Rui Neto Pereira
é Diretor Geral do Bode Expiatório, Fundador e Presidente do Conselho Fiscal da APAD

Imaginem a Alemanha em 1944: um país completamente destruído; população ativa dizimada; sociedade dividida; famílias trucidadas; crianças traumatizadas; viúvas desesperadas; sem infraestruturas; sem apoio externo; odiados em todo o mundo; sem crédito; com três potências estrangeiras a gerir o seu território num clima de vinganças; a economia completamente destruída. Se isto não é o Inferno, anda lá muito perto.

Apenas vinte anos depois, a Alemanha tinha recuperado do duro golpe, reorganizou o país, recuperou a economia e, melhor ainda, recolocou o PIB a um nível normal como se não tivesse havido o buraco nas contas provocado pela II Guerra Mundial. Com o Japão foi mais ou menos o mesmo. Nós estamos quase há quarenta anos a tentar construir um país verdadeiramente moderno. Como é que eles conseguiram?

A resposta é tão simples que se torna desarmante: porque os alemães trabalharam para isso; recuperaram o país; recuperaram o prestígio; voltaram a exportar em força; e são há muitos anos o motor da Europa. O segredo da Alemanha é o povo alemão.

O segredo de Portugal é o povo português

Da mesma maneira, o segredo de Portugal é o povo português. Aliás Portugal não tem problemas. Quem tem problemas são os portugueses. Ou seja: eu; você; a pessoa que está sentada ao seu lado; o senhor que está na praia a gozar (com) o atestado médico. Se queremos resolver os nossos problemas, temos que mudar os portugueses. Já tentámos mandá-los para a Alemanha, mas não resultou. É preciso tentar algo mais: precisamos de transformar os portugueses em alemães.

Numa altura de semifalência do país, num quadro de quase rotura social, em que somos forçados a pedir ajuda externa porque não fomos capazes de resolver os nossos problemas (a intervenção do FMI não é económica, é política), o que propõem os nossos principais partidos?

Apresentam muitas medidas legislativas, o que é normal, alguma reorganização do Estado, o que pode ser bom, algum espírito de poupança, que carece de verificação. E com tudo isto esperamos ter um Estado mais magrinho, mais eficiente, o que é ótimo. Mas o problema não é o povo português?

Como é que se mudam os portugueses? Os nossos governantes gostariam de o fazer por decreto, mas esse expediente também já foi tentado. Há-de haver outra maneira de transformar os portugueses em alemães.

Há muitos anos que nos dizem que o segredo está na escola. A fazer fé nisso mandamos os nossos filhos para a escola. Mas ao fim de alguns anos, eles continuam portugueses. Vamos lá falar com os professores, que por acaso são portugueses, e eles dizem que isso não é possível porque os pais são portugueses. E não é que têm razão? Então a quem nos podemos queixar? Ao Governo, claro, afinal eles mandam nos portugueses. Se formos perguntar ao primeiro-ministro porque não somos alemães, ele responde-nos de forma muito portuguesa que temos toda a razão e para não nos preocuparmos porque ele está a preparar um pacote de medidas que incluem um pedido de ajuda à União.

Na era dos computadores, qualquer criança, mesmo portuguesa, sabe que lá dentro é o software que faz as coisas acontecerem. E que existe um sistema operativo, que é como a nossa forma de pensar, e existem as aplicações que são o nosso conhecimento em cada área. Como os alemães são bons em tecnologia talvez a informática nos salve.

O sistema operativo dos países é a cultura

Na Sociedade do Conhecimento, o sistema operativo dos países é a cultura. Não, não é essa Cultura, não deixem de ler já o texto. Para bem da nossa relação de escrivão/leitor convém esclarecer uma pequena grande confusão: a Cultura é tudo o que está ligado à atividade e existência humana. O que não é Cultura é Natureza (embora a própria Natureza também tenha a sua cultura). Dentro da Cultura existe um pequeno espaço mas muito importante que são as Artes. Quando falamos em cultura portuguesa estamos a referir-nos à música da Amália, aos livros do Saramago, ou aos quadros do Cargaleiro (que na verdade são as Artes), mas também ao cozido à portuguesa, à moda, à célebre pontualidade, às anedotas dos alentejanos, à forma como gozamos feriados que não fazemos a mínima ideia para que servem ou à relação com o trabalho dos portugueses, também conhecida por cultura empresarial. Se o acordo ortográfico estivesse atualizado, o nosso Ministério da Cultura deveria chamar-se Ministério das Artes.

No grande baú das Artes cabe aquilo que de melhor existe na atividade material e imaterial dos povos. Pode assumir a forma convencional de um livro ou pode ser um poema num blogue banal. A Arte é muito importante para a Cultura, e ao mesmo tempo para todos nós, porque é – ou deveria ser – a componente mais dinâmica da sociedade, é o farol que aponta novos caminhos, que influencia e ajuda à mudança da sociedade.

Porque é que as pessoas vão à Ópera? Bem, porque lhes ofereceram os bilhetes ou porque gostam – e a fruição é muito importante na Arte –. Mas socialmente as pessoas saem mais enriquecidas quando os espectadores do Teatro São Carlos, do Cinema King ou do Teatro da Comuna experienciam vanguarda, tendo acesso a novas linguagens, novas abordagens ou novas técnicas; ou quando assistem a obras que fazem um retrato de nós mesmos enquanto pessoas ou grupos, para nos vermos espelhados no ecrã, ironizados no palco ou simbolizados na tela. Esta aprendizagem é extremamente importante para nos alargar a esfera de conhecimento, para nos ajudar a construir mais opções, para nos enriquecer com outros pontos de vista, para nos manter despertos para esta fantástica aventura que é a vida. Como nenhuma outra manifestação humana, a Arte prepara-nos para a mudança, e só por isso merece toda a nossa atenção. Com a Arte, grosso modo, a vanguarda dá-nos o futuro e a reflexão dá-nos o passado e o presente.

E o que propõe os nossos principais partidos para mudar a cultura portuguesa, logo os portugueses? Querem comprar submarinos! Querem construir monólitos estáticos e conservadores, que serve para tudo menos para o que são precisos. O PSD pretende ‘concluir a rede de bibliotecas iniciada em 1986’. O mundo está a sair do papel, está a haver uma revolução digital que permite criar e ter acesso ao conhecimento de forma fácil e muito barata, e o próximo governo quer gastar milhões em bibliotecas que poderão não ter futuro. O que vai acontecer à literatura com a banalização dos tablets? A produção literária será a mesma? Irá acontecer à edição livreira o mesmo que aconteceu à edição musical? E a leitura será a mesma? Ou será que estão a pensar transformar as bibliotecas em centros de Conhecimento, espaços dinâmicos com conteúdos atraentes e estratégias bem definidas e sólidas para mudar os portugueses? Sobre isso nem uma palavra, pelo que ficamos com as Bibliotecas como depósito de livros. Parece que a ideia é evitar a heresia de o Cavaco ter uma obra inacabada. O PS vai mais longe. Vai tão longe que não sabemos bem onde irá. O PS ‘promoverá’, ‘apoiará’, ‘defenderá’. Tudo vai ser maior e grandioso. Ou seja, com o dinheiro que temos ‘na mesma tudo ficará’.

O problema dos "bons alunos"

Não estamos a falar de alimentar marginais e subsídio-dependentes. Estamos a falar de um projeto nacional ambicioso que se destina a converter os portugueses em alemães. E isso não vai lá com Queijo da Serra. Nesta fase do campeonato do nosso desenvolvimento, o país não se safa mais com a história do bom aluno. O ‘bom aluno português’ fica para a História como o país que faz tudo o que lhe mandam, mas quando o professor se distrai começa a copiar pelos outros, a inventar atestados médicos, a simular desculpas para ter dispensa de exame. O ‘bom aluno’ faz o que lhe mandam, revelando toda a essência do seu espírito católico centenário. O problema é que quando os professores vão embora não fica ninguém para lhe dizer o que é preciso fazer. Que fique claro: Portugal têm um problema financeiro, porque tem um problema económico, porque tem um problema de produção (económica, social, familiar, etc), porque tem um problema cultural.

Esqueçam as estatísticas. O país vive deprimido com os rankings do nosso descontentamento. O objetivo nacional nº1 deve ser: acabar com a maledicência. Se o fizermos iremos recuperar uma avaliação correta da realidade, desenvolveremos a nossa autoestima, pode ser que deixemos de inventar desculpas para nos desresponsabilizarmos, e pode ser que voltemos a acreditar.

Uma visão política moderna e inteligente poderia ajudar-nos a subir mais depressa alguns degraus do nosso desenvolvimento. O que poderia começar com a extinção do Ministério das Artes e impor o Ministério do Conhecimento, onde ficariam agrupadas as áreas da Educação, do Ensino Superior, da Ciência, da Cultura, do Património e da Comunicação Social.

Em Portugal existe a ideia peregrina de que as crianças vão para a escola, sacam o canudo e ficam doutores para a vida toda. Essa é a maior perversão, o mais erro da nossa cultura. O Conhecimento dos profissionais e dos cidadãos é uma obrigação para sempre. A escola dá-nos uma base mental para continuarmos a aprender. Mas a grande aprendizagem da vida é feita nas empresas e nas organizações, no contacto direto com a realidade, mas também nos media que nos entra pela casa dentro.

Se eu fosse alemão…

Se eu fosse alemão, começaria por pedir um canal de televisão nacional para mudar os portugueses. Ou será que podemos confiar na responsabilidade, no sentido de equilíbrio e de bom senso dos operadores privados?
Propor a privatização de um canal da RTP para poupar uns milhões no orçamento, como faz o PSD, mas é um erro para o desenvolvimento. Da mesma forma que manter este status quo em que os debates políticos – e já representam uma grande evolução em relação a um passado recente – são a razão de ser do serviço público, como parece propor o PS, é outro erro.
O enorme poder comunicacional da televisão deve ser usado para influenciar as pessoas, para mudar os comportamentos, para estimular as virtudes e a energia de um povo. As pessoas não são bunkers inexpugnáveis, elas pensam e reagem em função do caldo de cultura em que estão imersas. Para um Governo que sabe o que quer, a televisão não é uma ameaça, é uma oportunidade.

Os nossos governantes e os programadores dos canais públicos têm como atenuante o facto de não haver uma discussão profunda a este nível em Portugal. Para além dos fóruns de circunstância com as suas propostas redondas, não existe uma doutrina ambiciosa, uma estratégia corajosa ou um pensamento inovador construtivo. É muito irónico que na era da internet, ninguém sabe o que pensar das tecnologias que dominam as nossas vidas.

É um assunto que merece muita discussão que não cabe agora aqui, mas queria deixar algumas ideias: precisamos de um canal de cariz populista com todos os conteúdos que o povo gosta – reality show, contest show, telenovelas, etc – para ter audiências, mas com conteúdos, personagens, situações que direta ou indiretamente ajudam as pessoas a evoluir; por outro precisamos de outro canal que comunique com as elites, com um discurso diferente, mais profundo, que dê a informação racional e emocional que os decisores e os responsáveis precisam. Não é a anarquia com sabor a restos da atual RTP2, é uma estratégia de desenvolvimento humano assente em conteúdos televisivos, por isso necessariamente apelativos.

Os artistas são os responsáveis pela arte que se produz em Portugal

E que política para as Artes? A mais importante de todas é dizer que os artistas são os principais responsáveis pela Arte que se produz em Portugal. Claro que existem sectores que, pela sua complexidade técnica ou pela escassez de públicos, exigem uma grande presença do Estado. E quando o Estado sai de cena… cai o pano. Mas é importante abandonarmos uma cultura de desresponsabilização para evoluirmos para uma cultura de responsabilidade social. E isso quer dizer que ninguém deve ter a pretensão de dizer a um artista que obra ele deve fazer. Mas temos a obrigação de perguntar aos artistas, e sobretudo àqueles que são apoiados pelo Estado, qual é o seu contributo para a Arte tendo em consideração a realidade em que vivemos.

Como é que valorizamos esse ‘contributo’? Aqui chegamos às grandes decisões. É consensual dizer que o valor mais importante da Arte é a sua diversidade. Um dos grandes problemas da Arte em Portugal é que andamos muitas vezes a fazer o mesmo filme, a escrever o mesmo livro. Mudam as personagens, mas o olhar é o mesmo.

Mais complicado, mas mais urgente, é dizer também que as políticas e até o nosso juízo das obras de arte devem privilegiar a vanguarda e a reflexão. Devemos reconhecer a busca incessante e incansável de novas estéticas e novos conceitos assim como a forma demolidora como descobrimos através de uma obra uma parte de nós mesmos. Quando um júri analisa centenas de guiões ou quando um comissário aposta num artista para a exposição de Verão, tem que fazer escolhas. Muitas vezes escolhem o mais fácil: o nome que vagueia pela imprensa; a obra que colecionou mais prémios. É fácil justificar a escolha. Mas convém nunca esquecer que desde que Marcel Duchamps expôs um urinol numa galeria, a Arte é uma ideia. E isso já foi em 1919.

As políticas de cultura devem ter ainda outra dimensão. Faz parte da cultura portuguesa que os públicos não gostam dos artistas sérios, na mesma proporção que os artistas sérios não gostam dos públicos. Os jornais estão repletos de afirmações infelizes neste sentido. Uns não se consideram merecedores da atenção dos outros. Esta desavença civilizacional é na verdade pobreza cultural.

É imperioso que a Arte comunique mais com o País. A Arte deve sentir-se desejada (pelos públicos), mas como qualquer mulher inteligentemente bonita sabe também precisa de se insinuar (aos públicos).
É para isso que vale a pena meter debaixo do mesmo chapéu a Educação, a Ciência e a Cultura. É aqui que vale a pena apostar tudo. É este interface que os meios de serviço público devem liderar, criando pontos de contacto em que a Economia e a Arte se possam cruzar, traçar caminhos e fazer casamentos de proveito mútuo. Na Sociedade do Conhecimento empresários e artistas estão condenados a trabalhar em conjunto. Só um exemplo que faz realmente a diferença: todos os cientistas e artistas apoiados pelo Estado devem ser obrigados a fazer exposições, palestras ou workshops em todo o tipo de escolas.

Muito mais há para dizer. Para já esqueçam a ideia aberrante de querermos ser todos alemães. Convém nunca esquecer que a maior parte deles passa o ano a poupar para vir passar férias a Portugal.

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