Movie Database (IMDB).

Estruturado desta forma, o seminário é, sobretudo, uma oportunidade de reflexão conjunta com quem se dedicou, de facto, a uma vida de análise e cogitação sobre escrita de argumento. Por um lado essa reflexão conjunta sai, para alguns, posta em causa a partir do momento em que se nota um “piloto automático” por detrás de toda a apresentação dos conteúdos. A adaptabilidade dos conceitos a exemplos de novos filmes ou a novas reflexões sobre a verdadeira contemporaneidade da crise narrativa mundial trariam, por certo, novas reacções e conclusões a quem faz este seminário. Por outro lado, a oportunidade de ultrapassar a mera leitura destas “ideias sobre escrever” para uma discussão prática com alguém que é, sobretudo, inspirador no seu approach é algo que não só se acrescenta ao curriculum e tem o valor que tem, como deixa em quem se contagia com estas coisas, a vontade de escrever.

Robert McKee, não sendo de todo o género de pedagogo que aproveita o diálogo com o aluno ou a interactividade, porque de facto ele é tal e qual a sua interpretação no filme de Charlie Kaufman (a palavra fuck entrou no discurso variadíssimas vezes e os berros autoritários calaram quem tecia comentários), é um sistematizador nato. O trabalho de restauro e reciclagem feito por ele aos princípios aristotélicos centra-se na compartimentação de conceitos em linhas orientadoras possíveis e não numa matemática estanque, própria de, por exemplo, Syd Field ou noutra perspectiva Lew Hunter. É nesse cenário de possibilidade, de hipótese destas formas construído por McKee que toda a sua teoria se desenrola.

A importância deste seminário, no meu entender vai muito ao encontro da ideia de empowerment, na perspectiva de contacto directo com um perito e suas teorias. Num cenário em que a nível mundial, as narrativas, segundo consta, estão em crise, creio não poder dizer-se que o cinema português, ou as suas histórias, estejam incluídos neste enorme lugar comum. Toda a generalização é perigosa, sobretudo numa altura em que à dicotomia entre o cinema europeu e o americano, começa a acrescentar-se uma enorme e valorosa produção asiática, cada vez mais reconhecida. Enquadramos também essa produção em crescendo num cenário de crise? Ou haverá no Oriente novas histórias? Ou não serão as histórias do Oriente hiper humanas nas sensações que perpassam nas personagens, mas ao mesmo tempo carregadas de elementos visuais novos e indígenas? Não creio que em Portugal se esteja a um nível de crise. Se um homem não tiver dinheiro e não precisar dele, a crise económica afecta-o? Mais que pensarmos de antemão que nos enquadramos num cenário de decadência dos heróis, ou das histórias, do panorama/cenário em que já tudo foi contado, devemos aprender a contar histórias, um dos hábitos mais ancestrais da existência humana, mas igualmente um dos mais difíceis. Essa aprendizagem deve ser feita nunca esquecendo que é na circunstância em que vivemos, Portugal, século XXI, que se encontra a novidade para quem não é de cá, mas também o denominador comum das emoções humanas que faz com que quem vê, lê ou ouve a história, possa ter ao mesmo tempo surpresa nos elementos portugueses e identificação com o factor humano que está na tela.

Em Portugal temos, segundo penso, de estar mais próximos de todas as teorias que, de uma maneira ou de outra, libertaram criadores, deram suporte a escritores, realizadores ou até mesmo produtores. A especificidade da escrita para o cinema requer de quem o faça um conhecimento actual de todo um processo evolutivo do pensar as histórias, partindo de Aristóteles, passando por Campbell e o seu The Hero With a Thousand Faces, até Vogler com The Writer’s Journey (de resto sendo este uma reflexão sobre o trabalho de Campbell), passando por Mamet, Field e Mckee com Story.

Conclusões à parte, este seminário, para o bem da consciência artística e de craft de cada interessado, devia tomar posição como o primeiro de muitos outros dos mais diversos quadrantes de criação para cinema e não só. Não podemos ter medo de assumir que às vezes, livros como Story são, de facto, bons “comprimidos de adrenalina”, como o comprova a própria propaganda de McKee ao enunciar a quantidade de alunos seus (de Kirk Douglas a John Cleese) que vingaram como screenwriters.

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One Response »

  1. Na minha opinião escrever um guião é como fazer uma receita de um prato,deve-se saber misturar bem os ingredientes faze-los ter um bom aspecto e terem um bom gosto.Os ingredientes são os personagens e a acção, a receita é a história e a arte é o aspecto conjunto de todos estes aspectos.

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