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	<title>argumentistas.org &#187; Entrevistas</title>
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	<description>Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos</description>
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		<title>Nuno Artur Silva sobre as PF</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Mar 2009 23:46:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Daniel Ribas</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dossier]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[nuno artur silva]]></category>
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		<category><![CDATA[produções fictícias]]></category>

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		<description><![CDATA[Nuno Artur Silva é o director-geral das Produções Fictícias, a mais dinâmica e importante empresa de guionistas portuguesa. Esta é uma entrevista onde se percebe como funciona, por dentro, um colectivo de criadores.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='series_toc'><h3>Índice: Revista#2</h3><ol><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/editorial-revista-apad-2/' title='Editorial &#8211; Dossier APAD 2'>Editorial &#8211; Dossier APAD 2</a></li><li>Nuno Artur Silva sobre as PF</li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/adriano-luz-sobre-a-casa-da-criacao/' title='Adriano Luz sobre a Casa da Criação'>Adriano Luz sobre a Casa da Criação</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/nuno-bernardo-sobre-a-beactive/' title='Nuno Bernardo sobre a beActive'>Nuno Bernardo sobre a beActive</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/empresas-de-guionistas-directorio/' title='Empresas de guionistas &#8211; directório'>Empresas de guionistas &#8211; directório</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/alexandre-valente-e-o-seu-second-life/' title='Alexandre Valente e o seu &#8220;Second Life&#8221;'>Alexandre Valente e o seu &#8220;Second Life&#8221;</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/relatorio-mckee/' title='Relatório McKee'>Relatório McKee</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/kaufman-vs-mckee/' title='Livros: Kaufman vs. McKee'>Livros: Kaufman vs. McKee</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/sobre-os-direitos-de-autor-do-argumentista/' title='Sobre os Direitos de Autor do Argumentista'>Sobre os Direitos de Autor do Argumentista</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/the-day-the-earth-stood-still-analise-comparativa/' title='The Day the Earth Stood Still: Análise Comparativa'>The Day the Earth Stood Still: Análise Comparativa</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/italiano-para-principiantes/' title='Italiano para Principiantes: uma luminosa lição de simplicidade narrativa'>Italiano para Principiantes: uma luminosa lição de simplicidade narrativa</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/faust/' title='Faust'>Faust</a></li></ol></div> <hr />
<p><em><br />
Nuno Artur Silva &eacute; um dos rostos mais vis&iacute;veis das <a href="http://www.producoesficticias.pt/" target="_blank">Produ&ccedil;&otilde;es Fict&iacute;cias</a>, uma empresa exclusivamente de argumentistas que domina o mercado nacional de fic&ccedil;&atilde;o. Eis um bom pretexto para uma entrevista e para perceber como nasce, cresce e solidifica uma empresa de sucesso.</em></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-445" style="width: 426px; height: 221px;" title="entrevista_nuno_artur_silva" src="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/entrevista_nuno_artur_silva.jpg" alt="entrevista_nuno_artur_silva" /></p>
<p><strong>APAD &#8211; Pode explicar-nos como surgiram as Produ&ccedil;&otilde;es Fict&iacute;cias? Em que momento e de que forma se transformam numa empresa?</strong> Nuno Artur Silva &#8211; Eu trabalhava como freelancer, escrevendo textos para publica&ccedil;&otilde;es e teatro, por iniciativa pr&oacute;pria, a maior parte das vezes fazendo eu pr&oacute;prio de ra&iacute;z as edi&ccedil;&otilde;es e as produ&ccedil;&otilde;es. Durante v&aacute;rios anos tentei apresentar projectos &agrave; &uacute;nica esta&ccedil;&atilde;o existente, a RTP, sem &ecirc;xito. Por fim, no in&iacute;cio dos anos 90, consegui ter uma reuni&atilde;o com o Jos&eacute; Nuno Martins, na altura um dos directores da RTP2. Ele passou os meus textos para o Z&eacute; Pedro Gomes e o Miguel Guilherme, que estavam &agrave; procura de um autor para os sketches que iam fazer no programa do Joaquim Letria. Eles convidaram-me para escrever para eles (depois saiu o Miguel e entrou o Ant&oacute;nio Feio) e desde a&iacute; comecei a trabalhar regularmente para televis&atilde;o. O convite seguinte veio do Herman, ainda estava a trabalhar com o Z&eacute; Pedro e o Ant&oacute;nio. O Herman come&ccedil;ou por me convidar para fazer as aberturas de stand up do novo programa dele, o Parab&eacute;ns. Depois desafiou-me para cr&oacute;nicas de r&aacute;dio e entrevistas hist&oacute;ricas. Nesta fase j&aacute; n&atilde;o conseguia fazer tudo sozinho, ainda por cima continuando a dar aulas de Portugu&ecirc;s no liceu, e desafiei os meus amigos dos projectos de teatro e edi&ccedil;&otilde;es. O Miguel Viterbo, o Rui Cardoso Martins e o Jos&eacute; de Pina. Em 1993 come&ccedil;&aacute;mos a assinar com o nome Produ&ccedil;&otilde;es Fict&iacute;cias. A ideia inicial era fazer fic&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o s&oacute; humor. Mas os convites que apareciam, e apareciam cada vez mais nesse ano em que abriram os canais privados, eram para programas de humor. Estivemos tr&ecirc;s anos a trabalhar na casa uns dos outros, sem grande organiza&ccedil;&atilde;o. E &eacute;ramos cada vez mais: primeiro veio o Nuno Markl, depois a Patr&iacute;cia Castanheira, a Maria Jo&atilde;o Cruz, o Jo&atilde;o Quadros. Em 1996, eu deixei de dar aulas e decidi formalizar as Produ&ccedil;&otilde;es Fict&iacute;cias como empresa.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Qual &eacute; a estrutura em que assentam as PF? Pode-nos explicar o que s&atilde;o os Autores Associados?</strong> NAS &#8211; Em quinze anos as PF foram evoluindo e desenvolveram novas &aacute;reas de actua&ccedil;&atilde;o. Hoje em dia definimo-nos como rede criativa. No essencial &eacute; um modelo que vive da liga&ccedil;&atilde;o dos v&aacute;rios departamentos: Original, Ag&ecirc;ncia, New Media, J&uacute;nior, Empresas, Forma&ccedil;&atilde;o e Produ&ccedil;&atilde;o. A marca principal e o centro de actividade s&atilde;o o mesmo de sempre, a cria&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos originais e a ag&ecirc;ncia de autores e marcas.  Os autores associados s&atilde;o autores representados pelas PF, que se caracterizam por escreverem para v&aacute;rios meios e plataformas, e por terem uma liga&ccedil;&atilde;o mais pr&oacute;xima e privilegiada com a empresa, n&atilde;o s&oacute; no sentido de poderem participar de diferentes maneiras nos diversos projectos da rede criativa, como tamb&eacute;m no sentido de poderem ver os seus projectos individuais apoiados e desenvolvidos pelas estruturas das PF.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Como nascem os projectos? Partem de uma pessoa, de brain-stormings criativos, ou s&atilde;o na sua maioria encomendas? Pode dar-nos exemplos?</strong> NAS &#8211; Nascem de todas as maneiras que podem nascer. Ou por iniciativa da empresa, isto &eacute;, dos directores de departamentos ou da direc&ccedil;&atilde;o geral, que prop&otilde;em ideias e formatos aos autores, ou por iniciativa dos autores, que podem abrir os seus projectos a outros autores ou simplesmente pedir apoio para o desenvolvimento deles; ou ainda por encomenda ou desafio exterior &agrave;s Produ&ccedil;&otilde;es. Exemplos s&atilde;o muitos: O Inimigo P&uacute;blico nasce de uma ideia exterior &agrave;s Produ&ccedil;&otilde;es, o Daniel Deusdado prop&otilde;e-nos fazer um jornal sat&iacute;rico, depois de estudada a hip&oacute;tese, decidimos apresentar o projecto ao P&uacute;blico, quando o P&uacute;blico aprova, convidamos o Lu&iacute;s Pedro Nunes para director e montamos um equipa a partir dos nossos autores e de outros exteriores &agrave;s PF. Os Contempor&acirc;neos partem de uma encomenda da RTP para um programa de humor, de sketches, com um grupo de novos actores, incluindo o Bruno Nogueira. N&oacute;s, PF Original, cri&aacute;mos o conceito, format&aacute;mos e escolhemos as equipas de autores, actores e produ&ccedil;&atilde;o (obviamente, com a aprova&ccedil;&atilde;o da RTP). Terceiro exemplo, Gato Fedorento, o conceito e todo o projecto s&atilde;o dos quatro Gatos, as PF agenciam e produzem. Etc, etc, etc. Cada projecto tem um modelo pr&oacute;prio.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Como funciona a escrita em equipa? Que m&eacute;todos s&atilde;o usados para que o trabalho seja simultaneamente criativo e produtivo? </strong> NAS &#8211; H&aacute; sempre um respons&aacute;vel pelo trabalho, normalmente um criativo s&eacute;nior (ou excepcionalmente dois) isto &eacute;, com experi&ecirc;ncia, que deve criar as condi&ccedil;&otilde;es para que os outros autores estejam motivados e d&ecirc;em o seu melhor.</p>
<p><strong>APAD &#8211; As PF s&atilde;o conhecidas pelo humor mas nos &uacute;ltimos anos tem escrito em quase todos os formatos, desde seriados at&eacute; telefilmes. Como &eacute; que escolhe o(s) argumentista(s) certos para cada projecto?</strong> NAS &#8211; Ao escolhermos as equipas temos que conhecer muito bem as caracter&iacute;sticas de todos os autores, associados e agenciados das PF e temos de ter em conta n&atilde;o s&oacute; as caracter&iacute;sticas de escrita como tamb&eacute;m outras mais relacionadas com a capacidade de trabalhar em equipa, de reescrever e alterar as ideias e os gui&otilde;es, em tempo &uacute;til, e tamb&eacute;m de apresentar solu&ccedil;&otilde;es para os inevit&aacute;veis problemas de produ&ccedil;&atilde;o. Para al&eacute;m, claro, do fundamental, que &eacute; ir ao encontro do que os autores querem fazer.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Hoje em dia as PF j&aacute; n&atilde;o escrevem apenas gui&otilde;es. Como foi o crescimento das PF? Houve necessidade de evoluir noutras direc&ccedil;&otilde;es? Porque come&ccedil;aram a produzir os vossos textos?</strong> A entrada do autor nos cr&eacute;ditos de produ&ccedil;&atilde;o tem a ver essencialmente com o controlo criativo. Em processos de produ&ccedil;&atilde;o colectiva, normalmente sob press&atilde;o de tempo e dinheiro, como &eacute; a televis&atilde;o ou o cinema &eacute; muito dif&iacute;cil defender as ideias e a hist&oacute;ria original. Essa defesa do nosso trabalho tem mais condi&ccedil;&otilde;es de ser bem sucedida se os autores tiverem uma palavra a dizer no final cut e na direc&ccedil;&atilde;o de todo o processo. O facto de ser co-produtor pode implicar risco financeiro mas tamb&eacute;m pode implicar um ganho financeiro acrescido, para al&eacute;m do ganho como autores.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Como funciona a rela&ccedil;&atilde;o de uma produtora de conte&uacute;dos com as esta&ccedil;&otilde;es de televis&atilde;o? O que acha do presente estado do audiovisual portugu&ecirc;s?</strong> NAS &#8211; Depende de quem est&aacute; &agrave; frente, quer da produtora de conte&uacute;dos, quer da esta&ccedil;&atilde;o de televis&atilde;o, claro. Funcionamos da simples encomenda &agrave; boa coopera&ccedil;&atilde;o criativa. E &agrave;s vezes &agrave; pura aus&ecirc;ncia de contacto. Sobre o presente estado do audiovisual portugu&ecirc;s, &eacute; dif&iacute;cil sintetizar tudo numa resposta de question&aacute;rio. Vamos tentar por t&oacute;picos: as televis&otilde;es continuam a n&atilde;o investir o suficiente na diversidade dos modelos de fic&ccedil;&atilde;o, para al&eacute;m das telenovelas; os canais cabo n&atilde;o t&ecirc;m dinheiro para criar s&eacute;ries alternativas; o &uacute;nico g&eacute;nero que vive um momento de criatividade assinal&aacute;vel &eacute; o humor porque consegue existir com or&ccedil;amentos baixos; a televis&atilde;o generalista portuguesa &eacute; genericamente deprimente e tende a piorar; o cinema portugu&ecirc;s procura novos modos de produ&ccedil;&atilde;o e financiamento, mas ainda n&atilde;o &eacute; clara a distin&ccedil;&atilde;o entre o ICA e o FICA, faltam novos produtores, e continua-se a n&atilde;o investir no essencial: hist&oacute;rias, argumentos; o meu optimismo inabal&aacute;vel acredita que a situa&ccedil;&atilde;o h&aacute;-de melhorar.</p>
<p><strong>APAD &#8211; At&eacute; onde podem ir as PF? O que &eacute; que gostariam de fazer? O que &eacute; que n&atilde;o fariam nunca?</strong> NAS &#8211; O que n&oacute;s gost&aacute;vamos era de n&atilde;o estar t&atilde;o dependentes de contratos pontuais avulsos, gost&aacute;vamos de poder desenvolver projectos com um horizonte temporal mais alargado, gost&aacute;vamos de, para al&eacute;m de ter contratos para um programa, ter contratos-programa. Gost&aacute;vamos de n&atilde;o estar t&atilde;o dependentes da decis&atilde;o de apenas dois ou tr&ecirc;s directores de programas para poder colocar as nossas s&eacute;ries no ar, gost&aacute;vamos que houvesse mais canais, mais esta&ccedil;&otilde;es, mais hip&oacute;teses de distribui&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o gostar&iacute;amos de chegar a uma situa&ccedil;&atilde;o em que temos de fazer coisas em que n&atilde;o acreditamos para sobreviver.</p>
<p><strong>APAD &#8211; As PF s&atilde;o a maior empresa portuguesa de argumento. Acha que h&aacute; um humor PF? Ou uma escrita PF?</strong> NAS &#8211; Dentro das PF h&aacute; muitos autores e, portanto, muitos estilos diferentes. O que n&oacute;s queremos, cada vez mais, &eacute; deixar na retaguarda a marca PF e dar a conhecer o trabalho de cada um dos autores. &Eacute; um processo natural, primeiro foi uma batalha para nos impormos como uma equipa de argumentistas, para criar a marca PF. Agora &eacute; a pr&oacute;pria marca que esconde, obviamente de forma involunt&aacute;ria, o nome dos autores que aqui trabalham. O nosso esfor&ccedil;o tem sido, j&aacute; desde h&aacute; algum tempo, promover esses autores e criar condi&ccedil;&otilde;es para eles desenvolverem o seu trabalho e serem reconhecidos. H&aacute; uma marca PF, mas ela &eacute; feita das marcas que &eacute; capaz de gerar e pelos autores independentes que nela trabalham.</p>
<p><strong>APAD &#8211; De que forma as PF se t&ecirc;m adaptado &agrave;s novas tecnologias (Internet, telem&oacute;vel)?</strong> NAS &#8211; Desde logo percebendo que criar um conte&uacute;do hoje &eacute; pensar na sua exist&ecirc;ncia nas diversas plataformas, nomeadamente nas emergentes. E depois criando um departamento pr&oacute;prio, o PF New Media, com uma estrat&eacute;gia pr&oacute;pria, articulada com a rede PF. Um departamento que, num curto espa&ccedil;o de tempo, organizou o primeiro Festival de Microfilmes de Lisboa, fez o primeiro programa para Mobile TV (&ldquo;Quinze&rdquo;) e, com o SAPO V&iacute;deos, montou a primeira televis&atilde;o de entretenimento independente online, em Portugal, o PFtv.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Como escritor e criativo o Nuno tem com certeza tamb&eacute;m o seu m&eacute;todo. Escreve todos os dias? Em que lugar ou momento sente que est&aacute; mais inspirado? Como organiza as suas ideias e projectos?</strong> NAS &#8211; Tenho ideias todos os dias e todos os dias tomo notas dessas ideias e das suas possibilidades. Depois procuro encontrar momentos em que possa estar focado na escrita e desenvolvimento dessas ideias. Desde que apresent&aacute;mos a nova estrutura e estrat&eacute;gia das PF, no dia 20 de Janeiro, com a nova distribui&ccedil;&atilde;o de trabalho, ganhei tempo para os meus projectos de autoria mais pessoal. Ao fim de quinze anos, j&aacute; era tempo de delegar fun&ccedil;&otilde;es organizativas e de representa&ccedil;&atilde;o e neg&oacute;cio. E est&atilde;o muito bem delegadas. Mantenho as fun&ccedil;&otilde;es de direc&ccedil;&atilde;o geral e estrat&eacute;gica mas agora posso dedicar-me mais ao meu trabalho como autor associado das PF.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Se algum jovem guionista quiser mostrar o seu trabalho &agrave;s PF, como deve fazer? H&aacute; espa&ccedil;o para novos autores nas PF? Tem algum conselho para quem esteja a come&ccedil;ar?</strong> NAS &#8211; As PF est&atilde;o sempre abertas e interessadas em novas ideias e novos autores. Quem quiser pode apresentar o seu trabalho. Mas &eacute; fundamental perceber que n&atilde;o basta ter uma ideia, &eacute; preciso apresent&aacute;-la e defend&ecirc;-la e depois, claro, saber desenvolv&ecirc;-la. Um bom caminho &eacute; frequentar os nossos workshops.</p>
 <div class='series_links'><a href='http://argumentistas.org/2009/03/editorial-revista-apad-2/' title='Editorial &#8211; Dossier APAD 2'>Artigo anterior</a> <a href='http://argumentistas.org/2009/03/adriano-luz-sobre-a-casa-da-criacao/' title='Adriano Luz sobre a Casa da Criação'>Próximo artigo</a></div>]]></content:encoded>
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		<title>Adriano Luz sobre a Casa da Criação</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Mar 2009 23:45:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Daniel Ribas</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Adriano Luz é o actual director da Casa da Criação. Motivo mais do que suficiente para um conversa sobre como se organiza, hoje, uma empresa de guionistas que trabalha todos os dias para alguns dos sucessos mais conhecidos da TVI.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='series_toc'><h3>Índice: Revista#2</h3><ol><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/editorial-revista-apad-2/' title='Editorial &#8211; Dossier APAD 2'>Editorial &#8211; Dossier APAD 2</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/nuno-artur-silva-sobre-as-pf/' title='Nuno Artur Silva sobre as PF'>Nuno Artur Silva sobre as PF</a></li><li>Adriano Luz sobre a Casa da Criação</li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/nuno-bernardo-sobre-a-beactive/' title='Nuno Bernardo sobre a beActive'>Nuno Bernardo sobre a beActive</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/empresas-de-guionistas-directorio/' title='Empresas de guionistas &#8211; directório'>Empresas de guionistas &#8211; directório</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/alexandre-valente-e-o-seu-second-life/' title='Alexandre Valente e o seu &#8220;Second Life&#8221;'>Alexandre Valente e o seu &#8220;Second Life&#8221;</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/relatorio-mckee/' title='Relatório McKee'>Relatório McKee</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/kaufman-vs-mckee/' title='Livros: Kaufman vs. McKee'>Livros: Kaufman vs. McKee</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/sobre-os-direitos-de-autor-do-argumentista/' title='Sobre os Direitos de Autor do Argumentista'>Sobre os Direitos de Autor do Argumentista</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/the-day-the-earth-stood-still-analise-comparativa/' title='The Day the Earth Stood Still: Análise Comparativa'>The Day the Earth Stood Still: Análise Comparativa</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/italiano-para-principiantes/' title='Italiano para Principiantes: uma luminosa lição de simplicidade narrativa'>Italiano para Principiantes: uma luminosa lição de simplicidade narrativa</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/faust/' title='Faust'>Faust</a></li></ol></div> <hr />
<p>
<em>Adriano Luz &eacute; um dos actores mais conhecidos do cinema e televis&atilde;o portuguesas. Contudo, a nossa entrevista tem outro prop&oacute;sito: falar da <a target="_blank" href="http://www.casadacriacao.pt">Casa da Cria&ccedil;&atilde;o</a>, da qual Adriano Luz &eacute; o director. A Casa da Cria&ccedil;&atilde;o &eacute; uma empresa de guionistas do grupo Plural Entertainment (ex-NBP) e &eacute; o grupo respons&aacute;vel por grande parte dos sucessos actuais da TVI. O exemplo m&aacute;ximo &eacute; o mega-sucesso &quot;Morangos com A&ccedil;&uacute;car&quot;.</em></p>
<p><img width="193" height="175" alt="190111" src="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/190111.jpg" title="190111" class="alignnone size-full wp-image-432" /></p>
<p><strong>APAD &#8211; Pode explicar-nos como surgiu a Casa da Cria&ccedil;&atilde;o?</strong> Adriano Luz &#8211; Quando a Casa da Cria&ccedil;&atilde;o surgiu eu ainda n&atilde;o estava na NBP &#8211; agora Plural Entertainment. E ela nasceu pela necessidade de o grupo ter um gabinete de escrita que pudesse ser um dos p&oacute;los onde se desenvolvia projectos para televis&atilde;o. De princ&iacute;pio ele era gerido por um autora &#8211; a Maria Jo&atilde;o Mira &#8211; e tinha, fundamentalmente, jovens guionistas. Neste momento a Casa da Cria&ccedil;&atilde;o j&aacute; n&atilde;o &eacute; isso. &Eacute; dirigido por mim, que n&atilde;o sou autor. Eu tenho, se quiser, um olhar que &eacute; mais da realiza&ccedil;&atilde;o, da dramaturgia. Fa&ccedil;o uma ponte entre os autores &#8211; os jovens guionistas iniciais evolu&iacute;ram para autores. Por isso, neste momento temos alguns autores e muitos guionistas.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Como est&aacute; estruturada a Casa da Cria&ccedil;&atilde;o?</strong> AL &#8211; A Casa da Cria&ccedil;&atilde;o funciona assim: temos coordenadores de projecto e, actualmente, tr&ecirc;s equipas a escrever em simult&acirc;neo. Essas tr&ecirc;s equipas s&atilde;o dirigidas por um coordenador, que &eacute;, normalmente, o autor da ideia ou do desenvolvimento da ideia da sinopse inicial. Essa pessoa coordena uma equipa de 5, 6 guionistas e fazemos um entrega semanal, em m&eacute;dia, de cinco ou seis gui&otilde;es. Este coordenador tem como fun&ccedil;&atilde;o principal responder pela qualidade e pelo resultado final das novelas.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Como &eacute; que os projectos nascem? Da NBP? </strong> AL &#8211; Normalmente os projectos n&atilde;o v&ecirc;m da NBP. N&oacute;s desenvolvemos na Casa da Cria&ccedil;&atilde;o projectos, ideias e sinopses que muitas vezes s&atilde;o afectadas pelo cliente. Por hip&oacute;tese: o cliente pode pedir que o projecto n&atilde;o se passe no local x, mas sim no local y, por uma quest&atilde;o de estrat&eacute;gia, muitas vezes da pr&oacute;pria empresa, neste caso a TVI. A partir de uma ideia nossa (Casa da Cria&ccedil;&atilde;o), ela depois &eacute; afectada por op&ccedil;&otilde;es e opini&otilde;es da realiza&ccedil;&atilde;o do grupo da Plural Entertainment e tamb&eacute;m pela TVI. H&aacute; uma quantidade de pessoas que afectam a sinopse final. Desde o realizador, que &eacute; o director-geral do projecto at&eacute; &agrave; TVI. Vou-lhe dar um exemplo: eu pe&ccedil;o a tr&ecirc;s ou quatro dos nossos autores para me apresentarem projectos de uma pr&oacute;xima novela. Depois apresentamos aqui internamente e avaliamos, tamb&eacute;m, dentro da Plural Entertainment. E depois &eacute; apresentada &agrave; TVI e a TVI decide qual &eacute; a sinopse que mais lhe interessa fazer num determinado momento. Mas tamb&eacute;m pode acontecer o contr&aacute;rio: ser encomendada &agrave; Casa da Cria&ccedil;&atilde;o, como hip&oacute;tese, uma ideia para ser escrita uma novela que comece, eventualmente, nos A&ccedil;ores ou na Madeia ou em Tr&aacute;s-os-Montes. Isto &eacute;, n&atilde;o &eacute; tanto no conte&uacute;do, mas &agrave;s vezes algumas balizas s&atilde;o atiradas &agrave; Casa da Cria&ccedil;&atilde;o ou pela TVI ou pela pr&oacute;pria Plural.</p>
<p><strong>APAD &#8211; A Casa da Cria&ccedil;&atilde;o &eacute; mais conhecida pelas telenovelas da TVI. Pode dizer-nos que outro tipo de projectos a Casa da Cria&ccedil;&atilde;o est&aacute; a escrever?</strong> AL &#8211; A Casa da Cria&ccedil;&atilde;o escreve para l&aacute; das telenovelas. Os projectos que t&ecirc;m mais visibilidade s&atilde;o, claro, as telenovelas (j&aacute; que s&atilde;o aquelas que t&ecirc;m uma produ&ccedil;&atilde;o continuada). O que n&atilde;o invalida que n&oacute;s tenhamos outro tipo de projectos, ainda que n&atilde;o estejam a ser feitos actualmente. O que n&oacute;s temos em carteira s&atilde;o s&eacute;ries, um projecto para telem&oacute;veis (que chegamos a gravar dois epis&oacute;dios de dois minutos cada), e temos um projecto para uma esp&eacute;cie de foto-novela. N&oacute;s temos estes projectos s&oacute; que, &agrave;s vezes, n&atilde;o encontramos interlocutores, nem clientes. E as telenovelas ocupam-nos muito tempo. Tamb&eacute;m escrevemos na Casa da Cria&ccedil;&atilde;o alguns &quot;Casos da Vida&quot; (que &eacute; uma s&eacute;rie que se afasta do conceito das novelas). Temos tamb&eacute;m um filme escrito para os &quot;Morangos&quot;, e eu espero que ele venha a ser rodado. Est&aacute; acabado e aprovado pela TVI, s&oacute; falta mesmo encontrarmos o <em>timing</em> certo.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Pode-nos dizer qual &eacute; o r&aacute;cio actual entre as telenovelas adaptadas de formatos estrageiros e aquelas que s&atilde;o ideias originais da Casa da Cria&ccedil;&atilde;o?</strong> AL &#8211; Neste momento s&oacute; temos uma adapta&ccedil;&atilde;o que &eacute; o &quot;Lalola&quot;. De resto, tudo &eacute; original: &quot;A Doce Fugitiva&quot; (j&aacute; acabamos de a escrever, mas ainda n&atilde;o acabou de ser gravada), &quot;A Vida Inteira&quot; (que estamos agora a escrever), os &quot;Morangos com A&ccedil;&uacute;car&quot; (j&aacute; com seis anos). J&aacute; agora digo-lhe os autores da Casa da Cria&ccedil;&atilde;o: a Patr&iacute;cia Muller (&quot;A Vida Inteira&quot;), a Sandra Santos (&quot;A Doce Fugitiva&quot;), o Jos&eacute; Pinto Carneiro (que tem feito os &uacute;ltimos &quot;Morangos&quot;) e o Ant&oacute;nio Barreira (que esteve no &quot;Fasc&iacute;nios&quot;). Estes s&atilde;o os nossos autores que mais projectos desenvolvem.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Como &eacute; o m&eacute;todo de trabalho di&aacute;rio na Casa da Cria&ccedil;&atilde;o?</strong> AL &#8211; Ainda que n&atilde;o havendo um hor&aacute;rio muito espec&iacute;fico, h&aacute; um consenso entre as 10h e as 18h. Cada equipa de guionistas est&aacute; em salas diferentes, escrevem em mesas comuns onde a comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; mais f&aacute;cil (os guionistas n&atilde;o est&atilde;o isolados), e onde est&atilde;o todos a olhar uns para os outros, para que possa haver di&aacute;logo. A escrita &eacute; muito uma escrita em grupo. Depois temos uma sala de reuni&otilde;es grande, onde cada equipa faz reuni&otilde;es de plano, onde fazem a planifica&ccedil;&atilde;o de alguns epis&oacute;dios. Depois de fazerem a planifica&ccedil;&atilde;o de 20 epis&oacute;dios (normalmente s&atilde;o 20), fazem o que n&oacute;s chamamos as grelhas de cada epis&oacute;dio. Essa grelha &eacute; depois aprovada pelo coordenador e s&oacute; depois de aprovada a grelha &eacute; que se passa para a parte dos di&aacute;logos e do desenvolvimento das cenas. Esta &eacute; a metodologia da Casa da Cria&ccedil;&atilde;o que j&aacute; &eacute; anterior a mim, mas pareceu sempre que funciona.</p>
<p><strong>APAD &#8211; H&aacute; uns tempos t&iacute;nhamos a ideia de que a Casa da Cria&ccedil;&atilde;o tinha um r&aacute;cio de escrever um epis&oacute;dio por dia. Isso ainda &eacute; assim?</strong> AL &#8211; Sim, sim. Tem que ser. Um &eacute; o m&iacute;nimo, que &eacute; para entregar cinco epis&oacute;dios por semana. &Agrave;s vezes ter&aacute; que ser mais um bocadinho, mas menos nunca ser&aacute;.</p>
<p><strong>APAD &#8211; J&aacute; nos falou das vossas salas e gostar&iacute;amos de saber que tipo de preocupa&ccedil;&otilde;es tiveram no espa&ccedil;o, j&aacute; que &eacute; um espa&ccedil;o para criativos.</strong> AL &#8211; &Eacute; essencial ter luz. N&atilde;o conhece o espa&ccedil;o?</p>
<p><strong>APAD &#8211; Voc&ecirc;s tinham antes um espa&ccedil;o no Estoril.</strong> AL &#8211; Sim, esse no Estoril era numa vivenda. Os autores preferem estar no centro de Lisboa, mesmo que n&atilde;o vivam em Lisboa (&eacute; uma quest&atilde;o de estar mais perto do mundo). As nossas salas s&atilde;o amplas, s&atilde;o mesas &uacute;nicas grandes, cada um no seu computador e todos virados uns para os outros. E todas estas salas d&atilde;o para a rua (&eacute; na Rua do Alecrim) e portanto t&ecirc;m imensa luz. Temos tamb&eacute;m uma cozinha para alguns que mandam vir comida (os nossos guionistas para al&eacute;m do sal&aacute;rio, t&ecirc;m um subs&iacute;dio de refei&ccedil;&atilde;o). E a cozinha tamb&eacute;m serve de sala de fumo. Depois temos o gabinete da L&uacute;cia Feitosa, que &eacute; a pessoa que trabalha comigo na direc&ccedil;&atilde;o da Casa da Cria&ccedil;&atilde;o e temos o meu gabinete para quando l&aacute; vou. Temos tamb&eacute;m uma sala de massagens, para uma massagista que l&aacute; vai duas vezes por m&ecirc;s (duas vezes por m&ecirc;s sem encargo nenhum para os autores). Eu intervenho mais no in&iacute;cio das telenovelas do que quando elas j&aacute; est&atilde;o em velocidade cruzeiro. Ou intervenho quando h&aacute; algum &quot;problema&quot; entre a produ&ccedil;&atilde;o e a Casa da Cria&ccedil;&atilde;o.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Acha que j&aacute; h&aacute; algum tipo de linguagem Casa da Cria&ccedil;&atilde;o?</strong> AL &#8211; Eu acho que sim. Se me perguntar se eu sei definir, eu n&atilde;o sei. N&oacute;s j&aacute; tivemos alturas em que as novelas que estavam a dar desde as 19h at&eacute; &agrave; noite eram da Casa da Cria&ccedil;&atilde;o. E com &ecirc;xito. Neste momento &eacute; &quot;A Doce Fugitiva&quot; e os &quot;Morangos com A&ccedil;&uacute;car&quot; (a&iacute; sim, j&aacute; acho que h&aacute; uma marca Morangos). Quando a Casa da Cria&ccedil;&atilde;o, h&aacute; anos a esta parte, tem pelo menos uma telenovela antes do prime-time e, pelo menos, outro no prime-time deve haver (e h&aacute;, seguramente) uma marca Casa da Cria&ccedil;&atilde;o. Se h&aacute; uma linguagem eu n&atilde;o sei, porque todos os autores s&atilde;o diferentes e &eacute; natural e saud&aacute;vel que haja mudan&ccedil;as. Provavelmente quando a Casa da Cria&ccedil;&atilde;o era dirigida pela Maria Jo&atilde;o Mira era mais prov&aacute;vel que essa marca fosse n&iacute;tida, j&aacute; que tudo era filtrado pela sensibilidade da Maria Jo&atilde;o Mira. Como agora n&atilde;o &eacute; filtrado pela sensibilidade de uma s&oacute; pessoa &#8211; &eacute; filtrado por cada autor &#8211; &eacute; prov&aacute;vel que haja mais diversidade.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Como falou que tem uma vis&atilde;o um pouco exterior do mundo dos guionistas, acha que actualmente, no panorama do audiovisual portugu&ecirc;s, os guionistas passaram a ser uma parte importante do processo?</strong> AL &#8211; Eu acho que os argumentistas ganharam import&acirc;ncia. Ainda n&atilde;o &eacute; como no Brasil onde os guionistas s&atilde;o verdadeiras vedetas. Mas, no guionismo para televis&atilde;o, os guionistas t&ecirc;m import&acirc;ncia. H&aacute; uns anos atr&aacute;s, quando eu entrei para a Casa da Cria&ccedil;&atilde;o &#8211; e n&atilde;o tenho qualquer m&eacute;rito no que vou dizer, porque foi para a&iacute; que as coisas caminharam &#8211; qualquer um dos guionistas que l&aacute; estava &#8211; e eles sabem &#8211; eram descart&aacute;veis. Neste momento h&aacute; guionistas na Casa da Cria&ccedil;&atilde;o que t&ecirc;m uma import&acirc;ncia para a empresa e para a TVI que jamais tiveram h&aacute; tr&ecirc;s anos atr&aacute;s. Neste momento j&aacute; s&atilde;o pessoas quase imprescind&iacute;veis para o grupo e para a TVI. Mas temos mais guionistas para al&eacute;m da Casa da Cria&ccedil;&atilde;o (falando do ponto de vista do cliente TVI): o Rui Vilhena, a Maria Jo&atilde;o Mira, Toz&eacute; Martinho, t&ecirc;m uma import&acirc;ncia capital para a TVI. O que me agrada &eacute; que, para al&eacute;m destes que s&atilde;o os mais velhos, os nossos jovens guionistas (digo jovens porque andam na gera&ccedil;&atilde;o dos 30) tamb&eacute;m t&ecirc;m uma import&acirc;ncia para a TVI. J&aacute; n&atilde;o s&atilde;o os mi&uacute;dos da Casa da Cria&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o guionistas respeitados e considerados e imprescind&iacute;veis para a TVI.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Do ponto de vista mais geral &#8211; televis&atilde;o e cinema &#8211; como acha que est&aacute; o actual panorama?</strong> AL &#8211; Eu tenho uma opini&atilde;o da voca&ccedil;&atilde;o da televis&atilde;o que n&atilde;o &eacute; exactamente a mesma no cinema. Algum do cinema que anda a ser feito preocupa-me um bocado. Eu chamo-lhe televis&atilde;o em ecr&atilde; grande. &Eacute; um cinema em que eu, como actor, n&atilde;o me revejo de forma alguma. E estou a falar de filmes como &quot;Second Life&quot;, eventualmente o &quot;Contrato&quot;, &quot;Corrup&ccedil;&atilde;o&quot; e outro que tais. Se &eacute; por aqui que n&oacute;s criamos a ind&uacute;stria de cinema, tenho as minhas d&uacute;vidas. Se calhar aqui em Portugal conseguimos fazer ind&uacute;strias de alheiras de Mirandela, mas se tentarmos fazer salsichas iguais &agrave;s alem&atilde;s n&atilde;o vamos conseguir fazer. O que est&aacute; a acontecer com o cinema &eacute; que n&atilde;o &eacute; nada espec&iacute;fico portugu&ecirc;s. &Eacute; um cinema igual ao que vemos ali ao lado, mas o outro &eacute; melhor. &Eacute; um cinema que n&atilde;o me interessa a mim. Mas mais importante do que isso: n&atilde;o sei se &eacute; por ali que se faz uma ind&uacute;stria de cinema. N&atilde;o foi assim que os espanh&oacute;is fizeram a ind&uacute;stria de cinema. E agora j&aacute; se est&aacute; a fazer filmes em ingl&ecirc;s, que eu acho at&eacute; um bocadinho parolo.  Mas, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; televis&atilde;o, j&aacute; acho diferente, porque a nossa fic&ccedil;&atilde;o para televis&atilde;o s&atilde;o as telenovelas e, muito provavelmente, para o ano que vem, depois deste tempo de crise, acho que nos podemos dar por satisfeitos de como est&aacute; a situa&ccedil;&atilde;o. Fez-se o &quot;Equador&quot;, o que &eacute; um grande m&eacute;rito da TVI e da Plural, mas n&atilde;o sei se t&atilde;o cedo h&aacute; vontade financeira para gerar um projecto t&atilde;o caro como o &quot;Equador&quot; foi. Duvido que as televis&otilde;es em geral v&atilde;o gastar dinheiro em fic&ccedil;&atilde;o. O mercado publicit&aacute;rio est&aacute; a retrair-se e quando a publicidade se retrai tudo o resto se retrai.  No caso do cinema acho que, neste momento, h&aacute; um n&oacute; com a vinda destes novos produtores, que eu conhe&ccedil;o (por exemplo, o Alexandre Valente quando ele trabalhava para o Paulo Branco). H&aacute; um nova vontade de fazer filmes como &quot;O Crime do Padre Amaro&quot; ou &quot;Am&aacute;lia&quot;. Contudo, enquanto eu percebo o &quot;Am&aacute;lia&quot; j&aacute; n&atilde;o consigo perceber o &quot;Second Life&quot;, nem o novo filme do Leonel Vieira (de quem eu gosto imenso) falado em ingl&ecirc;s. Isso &eacute; que me confunde um bocado, ao n&atilde;o perceber bem o que se quer fazer com o cinema. A televis&atilde;o, neste aspecto, &eacute; mais clara, tem objectivos mais claros: criar audi&ecirc;ncia, e est&aacute; a faz&ecirc;-lo. Pode dizer-me que o cinema tamb&eacute;m est&aacute; a tentar faz&ecirc;-lo, mas o problema &eacute; que aquele modelo se vai esgotar. E as audi&ecirc;ncias que o cinema tem? Por exemplo, o &quot;Corrup&ccedil;&atilde;o&quot; estava a pensar fazer muito mais do que o que fez.  Claro que os &quot;Morangos&quot; tamb&eacute;m &eacute; um bocadinho desse cinema e eu n&atilde;o duvido que v&aacute; ser um &ecirc;xito, j&aacute; que &eacute; uma marca que est&aacute; feita. Ah! A Casa da Cria&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m j&aacute; escreveu alguns textos de teatro quer para os &quot;Morangos&quot; quer para outras coisas mais pioneiras, como, por exemplo, para uma pe&ccedil;a de teatro que eu encenei. Quanto mais a Casa da Cria&ccedil;&atilde;o brincar nestes dom&iacute;nios (que n&atilde;o s&atilde;o a sua praia) melhor ser&aacute;, mais coisas aprendem. Ent&atilde;o se n&oacute;s falarmos de teatro, h&aacute; muito poucos a escreverem teatro em Portugal. E com a carpintaria pr&oacute;pria do teatro, provavelmente s&oacute; a Lu&iacute;sa Costa Gomes e mais ningu&eacute;m.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Se algum jovem guionista quiser mostrar o seu trabalho &agrave; Casa da Cria&ccedil;&atilde;o, como deve fazer? H&aacute; espa&ccedil;o para novos autores na Casa da Cria&ccedil;&atilde;o? Tem algum conselho para quem esteja a come&ccedil;ar? </strong> AL &#8211; O nosso modelo de gest&atilde;o n&atilde;o &eacute; exactamente como o das Produ&ccedil;&otilde;es Fict&iacute;cias. As pessoas que entram para a Casa da Cria&ccedil;&atilde;o s&atilde;o contratadas, h&aacute; um ordenado. A Casa da Cria&ccedil;&atilde;o &eacute; uma empresa que tem todos os dias telenovelas no ar. O trabalho na Casa da Cria&ccedil;&atilde;o &eacute; por objectivos, embora haja pr&eacute;mios quando as novelas s&atilde;o aumentadas. O que eu quero dizer com isto &eacute; que, neste momento, eu n&atilde;o posso meter ningu&eacute;m. Eu fa&ccedil;o um esfor&ccedil;o tremendo para n&atilde;o ter que dispensar ningu&eacute;m. E sentimos que o que a&iacute; vem n&atilde;o vai ser melhor. A ser, &eacute; pior. Neste momento n&oacute;s temos que fazer uma gin&aacute;stica para nos mantermos todos. N&atilde;o estou a dizer que &eacute; uma gin&aacute;stica imposs&iacute;vel, porque vai ser poss&iacute;vel, seguramente. Normalmente, o que n&oacute;s fazemos quando precisamos de algu&eacute;m, &eacute; abrir um concurso. Tem sido assim que as pessoas t&ecirc;m entrado. N&atilde;o quer dizer que n&atilde;o o voltemos a fazer. Vamos voltar a faz&ecirc;-lo assim que sintamos necessidade. Mas t&atilde;o cedo, confesso que n&atilde;o estou &agrave; espera de meter pessoas.</p>
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		<title>Nuno Bernardo sobre a beActive</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Mar 2009 23:44:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Daniel Ribas</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dossier]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[beActive]]></category>
		<category><![CDATA[diário de sofia]]></category>
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		<description><![CDATA[Nuno Bernardo é o principal responsável pela beActive uma produtora que tem conquistado o mundo com novos conteúdos televisivos para os novos media: telemóvel e internet. Pretexto para perceber como funciona a empresa e de que forma são escritos os seus guiões.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='series_toc'><h3>Índice: Revista#2</h3><ol><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/editorial-revista-apad-2/' title='Editorial &#8211; Dossier APAD 2'>Editorial &#8211; Dossier APAD 2</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/nuno-artur-silva-sobre-as-pf/' title='Nuno Artur Silva sobre as PF'>Nuno Artur Silva sobre as PF</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/adriano-luz-sobre-a-casa-da-criacao/' title='Adriano Luz sobre a Casa da Criação'>Adriano Luz sobre a Casa da Criação</a></li><li>Nuno Bernardo sobre a beActive</li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/empresas-de-guionistas-directorio/' title='Empresas de guionistas &#8211; directório'>Empresas de guionistas &#8211; directório</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/alexandre-valente-e-o-seu-second-life/' title='Alexandre Valente e o seu &#8220;Second Life&#8221;'>Alexandre Valente e o seu &#8220;Second Life&#8221;</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/relatorio-mckee/' title='Relatório McKee'>Relatório McKee</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/kaufman-vs-mckee/' title='Livros: Kaufman vs. McKee'>Livros: Kaufman vs. McKee</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/sobre-os-direitos-de-autor-do-argumentista/' title='Sobre os Direitos de Autor do Argumentista'>Sobre os Direitos de Autor do Argumentista</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/the-day-the-earth-stood-still-analise-comparativa/' title='The Day the Earth Stood Still: Análise Comparativa'>The Day the Earth Stood Still: Análise Comparativa</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/italiano-para-principiantes/' title='Italiano para Principiantes: uma luminosa lição de simplicidade narrativa'>Italiano para Principiantes: uma luminosa lição de simplicidade narrativa</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/faust/' title='Faust'>Faust</a></li></ol></div> <hr />
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<em>Nuno Bernardo &eacute; o principal respons&aacute;vel pela beActive uma produtora que tem conquistado o mundo com novos conte&uacute;dos televisivos para os novos media: telem&oacute;vel e internet. Pretexto para perceber como funciona a empresa e de que forma s&atilde;o escritos os seus gui&otilde;es.</em></p>
<p><img width="368" height="243" alt="nunobernardo" src="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/nunobernardo.jpg" title="nunobernardo" class="alignnone size-full wp-image-465" /></p>
<p><strong>APAD &#8211; Pode explicar-nos o que &eacute; a beActive? Que projectos e produtos t&ecirc;m? O que &eacute; que a diferencia das demais produtoras?</strong> Nuno Bernardo: A beActive &eacute; uma empresa especializada na produ&ccedil;&atilde;o de entretenimento com uma filosofia multiplataforma. Nascida em 2002, a empresa desde sempre se focou em cruzar medias tradicionais &ndash; TV, R&aacute;dio, Imprensa &ndash; com os novos medias, nomeadamente a Internet e os Telem&oacute;veis. Al&eacute;m deste foco numa produ&ccedil;&atilde;o para diversos medias, a empresa aposta muito na internacionaliza&ccedil;&atilde;o como forma de expans&atilde;o da sua actividade comercial. Foi a primeira produtora nacional a vender um formato &ldquo;made in Portugal&rdquo; a n&iacute;vel internacional, assinando um contrato de co-produ&ccedil;&atilde;o com um dos maiores est&uacute;dios de Hollywood, a Sony Pictures Television.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Como nascem os projectos da beActive? Quem os cria? Como se decide em que projecto apostar?</strong> NB: Os produtos desenvolvidos pela beActive nascem dentro da empresa, a partir do trabalho dos guionistas permanentes da empresa (em staff ou em regime de colabora&ccedil;&atilde;o). O trabalho de desenvolvimento foca-se em criar projectos com viabilidade comercial (a partir da nossa presen&ccedil;a nos principais mercados internacionais), com uma vertente multiplataforma e que acima de tudo conte uma hist&oacute;ria universal, capaz de atrair audi&ecirc;ncias nos quatro cantos do mundo.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Como desenvolvem uma ideia de forma a poder ser um projecto vend&aacute;vel? A que elementos d&atilde;o mais import&acirc;ncia?</strong> NB: O processo que leva uma ideia at&eacute; ao produto final pode ser um caminho algo tortuoso, que nos ocupa v&aacute;rios anos, ou algo que se desenvolve em dois ou tr&ecirc;s meses, como foi o caso do T2 para 3. O projecto vend&aacute;vel em &uacute;ltima an&aacute;lise definido pelo mercado: normalmente levamos as ideias &agrave;s feiras e mercados internacionais e &eacute; a partir da interac&ccedil;&atilde;o com distribuidores e canais de TV internacionais que percebemos quais s&atilde;o as ideias mais vi&aacute;veis, aquelas que vale a pena apostar e aquelas que talvez devam voltar &agrave; gaveta!</p>
<p><strong>APAD &#8211; Como &eacute; o processo de escrita de cada projecto? Por quantas m&atilde;os passa at&eacute; &agrave; vers&atilde;o final do gui&atilde;o?</strong> NB: N&oacute;s tentamos que o Gui&atilde;o passe pelo maior n&uacute;mero de m&atilde;os poss&iacute;veis. Por exemplo, terminamos agora a escrita de 22 epis&oacute;dios da nova temporada da s&eacute;rie T2 para 3, que contou com 6 guionistas, em diferentes partes do processo criativo. Por exemplo, tivemos um guionista s&oacute; a escrever os di&aacute;logos de duas personagens. O nosso objectivo &eacute; reunir as melhores pessoas &agrave; volta das nossas hist&oacute;rias, isto porque n&atilde;o existem dois guionistas iguais: uns s&atilde;o melhores a estruturar hist&oacute;rias, outros a escrever di&aacute;logos, outros em drama e outros em com&eacute;dia. Por isso achamos que reunir todos estes talentos complementares, adicionando muito script editing, ir&aacute;, certamente fortalecer os gui&otilde;es.</p>
<p><strong>APAD &#8211; O Di&aacute;rio de Sofia distingue-se pela sua interactividade, isto &eacute;, pela participa&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico na constru&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria. Acha que futuro passa pelo envolvimento cada vez maior do espectador? </strong>NB: Acho que a interactividade &eacute; uma forma de envolver mais o espectador, mas existem outras. Actualmente vivemos numa cultura de &ldquo;excesso&rdquo; de hist&oacute;rias, em que tudo j&aacute; foi feito, tudo j&aacute; foi visto. Por isso cada vez &eacute; mais dif&iacute;cil captar o espectador. Por exemplo, Hollywood aposta cada vez mais na tecnologia para envolver o espectador, para o colocar no meio da hist&oacute;ria: no 3D, no som surround, nos efeitos especiais, etc. N&oacute;s, por outro lado, apostamos em usar os novos &ldquo;media&rdquo; para tornar as nossas personagens mais reais, mais imersivas na vida do nosso espectador.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Com &quot;O Di&aacute;rio de Sofia&quot; e o &quot;T2 para 3&quot; a beActive criou uma fic&ccedil;&atilde;o de curta dura&ccedil;&atilde;o &#8211; em que alguns epis&oacute;dios t&ecirc;m apenas 2 a 5 minutos. Que especificidades t&ecirc;m de ter as hist&oacute;rias com esta dura&ccedil;&atilde;o?</strong> NB: Para a a cria&ccedil;&atilde;o destes pequenos epis&oacute;dios vamos buscar muitos conceitos ao mundo das curta-metragens, da publicidade e dos v&iacute;deo-clips. Manter o espectador atento, especialmente na Internet, com tanta oferta, tantos &ldquo;pop-ups&rdquo; &eacute; quase uma arte, e por isso necessitamos de &ldquo;clifhangers&rdquo;, de &ldquo;punch lines&rdquo;, de todos aqueles truques que nos ensinam quando come&ccedil;amos a aprender a escrever um gui&atilde;o. Precisamos &eacute; de os atirar todos ao mesmo tempo &ndash; mas de uma forma org&acirc;nica &ndash; para manter o espectador interessado. Al&eacute;m disso apostamos em criar personagens fortes, os verdadeiros &ldquo;amigos&rdquo; da audi&ecirc;ncia, personagens com as quais o espectador se relacione, ou seja algo que o &ldquo;obrigue&rdquo; a ver o epis&oacute;dio at&eacute; ao final e o conven&ccedil;a a voltar no dia seguinte.</p>
<p><strong>APAD &#8211; A beActive aposta tamb&eacute;m nos novos meios como a fic&ccedil;&atilde;o para internet ou telem&oacute;veis. Que diferen&ccedil;as encontra em rela&ccedil;&atilde;o aos meios de difus&atilde;o tradicionais, sobretudo ao n&iacute;vel do gui&atilde;o?</strong> NB: Escrever para a Internet e telem&oacute;veis obriga a um grande poder de s&iacute;ntese. De contar a hist&oacute;ria de uma forma que &eacute; quase oposta a forma de escrever para cinema (que &eacute; mais pausada, mais orientada para os grande ambientes).</p>
<p><strong>APAD &#8211; A beActive produz sobretudo em s&eacute;ries para jovens ou para crian&ccedil;as. Porqu&ecirc; esta op&ccedil;&atilde;o? </strong>NB: Por dois motivos. Primeiro porque acredito que s&oacute; podemos escrever (honestamente) sobre aquilo que j&aacute; vivemos, que j&aacute; sentimos. Sendo a equipa da beActive uma equipa Sub-35, apenas escrevemos para p&uacute;blicos at&eacute; essa idade. Por outro lado, como focamos nos novos media, os jovens e os adolescentes s&atilde;o os p&uacute;blicos ideiais para as nossas produ&ccedil;&otilde;es. Mas sentimos que o mercado est&aacute; a mudar, por isso em breve vamos alargar os nossos p&uacute;blicos alvo (isto porque, infelizmente, estamos tamb&eacute;m a ficar mais velhos).</p>
<p><strong>APAD &#8211; A beActive exporta formatos originais para diversos pa&iacute;ses. Como conseguiram entrar em mercados t&atilde;o competitivos como o ingl&ecirc;s ou o americano?</strong> <strong>At&eacute; que ponto acompanham o processo de adapta&ccedil;&atilde;o desses formatos?</strong> NB: A decis&atilde;o de apostar no mercado internacional est&aacute; na g&eacute;nese da empresa. Sendo uma produtora vocacionada para um nicho de mercado: produ&ccedil;&otilde;es interactivas para jovens e adolescentes, seria quase imposs&iacute;vel sobreviver em Portugal, se pensarmos que apenas os canais generalistas tem capacidade de produzir conte&uacute;dos pr&oacute;prios, e mesmo esses focam as suas apostas em produtos de mass market, em programas de entretenimento e telenovelas ou s&eacute;ries para &ldquo;toda a fam&iacute;lia&rdquo;. Logo, sendo a beActive uma produtora focada em algo que est&aacute; fora do &ldquo;prime time&rdquo; dos canais de TV nacionais, n&atilde;o conseguiria sobreviver se n&atilde;o apostasse na internacionaliza&ccedil;&atilde;o. E isto s&oacute; se conseguiu com muita perseveran&ccedil;a, numa aposta em sermos diferentes e por tentarmos criar hist&oacute;rias universais que possam captar audi&ecirc;ncias em Portugal, no Reino Unido, na China ou no Brasil.  Sempre que poss&iacute;vel, e sempre que estamos a tratar de mercados com grande dimens&atilde;o, como s&atilde;o o Reino Unido, os E.U.A., a Am&eacute;rica Latina, tentarmos estar sempre envolvidos, quer na re-escrita dos gui&otilde;es, quer na supervis&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o. Por um lado garantimos que o produto &eacute; executado da forma que achamos mais correcta, mas por outro serve muito como processo de aprendizagem para os membros da beActive porque podem assim contactar com realidades (e muitas vezes escalas e valores de produ&ccedil;&atilde;o) diferentes da Portuguesa.</p>
<p><strong>APAD &#8211; A beActive tem uma imagem sofisticada e inovadora. Que preocupa&ccedil;&otilde;es t&ecirc;m a n&iacute;vel da &quot;embalagem&quot; nos vossos produtos? </strong>NB: A imagem &eacute; tudo, n&atilde;o estiv&eacute;ssemos n&oacute;s na ind&uacute;stria da criatividade. Se n&atilde;o consegues criar uma boa imagem, uma boa apresenta&ccedil;&atilde;o, um logo cativante, materiais de promo&ccedil;&atilde;o apelativos, que garantias vais dar aos teus clientes que &eacute;s capaz de transformar 100 p&aacute;ginas de texto num programa ou filme visualmente cativante?</p>
<p><strong>APAD &#8211; Na sua opini&atilde;o quais s&atilde;o os ingredientes para uma s&eacute;rie de sucesso? Os ingredientes s&atilde;o diferentes em Portugal dos de outros pa&iacute;ses do mundo? </strong>NB: Cada mercado tem as suas especificidades, o que faz com quase sempre, uma produ&ccedil;&atilde;o local, com actores locais, focando realidades locais, tenham sempre mais sucesso do que produtos importados. No entanto, existem muitas hist&oacute;rias universais que cativam audi&ecirc;ncias em qualquer parte do mundo. Hist&oacute;rias em que os espectadores se revejam nelas.</p>
<p><strong>APAD&nbsp; &#8211; Se algum jovem guionista quiser mostrar o seu trabalho &agrave; beActive, como deve fazer? H&aacute; espa&ccedil;o para novos guionistas na beActive? Tem algum conselho para quem esteja a come&ccedil;ar? </strong>NB: A beActive recebe v&aacute;rias propostas de novos guionistas todas as semanas. Infelizmente, s&atilde;o poucos os casos em que aproveitamos estes contactos. A principal raz&atilde;o tem a ver com o pouco &ldquo;trabalho de casa&rdquo; que estes candidatos fazem. Ou seja, n&atilde;o verificam se aquilo que escrevem &eacute; adequado &agrave; actividade da empresa. Se a beActive produz s&eacute;rie juvenis, n&atilde;o faz sentido enviar-nos um gui&atilde;o para um filme &ldquo;art-house&rdquo;, porque apesar de ser escrito por um guionista muito talentoso, de nada nos serve, porque n&atilde;o produzimos cinema art&iacute;stico. O que quero dizer &eacute; que interessa-nos bastante encontrar novo talento, mas talento que queira escrever produtos similares ao que criamos. A melhor forma, e temos sugerido a quem nos contacta, &eacute; escrever um epis&oacute;dio de uma das s&eacute;ries que temos em Produ&ccedil;&atilde;o (Ex: T2 para 3 Remodelado) e enviar-nos. S&oacute; desta forma vamos perceber se o candidato enquadra-se no modelo e no estilo de trabalho da beActive.</p>
 <div class='series_links'><a href='http://argumentistas.org/2009/03/adriano-luz-sobre-a-casa-da-criacao/' title='Adriano Luz sobre a Casa da Criação'>Artigo anterior</a> <a href='http://argumentistas.org/2009/03/empresas-de-guionistas-directorio/' title='Empresas de guionistas &#8211; directório'>Próximo artigo</a></div>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Oct 2008 17:04:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Nunes</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Dossier]]></category>
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		<category><![CDATA[A vida privada de Salazar]]></category>
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		<description><![CDATA[Pedro Marta Santos é o guionista do momento: em breve estrearão dois projectos de sua autoria: o muito aguardado biopic sobre Amália Rodrigues (”Amália”) e uma série televisiva dedicada à figura de Salazar (”A Vida Privada de Salazar”). Os dois projectos são ingredientes suficientes para uma conversa interessante.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='series_toc'><h3>Índice: Revista#1</h3><ol><li>Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica</li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/nuno-markl-a-comedia-e-um-organismo-vivo/' title='Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo'>Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/rui-vilhena-e-preciso-criar-historias-com-que-as-pessoas-possam-se-identificar/' title='Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar'>Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/antonio-ferreira-um-guiao-e-como-uma-lista-de-compras/' title='António Ferreira: um guião é como uma lista de compras'>António Ferreira: um guião é como uma lista de compras</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/tiago-santos-como-ganhar-a-vida-numa-profissao-que-nao-existe/' title='Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe'>Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/jorge-vaz-nande-devemos-sempre-olhar-para-a-nigeria/' title='Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria'>Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/perfil-neil-labute-matem-o-dramaturgo/' title='Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo'>Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/dexter-o-mundo-ao-contrario/' title='Dexter: o mundo ao contrário'>Dexter: o mundo ao contrário</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/my-blueberry-nights-o-neon-da-paixao/' title='My Blueberry Nights: o néon da paixão'>My Blueberry Nights: o néon da paixão</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/sex-and-the-city-teorias-e-conspiracoes-sobre-a-comedia-romantica/' title='Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica'>Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/the-servant-parasitas-da-alma/' title='The Servant: parasitas da alma'>The Servant: parasitas da alma</a></li></ol></div> <p><em><a href="http://www.imdb.com/name/nm1503364/">Pedro Marta Santos </a>&eacute; o guionista do momento: em breve estrear&atilde;o dois projectos de sua autoria. O primeiro &eacute; muito aguardado biopic sobre Am&aacute;lia Rodrigues (&rdquo;Am&aacute;lia&rdquo;) e o segundo &eacute; uma s&eacute;rie televisiva dedicada &agrave; figura de Salazar (&rdquo;A Vida Privada de Salazar&rdquo;). Os dois projectos s&atilde;o uma produ&ccedil;&atilde;o da VC Filmes, uma nova divis&atilde;o da Valentim de Carvalho liderada por Manuel S. Fonseca. Tudo ingredientes suficientes para uma conversa interessante.</em></p>
<p><a href="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/pedro-marta-santos-foto.jpg"><img width="500" height="400" class="size-full wp-image-194" title="pedro-marta-santos-foto" alt="O guionista Pedro Marta Santos" src="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/pedro-marta-santos-foto.jpg" /></a>&nbsp;</p>
<h2>Sobre &ldquo;Am&aacute;lia&rdquo;</h2>
<p><strong>APAD &#8211; Como surgiu um projecto t&atilde;o marcante como o biopic sobre Am&aacute;lia?</strong></p>
<p>PEDRO MARTA SANTOS &#8211; Na cabe&ccedil;a sempre atenta do Manuel Fonseca, o director da Valentim de Carvalho Filmes. Estando esta empresa associada ao Grupo Valentim de Carvalho, detentor dos direitos musicais de uma vasta discografia amaliana, a pergunta para n&oacute;s foi: como n&atilde;o o fazer?</p>
<p><strong>APAD</strong><strong> &#8211; Sentiu o peso da responsabilidade ao escrever um gui&atilde;o sobre uma figura nacional?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Senti, provavelmente como um argumentista grego sentiria ao escrever um gui&atilde;o sobre Maria Callas. Como diria o Alvin Sargent ( guionista de seis dos melhores filmes norte-americanos dos &uacute;ltimos 40 anos &ndash; &ldquo;&rdquo;Straight Time&rdquo;, &ldquo;Julia&rdquo;, Bobby Deerfield&rdquo;, &ldquo;Paper Moon&rdquo;, &ldquo;I Walk the Line&rdquo; e &ldquo;Stalking Moon&rdquo; &ndash; e autor dum filmezinho oculto chamado &ldquo;Homem-Aranha 2&rdquo;), &ldquo;com o grande poder vem a grande responsabilidade&rdquo;.<br />
O potencial poder comunicativo de um filme sobre Am&aacute;lia &eacute; imenso, mas a responsabilidade &eacute; ainda maior.</p>
<p><strong>APAD</strong> <strong>- Como foi a organiza&ccedil;&atilde;o narrativa de uma hist&oacute;ria t&atilde;o grande e diversificada? Quais foram os pontos chave para estruturar o gui&atilde;o?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Depois de quatro meses a ler todas as notas de rodap&eacute;, ver todas as imagens e escutar todas as grava&ccedil;&otilde;es actualmente dispon&iacute;veis sobre &ndash; e com &ndash; Am&aacute;lia Rodrigues, surgiram de forma natural duas ou tr&ecirc;s linhas de for&ccedil;a, ideias recorrentes impressas na vida e palavras da Am&aacute;lia: a sua personalidade exterior procurava sempre a alegria, mas encontrava quase sempre a solid&atilde;o; a dimens&atilde;o popular de Am&aacute;lia foi, em grande medida, um sistema de fuga a uma dimens&atilde;o interior marcada pelo isolamento; e, a sintetizar, a Am&aacute;lia-mulher era solar, viva, de resposta sempre pronta, mas acabava por cair num &ldquo;looking for love in all the wrong places&rdquo;.<br />
Encontrada a chave do conceito, o resto tornou-se mais f&aacute;cil.</p>
<p><strong>APAD</strong> <strong>- Como decidiu as personagens da vida de Am&aacute;lia que deviam entrar e as que deviam ficar de fora?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Nalguns casos, atrav&eacute;s da regularidade e intensidade com que a pr&oacute;pria Am&aacute;lia falava delas ao longo dos anos. Noutros casos, pela intui&ccedil;&atilde;o da for&ccedil;a dramat&uacute;rgica que algumas delas poderiam desempenhar em pontos decisivos do conflito.<br />
Nas primeiras vers&otilde;es, havia figuras apaixonantes (Rui Valentim de Carvalho, Alberto Janes, Frederico Val&eacute;rio) que tivemos de reduzir ou, simplesmente, anular pela reduzida potencialidade dram&aacute;tica no quadro da hist&oacute;ria que quer&iacute;amos contar.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Que preocupa&ccedil;&otilde;es teve com a escrita dos di&aacute;logos?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Primeiro e sempre: cumprirem a sua fun&ccedil;&atilde;o informativa no desenvolvimento da ac&ccedil;&atilde;o. Em segundo lugar: nunca se substitu&iacute;rem a ela.<br />
Por &uacute;ltimo: encontrar um registo naturalista mas envolvente, que fizesse jus &agrave; intelig&ecirc;ncia espont&acirc;nea e ao registo emocional de Am&aacute;lia.<br />
Tudo adaptado &agrave;s pequenas nuances pr&oacute;prias a cada &eacute;poca do tempo de ac&ccedil;&atilde;o (de 1920 a 1974, com um pre&acirc;mbulo-ep&iacute;logo em 1984).</p>
<p><strong>APAD</strong><strong> &#8211; Como se documentou (livros, filmes, &aacute;udios, testemunhos reais) sobre a figura?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Com voracidade conscienciosa e a ajuda da Manuela Martins, a excelente jornalista que nos ajudou a fazer o trabalho de pesquisa.</p>
<p><strong>APAD</strong> <strong>- Qual &eacute; o peso da m&uacute;sica no gui&atilde;o? Como se estrutura uma hist&oacute;ria sobre uma cantora?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Como imagina, o peso &eacute; grande. No entanto, n&atilde;o podemos ceder &agrave; pregui&ccedil;a de uma abordagem meramente ilustrativa &ndash; a voz e o g&eacute;nio de Am&aacute;lia s&atilde;o t&atilde;o claros que &eacute; um impulso tentador &ndash; como n&atilde;o podemos fazer depender a estrutura do argumento da evolu&ccedil;&atilde;o na carreira da cantora (suponho que isto servir&aacute; para qualquer &ldquo;biopic&rdquo; musical).<br />
Em &ldquo;Am&aacute;lia&rdquo;, o que nos interessou mais foi o reflexo da vida na m&uacute;sica, n&atilde;o o oposto.</p>
<p><strong>APAD</strong> <strong>- Como foi o processo de escrita? Pode-nos contar um pouco sobre os pequenos dramas di&aacute;rios da escrita do filme? Como &eacute; trabalhar em equipa?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Nem o grande Billy Wilder se considerou auto-suficiente para escrever certos projectos a solo &ndash; os seus melhores filmes como realizador/guionista s&atilde;o os que partilhou na escrita com Charles Brackett, primeiro, e I.A.L. Diamond, depois (tamb&eacute;m &eacute; verdade que acabou por se chatear com ambos).<br />
Eu e o Jo&atilde;o Tordo, conscientes da nossa fraca natureza e importantes limita&ccedil;&otilde;es, adoptamos outra estrat&eacute;gia: depois de eu escrever o tratamento, ele escreveu a primeira vers&atilde;o do gui&atilde;o. Eu escrevi a segunda vers&atilde;o sobre a dele, e ele fez o mesmo para escrever a terceira &#8211; e assim sucessivamente.<br />
Para a vers&atilde;o final, trocamos ideias como adultos e discutimos como adolescentes. Foi divertido, e o ego de ambos sobreviveu.</p>
<p><strong>APAD</strong><strong> &#8211; Como foi a rela&ccedil;&atilde;o com o realizador? Em que momentos concordaram e divergiram?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Foi &oacute;ptima. O Carlos Coelho da Silva tem um instinto forte para as solu&ccedil;&otilde;es visuais, o que facilita a vida ao argumentista. No que divergimos, n&atilde;o houve nada que um bom tinto alentejano n&atilde;o tenha resolvido a contento.</p>
<h2>Sobre &ldquo;A Vida Privada de Salazar&rdquo;</h2>
<p><strong>APAD &#8211; Como surgiu o projecto?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Das piores coisas que um argumentista pode fazer &eacute; repetir-se, mas: Uma vez mais, a ideia surgiu da mente hiper-activa do director da VC Filmes, Manuel Fonseca.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Que caracter&iacute;sticas acha mais importantes para a escrita de uma mini-s&eacute;rie televisiva?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Ter a percep&ccedil;&atilde;o da mente humana de Linda La Plante (&ldquo;Prime Suspect&rdquo; 1 a 3), o sentido do espect&aacute;culo de J.J. Abrams (&ldquo;Lost&rdquo;), o &ldquo;timing&rdquo; nas r&eacute;plicas de Aaron Sorkin (&ldquo;West Wing&rdquo;, &ldquo;Studio 60 on the Sunset Strip&rdquo;) e o entendimento da alma de Krzysztof Piesiewicz (&ldquo;Dekalog&rdquo;, a &ldquo;trilogia das cores&rdquo; de Kieslowski). Na aus&ecirc;ncia de tudo isso, &eacute; rezar para descobrir tr&ecirc;s coisas:<br />
- uma premissa &agrave; prova de bala<br />
- uma personagem principal cujos conflitos possam ser traduzidos em ac&ccedil;&atilde;o e sustentem satisfatoriamente a intriga ao longo de 180 minutos<br />
- um olhar, um ponto de vista muito espec&iacute;fico sobre os objectivos e motiva&ccedil;&otilde;es do(s) protagonista(s)</p>
<p><strong>APAD &#8211; Que ingredientes deve ter uma s&eacute;rie hist&oacute;rica</strong>?</p>
<p>PMS &#8211; O principal &ndash; e mais complexo &ndash; parece-me ser o equil&iacute;brio exacto entre factos e fic&ccedil;&atilde;o. Numa s&eacute;rie hist&oacute;rica, a realidade nunca &eacute; suficiente, mas se os factos nucleares n&atilde;o s&atilde;o respeitados, perde-se o mais importante: a verosimilhan&ccedil;a.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Que estrat&eacute;gia usou para estruturar a s&eacute;rie e os seus epis&oacute;dios?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Antes de mais, encontrar o ponto de vista: adoptamos o de Christine Garnier, a mais c&eacute;lebre &ndash; e p&uacute;blica &ndash; amante de Salazar, uma jornalista francesa que conhece o presidente do Conselho no Ver&atilde;o de 1951 e sobre ele escrever&aacute; o eleg&iacute;aco &ldquo;Mes Vacances avec Salazar&rdquo;. Na nossa fic&ccedil;&atilde;o, Christine &eacute; uma narradora omnisciente &ndash; e n&atilde;o necessariamente paneg&iacute;rica &ndash; da vida privada do ditador.<br />
Depois, foi necess&aacute;rio encontrar o tom e o ritmo da progress&atilde;o dram&aacute;tica relativamente a cada uma das figuras cruciais &ndash; mulheres, na sua maioria &ndash; no percurso do cidad&atilde;o Ant&oacute;nio de Oliveira Salazar, tomando op&ccedil;&otilde;es quanto &agrave; forma como elas se entrecruzam, e quanto &agrave; fun&ccedil;&atilde;o de &ldquo;espelho&rdquo; (reflexo de uma faceta e tempo precisos do protagonista) que cada uma delas desempenha na intriga global.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Quais s&atilde;o os pontos marcantes do gui&atilde;o? Sobre o que &eacute; a s&eacute;rie?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Os pontos marcantes s&atilde;o os que correspondem, na nossa interpreta&ccedil;&atilde;o, &agrave;s situa&ccedil;&otilde;es decisivas da vida privada do ditador: o primeiro momento em que rejeita algu&eacute;m; o primeiro momento em que &eacute; rejeitado &ndash; este definidor de todo o seu percurso futuro, inclusive no plano pol&iacute;tico; e o &uacute;nico momento em que arrisca prescindir do poder em benef&iacute;cio de uma vida familiar, mais &ldquo;normalizada&rdquo;.<br />
A s&eacute;rie lan&ccedil;a mais perguntas do que oferece respostas, mas talvez se possa dizer que &ldquo;A Vida Privada de Salazar&rdquo; &eacute; sobre a forma como um homem nega intimamente tudo aquilo que defendeu publicamente.<br />
O Salazar privado &eacute;, em certa medida, o oposto do &ldquo;orgulhosamente s&oacute;s&rdquo;.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Como trabalha para ter um leque de personagens diferenciadas?</strong></p>
<p>PMS &#8211; H&aacute; v&aacute;rias t&eacute;cnicas, e cada argumentista tem a sua. Encontrar as fraquezas de car&aacute;cter espec&iacute;ficas a cada personagem parece-me um bom princ&iacute;pio.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Teve algumas restri&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o ou realiza&ccedil;&atilde;o durante a escrita?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Nenhuma, a n&atilde;o ser o sempre desagrad&aacute;vel choque com a realidade que implica n&atilde;o ter dez milh&otilde;es de d&oacute;lares &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o para rebentar pontes e p&ocirc;r dez mil figurantes no Terreiro do Pa&ccedil;o com trajes de &eacute;poca.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Como se documentou para escrever a hist&oacute;ria?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Novamente atrav&eacute;s de todas as fontes bibliogr&aacute;ficas e videogr&aacute;ficas dispon&iacute;veis em Portugal, al&eacute;m de depoimentos de recolha pr&oacute;pria e uma pesquisa coordenada, uma vez mais, pela expedit&iacute;ssima Manuela Martins.</p>
<p><strong>APAD &#8211; A s&eacute;rie ter&aacute; alguma revela&ccedil;&atilde;o surpresa sobre a personalidade de Salazar?</strong></p>
<p>PMS &#8211; V&aacute;rias. Teremos todo o interesse e prazer em que as descubram numa noite de Novembro pr&oacute;ximo, na SIC.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Que complica&ccedil;&otilde;es surgiram no decorrer destes dois projectos? H&aacute; algum epis&oacute;dio mais caricato ou problem&aacute;tico no processo de escrita destes dois projectos?</strong></p>
<p>PMS &#8211; N&atilde;o houve qualquer complica&ccedil;&atilde;o que exceda os limites naturais de um pa&iacute;s pequeno com alguns problemas em lidar de forma clara e desempoeirada com o seu passado recente. O resto foi o Para&iacute;so.</p>
<h2>Sobre o Of&iacute;cio de ser Guionista</h2>
<p><strong>APAD &#8211; Tr&ecirc;s dicas para escrever uma boa hist&oacute;ria.</strong></p>
<p>PMS &#8211; &Eacute; um lugar-comum, mas as palavras de William Goldman no seminal &ldquo;Adventures in the Screen Trade&rdquo; ainda s&atilde;o o que de mais importante li at&eacute; hoje sobre a escrita de argumento: &ldquo;um argumento &eacute; estrutura&rdquo;.<br />
Acrescentaria: um argumento s&atilde;o tr&ecirc;s coisas &ndash; estrutura, estrutura e estrutura.<br />
Um gui&atilde;o &eacute; como um castelo de cartas. Se alguma carta est&aacute; mal disposta no conjunto, ou colocada no local errado, o castelo desmorona-se.<br />
Sem estrutura n&atilde;o h&aacute; drama. Sem drama n&atilde;o h&aacute; conflito. Sem conflito n&atilde;o h&aacute; argumento. Sem argumento n&atilde;o h&aacute; filme, e tenho que voltar ao jornalismo.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Tr&ecirc;s dicas para construir uma personagem cativante.</strong></p>
<p>PMS &#8211; Responder &agrave;s seguintes tr&ecirc;s perguntas:<br />
- O que &eacute; que esta personagem quer?<br />
- Do que &eacute; que ela tem mais medo?<br />
- Se estivesse a morrer, qual a &uacute;ltima coisa que diria (obviamente, sem ser &ldquo;Rosebud&rdquo; ou &ldquo;Fredo&hellip;&rdquo;)?</p>
<p><strong>APAD &#8211; Tr&ecirc;s dicas para construir uma cena forte.</strong></p>
<p>PMS &#8211; Entrar na cena o mais tarde poss&iacute;vel.<br />
- Sair da cena o mais cedo poss&iacute;vel.<br />
- Pelo meio, p&ocirc;r as personagens a falar o menos poss&iacute;vel.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Tr&ecirc;s dicas para escrever um bom di&aacute;logo.</strong></p>
<p>PMS &#8211; Escrever pouco (&ldquo;action is character&rdquo;, e o resto &eacute; conversa).<br />
- Como diria o s&aacute;dico Hitchcock, escrever as cenas de amor como cenas de ac&ccedil;&atilde;o e as cenas de ac&ccedil;&atilde;o como cenas de amor.<br />
- Tratar todos os di&aacute;logos como um duelo de vida ou morte (mesmo que se trate de pedir um caf&eacute; e uma torrada).</p>
<p><strong>APAD</strong> &#8211; Como &eacute; ser argumentista em Portugal?</p>
<p>PMS &#8211; &Agrave; excep&ccedil;&atilde;o das pessoas que d&atilde;o todo o seu talento e suor para permitir que existam telenovelas em Portugal prontas &agrave; velocidade da luz, n&atilde;o existem argumentistas em Portugal. Ainda n&atilde;o somos uma profiss&atilde;o, somos uma perturba&ccedil;&atilde;o neur&oacute;tica.<br />
Tento escrever gui&otilde;es de longa-metragem h&aacute; 10 anos, e neste momento tenho o rar&iacute;ssimo privil&eacute;gio de trabalhar numa estrutura onde sou tratado como um guionista. Espero que haja muitos mais rapidamente. Quanto mais houver, mais todos beneficiam do triunfo de cada um.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Como &eacute; a sua rela&ccedil;&atilde;o com produtores e realizadores?</strong></p>
<p>PMS &#8211; A melhor poss&iacute;vel. Tive a sorte de escrever filmes (alguns n&atilde;o se concretizaram por minha culpa ou devido a problemas de financiamento, outros est&atilde;o em fase de montagem financeira) para Alexandre Valente, Leonel Vieira e Ant&oacute;nio-Pedro Vasconcelos, e todos eles t&ecirc;m uma vis&atilde;o particular, mas extremamente v&aacute;lida, do que pode ser uma parte nuclear do futuro cinema portugu&ecirc;s.</p>
<p><strong>APAD &#8211; &Eacute; um guionista que n&atilde;o est&aacute; agrupado em nenhuma empresa de guionismo. Prefere o trabalho independente ou em pequenas equipas?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Em pequenas equipas. N&atilde;o no acto da escrita, que s&oacute; &eacute; funcional se for essencialmente solit&aacute;rio (da&iacute;, p. ex., a op&ccedil;&atilde;o de escrever o &ldquo;Am&aacute;lia&rdquo; a quatro m&atilde;os, mas &agrave; dist&acirc;ncia). Mas o trabalho de equipa &eacute; imprescind&iacute;vel nas v&aacute;rias fases do desenvolvimento do projecto, na pr&eacute;-produ&ccedil;&atilde;o, no acompanhamento da rodagem e nas fascinantes excita&ccedil;&otilde;es sinf&oacute;nicas da p&oacute;s-produ&ccedil;&atilde;o.<br />
&Eacute; outra das &ndash; poucas &ndash; verdades absolutas em cinema: o cinema &eacute; uma arte eminentemente colectiva.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Acha que em Portugal existe uma verdadeira ind&uacute;stria audiovisual (mesmo que pequena)?</strong></p>
<p>PMS &#8211; N&atilde;o. Mas estou convicto de que a VC Filmes lhe poder&aacute; responder de outra maneira daqui a cinco anos.</p>
<p><strong>APAD &#8211; Quais s&atilde;o os seus pr&oacute;ximos projectos?</strong></p>
<p>PMS &#8211; Velar pela sa&uacute;de narrativa de uma com&eacute;dia rom&acirc;ntica.</p>
 <div class='series_links'> <a href='http://argumentistas.org/2008/10/nuno-markl-a-comedia-e-um-organismo-vivo/' title='Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo'>Próximo artigo</a></div>]]></content:encoded>
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		<title>Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Oct 2008 17:04:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Nunes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dossier]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[comédia]]></category>
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		<category><![CDATA[humor]]></category>
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		<description><![CDATA[Nuno Markl dispensa apresentações. Guionista, humorista, bloguista, radiofonista, autor de sucesso e personalidade pública, as suas opiniões, ideias e até preconceitos são sempre provocadores e inspiradores.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='series_toc'><h3>Índice: Revista#1</h3><ol><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/pedro-marta-santos-ainda-nao-somos-uma-profissao-somos-uma-perturbacao-neurotica/' title='Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica'>Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica</a></li><li>Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo</li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/rui-vilhena-e-preciso-criar-historias-com-que-as-pessoas-possam-se-identificar/' title='Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar'>Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/antonio-ferreira-um-guiao-e-como-uma-lista-de-compras/' title='António Ferreira: um guião é como uma lista de compras'>António Ferreira: um guião é como uma lista de compras</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/tiago-santos-como-ganhar-a-vida-numa-profissao-que-nao-existe/' title='Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe'>Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/jorge-vaz-nande-devemos-sempre-olhar-para-a-nigeria/' title='Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria'>Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/perfil-neil-labute-matem-o-dramaturgo/' title='Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo'>Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/dexter-o-mundo-ao-contrario/' title='Dexter: o mundo ao contrário'>Dexter: o mundo ao contrário</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/my-blueberry-nights-o-neon-da-paixao/' title='My Blueberry Nights: o néon da paixão'>My Blueberry Nights: o néon da paixão</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/sex-and-the-city-teorias-e-conspiracoes-sobre-a-comedia-romantica/' title='Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica'>Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/the-servant-parasitas-da-alma/' title='The Servant: parasitas da alma'>The Servant: parasitas da alma</a></li></ol></div> <p lang="pt-BR" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><em><a href="http://www.imdb.com/name/nm1436477/">Nuno Markl</a> dispensa apresenta&ccedil;&otilde;es. Guionista, humorista, bloguista, radiofonista, autor de sucesso e personalidade p&uacute;blica, as suas opini&otilde;es, ideias e at&eacute; preconceitos s&atilde;o sempre provocadores e inspiradores.</em></p>
<p lang="pt-BR" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><em><a href="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/markl-revista1-foto.jpg"><img width="500" height="400" src="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/markl-revista1-foto.jpg" alt="" title="markl-revista1-foto" class="aligncenter size-full wp-image-223" /></a></em></p>
<p lang="pt-BR" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b>APAD &#8211; <i>O humor aprende-se com os mestres, aprende-se com os livros ou aprende-se fazendo? Que mestres e livros recomendas?</i></b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c12" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NUNO&nbsp;MARKL <b>- </b>Para mim, o humor nasce de uma mistura de todas essas coisas. Talvez n&atilde;o tanto com os livros; sempre me fez alguma confus&atilde;o que se escrevam livros sobre como fazer humor. Acho que uma pessoa que tem a frieza de sistematizar os seus supostos conhecimentos de com&eacute;dia num comp&ecirc;ndio t&eacute;orico &eacute;, &agrave; partida, a menos indicada para explicar a outros como fazer rir! Por alguma raz&atilde;o os tipos que escrevem os livros sobre como escrever com&eacute;dia s&atilde;o desprovidos de qualquer curriculum apreci&aacute;vel na &aacute;rea. Porqu&ecirc;? Porque est&atilde;o a escrever teorias sobre como escrever piadas, em vez de as fazer. Acho que, em parte, o humor nasce de uma predisposi&ccedil;&atilde;o natural que a pessoa tenha para isso; n&atilde;o imagino um tipo sem qualquer pendor nato para o humor a conseguir ter uma carreira bem sucedida nessa &aacute;rea, e penso que n&atilde;o ser&atilde;o &ldquo;os mestres&rdquo; nem livros da especialidade que o conseguir&atilde;o ajudar. Para l&aacute; desse pendor nato &ndash; que, muitas vezes, surge no ser humano como um mecanismo de defesa, como foi o meu caso, dado que era um mi&uacute;do t&iacute;mido, solit&aacute;rio e algo enxovalhado, na escola &ndash; acho que se aprende muito vendo boa com&eacute;dia. Eu sei que h&aacute; colegas meus que se recusam a ver com&eacute;dia de outras pessoas, porque sentem que ficam demasiado formatados e perdem frescura e originalidade, mas eu n&atilde;o concordo com isso. Acho a com&eacute;dia um organismo vivo, um monstro que evolui e que ganha novas formas a partir de formas anteriores. Nenhuma coisa nova de com&eacute;dia surge de gera&ccedil;&atilde;o espont&acirc;nea, do nada; tudo surge a partir de algo que est&aacute; atr&aacute;s. Quando me dizem coisas como, &ldquo;ent&atilde;o e o The Office, do Ricky Gervais, n&atilde;o &eacute; novo e genial?&rdquo;. Confirmo que &eacute; das maiores obras-primas da com&eacute;dia mundial, mas, como o pr&oacute;prio Gervais admite, o The Office nunca teria surgido se ele n&atilde;o tivesse visto e amado o filme This is Spinal Tap, do Rob Reiner, o pai de todos os document&aacute;rios c&oacute;micos forjados. Isto &eacute; uma ilustra&ccedil;&atilde;o fant&aacute;stica do que &eacute; a com&eacute;dia e de como &eacute; uma criatura em constante muta&ccedil;&atilde;o. &Eacute; isso que &eacute; fascinante nela.</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c18" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b>APAD &#8211; Como reconheces uma boa id&eacute;ia? Que caracter&iacute;sticas deve ter essa ideia? Como &eacute; trabalhada?</b></p>
<p lang="pt-BR" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; N&atilde;o h&aacute; nada mais relativo do que aquilo a que chamamos uma boa ideia, porque depois entram todas as vari&aacute;veis e nuances. Para come&ccedil;ar, aquilo que &eacute; uma boa ideia c&oacute;mica para mim, pode n&atilde;o ter gra&ccedil;a nenhuma para o meu vizinho do lado. &Eacute; por isso que a com&eacute;dia acaba por ser a arte de tentar agradar n&atilde;o a toda a gente, mas &ndash; de prefer&ecirc;ncia &ndash; ao maior n&uacute;mero poss&iacute;vel de pessoas! Depois, mesmo que tenhamos algo que consideramos &ldquo;uma boa ideia&rdquo;, e que os nossos colegas de trabalho considerem tamb&eacute;m &ldquo;uma boa ideia&rdquo;, assim que ela se transforma num sketch ou num epis&oacute;dio de sitcom, ou num filme c&oacute;mico, ou seja no que for, quando damos por n&oacute;s a olhar para o texto completo, pode dar-se o caso de come&ccedil;armos a pensar: &ldquo;Ora bolas, quando era s&oacute; uma ideia, tinha muito mais piada do que agora que &eacute; um gui&atilde;o&rdquo;. E h&aacute; ainda mais uma vari&aacute;vel poss&iacute;vel: mesmo que a nossa &ldquo;boa ideia&rdquo; tenha sido transformada num &ldquo;bom gui&atilde;o&rdquo;, uma coisa &eacute; ela funcionar no papel; a outra &eacute; quando as c&acirc;maras come&ccedil;am a filmar e os actores a interpret&aacute;-la. Esse pode ser o momento tr&aacute;gico em que nos apercebemos que a nossa &ldquo;boa ideia&rdquo;, em teoria, podia parecer magn&iacute;fica no papel, mas, na pr&aacute;tica, n&atilde;o resulta. Nunca sabemos no que vai resultar aquilo que nos parece uma boa ideia. Se achamos mesmo que &eacute; uma boa ideia, n&atilde;o temos outro rem&eacute;dio sen&atilde;o acompanh&aacute;-la e trabalh&aacute;-la com um cuidado de ourives desde que a transformamos num texto e no momento em que ela &eacute; transformada em algo de concreto, seja um sketch, um epis&oacute;dio, um filme. Ter aquilo que consideramos uma &ldquo;boa ideia&rdquo; &eacute; um desafio tremendo, porque t&ecirc;-la &eacute; mesmo s&oacute; o come&ccedil;o. A hora da verdade sobre a qualidade da nossa ideia s&oacute; acontece mais tarde. E tanto pode ser um momento encantador, como pode ser um momento terrivelmente frustrante. Curiosamente, n&atilde;o sei se tenho uma veia masoquista, mas uma das coisas que mais adoro na minha profiss&atilde;o &eacute; a incerteza sobre se a ideia &ldquo;brilhante&rdquo; que nos surgiu vai acabar transformada numa coisa capaz de nos orgulhar a vida toda ou em algo totalmente falhado. Se resultar em algo de falhado, conv&eacute;m n&atilde;o entrar logo em depress&atilde;o: &agrave;s vezes basta que realizadores e actores n&atilde;o estejam exactamente no mesmo comprimento de onda que n&oacute;s, quando a escrevemos, para que falhe. O que n&atilde;o quer dizer, portanto, que a ideia seja m&aacute;. Mas n&atilde;o sacudo a &aacute;gua do capote: muitas vezes n&oacute;s, argumentistas de humor, ficamos iludidos com a categoria de uma ideia a que s&oacute; n&oacute;s &eacute; que achamos gra&ccedil;a. H&aacute; que ter a humildade de ouvir quem nos rodeia e de admitir que h&aacute; coisas que s&oacute; resultam para n&oacute;s. E se assim for, mais vale ter outra ideia&#8230;</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c22" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b>APAD &#8211; Que diferen&ccedil;a h&aacute; entre o humor de sketch, o humor de sitcom, e o humor de filme? Quais s&atilde;o essas diferen&ccedil;as especificas?</b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c25" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; A maneira mais f&aacute;cil de explicar isso acaba por ser com os tr&ecirc;s n&iacute;veis de rapidez, efic&aacute;cia e poder de s&iacute;ntese que cada uma dessas linguagens pede. Como &eacute; &oacute;bvio, o humor de sketch conv&eacute;m que seja curto, concentrado, uma verdadeira flecha a acertar em cheio no &ldquo;funny bone&rdquo; do espectador. A sitcom j&aacute; permite mais tempo de desenvolvimento e o filme ainda mais que a sitcom. No entanto, que isso n&atilde;o sirva de desculpa para se engonhar em qualquer um destes dois formatos. Eu acho sempre que quer a sitcom, quer o cinema c&oacute;mico s&oacute; t&ecirc;m a ganhar se forem buscar alguma da rapidez e concis&atilde;o &agrave; linguagem do sketch. Mas isto &eacute; uma teoria muito grosseira, porque dentro dos sketches, das sitcoms e dos filmes h&aacute; um n&atilde;o mais acabar de estilos de humor. Eu adoro os filmes do Wes Anderson, por exemplo; acho-os comoventes mas tamb&eacute;m hilariantes, e no entanto levam o seu tempo, n&atilde;o procuram desesperadamente &ldquo;punchlines&rdquo; nem vivem obcecados com o poder de s&iacute;ntese. E &eacute; por isso que s&atilde;o geniais.</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c28" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b><i>APAD &#8211; Como constr&oacute;is uma personagem c&ocirc;mica? Inspiras-te no real ou inspiras-te noutras personagens? Como sabes se uma personagem tem pernas para andar?</i></b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c31" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; Pela minha experi&ecirc;ncia, acho que n&atilde;o h&aacute; mais nada contraproducente do que uma pessoa sentar-se em frente ao computador, concentrad&iacute;ssima, com a miss&atilde;o &ldquo;n&atilde;o saio daqui hoje enquanto n&atilde;o criar uma personagem&rdquo;. As melhores personagens que criei n&atilde;o surgiram dessa forma, surgiram de observa&ccedil;&atilde;o e, &agrave;s vezes, por acidente. Um exemplo: a personagem do chato, que o Nuno Lopes faz n&rsquo; Os Contempor&acirc;neos. Nasceu de um misto entre a minha inten&ccedil;&atilde;o de pegar nessa caracter&iacute;stica t&atilde;o portuguesa de dizer mal de tudo e de dizer &agrave;s pessoas para trabalharem (quando muitas das pessoas que dizem isso n&atilde;o fazem nada) e de uma conversa absolutamente descontra&iacute;da entre mim e a minha namorada. Por alguma raz&atilde;o, come&ccedil;&aacute;mos a dizer um ao outro coisas disparatadas como &ldquo;vai mas &eacute; trabalhar&rdquo; e a criarmos situa&ccedil;&otilde;es em que fantasi&aacute;vamos dizer isso &agrave;s pessoas que menos mereceriam ouvir tal coisa. E tudo isto ainda sem sequer imaginar que isso poderia resultar num sketch. E foi no carro, com ela, enquanto troc&aacute;vamos essas frases s&oacute; pelo gozo, que eu de repente pensei que isto podia dar um sketch recorrente interessante: uma personagem que n&atilde;o faz nada e cuja vida &eacute; dizer aos outros para irem trabalhar e a insult&aacute;-los pelas raz&otilde;es mais inesperadas. Tomei logo nota no &ldquo;bloco de notas&rdquo; do telem&oacute;vel (tenho um polegar extremamente desenvolvido!) e depois, com o meu parceiro de escrita, o Francisco Martiniano Palma, come&ccedil;&aacute;mos a desenvolver a personagem e a coloc&aacute;-la numa s&eacute;rie de situa&ccedil;&otilde;es. O resto da equipa adorou o boneco e ele foi atribu&iacute;do ao Nuno Lopes, que tomou a decis&atilde;o de o caracterizar daquela maneira. E eu acho hilariante. H&aacute; muita gente que adora a personagem, mas h&aacute; tamb&eacute;m aqueles que dizem que estamos a gozar com os deficientes. Mas n&atilde;o, eu n&atilde;o vejo aquela personagem como um deficiente. Vejo-o como um tipo cuja &uacute;nica defici&ecirc;ncia, e, no fundo, aquilo que o fez ficar daquela forma retorcida e estranha, &eacute; o facto de passar toda a sua vida a queixar-se. Ele ficou como que feito de c&acirc;imbras, provocadas pela tens&atilde;o em que anda. &Eacute; um grand&iacute;ssimo trabalho do Nuno Lopes, e &eacute; um processo org&acirc;nico incr&iacute;vel, a maneira como vamos afinando o boneco em constante comunica&ccedil;&atilde;o com ele. N&oacute;s escrevemos um texto, o Nuno recebe-o e de vez em quando telefona-nos a expor-nos ideias ou sobre a caracteriza&ccedil;&atilde;o dele, ou de insultos extra que ele inventa e que s&atilde;o sempre hilariantes. O Nuno &eacute; um actor de sonho para um argumentista, porque n&atilde;o s&oacute; faz brilhantemente aquilo que escrevemos, como d&aacute; um input criativo espantoso.</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c34" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b>APAD &#8211; Costumas tamb&eacute;m escrever com outras pessoas. Como funciona essa escrita a v&aacute;rias m&atilde;os? Que diferen&ccedil;a encontras em rela&ccedil;&atilde;o aos textos que escreves a solo?</b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c37" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; Encontrar um parceiro ideal de escrita &eacute; das coisas mais dif&iacute;ceis que existem. E &eacute; quase t&atilde;o importante como ter perfeita empatia sexual com a mulher que se ama! Eu tenho a sorte de ter trabalhado, ao longo da minha carreira, com pessoas com quem tinha uma empatia humor&iacute;stica perfeita, como o Ricardo Ara&uacute;jo Pereira, o Jo&atilde;o Quadros, o Filipe Homem Fonseca, o Eduardo Madeira, entre outros, e isso torna o trabalho muito mais divertido e prof&iacute;cuo. Actualmente, custa-me sequer considerar a hip&oacute;tese de emparelhar com outra pessoa que n&atilde;o o Francisco Palma, porque chegamos a um ponto em que percebemos exactamente a mente um do outro, em que estamos em sintonia numas coisas e em que, nas coisas em que n&atilde;o estamos em sintonia, as nossas diferen&ccedil;as servem para afinarmos as ideias um do outro. Tamb&eacute;m gosto de escrever a solo, e acho que toda a gente deve escrever coisas a solo, de vez em quando, porque ser&atilde;o sempre, obviamente, mais pessoais. Mas h&aacute; projectos em que s&oacute; faz bem trabalharmos em conjunto com outras pessoas, porque nos apercebemos muito mais depressa do que poder&aacute; ou n&atilde;o funcionar.</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c40" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b>APAD &#8211; Escreves todos os dias? Guardas um bloco com id&eacute;ias? Que h&aacute;bitos de escrita mant&eacute;ns?</b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c43" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; Todos os dias. Mesmo quando estou de f&eacute;rias, tenho tend&ecirc;ncia a tomar nota de ideias. As ideias s&atilde;o bens demasiado preciosos para pensarmos que se mant&ecirc;m na nossa cabe&ccedil;a quando voltamos &ldquo;&agrave; civiliza&ccedil;&atilde;o&rdquo;. J&aacute; perdi imensas ideias que me pareciam boas, porque achei que n&atilde;o me ia esquecer delas. Por isso tomo nota delas ou num peda&ccedil;o de papel, ou no tal &ldquo;bloco de notas&rdquo; do telem&oacute;vel ou ent&atilde;o, se tiver o computador por perto, abro logo um documento de Word e escrevo-as. N&atilde;o tenho propriamente um bloco com ideias, mas tenho uma pasta no meu computador cheia de id&eacute;ias e esbo&ccedil;os. Para sketches, para sitcoms, para filmes. Sei que boa parte delas nunca ser&atilde;o concretizadas, mas paci&ecirc;ncia!</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c46" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b><i>APAD &#8211; H&aacute; f&oacute;rmulas ou estruturas para escrever uma piada? Quais s&atilde;o os teus segredos?</i></b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c49" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; Conv&eacute;m ter uma no&ccedil;&atilde;o do &ldquo;timing&rdquo; das coisas. O &ldquo;timing&rdquo; &eacute; tudo, em com&eacute;dia. Falar em f&oacute;rmulas ou estruturas &eacute;, uma vez mais, estar a tornar um processo que deve ter muito de org&acirc;nico e instintivo, numa coisa maquinal e r&iacute;gida. Quando dou &ldquo;workshops&rdquo; nas Produ&ccedil;&otilde;es Fict&iacute;cias, o ponto em que insisto mais &eacute; na quest&atilde;o da palha. Escrevam tudo o que vos vem &agrave; cabe&ccedil;a. Releiam. E depois sejam implac&aacute;veis a cortar o que est&aacute; a mais. E no humor, o que est&aacute; a mais &eacute; o que n&atilde;o tem qualquer utilidade para essa coisa simples e elementar que &eacute; fazer rir e contar uma hist&oacute;ria. Porque tudo &eacute; uma hist&oacute;ria &ndash; at&eacute; o mais curto sketch. &Agrave;s vezes, no come&ccedil;o, &eacute; complicado a uma pessoa perceber exactamente o que &eacute; a palha, porque tudo lhe parece bom. Mas com o tempo vamos aprendendo a ser implac&aacute;veis com o nosso pr&oacute;prio trabalho e a perceber que &agrave;s vezes aquela conversa toda que achamos do melhor que j&aacute; escrevemos na nossa vida&#8230; &eacute; palha.</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c52" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b>APAD &#8211; Quando sabes que um texto est&aacute; pronto? Dedicas muito tempo &agrave; reescrita?</b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c55" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; Algum tempo. Depende do projecto &ndash; h&aacute; projectos, sobretudo os mais comerciais e que imp&otilde;em um ritmo de produ&ccedil;&atilde;o e de trabalho mais veloz, em que &agrave;s vezes n&atilde;o dedicamos tanto tempo &agrave; reescrita como gostar&iacute;amos. Mas &eacute; sempre essencial reler e reescrever, e tentarmos ao m&aacute;ximo, na medida do poss&iacute;vel, afinar um texto at&eacute; termos a certeza de que n&atilde;o vamos enviar para os actores uma coisa na qual tenhamos qualquer tipo de d&uacute;vida.</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c58" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b>APAD &#8211; Para alem do talento e do trabalho &aacute;rduo, que caracter&iacute;sticas tem de ter um humorista? Que conselhos d&aacute;s para se gerir uma carreira em Portugal?</b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c61" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; Acima de tudo, estarem preparados para fazer muito pouco trabalho realmente pessoal. Pelo menos nos primeiros anos de trabalho, tem de se aceitar fazer muita coisa com a qual n&atilde;o nos identificamos, mas aprende-se imenso com isso. Eu n&atilde;o me identificava minimamente com o programa Ai os Homens, e, no entanto, uma das primeiras coisas que escrevi quando cheguei &agrave;s Produ&ccedil;&otilde;es Fict&iacute;cias, foi o sketch humor&iacute;stico desse programa, o J&oacute;ni Bigode, interpretado pelo Ant&oacute;nio Feio. F&atilde; que sou do Ant&oacute;nio Feio, tive depois a felicidade de trabalhar com ele num registo onde ambos est&aacute;vamos muito mais contentes &ndash; a s&eacute;rie Para&iacute;so Filmes ou a tradu&ccedil;&atilde;o e adapta&ccedil;&atilde;o dos textos dos Monty Python que fiz para a pe&ccedil;a que ele encenou, recentemente &ndash; mas o Ai os Homens foi a coisa mais distante do meu universo em que trabalhei. Mas n&atilde;o me arrependo nada, aprendi muito. &Eacute; melhor afinarmos a nossa escrita num tipo de programa que n&atilde;o nos diga muito, do que come&ccedil;ar logo a escrever, cheio de expectativas, para um programa que est&aacute; mais pr&oacute;ximo do que achamos que &eacute; o nosso humor e falharmos nele. Outro conselho &eacute; resistir &agrave; tenta&ccedil;&atilde;o de aceitar muitos projectos. Eu aqui h&aacute; tempos era assim, tudo me parecia um desafio aliciante, e o humor pede concentra&ccedil;&atilde;o e dedica&ccedil;&atilde;o, e &eacute; imposs&iacute;vel emprestar a nossa concentra&ccedil;&atilde;o e a nossa dedica&ccedil;&atilde;o a uma quantidade imensa de coisas. Infelizmente, os argumentistas portugueses s&atilde;o, de uma forma geral, t&atilde;o escandalosamente mal pagos, que, para viver, por vezes n&atilde;o t&ecirc;m outro rem&eacute;dio sen&atilde;o aceitarem mais projectos do que deveriam estar a fazer.</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c64" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b>APAD &#8211; O que achas que os novos formatos &#8211; no telem&oacute;vel ou internet &ndash; est&atilde;o mudar na escrita de humor? Achas que esse &eacute; o futuro?</b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c67" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; Aqui h&aacute; tempos teria respondido que n&atilde;o, que a televis&atilde;o continua a ser quem dita as regras. Agora, felizmente, j&aacute; n&atilde;o estou assim t&atilde;o certo disso. Um exemplo concreto e nacional &eacute; o programa onde estou a trabalhar, Os Contempor&acirc;neos. A quantidade de pessoas que me diz que espera que os sketches sejam postos no You Tube ou no site da RTP para os ver, &eacute; tremenda. H&aacute; toda uma gera&ccedil;&atilde;o que perdeu a paci&ecirc;ncia para estar sentada num sof&aacute; &agrave; espera que comece o seu programa favorito. As pessoas sabem que, no dia seguinte, v&atilde;o poder, na Internet, construir a sua grelha e ver tudo quando e onde lhes apetecer. Isto come&ccedil;a a acontecer um pouco por todo o lado. Na Am&eacute;rica, as grandes esta&ccedil;&otilde;es est&atilde;o a disponibilizar os epis&oacute;dios das suas maiores s&eacute;ries on-line, minutos ap&oacute;s elas acabarem de ser transmitidas na televis&atilde;o. Mais incr&iacute;vel ainda: h&aacute; s&eacute;ries que estreiam exclusivamente na net, o que permite &agrave;s esta&ccedil;&otilde;es de televis&atilde;o testar o seu impacto junto do p&uacute;blico antes de as estrearem na TV. E, &eacute; claro, h&aacute; cada vez mais gente a criar conte&uacute;dos exclusivos para Internet, coisas que nunca ser&atilde;o vistas na televis&atilde;o e que est&atilde;o j&aacute; formatadas para serem vistas nestes formatos &ndash; net, telem&oacute;veis, consolas port&aacute;teis, iPods. E j&aacute; n&atilde;o falamos s&oacute; de amadores, que v&ecirc;m a Internet como uma op&ccedil;&atilde;o r&aacute;pida e barata onde podem disponibilizar o seu trabalho; vemos profissionais a criarem conte&uacute;dos de muita qualidade para estes novos suportes. Um dos casos mais falados nos &uacute;ltimos tempos &eacute; o do Joss Whedon, criador da s&eacute;rie Buffy Ca&ccedil;adora de Vampiros, que desenvolveu uma mini-s&eacute;rie hilariante, muit&iacute;ssimo bem escrita e produzida, em tr&ecirc;s actos, apresentada sob a forma de um v&iacute;deo-blog, o Dr. Horrible. Outro dia subscrevi tamb&eacute;m o videopodcast do The Onion, o famoso jornal c&oacute;mico americano, que todos os dias oferece no seu site um notici&aacute;rio falso hilariante, em v&iacute;deo. E estava a ver isso no meu iPhone, com uma qualidade de imagem e som espantosas e estava a pensar como, de facto, o mundo mudou&#8230; E n&atilde;o &eacute; preciso olhar para o estrangeiro para ver experi&ecirc;ncias interessantes e bem sucedidas na Internet. Por exemplo, &eacute; muito interessante o percurso da equipa portuguesa da BeActive, que anda a vender os seus conceitos de fic&ccedil;&atilde;o interactiva &ndash; como o Di&aacute;rio de Sofia ou o T2 Para 3 &ndash; a grandes produtoras internacionais.</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c70" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b>APAD &#8211; Como achas que est&aacute; o mercado de televis&atilde;o em Portugal para os argumentistas?</b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c73" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; N&atilde;o est&aacute; grande coisa, como sempre. Os argumentistas portugueses s&atilde;o mal pagos e parcamente respeitados. Lembro-me sempre da hist&oacute;ria real que me contaram de um produtor da televis&atilde;o portuguesa que se referiu aos argumentistas como &ldquo;a pior corja que h&aacute; no meio&rdquo;. Quando, na verdade, somos os mais inofensivos e achincalhados! Uma pessoa habitua-se, porque o amor pela arte de contar hist&oacute;rias sobrep&otilde;e-se a esse tipo de coisa, mas sinto que ainda se respeita muito pouco a pessoa que tem as id&eacute;ias e as escreve. Foi interessante, de repente, que o mundo percebesse, &agrave; conta da greve dos argumentistas americanos, que existem uns tipos que, se por algum motivo param de trabalhar, as pessoas deixam de ver as s&eacute;ries que gostam. A greve deles foi inspiradora, de certa maneira, embora duvide que uma mobiliza&ccedil;&atilde;o daquelas funcionasse, em Portugal. L&aacute;, eles s&atilde;o a ind&uacute;stria que se sabe; c&aacute; n&oacute;s continuamos muito no &ldquo;cada um por si&rdquo;.</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c76" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b>APAD &#8211; Que tend&ecirc;ncias consideras mais interessantes no actual panorama global?</b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c79" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; Agrada-me muito a melancolia que, de repente, entrou no humor. E que foi trazida, recentemente, pelo Ricky Gervais. N&atilde;o s&oacute; a melancolia, mas o embara&ccedil;o &ndash; coisas que, &agrave; partida, n&atilde;o parecem material pass&iacute;vel de provocar ataques de riso. Uma das coisas que gosto tanto no epis&oacute;dio especial final do The Office ingl&ecirc;s, como no epis&oacute;dio especial final do Extras &eacute; que, a dada altura de ambos, o Gervais e o Merchant entram por caminhos melodram&aacute;ticos sem que o espectador se aperceba como raio &eacute; que de repente deixou de se rir para ficar comovido. Acho isso extraordin&aacute;rio, acho que abre enormes horizontes para a com&eacute;dia, essa capacidade de, sem deixar de ser com&eacute;dia, poder, de vez em quando, ser uma coisa triste e po&eacute;tica. De certa maneira isso n&atilde;o &eacute; novo &ndash; se virmos bem, o Chaplin j&aacute; fazia isso. Mas hoje, sobretudo a escola brit&acirc;nica faz isso com uma sofistica&ccedil;&atilde;o e uma fluidez que s&atilde;o de deixar uma pessoa boquiaberta.</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c82" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b>APAD &#8211; O que dirias a um jovem guionista que quer fazer carreira na com&eacute;dia?</b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c85" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; Que se mantenha fiel ao que acredita, sem deixar de considerar a tal hip&oacute;tese de ter de escrever coisas para programas que, &agrave; partida, est&atilde;o longe daquilo em que acredita. Porque uma pessoa tem de ganhar a vida, e &eacute; raro que se comece logo a escrever aquilo que se quer. Que ainda assim, escrevendo esses programas, tente manter-se fiel ao m&aacute;ximo &agrave;quilo em que acredita e ao seu humor. Que n&atilde;o tenha medo de experimentar e que tenha sempre em mente a ideia de que &eacute; melhor um falhan&ccedil;o interessante do que um sucesso banal. Que use essa ferramenta extraordin&aacute;ria que estava longe de ser o que &eacute; hoje quando eu comecei, e que &eacute; a Internet: que mostre ao mundo alguns textos num blog, que ouse pegar numa c&acirc;mara de telem&oacute;vel e num programa rudimentar de edi&ccedil;&atilde;o de imagem e que, basicamente, fa&ccedil;a coisas. Quando as coisas s&atilde;o boas, acabam por ser notadas, mais cedo ou mais tarde. E que n&atilde;o desista&#8230; e que tenha paci&ecirc;ncia, que &agrave;s vezes, neste of&iacute;cio, as coisas demoram a concretizar-se ou a ter o resultado que esper&aacute;vamos.</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c88" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b>APAD &#8211; Achas que as empresas de guionismo t&ecirc;m futuro?</b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c91" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; Acho que sim, precisamente por causa do mundo c&atilde;o que est&aacute; l&aacute; fora para os argumentistas. Tudo o que possa ser uma uni&atilde;o que fa&ccedil;a a for&ccedil;a, &eacute; de ter em conta.</p>
 <div class='series_links'><a href='http://argumentistas.org/2008/10/pedro-marta-santos-ainda-nao-somos-uma-profissao-somos-uma-perturbacao-neurotica/' title='Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica'>Artigo anterior</a> <a href='http://argumentistas.org/2008/10/rui-vilhena-e-preciso-criar-historias-com-que-as-pessoas-possam-se-identificar/' title='Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar'>Próximo artigo</a></div>]]></content:encoded>
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		<title>Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Oct 2008 17:03:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Nunes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Rui Vilhena é um dos mais destacados guionistas nacionais, responsável por muitas telenovelas de sucesso e pela aguardada mini-série "Equador".]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='series_toc'><h3>Índice: Revista#1</h3><ol><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/pedro-marta-santos-ainda-nao-somos-uma-profissao-somos-uma-perturbacao-neurotica/' title='Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica'>Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/nuno-markl-a-comedia-e-um-organismo-vivo/' title='Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo'>Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo</a></li><li>Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar</li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/antonio-ferreira-um-guiao-e-como-uma-lista-de-compras/' title='António Ferreira: um guião é como uma lista de compras'>António Ferreira: um guião é como uma lista de compras</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/tiago-santos-como-ganhar-a-vida-numa-profissao-que-nao-existe/' title='Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe'>Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/jorge-vaz-nande-devemos-sempre-olhar-para-a-nigeria/' title='Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria'>Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/perfil-neil-labute-matem-o-dramaturgo/' title='Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo'>Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/dexter-o-mundo-ao-contrario/' title='Dexter: o mundo ao contrário'>Dexter: o mundo ao contrário</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/my-blueberry-nights-o-neon-da-paixao/' title='My Blueberry Nights: o néon da paixão'>My Blueberry Nights: o néon da paixão</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/sex-and-the-city-teorias-e-conspiracoes-sobre-a-comedia-romantica/' title='Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica'>Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/the-servant-parasitas-da-alma/' title='The Servant: parasitas da alma'>The Servant: parasitas da alma</a></li></ol></div> <p><a href="http://www.imdb.com/name/nm2000096/"><em>Rui Vilhena</em></a><em> &eacute; um dos mais destacados guionistas nacionais, respons&aacute;vel por muitas telenovelas de sucesso e pela aguardada mini-s&eacute;rie &quot;Equador&quot;.</em></p>
<p><a href="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/rui-vilhena-rev1-foto.jpg"><img width="500" height="400" src="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/rui-vilhena-rev1-foto.jpg" alt="" title="rui-vilhena-rev1-foto" class="aligncenter size-full wp-image-215" /></a></p>
<h2>Ser guionista</h2>
<p><b>APAD &#8211; Quando e porque come&ccedil;ou a escrever? O que o fascina na profiss&atilde;o? </b></p>
<p>Rui Vilhena &#8211; Sempre gostei muito de contar hist&oacute;rias. Quando fui para a Calif&oacute;rnia come&ccedil;ei a tirar alguns cursos ligados ao audiovisual e foi ent&atilde;o que passei a levar a s&eacute;rio, o que na &eacute;poca percebi, ser a minha voca&ccedil;&atilde;o.</p>
<p><b>APAD &#8211; Como &eacute; que elabora a estrutura de uma telenovela? Como mant&eacute;m o registro de tantas personagens e de tantos mini-plots? </b></p>
<p>RV &#8211; Penso que quase todos os autores de telenovelas utilizem o mesmo m&eacute;todo de trabalho. H&aacute; uma grelha contendo todas as cenas do epis&oacute;dio que &eacute; distribuida entre os demais autores. Uma vez escritas as cenas, estas s&atilde;o montadas, relidas e reescritas at&eacute; estarem de acordo com o perfil que se pretende dar a hist&oacute;ria. Como s&atilde;o muitas personagens, a concentra&ccedil;&atilde;o e a mem&oacute;ria s&atilde;o fundamentais para n&atilde;o perder o fio a meada.</p>
<p><b>APAD &#8211; Que segredos (que possam ser partilhados) utiliza na concep&ccedil;&atilde;o das suas hist&oacute;rias? Para al&eacute;m do trabalho &aacute;rduo h&aacute; alguma formula do sucesso para conquistar os p&uacute;blicos portugueses? H&aacute; personagens ou tramas a que os portugueses nutrem mais simpatia? </b></p>
<p>RV &#8211; A novela &eacute; o espelho da vida real. &Eacute; preciso criar hist&oacute;rias com que as pessoas possam se identificar &ndash; que pare&ccedil;am crediveis. No meu caso, gosto que o p&uacute;blico pense que &ldquo;isso podia estar a acontecer comigo&rdquo;, ou que conhe&ccedil;am algu&eacute;m que j&aacute; tenha passado por uma situa&ccedil;&atilde;o semelhante. Acredito que o p&uacute;blico de telenovela em geral, seja no M&eacute;xico, no Brasil ou em Portugal, tem gostos semelhantes &ndash; a paix&atilde;o pelo folhetim.</p>
<p><b>APAD &#8211; Que regras utiliza na concep&ccedil;&atilde;o das personagens? Como atinge o equil&iacute;brio entre as diversas personagens e hist&oacute;rias? Em que sentido tem preocupa&ccedil;&otilde;es de audi&ecirc;ncia e dos diversos p&uacute;blicos? </b></p>
<p>RV &#8211; A audi&ecirc;ncia &eacute; uma preocupa&ccedil;&atilde;o constante, assim como os diversos p&uacute;blicos. Regra geral, nas minhas novelas h&aacute; plots para todos: terceira idade, infanto-juvenil, adolescentes&hellip; Como a novela n&atilde;o &eacute; escrita para mim e para os meus amigos, &eacute; preciso estar atento a evolu&ccedil;&atilde;o da teledramaturgia, para que a novela acompanhe as novas tendencias dramaturgicas. Parece que estamos a falar de moda, mas a escrita &eacute; uma arte como outra qualquer, vive em constante muta&ccedil;&atilde;o. Hoje o p&uacute;blico de telenovelas &eacute; mais impaciente. Espera resolu&ccedil;&otilde;es r&aacute;pidas. Ningu&eacute;m quer esperar 200 cap&iacute;tulos para saber que Maria, afinal, n&atilde;o era filha de Pedro. &Eacute; fundamental que cada personagem tenha um conflito pr&oacute;prio. A fun&ccedil;&atilde;o de uma personagem n&atilde;o pode ser apenas &ldquo;ser irm&atilde; da protagonista&rdquo;. Sim, ela &eacute; irm&atilde;, mas &eacute; cleptomaniaca, ninfoman&iacute;aca &hellip; uma personagem sem conflito interior, &eacute; uma personagem sem alma. Depois de elaboradas cria-se a teia de aranha que ir&aacute; compor a evolu&ccedil;&atilde;o do relacionamento entre elas ao longo da trama.</p>
<p><b>APAD &#8211;  Que regras utiliza na concep&ccedil;&atilde;o de cenas? Tem alguma dicas ou sugest&otilde;es que possam ser &uacute;teis a jovens guionistas? </b></p>
<p>RV &#8211; Regra de ouro: uma boa cena tem ritmo, originalidade e alma. Para quem est&aacute; a come&ccedil;ar vejam tudo. Principalmente as s&eacute;ries americanas que hoje &eacute; o que se faz de melhor na televis&atilde;o.</p>
<p><b>APAD &#8211; O que &eacute; para si um bom di&aacute;logo? Que truques usa para escrever um di&aacute;logo memor&aacute;vel? </b></p>
<p>RV &#8211; Um bom di&aacute;logo &eacute; aquele que n&atilde;o ma&ccedil;e, que n&atilde;o esteja recheado de clich&eacute;s, que me fa&ccedil;a reflectir, que de alguma forma altere a minha maneira de pensar. A t&eacute;cnica &eacute; fundamental na elabora&ccedil;&atilde;o de um di&aacute;logo. Os meus chegam a ser matem&aacute;ticos (tamanho das falas, da cena, etc&hellip;)</p>
<p><b>APAD &#8211; Costuma trabalhar em equipa. Com quantas pessoas trabalha numa novela? Como &eacute; dividido o trabalho? Como consegue manter a coer&ecirc;ncia numa escrita a tantas m&atilde;os? </b></p>
<p>RV &#8211; Actualmente &ldquo;A Face do Mal&rdquo; conta com uma equipa de sete autores. &Eacute; fundamental que todos escrevam como se de um autor se tratasse, uma vez que o perfil das personagens n&atilde;o pode ser alterado. Se cada autor imprimisse o seu tom, as personagens seriam, de certeza, no m&iacute;nimo esquizofr&eacute;nicas.</p>
<h2>Produto e Marketing</h2>
<p><b>APAD &#8211; Em que medida a publicidade e o marketing s&atilde;o essenciais para o sucesso da novela nas audi&ecirc;ncias? Que outras formas de publicitar o produto s&atilde;o hoje comuns? </b></p>
<p>RV &#8211; Uma novela &eacute; um produto como outro qualquer. Precisa de uma excelente divulga&ccedil;&atilde;o. A internet parece ser a nova fronteira nesta &aacute;era. Eu mesmo j&aacute; tenho um video no YouTube a promover &ldquo;A Face do Mal&rdquo;.</p>
<p><b>APAD &#8211; Para si quais s&atilde;o os factores que mais influenciam o sucesso ou insucesso de um projecto para televis&atilde;o? </b></p>
<p>RV &#8211; Uma boa hist&oacute;ria &eacute; a pe&ccedil;a chave.</p>
<p><b>APAD &#8211; O que &eacute; necess&aacute;rio para um guionista criar uma boa rela&ccedil;&atilde;o com o produtor ou com o realizador? Como &eacute; a natureza deste trabalho em conjunto? </b></p>
<p>RV &#8211; Costumo dizer que o autor e o realizador s&atilde;o como marido e mulher. Se o casamento funciona, a novela tamb&eacute;m. &Eacute; preciso haver respeito, confian&ccedil;a e di&aacute;logo. A falta de comunica&ccedil;&atilde;o numa equipa pode levar o projecto &agrave; fal&ecirc;ncia.</p>
<p><b>APAD &#8211; Que diferen&ccedil;as costuma encontrar entre o gui&atilde;o e o produto final? </b></p>
<p>RV &#8211; H&aacute; sempre diferen&ccedil;as. Nunca &eacute; aquilo que imaginamos&hellip; pode estar pr&oacute;ximo, pior ou melhor&hellip; mas igual, &eacute; raro.</p>
<h2>O mercado</h2>
<p><b>APAD &#8211; Qual deve ser a expectativa para um jovem guionista no mercado portugu&ecirc;s (TV e Cinema)? </b></p>
<p>RV &#8211; A &aacute;rea &eacute; bastante promissora. O mercado est&aacute; faminto por novos profissionais. Mas lembrem-se: &eacute; importante ter conhecimento da t&eacute;cnica.</p>
<p><b>APAD &#8211; Acha que j&aacute; se pode falar numa verdadeira ind&uacute;stria televisiva em Portugal? </b></p>
<p>RV &#8211; Sem d&uacute;vida. Uma ind&uacute;stria que j&aacute; n&atilde;o fica nada a dever ao que se faz em outros pa&iacute;ses, nomeadamente no Brasil.</p>
<p><b>APAD &#8211; O guionista &eacute; algu&eacute;m que &eacute; valorizado na cadeia de valor destes produtos? </b></p>
<p>RV &#8211; O guionista come&ccedil;a a ser uma pe&ccedil;a cada vez mais importante. O texto &eacute; a base de tudo. Uma novela pode ter grandes cen&aacute;rios, excelentes actores, figurinos lind&iacute;ssimos, mas se a hist&oacute;ria n&atilde;o for boa, n&atilde;o tiver alma e n&atilde;o surpreender, o resto de nada vale.</p>
<p><b>APAD &#8211; Teve uma empresa de guionistas. Acha que uma organiza&ccedil;&atilde;o deste g&eacute;nero &eacute; uma boa solu&ccedil;&atilde;o? Haver&aacute; espa&ccedil;o para o surgimento de v&aacute;rias empresas do g&eacute;nero? </b></p>
<p>RV &#8211; Acho que &eacute; fundamental. Na Script tivemos a oportunidade de realizar diversos projectos na &aacute;era da forma&ccedil;&atilde;o e dar oportunidade a estagi&aacute;rios.</p>
<p><b>APAD &#8211; Que diferen&ccedil;as encontra entre a ind&uacute;stria em Portugal e a ind&uacute;stria noutros paises, como Brasil e Estados Unidos? </b></p>
<p>RV &#8211; Em Portugal ainda estamos muito voltados para a telenovela. Penso que o Equador ir&aacute; alterar um pouco este cen&aacute;rio pela qualidade da s&eacute;rie &ndash; e o interesse que certamente ir&aacute; despertar. Os Estados Unidos, depois de um grande investimento da ind&uacute;stria televisiva &#8211; foram buscar os grandes talentos do cinema (guionistas, realizadores, iluminadores) &#8211; est&atilde;o a produzir o que se faz de melhor na televis&atilde;o a n&iacute;vel mundial. Principamente no que se refere &agrave; qualidade dos di&aacute;logos. O importante &eacute; estarmos sempre atentos ao que est&aacute; a ser feito, &eacute; tentar perceber porque as s&eacute;ries x e y fazem sucesso, qual &eacute; o segredo&hellip; um guionista tem de estar sempre actualizado.</p>
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		<title>António Ferreira: um guião é como uma lista de compras</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Oct 2008 17:03:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Nunes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[António Ferreira (realizador, argumentista e/ou produtor de filmes como "Esquece tudo o que te disse" e "Respirar debaixo de água") é um dos novos e promissores autores do cinema português.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='series_toc'><h3>Índice: Revista#1</h3><ol><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/pedro-marta-santos-ainda-nao-somos-uma-profissao-somos-uma-perturbacao-neurotica/' title='Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica'>Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/nuno-markl-a-comedia-e-um-organismo-vivo/' title='Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo'>Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/rui-vilhena-e-preciso-criar-historias-com-que-as-pessoas-possam-se-identificar/' title='Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar'>Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar</a></li><li>António Ferreira: um guião é como uma lista de compras</li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/tiago-santos-como-ganhar-a-vida-numa-profissao-que-nao-existe/' title='Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe'>Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/jorge-vaz-nande-devemos-sempre-olhar-para-a-nigeria/' title='Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria'>Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/perfil-neil-labute-matem-o-dramaturgo/' title='Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo'>Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/dexter-o-mundo-ao-contrario/' title='Dexter: o mundo ao contrário'>Dexter: o mundo ao contrário</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/my-blueberry-nights-o-neon-da-paixao/' title='My Blueberry Nights: o néon da paixão'>My Blueberry Nights: o néon da paixão</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/sex-and-the-city-teorias-e-conspiracoes-sobre-a-comedia-romantica/' title='Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica'>Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/the-servant-parasitas-da-alma/' title='The Servant: parasitas da alma'>The Servant: parasitas da alma</a></li></ol></div> <p><em><a href="http://www.imdb.com/name/nm0274278/">Ant&oacute;nio Ferreira</a> (</em><em>realizador, argumentista e/ou produtor de filmes como &quot;Esquece tudo o que te disse&quot; e &quot;Respirar debaixo de &aacute;gua&quot;) </em><em>&eacute; um dos novos e promissores autores do cinema portugu&ecirc;s. <br />
</em></p>
<p><em><a href="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/underwater-rev1-foto.jpg"><img width="500" height="400" class="aligncenter size-full wp-image-211" title="underwater-rev1-foto" alt="" src="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/underwater-rev1-foto.jpg" /></a></em></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western" id="ahku12"><b>APAD &#8211; Como produtor, como reconheces um bom gui&atilde;o? Que qualidades tem de ter para dizeres: quero comprar com este projecto.</b></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western">Ant&oacute;nio Ferreira &#8211; Procuro sobretudo pegar em projectos com os quais me identifique e que veja que t&ecirc;m possibilidades de chegar &agrave; produ&ccedil;&atilde;o. A ZED tem se caracterizado por produzir filmes narrativos, que abordam quest&otilde;es actuais, sejam elas de car&aacute;cter pol&iacute;tico ou sociais. N&atilde;o h&aacute; formulas para gui&otilde;es ou filmes de sucesso, por isso muitas vezes o que me guia &eacute; a intui&ccedil;&atilde;o relativamente ao gui&atilde;o e a quem est&aacute; por detr&aacute;s dele.</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western" id="ahku13"><b>APAD &#8211; Recebes muitos gui&otilde;es? Quantos deles tem o m&iacute;nimo de qualidade? Que erros consideras mais comuns num guionista que est&aacute; a come&ccedil;ar?</b></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western">AF &#8211; Sim recebo bastantes. A grande maioria &eacute; de fraca qualidade. Normalmente o que recebo varia entre a tentativa de com&eacute;dia (que normalmente cai na caricatura desinteressante) e a tentativa de filme po&eacute;tico (com os tiques bem portugueses do suposto filme de autor). Quando recebo alguma coisa com interesse, procuro saber mais da pessoa que escreve, bem como ler outras coisas que tenha escrito. Acho que o maior problema dos gui&otilde;es escritos em Portugal, &eacute; o vazio de ideias por detr&aacute;s das hist&oacute;rias&#8230; ou se perdem em formalismos e ensaios est&eacute;ticos, ou acham que o que vai ter sucesso &eacute; uma hist&oacute;ria tipo &ldquo;malucos do riso&rdquo;. Por isso olho sempre para a ideia que est&aacute; por detr&aacute;s de uma hist&oacute;ria e se essa hist&oacute;ria est&aacute; bem contada e adequada ao meio cinematogr&aacute;fico.&nbsp;</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western" id="ahku20"><b>APAD &#8211; Tu escreves muitas vezes com guionistas ou com outros realizadores. Como &eacute; a vossa rela&ccedil;&atilde;o? Como &eacute; o vosso m&eacute;todo?</b></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western">AF &#8211; Costumo dizer que escrevo mais por necessidade do que por voca&ccedil;&atilde;o, pois a escrita &eacute; uma actividade que envolve muita disponibilidade mental, que eu com as fun&ccedil;&otilde;es de realizador e de produtor vou tendo cada vez menos. Quando me associo a algu&eacute;m na escrita, procuro uma pessoa que ache que tem a sensibilidade e o talento adequados para o projecto em causa. Por vezes escrevemos em conjunto, atrav&eacute;s de reuni&otilde;es e trocando vers&otilde;es por email, noutras circunst&acirc;ncias vou apenas acompanhando o processo de escrita juntamente com o argumentista, sendo que este &eacute; que faz o trabalho de colocar no papel o gui&atilde;o propriamente dito.&nbsp;</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western" id="ahku27"><b>APAD &#8211; Quais s&atilde;o as etapas por que passa a escrita de um gui&atilde;o para ti? Escreves logo em formato de argumento? Recorrer a m&eacute;todos como os cart&otilde;es na parede ou a leitura falada dos di&aacute;logos?</b></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western">AF &#8211; Normalmente esbo&ccedil;o um esqueleto do argumento, divis&atilde;o por cenas ou sequ&ecirc;ncias, e tamb&eacute;m costumo usar o m&eacute;todo dos cart&otilde;es na parede. Depois costumo come&ccedil;ar a &ldquo;p&ocirc;r carne&rdquo; em cima desse esqueleto (di&aacute;logos, desenvolvimento da cena, etc), melhorando-o vers&atilde;o ap&oacute;s vers&atilde;o. Normalmente estou a mexer no argumento at&eacute; muito perto da filmagem. Gosto de trabalhar um pouco com os actores antes de fazer uma vers&atilde;o final do gui&atilde;o.&nbsp;</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western" id="ahku34"><b>APAD &#8211; Em termos de estrutura do gui&atilde;o segues algum modelo, como a estrutura dos tr&ecirc;s actos? Tens algum conselho em termos da estrutura do filme?</b></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western">AF &#8211; Sim, tenho em conta os modelos cl&aacute;ssicos, mas n&atilde;o os sigo cegamente. Quando escrevo tenho muito claro que hist&oacute;ria quero contar e os personagens que tenho. Estes factores s&atilde;o o meu &ldquo;farol&rdquo; na escrita de um argumento e s&atilde;o eles que determinam o ritmo e tom do gui&atilde;o.</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western" id="ahku39"><b> APAD &#8211; O que faz uma boa cena e um bom di&aacute;logo? Tens algumas dicas ou conselhos?</b></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western">AF &#8211; Eu n&atilde;o acho muito estimulante um tipo de cinema mais contemplativo, como tal, acho que cada cena deve contribuir para o avan&ccedil;o da narrativa e deve ter uma fun&ccedil;&atilde;o clara no argumento. Se uma cena n&atilde;o acrescenta informa&ccedil;&atilde;o, deve na minha opini&atilde;o desaparecer, at&eacute; porque a minha experi&ecirc;ncia diz-me que s&atilde;o essas cenas que depois desaparecem na montagem. Como tal, para mim uma boa cena &eacute; aquela que faz avan&ccedil;ar a narrativa. Um bom di&aacute;logo &eacute; aquele que caracteriza o meu personagem e nos d&aacute; a informa&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria ao avan&ccedil;o da narrativa, de prefer&ecirc;ncia de uma forma cred&iacute;vel e subtil.&nbsp;</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western" id="ahku46"><b> APAD &#8211; Quando est&aacute;s a escrever tens algum tipo de preocupa&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o?</b></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western">AF &#8211; Infelizmente sim, pois &eacute; inevit&aacute;vel como produtor abstrair-me completamente dos aspectos da produ&ccedil;&atilde;o enquanto escrevo. Mas sou da opini&atilde;o que no momento da escrita n&atilde;o nos devemos limitar por quest&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o. Esses ajustes devem ser feitos mais tarde, quando o processo de produ&ccedil;&atilde;o se inicia.</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western" id="ahku53"><b> APAD &#8211; Costumas apresentar os teus projectos? Tens algum conselho para quem faz um pitch?</b></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western">AF &#8211; Infelizmente o modo de financiamento em Portugal n&atilde;o passa por convencermos quem financia da validade do projecto numa sess&atilde;o de pitching (&eacute; tudo feito atrav&eacute;s de dossiers). Todavia acho importante sermos capazes de resumir o nosso filme num par de par&aacute;grafos, ajuda-nos a ter em mente sobre o que &eacute; o nosso filme.</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western" id="ahku60"><b>APAD &#8211; Qual &eacute; a rela&ccedil;&atilde;o entre um guiao e a vers&atilde;o final do filme? O que muda de uma etapa para a outra? Como &eacute; o trabalho com os actores?</b></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western">AF &#8211; Muda muito. Costumo dizer que um gui&atilde;o &eacute; como uma lista de compras que levamos para a rodagem. Essa lista cont&eacute;m os ingredientes necess&aacute;rios a cozinhar o meu filme. Depois &eacute; na montagem que os misturo em diferentes propor&ccedil;&otilde;es. Por isso tamb&eacute;m quando filmo n&atilde;o tenho planifica&ccedil;&otilde;es ou storyboards. &Eacute; no set, com o trabalho com os actores e com o director de fotografia que tomo as decis&otilde;es. Do mesmo modo, &eacute; na montagem, olhando para o que consegui adquirir no &ldquo;supermercado&rdquo;, que decido como vou encadear os planos. Por isso, vejo um filme como um longo processo de cria&ccedil;&atilde;o, din&acirc;mico, que se vai adaptando &agrave;s circunst&acirc;ncias do processo de filmagem. Como tal, depende de filme para filme as diferen&ccedil;as entre o que estava escrito e o que depois apareceu no &eacute;cran.</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western" id="ahku75"><b>APAD &#8211; O que achas que o digital trouxe de novo ao cinema? Qual &eacute; a tua experi&ecirc;ncia com o formato?</b></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western">AF &#8211; Acho que o digital veio trazer facilidades de produ&ccedil;&atilde;o a quem tem menos recursos financeiros, embora isso n&atilde;o seja propriamente um milagre, pois os custos de produ&ccedil;&atilde;o de um filme n&atilde;o s&atilde;o apenas os da pel&iacute;cula. Eu pessoalmente sou um f&atilde; de novas tecnologias e desejo a morte s&uacute;bita ao 35mm, que &eacute; um suporte dispendioso, dif&iacute;cil de trabalhar, que consome tempo e dinheiro. As novas c&acirc;maras de alta resolu&ccedil;&atilde;o j&aacute; t&ecirc;m uma qualidade suficiente para os meios de exibi&ccedil;&atilde;o que existem e o 35mm s&oacute; sobrevive ainda por falta de uma rede de distribui&ccedil;&atilde;o em alta defini&ccedil;&atilde;o que come&ccedil;a agora a aparecer. Tamb&eacute;m n&atilde;o devemos esquecer que a vida de um filme no grande &eacute;cran &eacute; pouco mais de 1 ano (exibi&ccedil;&atilde;o comercial e festivais) e que o resto da vida de um filme ser&aacute; em DVD e outros formatos digitais. Por isso, &eacute; cada vez mais absurdo utilizar como suporte a pel&iacute;cula.</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western" id="ahku82"><b> APAD &#8211; Achas poss&iacute;vel falarmos de uma ind&uacute;stria portuguesa de cinema?</b></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western">AF &#8211; Acho poss&iacute;vel e desej&aacute;vel. S&atilde;o conhecidas as limita&ccedil;&otilde;es de mercado cinematogr&aacute;fico em Portugal, mas isso n&atilde;o significa que os nossos filmes n&atilde;o possam aspirar a uma depend&ecirc;ncia cada vez menor de subs&iacute;dios e a alcan&ccedil;arem uma saud&aacute;vel rela&ccedil;&atilde;o com o p&uacute;blico. Se os nossos filmes tivessem mais espectadores, fazer-se-iam com certeza mais filmes e haveria consideravelmente mais financiamento para as produ&ccedil;&otilde;es. &Eacute; assim em outros pa&iacute;ses europeus, at&eacute; de menor dimens&atilde;o do que o nosso. Agora claro que isso s&oacute; se conseguir&aacute; com mais produ&ccedil;&atilde;o cinematogr&aacute;fica que nos trar&aacute; diversidade e com filmes que sejam menos voltados para o umbigo dos realizadores e que procurem mais uma rela&ccedil;&atilde;o de comunica&ccedil;&atilde;o com o p&uacute;blico. Na minha opini&atilde;o, os principais respons&aacute;veis pelo estado m&oacute;rbido da cinematografia portuguesa s&atilde;o os criadores (realizadores e argumentistas) e do poder de decis&atilde;o que continua a esbanjar recursos em projectos que nunca deveriam ter sa&iacute;do do papel.</p>
 <div class='series_links'><a href='http://argumentistas.org/2008/10/rui-vilhena-e-preciso-criar-historias-com-que-as-pessoas-possam-se-identificar/' title='Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar'>Artigo anterior</a> <a href='http://argumentistas.org/2008/10/tiago-santos-como-ganhar-a-vida-numa-profissao-que-nao-existe/' title='Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe'>Próximo artigo</a></div>]]></content:encoded>
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