Poderíamos viver sem histórias? Sim, mas não seria a mesma coisa.
Editado por João Nunes • 13 Nov 2009 • Categoria: APAD, Actualidade, DestaqueSentado nos degraus do Teatro de Dionísios, em Atenas, tento imaginar que preocupações terão atormentado Sófocles há 2500 anos, enquanto assistia, neste mesmo local, aos ensaios da sua “Antígona”. Pelo que percebi nestes últimos dias, é provável que fossem muito semelhantes às dos actuais autores de audiovisual: “Como é que o meu trabalho vai evoluir daqui para a frente? Terei divulgação e audiência para a minha obra? Irei ser pago como mereço?”.
A realidade é que, tal como todos os dramas e subtilezas do comportamento humano já estavam reflectidos nas obras dos contadores de histórias atenienses, também os problemas que os afectavam não mudaram assim tanto ao longo dos séculos. Autores de todas as épocas lutaram pelo controle das suas obras, sofreram com as interferências alheias, debateram-se com dificuldades económicas e, apesar de tudo isso, contribuíram de forma inigualável para dar forma à concepção do mundo dos seus contemporâneos e definir o rumo das suas culturas.
Os argumentistas, primeiros criadores das obras audiovisuais, e como tal contadores das histórias do nosso tempo, não são excepção a esses dilemas e lutas. E foi isso que ficou bem patente na primeira World Conference of Screenwriters, realizada em Atenas nestes últimos dias 6 e 7 de Novembro.
A primeira Conferência Mundial de Argumentistas
O evento nasceu da acção conjunta das duas mais importantes organizações internacionais do sector, a FSE (Federation of Scriptwriters in Europe) e a IAWG (Internacional Affiliation of Writers Guilds). Portugal fez-se representar por dois membros da direcção da APAD, eu próprio e o Daniel Ribas.
Juntamente connosco encontraram-se, pela primeira vez debaixo do mesmo tecto, representantes de 30 associações de argumentistas da Europa, América e Oceânia, incluindo a poderosa Writer’s Guild of America, cuja bem sucedida greve acompanhámos e apoiámos até Fevereiro do ano passado. No total, deslocaram-se a Atenas cerca de 200 delegados que deram voz a mais de 25.000 escritores de audiovisual de quase todo o mundo. As ausências de África e Ásia, notadas, serão certamente colmatadas em reuniões futuras.
A Conferência foi um misto de congresso sindical, convenção literária e confraternização boémia. Manifestos reivindicativos alternaram com discussões técnicas e brindes animados, e esta fórmula revelou-se um sucesso.
As intervenções foram de grande qualidade, e sempre seguidas por acalorados debates. Abordaram-se temas tão importantes como os desafios colocados pela globalização e concentração do poder de decisão; as implicações das novas tecnologias; as relações dos argumentistas com produtores, realizadores e exibidores; os novos modelos de financiamento e distribuição das obras audiovisuais; e, finalmente, as respostas possíveis e apropriadas dos escritores de audiovisual e das associações que os representam.
Contactos internacionais
Além da importância desses trabalhos oficiais, tiveram grande relevo os contactos directos estabelecidos entre os representantes das diversas associações. No caso português, acredito que os laços que iniciámos com a FAGA (Forum de Associaciones de Guionistas Audiovisuales) e ALMA (Autores Literarios de Medios Audiovisuales), de Espanha, nas pessoas de Henrique Rivadulla e Marisol Farré, e com a AR (Associação de Roteiristas), do Brasil, pelo mão do seu presidente Marcílio Moraes, irão inevitavelmente dar frutos num futuro próximo.
Da conferência resultaram dois documentos cuja importância ficará mais clara nos próximos anos. Na primeira Declaração Mundial dos Argumentista exige-se, entre outras coisas, “… o direito de todos os argumentistas serem reconhecidos como autores das obras audiovisuais que escrevem, e justamente recompensados por todo e qualquer uso dado ao seu trabalho”. No Programa Conjunto de Actividades, por outro lado, promete-se “… a disponibilidade para o apoio mútuo em situações de crise, através de acções apropriadas de solidariedade”. Ambos os documentos podem ser consultados na íntegra aqui no site.
E o futuro?
A principal lição que tirei destes dois dias de trabalho e confraternização foi, ao mesmo tempo, inesperada e inevitável, como é sempre o final de qualquer boa história: por muito diferentes que sejam os mercados e sistemas em que trabalhamos, é mais aquilo que une os argumentistas de todo o mundo do que aquilo que nos separa.
Mas, embora simpática, esta ideia não deve ocultar outras duas conclusões muito importantes. Em primeiro lugar, a constatação de que Portugal, comparativamente com os seus congéneres, continua num patamar muito atrasado no reconhecimento e defesa dos direitos dos argumentistas.
Por outro lado, a convicção de que será possível inverter este estado de coisas desde que os autores portugueses queiram e saibam tomar as medidas necessárias. Isso exigirá união, trabalho e coragem, mas tenho a certeza de que, na altura certa, iremos encontrar o talento e as forças para o conseguir.
Como disse o veterano argumentista Frank Pierson, numa mensagem que gravou especialmente para apresentar na Conferência, e que com certeza Sófocles subscreveria:
“Take it easy… but take it”.
João Nunes
Argumentista e presidente da APAD


A coisa mais difícil de se fazer nesta vida é simplificar, complicar é fácil.