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	<title>argumentistas.org &#187; Actual</title>
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	<description>Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos</description>
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		<title>Alexandre Valente e o seu &#8220;Second Life&#8221;</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Mar 2009 23:43:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Daniel Ribas</dc:creator>
				<category><![CDATA[Actual]]></category>
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		<category><![CDATA[alexandre valente]]></category>
		<category><![CDATA[cinema português]]></category>
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		<description><![CDATA[Entrevista com Alexandre Valente, realizador de «Second Life» a pretexto da estreia comercial do filme. Uma conversa sobre o cinema da Utopia Filmes e do seu modelo para o cinema português.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='series_toc'><h3>Índice: Revista#2</h3><ol><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/editorial-revista-apad-2/' title='Editorial &#8211; Dossier APAD 2'>Editorial &#8211; Dossier APAD 2</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/nuno-artur-silva-sobre-as-pf/' title='Nuno Artur Silva sobre as PF'>Nuno Artur Silva sobre as PF</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/adriano-luz-sobre-a-casa-da-criacao/' title='Adriano Luz sobre a Casa da Criação'>Adriano Luz sobre a Casa da Criação</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/nuno-bernardo-sobre-a-beactive/' title='Nuno Bernardo sobre a beActive'>Nuno Bernardo sobre a beActive</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/empresas-de-guionistas-directorio/' title='Empresas de guionistas &#8211; directório'>Empresas de guionistas &#8211; directório</a></li><li>Alexandre Valente e o seu &#8220;Second Life&#8221;</li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/relatorio-mckee/' title='Relatório McKee'>Relatório McKee</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/kaufman-vs-mckee/' title='Livros: Kaufman vs. McKee'>Livros: Kaufman vs. McKee</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/sobre-os-direitos-de-autor-do-argumentista/' title='Sobre os Direitos de Autor do Argumentista'>Sobre os Direitos de Autor do Argumentista</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/the-day-the-earth-stood-still-analise-comparativa/' title='The Day the Earth Stood Still: Análise Comparativa'>The Day the Earth Stood Still: Análise Comparativa</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/italiano-para-principiantes/' title='Italiano para Principiantes: uma luminosa lição de simplicidade narrativa'>Italiano para Principiantes: uma luminosa lição de simplicidade narrativa</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/faust/' title='Faust'>Faust</a></li></ol></div> <hr />
<p>
<em>No final de Janeiro, esteou nas salas &laquo;Second Life&raquo;, um projecto da Utopia Filmes e do produtor Alexandre Valente. Depois de &laquo;Corrup&ccedil;&atilde;o&raquo; e de &laquo;O Crime de Padre Amaro&raquo;, Alexandre Valente resolveu assumir o comando da realiza&ccedil;&atilde;o. Pretexto suficiente para uma entrevista onde se fala dos ingredientes mais significativos do filme.</em></p>
<p><img width="363" height="243" alt="alexandrevalente" src="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/alexandrevalente.jpg" title="alexandrevalente" class="alignnone size-full wp-image-452" /></p>
<p><strong>APAD &#8211; De que trata o filme?</strong> Alexandre Valente &#8211; O filme &eacute; uma reflex&atilde;o de vida, trata sobre a consci&ecirc;ncia das nossas decis&otilde;es sobre o nosso destino nesta viagem de vida que deve ser vivida com felicidade.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Quando surgiu a id&eacute;ia? Em que medida este &eacute; um projeto autobiogr&aacute;fico?</strong> AV &#8211; A ideia surgiu em 14 de Dezembro de 2007 e foi escrita uma scaletta por mim em apenas uma noite, resultado de 40 anos em espera. Autobiogr&aacute;fico sim, espero que abrangente a todos n&oacute;s.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Apesar de ser um projeto pessoal esta hist&oacute;ria tem alguns dos ingredientes que fizeram os anteriores sucessos da Utopia Filmes. Quais s&atilde;o esses ingredientes para se conseguir bons n&uacute;meros de bilheteira?</strong> AV &#8211; Os ingredientes nos filmes s&atilde;o t&atilde;o necess&aacute;rios quanto os actores, os t&eacute;cnicos, as c&acirc;maras, o som. N&atilde;o se podem nunca separar da ambi&ccedil;&atilde;o de um projecto. Quanto a mim os ingredientes &eacute; estar atento &agrave;quilo que o p&uacute;blico quer&#8230; O p&uacute;blico tem!</p>
<p><strong>APAD &#8211; Como foi o processo de escrita? Houve v&aacute;rias vers&otilde;es e v&aacute;rias reescritas? Em que medida a hist&oacute;ria inicial se transformou numa hist&oacute;ria diferente, e porqu&ecirc;?</strong> AV &#8211; O processo de escrita foi muito saud&aacute;vel: todo motorizado por mim e aberto a todos os meus colaboradores e amigos que quiseram apreciar, participar, dentro da estrutura que eu tinha idealizado. A hist&oacute;ria &eacute; diferente logo pela estrutura que eu tinha pensado no inicio.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Em que medida &eacute; que os actores e a rodagem mudaram a vers&atilde;o final do gui&atilde;o? Respeitaram escrupulosamente o texto ou foram introduzindo mudan&ccedil;as de acordo com as oportunidades? Em que medida &eacute; que o final cut &eacute; diferente da ultima vers&atilde;o do gui&atilde;o?</strong> AV &#8211; Como &eacute; sabido o argumento &eacute; sempre alvo de um processo de destrui&ccedil;&atilde;o desde o momento em que passa do papel para o processo industrial de fazer um filme, seja em que fase se considerar, desde a prepara&ccedil;&atilde;o onde os d&eacute;cores e os actores apresentados e ou disponiveis, mudam desde logo o script; depois na rodagem onde cada um dos actores interpreta o personagem que construiu, a ilumina&ccedil;&atilde;o e as condicionantes de toda uma rodagem nos obrigam a tomar decis&otilde;es de improviso sobre o mesmo script, at&eacute; ao momento em que nos deparamos com todo o script subdividido em cenas v&aacute;rias na mesa de montagem, que nos convida a testar possibilidades e a tomar decis&otilde;es que por vezes nem por sombra, se aproximam do argumento inicial. Tudo isto fruto de uma liberdade criativa que qualquer ser inteligente deve experimentar. O caso particular do Second Life &eacute; um exemplo vivo dessa destrui&ccedil;&atilde;o do argumento original, pois mudei, troquei, fiz e refiz tudo em todas as fases para chegar ao actual alinhamento final onde tudo faz sentido hoje e nem por sombras estava espelhado no argumento incial nem t&atilde;o pouco no de inicio de filmagens.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Como foi para o produtor Alexandre Valente estar do outro lado da barricada, a escrever e a realizar? Foi dif&iacute;cil conciliar os diferentes papeis?</strong> AV &#8211; Sempre me considerei um realizador, autor, em todos os projectos que fiz, mas na sombra. A produ&ccedil;&atilde;o por ser o sector mais abrangente e de maior responsabilidade de um filme, sempre me fez sentir realizado por poder contribuir com as exig&ecirc;ncias t&eacute;cnicas bem como artisticas que um filme carece, pelo que o sabor provado nesta experi&ecirc;ncia n&atilde;o foi diferente nem novidade. Tive apenas de cuidar muito bem da separa&ccedil;&atilde;o de fun&ccedil;&otilde;es no que ao aspecto financeiro se obriga num filme onde se mistura as fun&ccedil;&otilde;es. Por isso sempre respeitei o or&ccedil;amento que a gest&atilde;o financeira me disponibilizou e dentro do qual criei as melhores solu&ccedil;&otilde;es sem nunca ultrapassar o mesmo.</p>
<p><strong>APAD &#8211; O Second Life teve v&aacute;rios realizadores com diferentes experi&ecirc;ncias. Como foi o processo da realiza&ccedil;&atilde;o? Cada um estava focado em diferentes aspectos do filme? Como foi a gest&atilde;o desta equipa?</strong> AV &#8211; N&atilde;o teve v&aacute;rios, teve um consultor sem o qual o filme n&atilde;o seria o que &eacute;, e deve muito a esse mesmo consultor experiente sem o qual n&atilde;o ter&iacute;amos este filme que d&aacute; pelo nome de Nicolau Breyner. Teve um realizador t&eacute;cnico que com ele desenhei a rodagem e a decoupage do filme em termos de cobertura de ac&ccedil;&atilde;o de nome Miguel Gaud&ecirc;ncio, e teve a d&aacute;diva celestial de ter o melhor realizador de todos a quem se deve o grande m&eacute;rito deste filme, chamado de Bernardo Sassetti pois sem d&uacute;vida alguma foi com a sua contribui&ccedil;&atilde;o que o filme &eacute; o filme que &eacute; hoje. Por &uacute;ltimo teve-me a mim seja nos d&eacute;cores, na direc&ccedil;&atilde;o dos actores, da pl&aacute;stica e da montagem final conjuntamente com a acumula&ccedil;&atilde;o de todos os outros trabalhos necess&aacute;rios a um filme, atr&aacute;s referidos.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Alguns actores como Luis Figo e Jos&eacute; Carlos Malato s&atilde;o figuras publicas mas t&ecirc;m pouca experi&ecirc;ncia de representa&ccedil;&atilde;o. Como foi trabalhar com eles num outro papel? </strong>AV &#8211; Foi genial e o filme fala por si nesse campo.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Como surgiu a id&eacute;ia de ter um protagonista estrangeiro como?</strong> AV &#8211; Sendo que a Utopia &eacute; uma empresa afirmada e reconhecida em Portugal, &eacute; chegada a hora de alcan&ccedil;ar novos mercados pelo que s&oacute; com ingredientes como este se poder&aacute; desenhar o caminho para os alcan&ccedil;ar.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Como conseguiram conciliar personagens a falarem portugu&ecirc;s e ingl&ecirc;s na hist&oacute;ria?</strong> AV &#8211; E tamb&eacute;m Italiano&#8230; Tudo isso foi conciliado desde a escrita do argumento ao acompanhemento di&aacute;rio de coach com os actores.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Este &eacute; um dos primeiros projectos a ser financiado pelo FICA. Como foi o processo de atribui&ccedil;&atilde;o do fundo? Quais as virtudes que um filme ou uma produtora tem de ter para concorrer a este fundo? </strong> AV &#8211; No caso da Utopia onde o investimento do FICA &eacute; indirecto, ou seja n&atilde;o &eacute; atribuido aos projectos mas sim &agrave;s decis&otilde;es da produtora, a grande vantagem &eacute; a de alavancar projectos que sem esta mais valia n&atilde;o poderiam ser realizados em tempo.</p>
<p><strong>APAD &#8211; A Utopia Filmes caracteriza-se cada vez mais pela realiza&ccedil;&atilde;o de filmes de produtor, na melhor tradi&ccedil;&atilde;o americana.</strong> AV &#8211; N&atilde;o sei se isso &eacute; um elogio mas seja como seja, acho o modelo Americano &eacute; j&aacute; bastante experimentado em sucesso pelo que n&atilde;o perco tempo a desenhar nenhum outro quando este tem provas dadas. Apenas adapto &agrave; minha realidade.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Achas que esta &eacute; uma forma de trabalhar que faltava em Portugal?</strong> AV &#8211; Portugal est&aacute; cilindrado em tabus e f&oacute;rmulas que deve obrigatoriamente acompanhar as novas tend&ecirc;ncias e formas de trabalhar.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Qual achas que deve ser o teu papel enquanto produtor?</strong> AV &#8211; Aquele que me fizer sentir bem com a vida e com os projectos que eu decidir produzir.</p>
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		<title>Relatório McKee</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Mar 2009 23:41:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Daniel Ribas</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Dossier]]></category>
		<category><![CDATA[Robert McKee]]></category>
		<category><![CDATA[Story]]></category>

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		<description><![CDATA[O Seminário «Story» de Robert Mckee passou por Portugal em Novembro último. Manuel Pureza esteve lá e conta-nos os bastidores de o mais célebre programa de formação em guionismo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='series_toc'><h3>Índice: Revista#2</h3><ol><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/editorial-revista-apad-2/' title='Editorial &#8211; Dossier APAD 2'>Editorial &#8211; Dossier APAD 2</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/nuno-artur-silva-sobre-as-pf/' title='Nuno Artur Silva sobre as PF'>Nuno Artur Silva sobre as PF</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/adriano-luz-sobre-a-casa-da-criacao/' title='Adriano Luz sobre a Casa da Criação'>Adriano Luz sobre a Casa da Criação</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/nuno-bernardo-sobre-a-beactive/' title='Nuno Bernardo sobre a beActive'>Nuno Bernardo sobre a beActive</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/empresas-de-guionistas-directorio/' title='Empresas de guionistas &#8211; directório'>Empresas de guionistas &#8211; directório</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/alexandre-valente-e-o-seu-second-life/' title='Alexandre Valente e o seu &#8220;Second Life&#8221;'>Alexandre Valente e o seu &#8220;Second Life&#8221;</a></li><li>Relatório McKee</li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/kaufman-vs-mckee/' title='Livros: Kaufman vs. McKee'>Livros: Kaufman vs. McKee</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/sobre-os-direitos-de-autor-do-argumentista/' title='Sobre os Direitos de Autor do Argumentista'>Sobre os Direitos de Autor do Argumentista</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/the-day-the-earth-stood-still-analise-comparativa/' title='The Day the Earth Stood Still: Análise Comparativa'>The Day the Earth Stood Still: Análise Comparativa</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/italiano-para-principiantes/' title='Italiano para Principiantes: uma luminosa lição de simplicidade narrativa'>Italiano para Principiantes: uma luminosa lição de simplicidade narrativa</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/faust/' title='Faust'>Faust</a></li></ol></div> <hr />
<p>por Manuel Pureza <br />
<span style="font-size: smaller;"><em>(Manuel Pureza &eacute; assistente de realiza&ccedil;&atilde;o e realizador, tendo vencido o Primeiro Pr&eacute;mio de Cinema Universit&aacute;rio no Festival Castelo em Imagens em 2006, presidido por Lauro Ant&oacute;nio, com a curta &quot;Os Conquistadores&quot; e tendo estado presente na primeira edi&ccedil;&atilde;o do MoteLX com a curta &quot;Room/Mate&quot;. &Eacute; actualmente presidente da Uzi Filmes &#8211; associa&ccedil;&atilde;o juvenil de cinema.)</em></span></p>
<p align="justify" style="margin-bottom: 0.14in;" class="western"><img width="339" height="239" alt="mckee" src="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/mckee.jpg" title="mckee" class="alignnone size-full wp-image-456" /></p>
<p style="margin-bottom: 0.14in; text-align: left;" class="western">Em Novembro do ano que passou, Robert McKee esteve em Lisboa com o seu famoso semin&aacute;rio <em>Story</em>. Organizado em Portugal pela MixReel, o semin&aacute;rio teve lugar na Escola Superior de Comunica&ccedil;&atilde;o Social de Lisboa, tendo sido precedido por uma curta sess&atilde;o na Fnac.</p>
<p style="margin-bottom: 0.14in; text-align: left;" class="western">Foi, creio, mais do que o mero interesse de profissionais do meio que comp&ocirc;s o audit&oacute;rio onde as sess&otilde;es se realizaram. A fama de Robert McKee e do seu livro s&atilde;o transversais a muitas &aacute;reas e chega aos interessados sob diversas formas (quem n&atilde;o se lembra de Brian Cox a interpret&aacute;-lo em <em>Adaptation</em>?) e isso ficou claro no p&uacute;blico que esteve presente.</p>
<p style="margin-bottom: 0.14in; text-align: left;" class="western">A leitura (ou n&atilde;o) de <em>Story</em> <em>a prior</em>i, teve, por certo, efeitos diferentes entre quem assistiu ao semin&aacute;rio. As reac&ccedil;&otilde;es finais n&atilde;o foram consensuais precisamente por isso. H&aacute; quem tenha visto no semin&aacute;rio uma esp&eacute;cie de &ldquo;encena&ccedil;&atilde;o<em>&rdquo; ipsis verbis </em>das palavras escritas no livro; h&aacute; quem tenha visto nisso um complemento &agrave; medida. De uma maneira ou de outra, Robert McKee &eacute; uma figura incontorn&aacute;vel da escrita de argumento e o seu livro uma boa reflex&atilde;o sobre os modelos aristot&eacute;licos.</p>
<p style="margin-bottom: 0.14in; text-align: left;" class="western">Deixando claro que n&atilde;o apresenta uma f&oacute;rmula com essa sua reflex&atilde;o, mas que antes faz uma esp&eacute;cie de levantamento das formas intr&iacute;nsecas aos v&aacute;rios tipos de narrativas, o autor divide este seu semin&aacute;rio em tr&ecirc;s dias, sendo o primeiro centrado na ideia do &ldquo;escritor e a arte da hist&oacute;ria&rdquo;, come&ccedil;ando com um <em>breakdown</em> do conceito de estrutura, e da maneira como ela varia e responde a circunst&acirc;ncias, personagens, g&eacute;neros e sentidos. A tabela de conte&uacute;dos para este dia oferecia outros pontos de interesse mais abstractos que n&atilde;o foram de todo inclu&iacute;dos na apresenta&ccedil;&atilde;o, ou que de certa maneira ficaram demasiado dilu&iacute;dos num discurso j&aacute; quase mec&acirc;nico e autom&aacute;tico (recorde-se que <em>Story</em> come&ccedil;ou por ser apresentado sobre a forma de semin&aacute;rio em 1983). O segundo dia de semin&aacute;rio aprofundava a no&ccedil;&atilde;o dos elementos da estrutura, como &ldquo;os princ&iacute;pios da constru&ccedil;&atilde;o de uma hist&oacute;ria&rdquo;, sendo salientadas as no&ccedil;&otilde;es: dos tr&ecirc;s actos e sua constru&ccedil;&atilde;o, das cenas, de composi&ccedil;&atilde;o, crise, cl&iacute;max e resolu&ccedil;&atilde;o, e antagonismos. O terceiro dia fechava as no&ccedil;&otilde;es intr&iacute;nsecas &agrave; estrutura, refor&ccedil;ando a ideia de constru&ccedil;&atilde;o da personagem, que vagueia por um mundo de for&ccedil;as em oposi&ccedil;&atilde;o que geram problemas e uma procura de solu&ccedil;&otilde;es. O semin&aacute;rio fechou com a an&aacute;lise cena a cena do filme <em>Casablanca</em>, considerado por McKee como o mais brilhante script alguma vez escrito para a tela, sendo sabido, no entanto, que muitos cr&iacute;ticos apontam o filme como n&atilde;o tendo tido nunca um script pr&eacute;-definido e que tudo era feito numa base de trabalho di&aacute;rio de altera&ccedil;&otilde;es substanciais, como se pode comprovar na sec&ccedil;&atilde;o de <em>trivia</em> do <em>Internet Movie Database</em> (IMDB).</p>
<p style="margin-bottom: 0.14in; text-align: left;" class="western">Estruturado desta forma, o semin&aacute;rio &eacute;, sobretudo, uma oportunidade de reflex&atilde;o conjunta com quem se dedicou, de facto, a uma vida de an&aacute;lise e cogita&ccedil;&atilde;o sobre escrita de argumento. Por um lado essa reflex&atilde;o conjunta sai, para alguns, posta em causa a partir do momento em que se nota um &ldquo;piloto autom&aacute;tico&rdquo; por detr&aacute;s de toda a apresenta&ccedil;&atilde;o dos conte&uacute;dos. A adaptabilidade dos conceitos a exemplos de novos filmes ou a novas reflex&otilde;es sobre a verdadeira contemporaneidade da crise narrativa mundial trariam, por certo, novas reac&ccedil;&otilde;es e conclus&otilde;es a quem faz este semin&aacute;rio. Por outro lado, a oportunidade de ultrapassar a mera leitura destas &ldquo;ideias sobre escrever&rdquo; para uma discuss&atilde;o pr&aacute;tica com algu&eacute;m que &eacute;, sobretudo, inspirador no seu <em>approach</em> &eacute; algo que n&atilde;o s&oacute; se acrescenta ao curriculum e tem o valor que tem, como deixa em quem se contagia com estas coisas, a vontade de escrever.</p>
<p style="margin-bottom: 0.14in; text-align: left;" class="western">Robert McKee, n&atilde;o sendo de todo o g&eacute;nero de pedagogo que aproveita o di&aacute;logo com o aluno ou a interactividade, porque de facto ele &eacute; tal e qual a sua interpreta&ccedil;&atilde;o no filme de Charlie Kaufman (a palavra <em>fuck</em> entrou no discurso variad&iacute;ssimas vezes e os berros autorit&aacute;rios calaram quem tecia coment&aacute;rios), &eacute; um sistematizador nato. O trabalho de restauro e reciclagem feito por ele aos princ&iacute;pios aristot&eacute;licos centra-se na compartimenta&ccedil;&atilde;o de conceitos em linhas orientadoras poss&iacute;veis e n&atilde;o numa matem&aacute;tica estanque, pr&oacute;pria de, por exemplo, Syd Field ou noutra perspectiva Lew Hunter. &Eacute; nesse cen&aacute;rio de possibilidade, de hip&oacute;tese destas formas constru&iacute;do por McKee que toda a sua teoria se desenrola.</p>
<p style="margin-bottom: 0.14in; text-align: left;" class="western">A import&acirc;ncia deste semin&aacute;rio, no meu entender vai muito ao encontro da ideia de <em>empowerment,</em> na perspectiva de contacto directo com um perito e suas teorias. Num cen&aacute;rio em que a n&iacute;vel mundial, as narrativas, segundo consta, est&atilde;o em crise, creio n&atilde;o poder dizer-se que o cinema portugu&ecirc;s, ou as suas hist&oacute;rias, estejam inclu&iacute;dos neste enorme lugar comum. Toda a generaliza&ccedil;&atilde;o &eacute; perigosa, sobretudo numa altura em que &agrave; dicotomia entre o cinema europeu e o americano, come&ccedil;a a acrescentar-se uma enorme e valorosa produ&ccedil;&atilde;o asi&aacute;tica, cada vez mais reconhecida. Enquadramos tamb&eacute;m essa produ&ccedil;&atilde;o em crescendo num cen&aacute;rio de crise? Ou haver&aacute; no Oriente novas hist&oacute;rias? Ou n&atilde;o ser&atilde;o as hist&oacute;rias do Oriente hiper humanas nas sensa&ccedil;&otilde;es que perpassam nas personagens, mas ao mesmo tempo carregadas de elementos visuais novos e ind&iacute;genas? N&atilde;o creio que em Portugal se esteja a um n&iacute;vel de crise. Se um homem n&atilde;o tiver dinheiro e n&atilde;o precisar dele, a crise econ&oacute;mica afecta-o? Mais que pensarmos de antem&atilde;o que nos enquadramos num cen&aacute;rio de decad&ecirc;ncia dos her&oacute;is, ou das hist&oacute;rias, do panorama/cen&aacute;rio em que j&aacute; tudo foi contado, devemos aprender a contar hist&oacute;rias, um dos h&aacute;bitos mais ancestrais da exist&ecirc;ncia humana, mas igualmente um dos mais dif&iacute;ceis. Essa aprendizagem deve ser feita nunca esquecendo que &eacute; na circunst&acirc;ncia em que vivemos, Portugal, s&eacute;culo XXI, que se encontra a novidade para quem n&atilde;o &eacute; de c&aacute;, mas tamb&eacute;m o denominador comum das emo&ccedil;&otilde;es humanas que faz com que quem v&ecirc;, l&ecirc; ou ouve a hist&oacute;ria, possa ter ao mesmo tempo surpresa nos elementos portugueses e identifica&ccedil;&atilde;o com o factor humano que est&aacute; na tela.</p>
<p style="margin-bottom: 0.14in; text-align: left;" class="western">Em Portugal temos, segundo penso, de estar mais pr&oacute;ximos de todas as teorias que, de uma maneira ou de outra, libertaram criadores, deram suporte a escritores, realizadores ou at&eacute; mesmo produtores. A especificidade da escrita para o cinema requer de quem o fa&ccedil;a um conhecimento actual de todo um processo evolutivo do pensar as hist&oacute;rias, partindo de Arist&oacute;teles, passando por Campbell e o seu <em>The Hero With a Thousand Faces</em>, at&eacute; Vogler com <em>The Writer&rsquo;s Journey</em> (de resto sendo este uma reflex&atilde;o sobre o trabalho de Campbell), passando por Mamet, Field e Mckee com <em>Story</em>.</p>
<p style="margin-bottom: 0.14in; text-align: left;" class="western">Conclus&otilde;es &agrave; parte, este semin&aacute;rio, para o bem da consci&ecirc;ncia art&iacute;stica e de <em>craft</em> de cada interessado, devia tomar posi&ccedil;&atilde;o como o primeiro de muitos outros dos mais diversos quadrantes de cria&ccedil;&atilde;o para cinema e n&atilde;o s&oacute;. N&atilde;o podemos ter medo de assumir que &agrave;s vezes, livros como <em>Story</em> s&atilde;o, de facto, bons &ldquo;comprimidos de adrenalina&rdquo;, como o comprova a pr&oacute;pria propaganda de McKee ao enunciar a quantidade de alunos seus (de Kirk Douglas a John Cleese) que vingaram como <em>screenwriters</em>.</p>
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		<title>Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica</title>
		<link>http://argumentistas.org/2008/10/pedro-marta-santos-ainda-nao-somos-uma-profissao-somos-uma-perturbacao-neurotica/</link>
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		<pubDate>Sat, 11 Oct 2008 17:04:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Nunes</dc:creator>
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		<category><![CDATA[A vida privada de Salazar]]></category>
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		<category><![CDATA[Pedro Marta Santos]]></category>
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		<description><![CDATA[Pedro Marta Santos é o guionista do momento: em breve estrearão dois projectos de sua autoria: o muito aguardado biopic sobre Amália Rodrigues (”Amália”) e uma série televisiva dedicada à figura de Salazar (”A Vida Privada de Salazar”). Os dois projectos são ingredientes suficientes para uma conversa interessante.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='series_toc'><h3>Índice: Revista#1</h3><ol><li>Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica</li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/nuno-markl-a-comedia-e-um-organismo-vivo/' title='Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo'>Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/rui-vilhena-e-preciso-criar-historias-com-que-as-pessoas-possam-se-identificar/' title='Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar'>Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/antonio-ferreira-um-guiao-e-como-uma-lista-de-compras/' title='António Ferreira: um guião é como uma lista de compras'>António Ferreira: um guião é como uma lista de compras</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/tiago-santos-como-ganhar-a-vida-numa-profissao-que-nao-existe/' title='Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe'>Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/jorge-vaz-nande-devemos-sempre-olhar-para-a-nigeria/' title='Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria'>Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/perfil-neil-labute-matem-o-dramaturgo/' title='Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo'>Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/dexter-o-mundo-ao-contrario/' title='Dexter: o mundo ao contrário'>Dexter: o mundo ao contrário</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/my-blueberry-nights-o-neon-da-paixao/' title='My Blueberry Nights: o néon da paixão'>My Blueberry Nights: o néon da paixão</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/sex-and-the-city-teorias-e-conspiracoes-sobre-a-comedia-romantica/' title='Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica'>Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/the-servant-parasitas-da-alma/' title='The Servant: parasitas da alma'>The Servant: parasitas da alma</a></li></ol></div> <p><em><a href="http://www.imdb.com/name/nm1503364/">Pedro Marta Santos </a>&eacute; o guionista do momento: em breve estrear&atilde;o dois projectos de sua autoria. O primeiro &eacute; muito aguardado biopic sobre Am&aacute;lia Rodrigues (&rdquo;Am&aacute;lia&rdquo;) e o segundo &eacute; uma s&eacute;rie televisiva dedicada &agrave; figura de Salazar (&rdquo;A Vida Privada de Salazar&rdquo;). Os dois projectos s&atilde;o uma produ&ccedil;&atilde;o da VC Filmes, uma nova divis&atilde;o da Valentim de Carvalho liderada por Manuel S. Fonseca. Tudo ingredientes suficientes para uma conversa interessante.</em></p>
<p><a href="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/pedro-marta-santos-foto.jpg"><img width="500" height="400" class="size-full wp-image-194" title="pedro-marta-santos-foto" alt="O guionista Pedro Marta Santos" src="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/pedro-marta-santos-foto.jpg" /></a>&nbsp;</p>
<h2>Sobre &ldquo;Am&aacute;lia&rdquo;</h2>
<p><strong>APAD &#8211; Como surgiu um projecto t&atilde;o marcante como o biopic sobre Am&aacute;lia?</strong></p>
<p>PEDRO MARTA SANTOS &#8211; Na cabe&ccedil;a sempre atenta do Manuel Fonseca, o director da Valentim de Carvalho Filmes. Estando esta empresa associada ao Grupo Valentim de Carvalho, detentor dos direitos musicais de uma vasta discografia amaliana, a pergunta para n&oacute;s foi: como n&atilde;o o fazer?</p>
<p><strong>APAD</strong><strong> &#8211; Sentiu o peso da responsabilidade ao escrever um gui&atilde;o sobre uma figura nacional?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Senti, provavelmente como um argumentista grego sentiria ao escrever um gui&atilde;o sobre Maria Callas. Como diria o Alvin Sargent ( guionista de seis dos melhores filmes norte-americanos dos &uacute;ltimos 40 anos &ndash; &ldquo;&rdquo;Straight Time&rdquo;, &ldquo;Julia&rdquo;, Bobby Deerfield&rdquo;, &ldquo;Paper Moon&rdquo;, &ldquo;I Walk the Line&rdquo; e &ldquo;Stalking Moon&rdquo; &ndash; e autor dum filmezinho oculto chamado &ldquo;Homem-Aranha 2&rdquo;), &ldquo;com o grande poder vem a grande responsabilidade&rdquo;.<br />
O potencial poder comunicativo de um filme sobre Am&aacute;lia &eacute; imenso, mas a responsabilidade &eacute; ainda maior.</p>
<p><strong>APAD</strong> <strong>- Como foi a organiza&ccedil;&atilde;o narrativa de uma hist&oacute;ria t&atilde;o grande e diversificada? Quais foram os pontos chave para estruturar o gui&atilde;o?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Depois de quatro meses a ler todas as notas de rodap&eacute;, ver todas as imagens e escutar todas as grava&ccedil;&otilde;es actualmente dispon&iacute;veis sobre &ndash; e com &ndash; Am&aacute;lia Rodrigues, surgiram de forma natural duas ou tr&ecirc;s linhas de for&ccedil;a, ideias recorrentes impressas na vida e palavras da Am&aacute;lia: a sua personalidade exterior procurava sempre a alegria, mas encontrava quase sempre a solid&atilde;o; a dimens&atilde;o popular de Am&aacute;lia foi, em grande medida, um sistema de fuga a uma dimens&atilde;o interior marcada pelo isolamento; e, a sintetizar, a Am&aacute;lia-mulher era solar, viva, de resposta sempre pronta, mas acabava por cair num &ldquo;looking for love in all the wrong places&rdquo;.<br />
Encontrada a chave do conceito, o resto tornou-se mais f&aacute;cil.</p>
<p><strong>APAD</strong> <strong>- Como decidiu as personagens da vida de Am&aacute;lia que deviam entrar e as que deviam ficar de fora?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Nalguns casos, atrav&eacute;s da regularidade e intensidade com que a pr&oacute;pria Am&aacute;lia falava delas ao longo dos anos. Noutros casos, pela intui&ccedil;&atilde;o da for&ccedil;a dramat&uacute;rgica que algumas delas poderiam desempenhar em pontos decisivos do conflito.<br />
Nas primeiras vers&otilde;es, havia figuras apaixonantes (Rui Valentim de Carvalho, Alberto Janes, Frederico Val&eacute;rio) que tivemos de reduzir ou, simplesmente, anular pela reduzida potencialidade dram&aacute;tica no quadro da hist&oacute;ria que quer&iacute;amos contar.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Que preocupa&ccedil;&otilde;es teve com a escrita dos di&aacute;logos?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Primeiro e sempre: cumprirem a sua fun&ccedil;&atilde;o informativa no desenvolvimento da ac&ccedil;&atilde;o. Em segundo lugar: nunca se substitu&iacute;rem a ela.<br />
Por &uacute;ltimo: encontrar um registo naturalista mas envolvente, que fizesse jus &agrave; intelig&ecirc;ncia espont&acirc;nea e ao registo emocional de Am&aacute;lia.<br />
Tudo adaptado &agrave;s pequenas nuances pr&oacute;prias a cada &eacute;poca do tempo de ac&ccedil;&atilde;o (de 1920 a 1974, com um pre&acirc;mbulo-ep&iacute;logo em 1984).</p>
<p><strong>APAD</strong><strong> &#8211; Como se documentou (livros, filmes, &aacute;udios, testemunhos reais) sobre a figura?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Com voracidade conscienciosa e a ajuda da Manuela Martins, a excelente jornalista que nos ajudou a fazer o trabalho de pesquisa.</p>
<p><strong>APAD</strong> <strong>- Qual &eacute; o peso da m&uacute;sica no gui&atilde;o? Como se estrutura uma hist&oacute;ria sobre uma cantora?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Como imagina, o peso &eacute; grande. No entanto, n&atilde;o podemos ceder &agrave; pregui&ccedil;a de uma abordagem meramente ilustrativa &ndash; a voz e o g&eacute;nio de Am&aacute;lia s&atilde;o t&atilde;o claros que &eacute; um impulso tentador &ndash; como n&atilde;o podemos fazer depender a estrutura do argumento da evolu&ccedil;&atilde;o na carreira da cantora (suponho que isto servir&aacute; para qualquer &ldquo;biopic&rdquo; musical).<br />
Em &ldquo;Am&aacute;lia&rdquo;, o que nos interessou mais foi o reflexo da vida na m&uacute;sica, n&atilde;o o oposto.</p>
<p><strong>APAD</strong> <strong>- Como foi o processo de escrita? Pode-nos contar um pouco sobre os pequenos dramas di&aacute;rios da escrita do filme? Como &eacute; trabalhar em equipa?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Nem o grande Billy Wilder se considerou auto-suficiente para escrever certos projectos a solo &ndash; os seus melhores filmes como realizador/guionista s&atilde;o os que partilhou na escrita com Charles Brackett, primeiro, e I.A.L. Diamond, depois (tamb&eacute;m &eacute; verdade que acabou por se chatear com ambos).<br />
Eu e o Jo&atilde;o Tordo, conscientes da nossa fraca natureza e importantes limita&ccedil;&otilde;es, adoptamos outra estrat&eacute;gia: depois de eu escrever o tratamento, ele escreveu a primeira vers&atilde;o do gui&atilde;o. Eu escrevi a segunda vers&atilde;o sobre a dele, e ele fez o mesmo para escrever a terceira &#8211; e assim sucessivamente.<br />
Para a vers&atilde;o final, trocamos ideias como adultos e discutimos como adolescentes. Foi divertido, e o ego de ambos sobreviveu.</p>
<p><strong>APAD</strong><strong> &#8211; Como foi a rela&ccedil;&atilde;o com o realizador? Em que momentos concordaram e divergiram?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Foi &oacute;ptima. O Carlos Coelho da Silva tem um instinto forte para as solu&ccedil;&otilde;es visuais, o que facilita a vida ao argumentista. No que divergimos, n&atilde;o houve nada que um bom tinto alentejano n&atilde;o tenha resolvido a contento.</p>
<h2>Sobre &ldquo;A Vida Privada de Salazar&rdquo;</h2>
<p><strong>APAD &#8211; Como surgiu o projecto?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Das piores coisas que um argumentista pode fazer &eacute; repetir-se, mas: Uma vez mais, a ideia surgiu da mente hiper-activa do director da VC Filmes, Manuel Fonseca.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Que caracter&iacute;sticas acha mais importantes para a escrita de uma mini-s&eacute;rie televisiva?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Ter a percep&ccedil;&atilde;o da mente humana de Linda La Plante (&ldquo;Prime Suspect&rdquo; 1 a 3), o sentido do espect&aacute;culo de J.J. Abrams (&ldquo;Lost&rdquo;), o &ldquo;timing&rdquo; nas r&eacute;plicas de Aaron Sorkin (&ldquo;West Wing&rdquo;, &ldquo;Studio 60 on the Sunset Strip&rdquo;) e o entendimento da alma de Krzysztof Piesiewicz (&ldquo;Dekalog&rdquo;, a &ldquo;trilogia das cores&rdquo; de Kieslowski). Na aus&ecirc;ncia de tudo isso, &eacute; rezar para descobrir tr&ecirc;s coisas:<br />
- uma premissa &agrave; prova de bala<br />
- uma personagem principal cujos conflitos possam ser traduzidos em ac&ccedil;&atilde;o e sustentem satisfatoriamente a intriga ao longo de 180 minutos<br />
- um olhar, um ponto de vista muito espec&iacute;fico sobre os objectivos e motiva&ccedil;&otilde;es do(s) protagonista(s)</p>
<p><strong>APAD &#8211; Que ingredientes deve ter uma s&eacute;rie hist&oacute;rica</strong>?</p>
<p>PMS &#8211; O principal &ndash; e mais complexo &ndash; parece-me ser o equil&iacute;brio exacto entre factos e fic&ccedil;&atilde;o. Numa s&eacute;rie hist&oacute;rica, a realidade nunca &eacute; suficiente, mas se os factos nucleares n&atilde;o s&atilde;o respeitados, perde-se o mais importante: a verosimilhan&ccedil;a.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Que estrat&eacute;gia usou para estruturar a s&eacute;rie e os seus epis&oacute;dios?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Antes de mais, encontrar o ponto de vista: adoptamos o de Christine Garnier, a mais c&eacute;lebre &ndash; e p&uacute;blica &ndash; amante de Salazar, uma jornalista francesa que conhece o presidente do Conselho no Ver&atilde;o de 1951 e sobre ele escrever&aacute; o eleg&iacute;aco &ldquo;Mes Vacances avec Salazar&rdquo;. Na nossa fic&ccedil;&atilde;o, Christine &eacute; uma narradora omnisciente &ndash; e n&atilde;o necessariamente paneg&iacute;rica &ndash; da vida privada do ditador.<br />
Depois, foi necess&aacute;rio encontrar o tom e o ritmo da progress&atilde;o dram&aacute;tica relativamente a cada uma das figuras cruciais &ndash; mulheres, na sua maioria &ndash; no percurso do cidad&atilde;o Ant&oacute;nio de Oliveira Salazar, tomando op&ccedil;&otilde;es quanto &agrave; forma como elas se entrecruzam, e quanto &agrave; fun&ccedil;&atilde;o de &ldquo;espelho&rdquo; (reflexo de uma faceta e tempo precisos do protagonista) que cada uma delas desempenha na intriga global.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Quais s&atilde;o os pontos marcantes do gui&atilde;o? Sobre o que &eacute; a s&eacute;rie?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Os pontos marcantes s&atilde;o os que correspondem, na nossa interpreta&ccedil;&atilde;o, &agrave;s situa&ccedil;&otilde;es decisivas da vida privada do ditador: o primeiro momento em que rejeita algu&eacute;m; o primeiro momento em que &eacute; rejeitado &ndash; este definidor de todo o seu percurso futuro, inclusive no plano pol&iacute;tico; e o &uacute;nico momento em que arrisca prescindir do poder em benef&iacute;cio de uma vida familiar, mais &ldquo;normalizada&rdquo;.<br />
A s&eacute;rie lan&ccedil;a mais perguntas do que oferece respostas, mas talvez se possa dizer que &ldquo;A Vida Privada de Salazar&rdquo; &eacute; sobre a forma como um homem nega intimamente tudo aquilo que defendeu publicamente.<br />
O Salazar privado &eacute;, em certa medida, o oposto do &ldquo;orgulhosamente s&oacute;s&rdquo;.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Como trabalha para ter um leque de personagens diferenciadas?</strong></p>
<p>PMS &#8211; H&aacute; v&aacute;rias t&eacute;cnicas, e cada argumentista tem a sua. Encontrar as fraquezas de car&aacute;cter espec&iacute;ficas a cada personagem parece-me um bom princ&iacute;pio.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Teve algumas restri&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o ou realiza&ccedil;&atilde;o durante a escrita?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Nenhuma, a n&atilde;o ser o sempre desagrad&aacute;vel choque com a realidade que implica n&atilde;o ter dez milh&otilde;es de d&oacute;lares &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o para rebentar pontes e p&ocirc;r dez mil figurantes no Terreiro do Pa&ccedil;o com trajes de &eacute;poca.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Como se documentou para escrever a hist&oacute;ria?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Novamente atrav&eacute;s de todas as fontes bibliogr&aacute;ficas e videogr&aacute;ficas dispon&iacute;veis em Portugal, al&eacute;m de depoimentos de recolha pr&oacute;pria e uma pesquisa coordenada, uma vez mais, pela expedit&iacute;ssima Manuela Martins.</p>
<p><strong>APAD &#8211; A s&eacute;rie ter&aacute; alguma revela&ccedil;&atilde;o surpresa sobre a personalidade de Salazar?</strong></p>
<p>PMS &#8211; V&aacute;rias. Teremos todo o interesse e prazer em que as descubram numa noite de Novembro pr&oacute;ximo, na SIC.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Que complica&ccedil;&otilde;es surgiram no decorrer destes dois projectos? H&aacute; algum epis&oacute;dio mais caricato ou problem&aacute;tico no processo de escrita destes dois projectos?</strong></p>
<p>PMS &#8211; N&atilde;o houve qualquer complica&ccedil;&atilde;o que exceda os limites naturais de um pa&iacute;s pequeno com alguns problemas em lidar de forma clara e desempoeirada com o seu passado recente. O resto foi o Para&iacute;so.</p>
<h2>Sobre o Of&iacute;cio de ser Guionista</h2>
<p><strong>APAD &#8211; Tr&ecirc;s dicas para escrever uma boa hist&oacute;ria.</strong></p>
<p>PMS &#8211; &Eacute; um lugar-comum, mas as palavras de William Goldman no seminal &ldquo;Adventures in the Screen Trade&rdquo; ainda s&atilde;o o que de mais importante li at&eacute; hoje sobre a escrita de argumento: &ldquo;um argumento &eacute; estrutura&rdquo;.<br />
Acrescentaria: um argumento s&atilde;o tr&ecirc;s coisas &ndash; estrutura, estrutura e estrutura.<br />
Um gui&atilde;o &eacute; como um castelo de cartas. Se alguma carta est&aacute; mal disposta no conjunto, ou colocada no local errado, o castelo desmorona-se.<br />
Sem estrutura n&atilde;o h&aacute; drama. Sem drama n&atilde;o h&aacute; conflito. Sem conflito n&atilde;o h&aacute; argumento. Sem argumento n&atilde;o h&aacute; filme, e tenho que voltar ao jornalismo.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Tr&ecirc;s dicas para construir uma personagem cativante.</strong></p>
<p>PMS &#8211; Responder &agrave;s seguintes tr&ecirc;s perguntas:<br />
- O que &eacute; que esta personagem quer?<br />
- Do que &eacute; que ela tem mais medo?<br />
- Se estivesse a morrer, qual a &uacute;ltima coisa que diria (obviamente, sem ser &ldquo;Rosebud&rdquo; ou &ldquo;Fredo&hellip;&rdquo;)?</p>
<p><strong>APAD &#8211; Tr&ecirc;s dicas para construir uma cena forte.</strong></p>
<p>PMS &#8211; Entrar na cena o mais tarde poss&iacute;vel.<br />
- Sair da cena o mais cedo poss&iacute;vel.<br />
- Pelo meio, p&ocirc;r as personagens a falar o menos poss&iacute;vel.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Tr&ecirc;s dicas para escrever um bom di&aacute;logo.</strong></p>
<p>PMS &#8211; Escrever pouco (&ldquo;action is character&rdquo;, e o resto &eacute; conversa).<br />
- Como diria o s&aacute;dico Hitchcock, escrever as cenas de amor como cenas de ac&ccedil;&atilde;o e as cenas de ac&ccedil;&atilde;o como cenas de amor.<br />
- Tratar todos os di&aacute;logos como um duelo de vida ou morte (mesmo que se trate de pedir um caf&eacute; e uma torrada).</p>
<p><strong>APAD</strong> &#8211; Como &eacute; ser argumentista em Portugal?</p>
<p>PMS &#8211; &Agrave; excep&ccedil;&atilde;o das pessoas que d&atilde;o todo o seu talento e suor para permitir que existam telenovelas em Portugal prontas &agrave; velocidade da luz, n&atilde;o existem argumentistas em Portugal. Ainda n&atilde;o somos uma profiss&atilde;o, somos uma perturba&ccedil;&atilde;o neur&oacute;tica.<br />
Tento escrever gui&otilde;es de longa-metragem h&aacute; 10 anos, e neste momento tenho o rar&iacute;ssimo privil&eacute;gio de trabalhar numa estrutura onde sou tratado como um guionista. Espero que haja muitos mais rapidamente. Quanto mais houver, mais todos beneficiam do triunfo de cada um.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Como &eacute; a sua rela&ccedil;&atilde;o com produtores e realizadores?</strong></p>
<p>PMS &#8211; A melhor poss&iacute;vel. Tive a sorte de escrever filmes (alguns n&atilde;o se concretizaram por minha culpa ou devido a problemas de financiamento, outros est&atilde;o em fase de montagem financeira) para Alexandre Valente, Leonel Vieira e Ant&oacute;nio-Pedro Vasconcelos, e todos eles t&ecirc;m uma vis&atilde;o particular, mas extremamente v&aacute;lida, do que pode ser uma parte nuclear do futuro cinema portugu&ecirc;s.</p>
<p><strong>APAD &#8211; &Eacute; um guionista que n&atilde;o est&aacute; agrupado em nenhuma empresa de guionismo. Prefere o trabalho independente ou em pequenas equipas?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Em pequenas equipas. N&atilde;o no acto da escrita, que s&oacute; &eacute; funcional se for essencialmente solit&aacute;rio (da&iacute;, p. ex., a op&ccedil;&atilde;o de escrever o &ldquo;Am&aacute;lia&rdquo; a quatro m&atilde;os, mas &agrave; dist&acirc;ncia). Mas o trabalho de equipa &eacute; imprescind&iacute;vel nas v&aacute;rias fases do desenvolvimento do projecto, na pr&eacute;-produ&ccedil;&atilde;o, no acompanhamento da rodagem e nas fascinantes excita&ccedil;&otilde;es sinf&oacute;nicas da p&oacute;s-produ&ccedil;&atilde;o.<br />
&Eacute; outra das &ndash; poucas &ndash; verdades absolutas em cinema: o cinema &eacute; uma arte eminentemente colectiva.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Acha que em Portugal existe uma verdadeira ind&uacute;stria audiovisual (mesmo que pequena)?</strong></p>
<p>PMS &#8211; N&atilde;o. Mas estou convicto de que a VC Filmes lhe poder&aacute; responder de outra maneira daqui a cinco anos.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Quais s&atilde;o os seus pr&oacute;ximos projectos?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Velar pela sa&uacute;de narrativa de uma com&eacute;dia rom&acirc;ntica.</p>
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