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	<title>argumentistas.orgDogme 95 | argumentistas.org</title>
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	<description>Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos</description>
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		<title>Italiano para Principiantes: uma luminosa lição de simplicidade narrativa</title>
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		<comments>http://argumentistas.org/2009/03/italiano-para-principiantes/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 16 Mar 2009 23:34:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Daniel Ribas</dc:creator>
				<category><![CDATA[Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Dossier]]></category>
		<category><![CDATA[Dogme 95]]></category>
		<category><![CDATA[Italiano para Principiantes]]></category>
		<category><![CDATA[Lone Scherfig]]></category>

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		<description><![CDATA[Maria João Cordeiro analisa uma das obras mais marcantes do movimento Dogme 95, "Italiano Para Principiantes", vendo no filme uma luminosa simplicidade narrativa.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='series_toc'><h3>Índice: Revista#2</h3><ol><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/editorial-revista-apad-2/' title='Editorial &#8211; Dossier APAD 2'>Editorial &#8211; Dossier APAD 2</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/nuno-artur-silva-sobre-as-pf/' title='Nuno Artur Silva sobre as PF'>Nuno Artur Silva sobre as PF</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/adriano-luz-sobre-a-casa-da-criacao/' title='Adriano Luz sobre a Casa da Criação'>Adriano Luz sobre a Casa da Criação</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/nuno-bernardo-sobre-a-beactive/' title='Nuno Bernardo sobre a beActive'>Nuno Bernardo sobre a beActive</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/empresas-de-guionistas-directorio/' title='Empresas de guionistas &#8211; directório'>Empresas de guionistas &#8211; directório</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/alexandre-valente-e-o-seu-second-life/' title='Alexandre Valente e o seu &#8220;Second Life&#8221;'>Alexandre Valente e o seu &#8220;Second Life&#8221;</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/relatorio-mckee/' title='Relatório McKee'>Relatório McKee</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/kaufman-vs-mckee/' title='Livros: Kaufman vs. McKee'>Livros: Kaufman vs. McKee</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/sobre-os-direitos-de-autor-do-argumentista/' title='Sobre os Direitos de Autor do Argumentista'>Sobre os Direitos de Autor do Argumentista</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/the-day-the-earth-stood-still-analise-comparativa/' title='The Day the Earth Stood Still: Análise Comparativa'>The Day the Earth Stood Still: Análise Comparativa</a></li><li>Italiano para Principiantes: uma luminosa lição de simplicidade narrativa</li><li><a href='http://argumentistas.org/2009/03/faust/' title='Faust'>Faust</a></li></ol></div> <hr />
<p>
por Maria Jo&atilde;o Cordeiro<br />
<em><span style="font-size: smaller;">(<span style="color: rgb(0, 0, 0);"><span style="font-family: Arial;"><span class="il">Maria</span> <span class="il">Jo&atilde;o</span> Cordeiro, doutorada em Cultura Alem&atilde; pela Universidade Nova de Lisboa, &eacute; docente do Instituto Polit&eacute;cnico de Beja e investigadora do Centro de Estudos de Comunica&ccedil;&atilde;o e Cultura da Universidade Cat&oacute;lica Portuguesa. Os seus actuais interesses de investiga&ccedil;&atilde;o prendem-se, nomeadamente, com o cinema como&nbsp;fonte de reflex&atilde;o cr&iacute;tica sobre a contemporaneidade.)</span></span></span></em></p>
<p><span><img width="241" height="309" alt="italianoposter" src="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/italianoposter.jpg" title="italianoposter" class="alignnone size-full wp-image-496" /></span></p>
<p><em>Italiano para Principiantes</em> de Lone Scherfig, vencedor de um Urso de Prata no Festival de Berlim de 2001, &eacute; o 12.&ordm; filme realizado &agrave; luz dos preceitos est&eacute;ticos proclamados em 1995 por Dogme 95, um grupo de cineastas dinamarqueses empenhados no retorno &agrave; castidade cinematogr&aacute;fica e &agrave; ren&uacute;ncia de artif&iacute;cios especiais que impliquem a distor&ccedil;&atilde;o da realidade.</p>
<p>O manifesto de Dogme 95 estipula, por exemplo, que as filmagens ocorram <em>in loco</em>, recorrendo a c&acirc;maras port&aacute;teis e utilizando apenas luz e som naturais. Este almejado regresso &agrave; &ldquo;inoc&ecirc;ncia e simplicidade cinematogr&aacute;ficas dos irm&atilde;os Lumi&egrave;re&rdquo;(1) tem por objectivo fulcral aproximar o cinema da sua ess&ecirc;ncia narrativa, isto &eacute;, &ldquo;for&ccedil;ar a verdade a sair das personagens e dos cen&aacute;rios&rdquo;(2).</p>
<p><em>Italiano para Principiantes, </em>realizado de acordo com as regras de uma dogm&aacute;tica austeridade art&iacute;stica e os meios mais rudimentares da produ&ccedil;&atilde;o cinematogr&aacute;fica, &eacute;, com efeito, uma delicada obra de s&oacute;lida constru&ccedil;&atilde;o narrativa, assente no progressivo entrela&ccedil;ar de hist&oacute;rias de solid&atilde;o de pessoas comuns at&eacute; &agrave; feliz conclus&atilde;o do puzzle de pares rom&acirc;nticos.</p>
<p>Scherfig principia por apresentar o grupo de cora&ccedil;&otilde;es solit&aacute;rios: Andreas, pastor recentemente vi&uacute;vo, acaba de chegar &agrave; cidade para substituir o padre local, que perdeu a f&eacute; em Deus ap&oacute;s a morte da mulher, e encontra uma igreja vazia e espiritualmente abandonada; J&oslash;rgen Mortensen, o t&iacute;mido recepcionista de hotel, vive atormentado com a perda de pot&ecirc;ncia sexual que dura h&aacute; quatro anos; Halvfinn &eacute; um arisco e grosseiro empregado de restaurante, que acaba por ser despedido; Olympia &eacute; uma empregada de padaria incrivelmente desastrada (v&iacute;tima prov&aacute;vel de s&iacute;ndrome alco&oacute;lica fetal); j&aacute; vai no 47.&ordm; emprego e vive com o pai doente, rancoroso e agressivo. Giulia, a jovem empregada de restaurante apaixonada por J&oslash;rgen, espera que o milagre do amor aconte&ccedil;a e que ele repare nela; Karen, uma cabeleireira generosa e sens&iacute;vel, tem a cargo a m&atilde;e alco&oacute;lica, que, durante uma hospitaliza&ccedil;&atilde;o, a tenta persuadir a aumentar-lhe a dose de morfina; perante o insuport&aacute;vel sofrimento da m&atilde;e, Karen cede e acaba por contribuir para a sua morte.</p>
<p>Esta constela&ccedil;&atilde;o de gente sofredora representa um multifacetado conjunto de problemas humanos de que se comp&otilde;e afinal o lado tr&aacute;gico da vida: morte, doen&ccedil;a, humilha&ccedil;&atilde;o, solid&atilde;o, alcoolismo, desemprego, eutan&aacute;sia, culpa, impot&ecirc;ncia s&atilde;o tratados sem f&oacute;rmulas simplistas ou exagero dram&aacute;tico, encaixando com naturalidade na realidade sombria de vidas banais. Como afirma Scherfig numa entrevista (3), o filme &eacute; uma esp&eacute;cie de &ldquo;caixa de Pandora&rdquo;, que revela muito do horror e da tristeza presentes no mundo e cujas personagens foram inspiradas em pessoas da vida real.</p>
<p><img width="300" height="194" alt="italianoframe" src="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/italianoframe.jpg" title="italianoframe" class="alignnone size-full wp-image-497" /></p>
<p>Estes temas s&atilde;o abordados com a complexidade e a problematiza&ccedil;&atilde;o &eacute;tica que lhes s&atilde;o devidas (a irresolu&ccedil;&atilde;o de J&oslash;rgen perante a ordem do chefe para que despe&ccedil;a o amigo Halvfinn; sentir&aacute; Olympia al&iacute;vio ou dor ao encontrar o pai cruel morto no sof&aacute;? O dilema interior de Karen perante a s&uacute;plica da m&atilde;e para lhe minorar o sofrimento e assim precipitar a sua morte; um pastor revoltado com Deus pela morte da mulher).</p>
<p><em>Italiano para Principiantes</em> n&atilde;o estagna, por&eacute;m, neste fundo cinzento e amoral da exist&ecirc;ncia humana, trabalhando sim sobre a fundamental dualidade que a caracteriza: a vida n&atilde;o implica s&oacute; carregar fardos pesados, tem tamb&eacute;m um lado risonho, bom e leve.</p>
<p>Scherfig retrata a insegura e por vezes inconsciente busca de amor de pessoas que aprendem lentamente a desenredar-se dos seus traumas e dores pessoais, abrindo o cora&ccedil;&atilde;o &agrave; descoberta. A aprendizagem inerente a cada novo come&ccedil;o &eacute; simbolizada pelo curso de Italiano, onde Halvfinn, J&oslash;rgen, Andreas, Karen, Giulia e Olympia acabam por encontrar-se. Aprender uma nova l&iacute;ngua &eacute; come&ccedil;ar verdadeiramente do zero, expor-se a outra latitude cultural, enveredar pelo desconhecido, superar inibi&ccedil;&otilde;es e vencer o medo de errar.</p>
<p>As personagens de <em>Italiano para Principiantes</em> aprendem a come&ccedil;ar uma nova vida ap&oacute;s a dor da perda que as verga. Sendo o italiano a l&iacute;ngua-mito da aventura e do romance, trata-se aqui de aprender a amar o outro: algo que n&atilde;o surge ca&iacute;do do c&eacute;u, mas pode ser a doce recompensa da iniciativa pessoal. Karen inscreve-se no curso para voltar a ver Halvfinn, que por tr&ecirc;s vezes a visitara (em v&atilde;o) para cortar o cabelo, desencadeando o jogo da atrac&ccedil;&atilde;o; Halvfinn tem de modificar o seu car&aacute;cter agreste se quiser reconquistar Karen; J&oslash;rgen supera a timidez e procura finalmente Giulia, que, apesar de italiana, se inscreve tamb&eacute;m no curso. Andreas decide assistir &agrave;s aulas e sair da solid&atilde;o em que mergulhou. Olympia &eacute;, por fim, a habilidosa patrocinadora da viagem do grupo a It&aacute;lia, financiando-a com dinheiro herdado do pai.</p>
<p>Partindo dos mundos claustrof&oacute;bicos das personagens (representados pelos espa&ccedil;os ex&iacute;guos como o quarto de hotel, o min&uacute;sculo sal&atilde;o de cabeleireiro, o restaurante, a padaria, onde as personagens parecem aprisionadas), o filme evolui progressivamente para o espa&ccedil;o amplo de possibilidades que &eacute; a sala de aula (enorme e em forma de anfiteatro), onde mesmo assim os poucos participantes se sentam afastados uns dos outros: as mulheres de um lado e os homens de outro. Por fim, chega-se &agrave;s cenas de rua em Veneza, com g&ocirc;ndolas e canais em pano de fundo: subitamente, em radical oposi&ccedil;&atilde;o ao sil&ecirc;ncio de todo o filme, ouve-se a melodia terna de um piano, e todos se juntam para uma fotografia de grupo. Todos, &agrave; sua maneira, conseguiram escapar ao rigor do Inverno da vida numa acabrunhada Escandin&aacute;via e encontrar a doce luz do amor em It&aacute;lia.</p>
<p>_____________________________________________________________</p>
<p><sup>1</sup> Peter Schepelern, &ldquo;Film According to Dogma &ndash; restrictions, obstructions and liberations&rdquo;, <span style="color: rgb(0, 0, 255);"><span style="text-decoration: underline;"><a href="http://www.dogme95.dk/news/interview/schepelern.htm">http://www.dogme95.dk/news/interview/schepelern.htm</a></span></span>.</p>
<p><sup>2</sup> Lars von Trier e Thomas Vinterberg, &ldquo;The Vow of Chastity&rdquo;, 13 de Mar&ccedil;o 1995. Dispon&iacute;vel em <span style="color: rgb(0, 0, 255);"><span style="text-decoration: underline;"><a href="http://www.dogme95.dk/the_vow/vow.html">http://www.dogme95.dk/the_vow/vow.html</a></span></span>.</p>
<p><sup>3 </sup>Stephanie Bunbury, &ldquo;Lessons in life &ndash; and Dogme&rdquo;, 16 Junho de 2002. Dispon&iacute;vel em <span style="color: rgb(0, 0, 255);"><span style="text-decoration: underline;"><a href="http://www.theage.com.au/articles/2002/06/15/1023864363264.html">www.theage.com.au/articles/2002/06/15/1023864363264.html</a></span></span>.</p>
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