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	<title>argumentistas.orgOpiniões | argumentistas.org</title>
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	<description>Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos</description>
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		<title>Para acabar de vez com a cultura</title>
		<link>http://argumentistas.org/2011/05/para-acabar-de-vez-com-a-cultura/</link>
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		<pubDate>Fri, 13 May 2011 15:11:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Nunes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
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		<category><![CDATA[Opiniões]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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		<description><![CDATA[Rui Neto Pereira, fundador da APAD e presidente do seu concelho fiscal, publica um artigo de opinião sobre o papel da cultura na transformação necessária do país.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><meta charset="utf-8" /><em><strong>Rui Neto Pereira<br />
	</strong>&eacute; Diretor Geral do Bode Expiat&oacute;rio, Fundador e Presidente do Conselho Fiscal da APAD<br />
	</em></p>
<p><span class="Apple-style-span" style="font-size: 12px; font-weight: normal; ">Imaginem a Alemanha em 1944: um pa&iacute;s completamente destru&iacute;do; popula&ccedil;&atilde;o ativa dizimada; sociedade dividida; fam&iacute;lias trucidadas; crian&ccedil;as traumatizadas; vi&uacute;vas desesperadas; sem infraestruturas; sem apoio externo; odiados em todo o mundo; sem cr&eacute;dito; com tr&ecirc;s pot&ecirc;ncias estrangeiras a gerir o seu territ&oacute;rio num clima de vingan&ccedil;as; a economia completamente destru&iacute;da. Se isto n&atilde;o &eacute; o Inferno, anda l&aacute; muito perto.</span><meta charset="utf-8" /></p>
<p>Apenas vinte anos depois, a Alemanha tinha recuperado do duro golpe, reorganizou o pa&iacute;s, recuperou a economia e, melhor ainda, recolocou o PIB a um n&iacute;vel normal como se n&atilde;o tivesse havido o buraco nas contas provocado pela II Guerra Mundial. Com o Jap&atilde;o foi mais ou menos o mesmo. N&oacute;s estamos quase h&aacute; quarenta anos a tentar construir um pa&iacute;s verdadeiramente moderno. Como &eacute; que eles conseguiram?</p>
<p>A resposta &eacute; t&atilde;o simples que se torna desarmante: porque os alem&atilde;es trabalharam para isso; recuperaram o pa&iacute;s; recuperaram o prest&iacute;gio; voltaram a exportar em for&ccedil;a; e s&atilde;o h&aacute; muitos anos o motor da Europa. O segredo da Alemanha &eacute; o povo alem&atilde;o.</p>
<h3>O segredo de Portugal &eacute; o povo portugu&ecirc;s</h3>
<p>Da mesma maneira, o segredo de Portugal &eacute; o povo portugu&ecirc;s. Ali&aacute;s Portugal n&atilde;o tem problemas. Quem tem problemas s&atilde;o os portugueses. Ou seja: eu; voc&ecirc;; a pessoa que est&aacute; sentada ao seu lado; o senhor que est&aacute; na praia a gozar (com) o atestado m&eacute;dico. Se queremos resolver os nossos problemas, temos que mudar os portugueses. J&aacute; tent&aacute;mos mand&aacute;-los para a Alemanha, mas n&atilde;o resultou. &Eacute; preciso tentar algo mais: precisamos de transformar os portugueses em alem&atilde;es.</p>
<p>	Numa altura de semifal&ecirc;ncia do pa&iacute;s, num quadro de quase rotura social, em que somos for&ccedil;ados a pedir ajuda externa porque n&atilde;o fomos capazes de resolver os nossos problemas (a interven&ccedil;&atilde;o do FMI n&atilde;o &eacute; econ&oacute;mica, &eacute; pol&iacute;tica), o que prop&otilde;em os nossos principais partidos?</p>
<p>Apresentam muitas medidas legislativas, o que &eacute; normal, alguma reorganiza&ccedil;&atilde;o do Estado, o que pode ser bom, algum esp&iacute;rito de poupan&ccedil;a, que carece de verifica&ccedil;&atilde;o. E com tudo isto esperamos ter um Estado mais magrinho, mais eficiente, o que &eacute; &oacute;timo. Mas o problema n&atilde;o &eacute; o povo portugu&ecirc;s?</p>
<p>Como &eacute; que se mudam os portugueses? Os nossos governantes gostariam de o fazer por decreto, mas esse expediente tamb&eacute;m j&aacute; foi tentado. H&aacute;-de haver outra maneira de transformar os portugueses em alem&atilde;es.</p>
<p>H&aacute; muitos anos que nos dizem que o segredo est&aacute; na escola. A fazer f&eacute; nisso mandamos os nossos filhos para a escola. Mas ao fim de alguns anos, eles continuam portugueses. Vamos l&aacute; falar com os professores, que por acaso s&atilde;o portugueses, e eles dizem que isso n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel porque os pais s&atilde;o portugueses. E n&atilde;o &eacute; que t&ecirc;m raz&atilde;o? Ent&atilde;o a quem nos podemos queixar? Ao Governo, claro, afinal eles mandam nos portugueses. Se formos perguntar ao primeiro-ministro porque n&atilde;o somos alem&atilde;es, ele responde-nos de forma muito portuguesa que temos toda a raz&atilde;o e para n&atilde;o nos preocuparmos porque ele est&aacute; a preparar um pacote de medidas que incluem um pedido de ajuda &agrave; Uni&atilde;o.</p>
<p>	Na era dos computadores, qualquer crian&ccedil;a, mesmo portuguesa, sabe que l&aacute; dentro &eacute; o software que faz as coisas acontecerem. E que existe um sistema operativo, que &eacute; como a nossa forma de pensar, e existem as aplica&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o o nosso conhecimento em cada &aacute;rea. Como os alem&atilde;es s&atilde;o bons em tecnologia talvez a inform&aacute;tica nos salve.</p>
<h3>O sistema operativo dos pa&iacute;ses &eacute; a cultura</h3>
<p>Na Sociedade do Conhecimento, o sistema operativo dos pa&iacute;ses &eacute; a cultura. N&atilde;o, n&atilde;o &eacute; essa Cultura, n&atilde;o deixem de ler j&aacute; o texto. Para bem da nossa rela&ccedil;&atilde;o de escriv&atilde;o/leitor conv&eacute;m esclarecer uma pequena grande confus&atilde;o: a Cultura &eacute; tudo o que est&aacute; ligado &agrave; atividade e exist&ecirc;ncia humana. O que n&atilde;o &eacute; Cultura &eacute; Natureza (embora a pr&oacute;pria Natureza tamb&eacute;m tenha a sua cultura). Dentro da Cultura existe um pequeno espa&ccedil;o mas muito importante que s&atilde;o as Artes. Quando falamos em cultura portuguesa estamos a referir-nos &agrave; m&uacute;sica da Am&aacute;lia, aos livros do Saramago, ou aos quadros do Cargaleiro (que na verdade s&atilde;o as Artes), mas tamb&eacute;m ao cozido &agrave; portuguesa, &agrave; moda, &agrave; c&eacute;lebre pontualidade, &agrave;s anedotas dos alentejanos, &agrave; forma como gozamos feriados que n&atilde;o fazemos a m&iacute;nima ideia para que servem ou &agrave; rela&ccedil;&atilde;o com o trabalho dos portugueses, tamb&eacute;m conhecida por cultura empresarial. Se o acordo ortogr&aacute;fico estivesse atualizado, o nosso Minist&eacute;rio da Cultura deveria chamar-se Minist&eacute;rio das Artes.</p>
<p>No grande ba&uacute; das Artes cabe aquilo que de melhor existe na atividade material e imaterial dos povos. Pode assumir a forma convencional de um livro ou pode ser um poema num blogue banal. A Arte &eacute; muito importante para a Cultura, e ao mesmo tempo para todos n&oacute;s, porque &eacute; &ndash; ou deveria ser &#8211; a componente mais din&acirc;mica da sociedade, &eacute; o farol que aponta novos caminhos, que influencia e ajuda &agrave; mudan&ccedil;a da sociedade.</p>
<p>Porque &eacute; que as pessoas v&atilde;o &agrave; &Oacute;pera? Bem, porque lhes ofereceram os bilhetes ou porque gostam &ndash; e a frui&ccedil;&atilde;o &eacute; muito importante na Arte &ndash;. Mas socialmente as pessoas saem mais enriquecidas quando os espectadores do Teatro S&atilde;o Carlos, do Cinema King ou do Teatro da Comuna experienciam vanguarda, tendo acesso a novas linguagens, novas abordagens ou novas t&eacute;cnicas; ou quando assistem a obras que fazem um retrato de n&oacute;s mesmos enquanto pessoas ou grupos, para nos vermos espelhados no ecr&atilde;, ironizados no palco ou simbolizados na tela. Esta aprendizagem &eacute; extremamente importante para nos alargar a esfera de conhecimento, para nos ajudar a construir mais op&ccedil;&otilde;es, para nos enriquecer com outros pontos de vista, para nos manter despertos para esta fant&aacute;stica aventura que &eacute; a vida. Como nenhuma outra manifesta&ccedil;&atilde;o humana, a Arte prepara-nos para a mudan&ccedil;a, e s&oacute; por isso merece toda a nossa aten&ccedil;&atilde;o. Com a Arte, grosso modo, a vanguarda d&aacute;-nos o futuro e a reflex&atilde;o d&aacute;-nos o passado e o presente.</p>
<p>	E o que prop&otilde;e os nossos principais partidos para mudar a cultura portuguesa, logo os portugueses? Querem comprar submarinos! Querem construir mon&oacute;litos est&aacute;ticos e conservadores, que serve para tudo menos para o que s&atilde;o precisos. O PSD pretende &lsquo;concluir a rede de bibliotecas iniciada em 1986&rsquo;. O mundo est&aacute; a sair do papel, est&aacute; a haver uma revolu&ccedil;&atilde;o digital que permite criar e ter acesso ao conhecimento de forma f&aacute;cil e muito barata, e o pr&oacute;ximo governo quer gastar milh&otilde;es em bibliotecas que poder&atilde;o n&atilde;o ter futuro. O que vai acontecer &agrave; literatura com a banaliza&ccedil;&atilde;o dos tablets? A produ&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria ser&aacute; a mesma? Ir&aacute; acontecer &agrave; edi&ccedil;&atilde;o livreira o mesmo que aconteceu &agrave; edi&ccedil;&atilde;o musical? E a leitura ser&aacute; a mesma? Ou ser&aacute; que est&atilde;o a pensar transformar as bibliotecas em centros de Conhecimento, espa&ccedil;os din&acirc;micos com conte&uacute;dos atraentes e estrat&eacute;gias bem definidas e s&oacute;lidas para mudar os portugueses? Sobre isso nem uma palavra, pelo que ficamos com as Bibliotecas como dep&oacute;sito de livros. Parece que a ideia &eacute; evitar a heresia de o Cavaco ter uma obra inacabada. O PS vai mais longe. Vai t&atilde;o longe que n&atilde;o sabemos bem onde ir&aacute;. O PS &lsquo;promover&aacute;&rsquo;, &lsquo;apoiar&aacute;&rsquo;, &lsquo;defender&aacute;&rsquo;. Tudo vai ser maior e grandioso. Ou seja, com o dinheiro que temos &lsquo;na mesma tudo ficar&aacute;&rsquo;.</p>
<h3>O problema dos &quot;bons alunos&quot;</h3>
<p>N&atilde;o estamos a falar de alimentar marginais e subs&iacute;dio-dependentes. Estamos a falar de um projeto nacional ambicioso que se destina a converter os portugueses em alem&atilde;es. E isso n&atilde;o vai l&aacute; com Queijo da Serra. Nesta fase do campeonato do nosso desenvolvimento, o pa&iacute;s n&atilde;o se safa mais com a hist&oacute;ria do bom aluno. O &lsquo;bom aluno portugu&ecirc;s&rsquo; fica para a Hist&oacute;ria como o pa&iacute;s que faz tudo o que lhe mandam, mas quando o professor se distrai come&ccedil;a a copiar pelos outros, a inventar atestados m&eacute;dicos, a simular desculpas para ter dispensa de exame. O &lsquo;bom aluno&rsquo; faz o que lhe mandam, revelando toda a ess&ecirc;ncia do seu esp&iacute;rito cat&oacute;lico centen&aacute;rio. O problema &eacute; que quando os professores v&atilde;o embora n&atilde;o fica ningu&eacute;m para lhe dizer o que &eacute; preciso fazer. Que fique claro: Portugal t&ecirc;m um problema financeiro, porque tem um problema econ&oacute;mico, porque tem um problema de produ&ccedil;&atilde;o (econ&oacute;mica, social, familiar, etc), porque tem um problema cultural.</p>
<p>	Esque&ccedil;am as estat&iacute;sticas. O pa&iacute;s vive deprimido com os rankings do nosso descontentamento. O objetivo nacional n&ordm;1 deve ser: acabar com a maledic&ecirc;ncia. Se o fizermos iremos recuperar uma avalia&ccedil;&atilde;o correta da realidade, desenvolveremos a nossa autoestima, pode ser que deixemos de inventar desculpas para nos desresponsabilizarmos, e pode ser que voltemos a acreditar.</p>
<p>Uma vis&atilde;o pol&iacute;tica moderna e inteligente poderia ajudar-nos a subir mais depressa alguns degraus do nosso desenvolvimento. O que poderia come&ccedil;ar com a extin&ccedil;&atilde;o do Minist&eacute;rio das Artes e impor o Minist&eacute;rio do Conhecimento, onde ficariam agrupadas as &aacute;reas da Educa&ccedil;&atilde;o, do Ensino Superior, da Ci&ecirc;ncia, da Cultura, do Patrim&oacute;nio e da Comunica&ccedil;&atilde;o Social.</p>
<p>Em Portugal existe a ideia peregrina de que as crian&ccedil;as v&atilde;o para a escola, sacam o canudo e ficam doutores para a vida toda. Essa &eacute; a maior pervers&atilde;o, o mais erro da nossa cultura. O Conhecimento dos profissionais e dos cidad&atilde;os &eacute; uma obriga&ccedil;&atilde;o para sempre. A escola d&aacute;-nos uma base mental para continuarmos a aprender. Mas a grande aprendizagem da vida &eacute; feita nas empresas e nas organiza&ccedil;&otilde;es, no contacto direto com a realidade, mas tamb&eacute;m nos media que nos entra pela casa dentro.</p>
<h3>Se eu fosse alem&atilde;o&#8230;</h3>
<p>Se eu fosse alem&atilde;o, come&ccedil;aria por pedir um canal de televis&atilde;o nacional para mudar os portugueses. Ou ser&aacute; que podemos confiar na responsabilidade, no sentido de equil&iacute;brio e de bom senso dos operadores privados? <br />
	Propor a privatiza&ccedil;&atilde;o de um canal da RTP para poupar uns milh&otilde;es no or&ccedil;amento, como faz o PSD, mas &eacute; um erro para o desenvolvimento. Da mesma forma que manter este status quo em que os debates pol&iacute;ticos &ndash; e j&aacute; representam uma grande evolu&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o a um passado recente &ndash; s&atilde;o a raz&atilde;o de ser do servi&ccedil;o p&uacute;blico, como parece propor o PS, &eacute; outro erro.<br />
	O enorme poder comunicacional da televis&atilde;o deve ser usado para influenciar as pessoas, para mudar os comportamentos, para estimular as virtudes e a energia de um povo. As pessoas n&atilde;o s&atilde;o bunkers inexpugn&aacute;veis, elas pensam e reagem em fun&ccedil;&atilde;o do caldo de cultura em que est&atilde;o imersas. Para um Governo que sabe o que quer, a televis&atilde;o n&atilde;o &eacute; uma amea&ccedil;a, &eacute; uma oportunidade.</p>
<p>Os nossos governantes e os programadores dos canais p&uacute;blicos t&ecirc;m como atenuante o facto de n&atilde;o haver uma discuss&atilde;o profunda a este n&iacute;vel em Portugal. Para al&eacute;m dos f&oacute;runs de circunst&acirc;ncia com as suas propostas redondas, n&atilde;o existe uma doutrina ambiciosa, uma estrat&eacute;gia corajosa ou um pensamento inovador construtivo. &Eacute; muito ir&oacute;nico que na era da internet, ningu&eacute;m sabe o que pensar das tecnologias que dominam as nossas vidas.</p>
<p>&Eacute; um assunto que merece muita discuss&atilde;o que n&atilde;o cabe agora aqui, mas queria deixar algumas ideias: precisamos de um canal de cariz populista com todos os conte&uacute;dos que o povo gosta &ndash; reality show, contest show, telenovelas, etc &ndash; para ter audi&ecirc;ncias, mas com conte&uacute;dos, personagens, situa&ccedil;&otilde;es que direta ou indiretamente ajudam as pessoas a evoluir; por outro precisamos de outro canal que comunique com as elites, com um discurso diferente, mais profundo, que d&ecirc; a informa&ccedil;&atilde;o racional e emocional que os decisores e os respons&aacute;veis precisam. N&atilde;o &eacute; a anarquia com sabor a restos da atual RTP2, &eacute; uma estrat&eacute;gia de desenvolvimento humano assente em conte&uacute;dos televisivos, por isso necessariamente apelativos.</p>
<h3>Os artistas s&atilde;o os respons&aacute;veis pela arte que se produz em Portugal</h3>
<p>E que pol&iacute;tica para as Artes? A mais importante de todas &eacute; dizer que os artistas s&atilde;o os principais respons&aacute;veis pela Arte que se produz em Portugal. Claro que existem sectores que, pela sua complexidade t&eacute;cnica ou pela escassez de p&uacute;blicos, exigem uma grande presen&ccedil;a do Estado. E quando o Estado sai de cena&#8230; cai o pano. Mas &eacute; importante abandonarmos uma cultura de desresponsabiliza&ccedil;&atilde;o para evoluirmos para uma cultura de responsabilidade social. E isso quer dizer que ningu&eacute;m deve ter a pretens&atilde;o de dizer a um artista que obra ele deve fazer. Mas temos a obriga&ccedil;&atilde;o de perguntar aos artistas, e sobretudo &agrave;queles que s&atilde;o apoiados pelo Estado, qual &eacute; o seu contributo para a Arte tendo em considera&ccedil;&atilde;o a realidade em que vivemos.</p>
<p>Como &eacute; que valorizamos esse &lsquo;contributo&rsquo;? Aqui chegamos &agrave;s grandes decis&otilde;es. &Eacute; consensual dizer que o valor mais importante da Arte &eacute; a sua diversidade. Um dos grandes problemas da Arte em Portugal &eacute; que andamos muitas vezes a fazer o mesmo filme, a escrever o mesmo livro. Mudam as personagens, mas o olhar &eacute; o mesmo.</p>
<p>Mais complicado, mas mais urgente, &eacute; dizer tamb&eacute;m que as pol&iacute;ticas e at&eacute; o nosso ju&iacute;zo das obras de arte devem privilegiar a vanguarda e a reflex&atilde;o. Devemos reconhecer a busca incessante e incans&aacute;vel de novas est&eacute;ticas e novos conceitos assim como a forma demolidora como descobrimos atrav&eacute;s de uma obra uma parte de n&oacute;s mesmos. Quando um j&uacute;ri analisa centenas de gui&otilde;es ou quando um comiss&aacute;rio aposta num artista para a exposi&ccedil;&atilde;o de Ver&atilde;o, tem que fazer escolhas. Muitas vezes escolhem o mais f&aacute;cil: o nome que vagueia pela imprensa; a obra que colecionou mais pr&eacute;mios. &Eacute; f&aacute;cil justificar a escolha. Mas conv&eacute;m nunca esquecer que desde que Marcel Duchamps exp&ocirc;s um urinol numa galeria, a Arte &eacute; uma ideia. E isso j&aacute; foi em 1919.</p>
<p>As pol&iacute;ticas de cultura devem ter ainda outra dimens&atilde;o. Faz parte da cultura portuguesa que os p&uacute;blicos n&atilde;o gostam dos artistas s&eacute;rios, na mesma propor&ccedil;&atilde;o que os artistas s&eacute;rios n&atilde;o gostam dos p&uacute;blicos. Os jornais est&atilde;o repletos de afirma&ccedil;&otilde;es infelizes neste sentido. Uns n&atilde;o se consideram merecedores da aten&ccedil;&atilde;o dos outros. Esta desaven&ccedil;a civilizacional &eacute; na verdade pobreza cultural.</p>
<p>&Eacute; imperioso que a Arte comunique mais com o Pa&iacute;s. A Arte deve sentir-se desejada (pelos p&uacute;blicos), mas como qualquer mulher inteligentemente bonita sabe tamb&eacute;m precisa de se insinuar (aos p&uacute;blicos). <br />
	&Eacute; para isso que vale a pena meter debaixo do mesmo chap&eacute;u a Educa&ccedil;&atilde;o, a Ci&ecirc;ncia e a Cultura. &Eacute; aqui que vale a pena apostar tudo. &Eacute; este interface que os meios de servi&ccedil;o p&uacute;blico devem liderar, criando pontos de contacto em que a Economia e a Arte se possam cruzar, tra&ccedil;ar caminhos e fazer casamentos de proveito m&uacute;tuo. Na Sociedade do Conhecimento empres&aacute;rios e artistas est&atilde;o condenados a trabalhar em conjunto. S&oacute; um exemplo que faz realmente a diferen&ccedil;a: todos os cientistas e artistas apoiados pelo Estado devem ser obrigados a fazer exposi&ccedil;&otilde;es, palestras ou workshops em todo o tipo de escolas.</p>
<p>Muito mais h&aacute; para dizer. Para j&aacute; esque&ccedil;am a ideia aberrante de querermos ser todos alem&atilde;es. Conv&eacute;m nunca esquecer que a maior parte deles passa o ano a poupar para vir passar f&eacute;rias a Portugal.<b><i><br />
	</i></b></p>
<p><meta charset="utf-8" /><em>Para mais discuss&atilde;o, vai ao meu <a href="http://www.facebook.com/rui.n.pereira">facebook</a> e entra no grupo <a href="http://www.facebook.com/home.php?sk=group_201434239893345">Para acabar de vez com a Cultura</a></em></p>
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		<title>Petição pública em defesa do direito à cultura</title>
		<link>http://argumentistas.org/2010/11/peticao-publica-em-defesa-do-direito-a-cultura/</link>
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		<pubDate>Mon, 15 Nov 2010 22:02:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Nunes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Actualidade]]></category>
		<category><![CDATA[APAD]]></category>
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		<category><![CDATA[Opiniões]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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		<description><![CDATA[A Plataforma das Artes, entidade constituída por várias associações e organizações representativas de sectores da cultura, abriu uma petição pública em defesa do direito à cultura e contra os cortes anunciados para o sector da Cultura.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A Plataforma das Artes, entidade constitu&iacute;da por v&aacute;rias associa&ccedil;&otilde;es e organiza&ccedil;&otilde;es representativas de sectores da cultura, abriu <a href="http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=P2010N3851">uma peti&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica em defesa do direito &agrave; cultura</a> e contra os cortes anunciados para o sector da Cultura.</p>
<p>Este sector, que engloba o cinema e o audiovisual, &eacute; sempre dos mais esquecidos em todos os or&ccedil;amentos de Estado. Com os cortes e&nbsp;restri&ccedil;&otilde;es impostas pelo or&ccedil;amento para 2011&nbsp;encontra-se uma vez mais gravemente amea&ccedil;ado.</p>
<p>Na parte da peti&ccedil;&atilde;o referente ao cinema l&ecirc;-se o seguinte:</p>
<blockquote>
<p>APOIO AO CINEMA </p>
<p>		Considerando que se anuncia, mas ainda n&atilde;o se assume, um corte de 20% no Programa de apoios financeiros para 2011 do Instituto do Cinema e Audiovisual; considerando que esse corte se justifica em parte pela estimativa em baixa das receitas da publicidade nas Televis&otilde;es (quebra de 10%) e a outra para pagar a factura da austeridade imposta pela cativa&ccedil;&atilde;o de 10% das receitas pr&oacute;prias do ICA relativas a 2010; considerando que a prometida lei do Cinema a entrar em vigor em 2011 &eacute; neste momento uma miragem, uma vez que o Minist&eacute;rio da Cultura, promotor desta Lei, calou-se com a reac&ccedil;&atilde;o de protesto dos Contribuintes do sistema de Financiamento (operadores de tv, cabo telecoms, plataformas de distribui&ccedil;&atilde;o de tv, etc); considerando que, com isto, se antev&ecirc; um ano de 2011 catastr&oacute;fico para o Cinema; considerando que n&atilde;o se vislumbra qualquer calend&aacute;rio para a aprova&ccedil;&atilde;o da Lei e para discuss&atilde;o das propostas de redac&ccedil;&atilde;o alternativa apresentadas pelas associa&ccedil;&otilde;es sectoriais; exigimos da Senhora Ministra da Cultura: </p>
<p>		1. Que promova junto do Sr. Ministro das Finan&ccedil;as a descativa&ccedil;&atilde;o de 10% das receitas pr&oacute;prias do ICA de 2010, de forma a minimizar os efeitos profundamente negativos do corte de 20% ainda n&atilde;o assumido pela Sra. Ministra para o Programa de Apoios Financeiros do ICA. </p>
<p>		2. Que retome a discuss&atilde;o da Lei do Cinema, a qual foi bem recebida pelo Sector, de forma a apresent&aacute;-la e aprov&aacute;-la na Assembleia da Rep&uacute;blica, para que entre em vigor no mais curto espa&ccedil;o de tempo.</p>
</blockquote>
<p>A direc&ccedil;&atilde;o da APAD est&aacute; completamente de acordo com esta declara&ccedil;&atilde;o e, como tal, recomenda a todos os seus associados, e a todos os interessados em defender a continuidade de uma ind&uacute;stria do cinema e do audiovisual em Portugal, que assinem esta peti&ccedil;&atilde;o.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A PLATAFORMA DAS ARTES &eacute; constitu&iacute;da por:</p>
<ul>
<li>APR &ndash; Associa&ccedil;&atilde;o Portuguesa de Realizadores</li>
<li>Plataforma das Artes Visuais</li>
<li>Plataforma do Cinema</li>
<li>Plataforma do Teatro</li>
<li>PLATEIA associa&ccedil;&atilde;o de profissionais das artes c&eacute;nicas</li>
<li>REDE associa&ccedil;&atilde;o de estruturas para a dan&ccedil;a contempor&acirc;nea</li>
</ul>
<p>A peti&ccedil;&atilde;o pode ser assinada online em&nbsp;<a href="http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=P2010N3851">Peti&ccedil;&atilde;o Em Defesa do Direito &agrave; Cultura</a>.</p>
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