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Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos

The Day the Earth Stood Still: Análise Comparativa

Editado por Daniel Ribas • 16 Mar 2009 • Categoria: Análise, Dossier

por Ricardo Oliveira
(Ricardo Oliveira é argumentista formado pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Argumentista e realizador de duas curtas metragens prepara agora uma terceira. Já trabalhou no Departamento Criativo da Utopia Filmes e de momento desenvolve projectos na Uzi Filmes.)

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THE DAY THE EARTH STOOD STILL
1951: Robert Wise (R), Edmund H. North (A)
2008: Scott Derrickson (R), David Scarpa (A)

Tema e Mensagem

O original de 1951, produzido no início do McCartismo, usa o seu subtexto como exploração do clima de tensão, suspeita e perseguição vivido durante a Caça às Bruxas de que os comunistas nos Estados Unidos da América eram vítimas. No fim encontramos uma moral de reconciliação através do reconhecimento de que a suspeita é indevidamente formada numa tensão aparente, o que torna a perseguição uma acção desadequada e censurável.

O remake de 2008 surge no contexto actual de preocupação face à poluição criada pela raça humana e consequente destruição do planeta, que só poderá ser evitada face à consciencialização e acção drástica e imediata de toda a raça humana. O conflito dramático surge com a dificuldade da natureza humana lidar de forma racional e conscienciosa com um problema até ao momento em que a nossa existência é afectada por esse problema.

 

Análise Estrutural

1º ACTO

VERSÃO 1951:

Os primeiros minutos não nos apresentam um protagonista mas sim uma visão generalizada de um acontecimento, através de uma montage que nos mostra a reacção a esse acontecimento em vários locais do mundo através dos órgãos de Comunicação Social (rádio, jornais, televisão), que serão recorrentes noutros momentos da narrativa, já que será através deles que a tensão e a suspeita são “transportados” como se fossem um vírus. A tensão é o tom em que é construído o primeiro acto, presente nas expressões de todos os figurantes da montage inicial e materializada nas palavras do comentador de TV que acompanha os directos do local onde a nave espacial aterrou. O poder militar surge em força, cercando o OVNI e assumindo a sua posição defensiva instantaneamente e de forma precipitada. O tiro medroso do soldado que fere Klaatu é um reflexo disso – o erro causado pela tensão previamente estabelecida face ao acontecimento.

Sendo a chegada da nave espacial, que acontece nos primeiros minutos de filme, o Inciting Incident da B storyline, o elemento que vem perturbar o equilíbrio do mundo terrestre, o tiro que atinge Klaatu surge na altura em que o Inciting habitualmente acontece, por volta dos quinze minutos de filme. Surge da necessidade de haver um plot point evidente que, ao destabilizar a chegada de Klaatu, sirva de Inciting para o arco da personagem alienígena. Perceberemos mais à frente que é um falso plot point, já que, independentemente do tiro, o desejo de Klaatu em reunir-se com os presidentes das nações lhe seria inevitavelmente negado, como nos explica no hospital o secretário do presidente, Harley. Apesar de ser inconsequente para a progressão da narrativa, fortalece o subtexto mencionado no parágrafo anterior, e expõe posteriormente as capacidades regeneradoras de Klaatu, reafirmando a origem extra-terrestre da personagem.

A impossibilidade de Klaatu se reunir com os líderes mundiais leva-o a fugir do hospital militar onde está praticamente aprisionado, motivado pelo desejo de perceber melhor a natureza humana.

VERSÃO 2008:

O protagonista nesta versão é Helen Benson. É feito um set up para a sua personagem e é do ponto de vista dela que ao longo do 1º acto nos é apresentada a situação de ameaça sobre o planeta Terra. O 1º acto lida maioritariamente com a atitude defensiva da raça humana frente a um evento que não compreende. É com base nesta faceta da natureza humana que Klaatu adopta a forma de um homem, para que os humanos não reajam a medo. Helen evidencia-se enquanto protagonista pela sua tomada de posição em relação ao alienígena. É ela que, contra as ordens da secretária de defesa Jackson, injecta Klaatu com uma solução salina inofensiva.

2º ACTO

1951:

Na passagem do 1º para o 2º acto, voltamos a assistir a uma montage de notícias. O homem do espaço escapou, está à solta e é descrito como uma ameaça. Este é o problema dramático, vivido pelo ponto de vista do perseguido. Na primeira vez que encontramos o grupo de personagens que vão interagir na pensão com Klaatu ao longo do segundo acto, estão também como as personagens que vimos no inicio do filme, deixando-se influenciar pela propaganda anti-alienígena que lhes é comunicada através da rádio e dos jornais. Vemos isso materializado na conversa ao pequeno-almoço. Esta cena mostra-nos de forma literal como o elemento estranho (Extra-terrestre/Comunista) que suscita desconforto, suspeita e atitudes agressivas no cidadão comum, é no fundo alguém que se senta à mesa connosco e que é forçado a esconder a sua verdadeira natureza pois sabe à partida que será vítima de preconceito.

O 2º acto mostra-nos paralelamente o descobrir da personalidade pacífica de Klaatu, através da empatia criada entre ele e o miúdo Bobby, o filho de Helen que vive na pensão onde Klaatu está hospedado, ao mesmo tempo que o clima de suspeita generalizada e exagerada (relatos contraditórios sobre a aparência do extra-terrestre que ridicularizam essa suspeita) cresce. A suspeita sobre Klaatu surge na forma de Helen e Tom que avisam Bobby a manter-se afastado de “Mr. Carpenter”, depois deste receber a visita de um agente governamental que o escolta até casa do Prof. Barnhadt.

Na conversa com o Prof. Bardhardt é discutido um outro medo generalizado e muito popular da altura: a ameaça nuclear. No fundo, toda a tensão criada entre as duas novas super-potências no pós 2ª Guerra Mundial (EUA e União Soviética), nasce da demonstração do poder nuclear que marcou o final do conflito.

Quando Helen e Tom descobrem quem Mr. Carpenter é na realidade e depois da demonstração do poder do alienígena que neutraliza toda a electricidade do planeta, é-nos apresentado um conflito entre o casal humano que eventualmente os separará. A atitude de Tom, prontamente decidido a revelar a localização do alienígena aos militares, é outro elemento que espelha algo comum na sociedade americana da altura quando, de forma muitas vezes oportunista, um nome era dado e um comunista exposto. É o plot point que transforma a suspeita na perseguição e abre o terceiro acto.

2008:

Tal como no original, o 2º acto começa com a fuga de Klaatu e a sua entrada no mundo dos humanos. O primeiro contacto é violento. Assiste a um assassinato e roubo numa estação de comboios. Aos olhos do alienígena esse é um exemplo da natureza violenta e destrutiva dos Homens. No entanto a confiança de Helen Benson demonstrada anteriormente é suficiente para Klaatu pedir ajuda a esta.

Durante o 2º acto as televisões mostram-nos o colapso da raça humana motivado pelo pânico de uma eminente invasão alienígena. Nas ruas vê-se vandalismo e violência. Jacob, o filho adoptivo de Helen, reage também de forma agressiva sugerindo que o alienígena deveria ser morto.

Percebemos o plano de Klaatu e a razão das esferas que surgem em todo o planeta, arcas de Noé, que “chamam” para si espécimes de todas as raças animais do planeta excepto a humana.

Um major turning point surge quando Helen percebe que Klaatu, ao reanimar um polícia que havia morto momentos antes, tem o poder para impedir o que parece ser a inevitável aniquilação da raça humana. Propõe-se a mostrar ao extra-terrestre a capacidade humana de mudança. A cena com o Prof. Bardhardt expõe essa capacidade, por vezes difícil, de tomada de consciência face a um problema e a consequente resolução.

Quando Helen é levada pelos helicópteros militares, impossibilitando-a de continuar a convencer Klaatu, esse problema e, acima de tudo, a desfragmentação do robot Gort para uma nova entidade antagónica indestrutível pelo poder militar, transportam-nos para o 3º acto.

3º ACTO

1951:

Apesar da ajuda de Helen, Klaatu acaba por ser morto pelos soldados. Helen reactiva o robot-guardião Gort segundo as instruções de Klaatu transpondo para este o protagonismo. As palavras “Klaatu Barada Nikto” que passam de Klaatu para Helen e desta para Gort, ajudam nesse transporte difícil de protagonismo, sem tornar previsível para o espectador o desenvolvimento da história. Gort, apresentado no 1º acto e “adormecido” ao longo do 2º, é o elemento activo que possibilita o desfecho da narrativa.

2008:

Quando Helen e Klaatu se voltam a reencontrar, a transformação dos objectivos personagem do alienígena já está em curso, depois de ter assistido à mudança de opinião de Jacob em relação a si. O rapaz já não o quer matar, mudou e provou a Klaatu que essa capacidade é real.

A sequência final mostra-nos o preço da neutralização dos micro-robots e da extinção humana. Todas as energias foram eliminadas e a raça humana tem agora a oportunidade de começar de novo, através de uma segunda pré-história.

Resumo Crítico

Enquanto a versão original de 1951 nos apresenta uma construção estrutural que reflecte subtextualmente a temática central do filme (McCartismo e perseguição aos comunistas) e explora dentro da maioria das cenas e da sua dramaturgia ramificações dessa temática (a paranóia nuclear, a propaganda política, a influência dos mass media no cidadão, o oportunismo humano), o remake é maioritariamente estruturado pela exposição superficial de conceitos ecológicos e de noções condescendentes sobre a natureza humana, não as dramatizando quer num conceito estrutural, quer na dramaturgia das cenas e das personagens, tornando quase inconsequente a sua mensagem.

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