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	<title>argumentistas.orgDossier | argumentistas.org</title>
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	<description>Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos</description>
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		<title>Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Oct 2008 17:04:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Nunes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nuno Markl dispensa apresentações. Guionista, humorista, bloguista, radiofonista, autor de sucesso e personalidade pública, as suas opiniões, ideias e até preconceitos são sempre provocadores e inspiradores.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='series_toc'><h3>Índice: Revista#1</h3><ol><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/pedro-marta-santos-ainda-nao-somos-uma-profissao-somos-uma-perturbacao-neurotica/' title='Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica'>Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica</a></li><li>Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo</li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/rui-vilhena-e-preciso-criar-historias-com-que-as-pessoas-possam-se-identificar/' title='Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar'>Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/antonio-ferreira-um-guiao-e-como-uma-lista-de-compras/' title='António Ferreira: um guião é como uma lista de compras'>António Ferreira: um guião é como uma lista de compras</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/tiago-santos-como-ganhar-a-vida-numa-profissao-que-nao-existe/' title='Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe'>Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/jorge-vaz-nande-devemos-sempre-olhar-para-a-nigeria/' title='Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria'>Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/perfil-neil-labute-matem-o-dramaturgo/' title='Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo'>Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/dexter-o-mundo-ao-contrario/' title='Dexter: o mundo ao contrário'>Dexter: o mundo ao contrário</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/my-blueberry-nights-o-neon-da-paixao/' title='My Blueberry Nights: o néon da paixão'>My Blueberry Nights: o néon da paixão</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/sex-and-the-city-teorias-e-conspiracoes-sobre-a-comedia-romantica/' title='Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica'>Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/the-servant-parasitas-da-alma/' title='The Servant: parasitas da alma'>The Servant: parasitas da alma</a></li></ol></div> <p lang="pt-BR" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><em><a href="http://www.imdb.com/name/nm1436477/">Nuno Markl</a> dispensa apresenta&ccedil;&otilde;es. Guionista, humorista, bloguista, radiofonista, autor de sucesso e personalidade p&uacute;blica, as suas opini&otilde;es, ideias e at&eacute; preconceitos s&atilde;o sempre provocadores e inspiradores.</em></p>
<p lang="pt-BR" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><em><a href="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/markl-revista1-foto.jpg"><img width="500" height="400" src="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/markl-revista1-foto.jpg" alt="" title="markl-revista1-foto" class="aligncenter size-full wp-image-223" /></a></em></p>
<p lang="pt-BR" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b>APAD &#8211; <i>O humor aprende-se com os mestres, aprende-se com os livros ou aprende-se fazendo? Que mestres e livros recomendas?</i></b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c12" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NUNO&nbsp;MARKL <b>- </b>Para mim, o humor nasce de uma mistura de todas essas coisas. Talvez n&atilde;o tanto com os livros; sempre me fez alguma confus&atilde;o que se escrevam livros sobre como fazer humor. Acho que uma pessoa que tem a frieza de sistematizar os seus supostos conhecimentos de com&eacute;dia num comp&ecirc;ndio t&eacute;orico &eacute;, &agrave; partida, a menos indicada para explicar a outros como fazer rir! Por alguma raz&atilde;o os tipos que escrevem os livros sobre como escrever com&eacute;dia s&atilde;o desprovidos de qualquer curriculum apreci&aacute;vel na &aacute;rea. Porqu&ecirc;? Porque est&atilde;o a escrever teorias sobre como escrever piadas, em vez de as fazer. Acho que, em parte, o humor nasce de uma predisposi&ccedil;&atilde;o natural que a pessoa tenha para isso; n&atilde;o imagino um tipo sem qualquer pendor nato para o humor a conseguir ter uma carreira bem sucedida nessa &aacute;rea, e penso que n&atilde;o ser&atilde;o &ldquo;os mestres&rdquo; nem livros da especialidade que o conseguir&atilde;o ajudar. Para l&aacute; desse pendor nato &ndash; que, muitas vezes, surge no ser humano como um mecanismo de defesa, como foi o meu caso, dado que era um mi&uacute;do t&iacute;mido, solit&aacute;rio e algo enxovalhado, na escola &ndash; acho que se aprende muito vendo boa com&eacute;dia. Eu sei que h&aacute; colegas meus que se recusam a ver com&eacute;dia de outras pessoas, porque sentem que ficam demasiado formatados e perdem frescura e originalidade, mas eu n&atilde;o concordo com isso. Acho a com&eacute;dia um organismo vivo, um monstro que evolui e que ganha novas formas a partir de formas anteriores. Nenhuma coisa nova de com&eacute;dia surge de gera&ccedil;&atilde;o espont&acirc;nea, do nada; tudo surge a partir de algo que est&aacute; atr&aacute;s. Quando me dizem coisas como, &ldquo;ent&atilde;o e o The Office, do Ricky Gervais, n&atilde;o &eacute; novo e genial?&rdquo;. Confirmo que &eacute; das maiores obras-primas da com&eacute;dia mundial, mas, como o pr&oacute;prio Gervais admite, o The Office nunca teria surgido se ele n&atilde;o tivesse visto e amado o filme This is Spinal Tap, do Rob Reiner, o pai de todos os document&aacute;rios c&oacute;micos forjados. Isto &eacute; uma ilustra&ccedil;&atilde;o fant&aacute;stica do que &eacute; a com&eacute;dia e de como &eacute; uma criatura em constante muta&ccedil;&atilde;o. &Eacute; isso que &eacute; fascinante nela.</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c18" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b>APAD &#8211; Como reconheces uma boa id&eacute;ia? Que caracter&iacute;sticas deve ter essa ideia? Como &eacute; trabalhada?</b></p>
<p lang="pt-BR" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; N&atilde;o h&aacute; nada mais relativo do que aquilo a que chamamos uma boa ideia, porque depois entram todas as vari&aacute;veis e nuances. Para come&ccedil;ar, aquilo que &eacute; uma boa ideia c&oacute;mica para mim, pode n&atilde;o ter gra&ccedil;a nenhuma para o meu vizinho do lado. &Eacute; por isso que a com&eacute;dia acaba por ser a arte de tentar agradar n&atilde;o a toda a gente, mas &ndash; de prefer&ecirc;ncia &ndash; ao maior n&uacute;mero poss&iacute;vel de pessoas! Depois, mesmo que tenhamos algo que consideramos &ldquo;uma boa ideia&rdquo;, e que os nossos colegas de trabalho considerem tamb&eacute;m &ldquo;uma boa ideia&rdquo;, assim que ela se transforma num sketch ou num epis&oacute;dio de sitcom, ou num filme c&oacute;mico, ou seja no que for, quando damos por n&oacute;s a olhar para o texto completo, pode dar-se o caso de come&ccedil;armos a pensar: &ldquo;Ora bolas, quando era s&oacute; uma ideia, tinha muito mais piada do que agora que &eacute; um gui&atilde;o&rdquo;. E h&aacute; ainda mais uma vari&aacute;vel poss&iacute;vel: mesmo que a nossa &ldquo;boa ideia&rdquo; tenha sido transformada num &ldquo;bom gui&atilde;o&rdquo;, uma coisa &eacute; ela funcionar no papel; a outra &eacute; quando as c&acirc;maras come&ccedil;am a filmar e os actores a interpret&aacute;-la. Esse pode ser o momento tr&aacute;gico em que nos apercebemos que a nossa &ldquo;boa ideia&rdquo;, em teoria, podia parecer magn&iacute;fica no papel, mas, na pr&aacute;tica, n&atilde;o resulta. Nunca sabemos no que vai resultar aquilo que nos parece uma boa ideia. Se achamos mesmo que &eacute; uma boa ideia, n&atilde;o temos outro rem&eacute;dio sen&atilde;o acompanh&aacute;-la e trabalh&aacute;-la com um cuidado de ourives desde que a transformamos num texto e no momento em que ela &eacute; transformada em algo de concreto, seja um sketch, um epis&oacute;dio, um filme. Ter aquilo que consideramos uma &ldquo;boa ideia&rdquo; &eacute; um desafio tremendo, porque t&ecirc;-la &eacute; mesmo s&oacute; o come&ccedil;o. A hora da verdade sobre a qualidade da nossa ideia s&oacute; acontece mais tarde. E tanto pode ser um momento encantador, como pode ser um momento terrivelmente frustrante. Curiosamente, n&atilde;o sei se tenho uma veia masoquista, mas uma das coisas que mais adoro na minha profiss&atilde;o &eacute; a incerteza sobre se a ideia &ldquo;brilhante&rdquo; que nos surgiu vai acabar transformada numa coisa capaz de nos orgulhar a vida toda ou em algo totalmente falhado. Se resultar em algo de falhado, conv&eacute;m n&atilde;o entrar logo em depress&atilde;o: &agrave;s vezes basta que realizadores e actores n&atilde;o estejam exactamente no mesmo comprimento de onda que n&oacute;s, quando a escrevemos, para que falhe. O que n&atilde;o quer dizer, portanto, que a ideia seja m&aacute;. Mas n&atilde;o sacudo a &aacute;gua do capote: muitas vezes n&oacute;s, argumentistas de humor, ficamos iludidos com a categoria de uma ideia a que s&oacute; n&oacute;s &eacute; que achamos gra&ccedil;a. H&aacute; que ter a humildade de ouvir quem nos rodeia e de admitir que h&aacute; coisas que s&oacute; resultam para n&oacute;s. E se assim for, mais vale ter outra ideia&#8230;</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c22" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b>APAD &#8211; Que diferen&ccedil;a h&aacute; entre o humor de sketch, o humor de sitcom, e o humor de filme? Quais s&atilde;o essas diferen&ccedil;as especificas?</b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c25" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; A maneira mais f&aacute;cil de explicar isso acaba por ser com os tr&ecirc;s n&iacute;veis de rapidez, efic&aacute;cia e poder de s&iacute;ntese que cada uma dessas linguagens pede. Como &eacute; &oacute;bvio, o humor de sketch conv&eacute;m que seja curto, concentrado, uma verdadeira flecha a acertar em cheio no &ldquo;funny bone&rdquo; do espectador. A sitcom j&aacute; permite mais tempo de desenvolvimento e o filme ainda mais que a sitcom. No entanto, que isso n&atilde;o sirva de desculpa para se engonhar em qualquer um destes dois formatos. Eu acho sempre que quer a sitcom, quer o cinema c&oacute;mico s&oacute; t&ecirc;m a ganhar se forem buscar alguma da rapidez e concis&atilde;o &agrave; linguagem do sketch. Mas isto &eacute; uma teoria muito grosseira, porque dentro dos sketches, das sitcoms e dos filmes h&aacute; um n&atilde;o mais acabar de estilos de humor. Eu adoro os filmes do Wes Anderson, por exemplo; acho-os comoventes mas tamb&eacute;m hilariantes, e no entanto levam o seu tempo, n&atilde;o procuram desesperadamente &ldquo;punchlines&rdquo; nem vivem obcecados com o poder de s&iacute;ntese. E &eacute; por isso que s&atilde;o geniais.</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c28" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b><i>APAD &#8211; Como constr&oacute;is uma personagem c&ocirc;mica? Inspiras-te no real ou inspiras-te noutras personagens? Como sabes se uma personagem tem pernas para andar?</i></b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c31" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; Pela minha experi&ecirc;ncia, acho que n&atilde;o h&aacute; mais nada contraproducente do que uma pessoa sentar-se em frente ao computador, concentrad&iacute;ssima, com a miss&atilde;o &ldquo;n&atilde;o saio daqui hoje enquanto n&atilde;o criar uma personagem&rdquo;. As melhores personagens que criei n&atilde;o surgiram dessa forma, surgiram de observa&ccedil;&atilde;o e, &agrave;s vezes, por acidente. Um exemplo: a personagem do chato, que o Nuno Lopes faz n&rsquo; Os Contempor&acirc;neos. Nasceu de um misto entre a minha inten&ccedil;&atilde;o de pegar nessa caracter&iacute;stica t&atilde;o portuguesa de dizer mal de tudo e de dizer &agrave;s pessoas para trabalharem (quando muitas das pessoas que dizem isso n&atilde;o fazem nada) e de uma conversa absolutamente descontra&iacute;da entre mim e a minha namorada. Por alguma raz&atilde;o, come&ccedil;&aacute;mos a dizer um ao outro coisas disparatadas como &ldquo;vai mas &eacute; trabalhar&rdquo; e a criarmos situa&ccedil;&otilde;es em que fantasi&aacute;vamos dizer isso &agrave;s pessoas que menos mereceriam ouvir tal coisa. E tudo isto ainda sem sequer imaginar que isso poderia resultar num sketch. E foi no carro, com ela, enquanto troc&aacute;vamos essas frases s&oacute; pelo gozo, que eu de repente pensei que isto podia dar um sketch recorrente interessante: uma personagem que n&atilde;o faz nada e cuja vida &eacute; dizer aos outros para irem trabalhar e a insult&aacute;-los pelas raz&otilde;es mais inesperadas. Tomei logo nota no &ldquo;bloco de notas&rdquo; do telem&oacute;vel (tenho um polegar extremamente desenvolvido!) e depois, com o meu parceiro de escrita, o Francisco Martiniano Palma, come&ccedil;&aacute;mos a desenvolver a personagem e a coloc&aacute;-la numa s&eacute;rie de situa&ccedil;&otilde;es. O resto da equipa adorou o boneco e ele foi atribu&iacute;do ao Nuno Lopes, que tomou a decis&atilde;o de o caracterizar daquela maneira. E eu acho hilariante. H&aacute; muita gente que adora a personagem, mas h&aacute; tamb&eacute;m aqueles que dizem que estamos a gozar com os deficientes. Mas n&atilde;o, eu n&atilde;o vejo aquela personagem como um deficiente. Vejo-o como um tipo cuja &uacute;nica defici&ecirc;ncia, e, no fundo, aquilo que o fez ficar daquela forma retorcida e estranha, &eacute; o facto de passar toda a sua vida a queixar-se. Ele ficou como que feito de c&acirc;imbras, provocadas pela tens&atilde;o em que anda. &Eacute; um grand&iacute;ssimo trabalho do Nuno Lopes, e &eacute; um processo org&acirc;nico incr&iacute;vel, a maneira como vamos afinando o boneco em constante comunica&ccedil;&atilde;o com ele. N&oacute;s escrevemos um texto, o Nuno recebe-o e de vez em quando telefona-nos a expor-nos ideias ou sobre a caracteriza&ccedil;&atilde;o dele, ou de insultos extra que ele inventa e que s&atilde;o sempre hilariantes. O Nuno &eacute; um actor de sonho para um argumentista, porque n&atilde;o s&oacute; faz brilhantemente aquilo que escrevemos, como d&aacute; um input criativo espantoso.</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c34" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b>APAD &#8211; Costumas tamb&eacute;m escrever com outras pessoas. Como funciona essa escrita a v&aacute;rias m&atilde;os? Que diferen&ccedil;a encontras em rela&ccedil;&atilde;o aos textos que escreves a solo?</b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c37" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; Encontrar um parceiro ideal de escrita &eacute; das coisas mais dif&iacute;ceis que existem. E &eacute; quase t&atilde;o importante como ter perfeita empatia sexual com a mulher que se ama! Eu tenho a sorte de ter trabalhado, ao longo da minha carreira, com pessoas com quem tinha uma empatia humor&iacute;stica perfeita, como o Ricardo Ara&uacute;jo Pereira, o Jo&atilde;o Quadros, o Filipe Homem Fonseca, o Eduardo Madeira, entre outros, e isso torna o trabalho muito mais divertido e prof&iacute;cuo. Actualmente, custa-me sequer considerar a hip&oacute;tese de emparelhar com outra pessoa que n&atilde;o o Francisco Palma, porque chegamos a um ponto em que percebemos exactamente a mente um do outro, em que estamos em sintonia numas coisas e em que, nas coisas em que n&atilde;o estamos em sintonia, as nossas diferen&ccedil;as servem para afinarmos as ideias um do outro. Tamb&eacute;m gosto de escrever a solo, e acho que toda a gente deve escrever coisas a solo, de vez em quando, porque ser&atilde;o sempre, obviamente, mais pessoais. Mas h&aacute; projectos em que s&oacute; faz bem trabalharmos em conjunto com outras pessoas, porque nos apercebemos muito mais depressa do que poder&aacute; ou n&atilde;o funcionar.</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c40" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b>APAD &#8211; Escreves todos os dias? Guardas um bloco com id&eacute;ias? Que h&aacute;bitos de escrita mant&eacute;ns?</b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c43" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; Todos os dias. Mesmo quando estou de f&eacute;rias, tenho tend&ecirc;ncia a tomar nota de ideias. As ideias s&atilde;o bens demasiado preciosos para pensarmos que se mant&ecirc;m na nossa cabe&ccedil;a quando voltamos &ldquo;&agrave; civiliza&ccedil;&atilde;o&rdquo;. J&aacute; perdi imensas ideias que me pareciam boas, porque achei que n&atilde;o me ia esquecer delas. Por isso tomo nota delas ou num peda&ccedil;o de papel, ou no tal &ldquo;bloco de notas&rdquo; do telem&oacute;vel ou ent&atilde;o, se tiver o computador por perto, abro logo um documento de Word e escrevo-as. N&atilde;o tenho propriamente um bloco com ideias, mas tenho uma pasta no meu computador cheia de id&eacute;ias e esbo&ccedil;os. Para sketches, para sitcoms, para filmes. Sei que boa parte delas nunca ser&atilde;o concretizadas, mas paci&ecirc;ncia!</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c46" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b><i>APAD &#8211; H&aacute; f&oacute;rmulas ou estruturas para escrever uma piada? Quais s&atilde;o os teus segredos?</i></b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c49" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; Conv&eacute;m ter uma no&ccedil;&atilde;o do &ldquo;timing&rdquo; das coisas. O &ldquo;timing&rdquo; &eacute; tudo, em com&eacute;dia. Falar em f&oacute;rmulas ou estruturas &eacute;, uma vez mais, estar a tornar um processo que deve ter muito de org&acirc;nico e instintivo, numa coisa maquinal e r&iacute;gida. Quando dou &ldquo;workshops&rdquo; nas Produ&ccedil;&otilde;es Fict&iacute;cias, o ponto em que insisto mais &eacute; na quest&atilde;o da palha. Escrevam tudo o que vos vem &agrave; cabe&ccedil;a. Releiam. E depois sejam implac&aacute;veis a cortar o que est&aacute; a mais. E no humor, o que est&aacute; a mais &eacute; o que n&atilde;o tem qualquer utilidade para essa coisa simples e elementar que &eacute; fazer rir e contar uma hist&oacute;ria. Porque tudo &eacute; uma hist&oacute;ria &ndash; at&eacute; o mais curto sketch. &Agrave;s vezes, no come&ccedil;o, &eacute; complicado a uma pessoa perceber exactamente o que &eacute; a palha, porque tudo lhe parece bom. Mas com o tempo vamos aprendendo a ser implac&aacute;veis com o nosso pr&oacute;prio trabalho e a perceber que &agrave;s vezes aquela conversa toda que achamos do melhor que j&aacute; escrevemos na nossa vida&#8230; &eacute; palha.</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c52" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b>APAD &#8211; Quando sabes que um texto est&aacute; pronto? Dedicas muito tempo &agrave; reescrita?</b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c55" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; Algum tempo. Depende do projecto &ndash; h&aacute; projectos, sobretudo os mais comerciais e que imp&otilde;em um ritmo de produ&ccedil;&atilde;o e de trabalho mais veloz, em que &agrave;s vezes n&atilde;o dedicamos tanto tempo &agrave; reescrita como gostar&iacute;amos. Mas &eacute; sempre essencial reler e reescrever, e tentarmos ao m&aacute;ximo, na medida do poss&iacute;vel, afinar um texto at&eacute; termos a certeza de que n&atilde;o vamos enviar para os actores uma coisa na qual tenhamos qualquer tipo de d&uacute;vida.</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c58" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b>APAD &#8211; Para alem do talento e do trabalho &aacute;rduo, que caracter&iacute;sticas tem de ter um humorista? Que conselhos d&aacute;s para se gerir uma carreira em Portugal?</b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c61" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; Acima de tudo, estarem preparados para fazer muito pouco trabalho realmente pessoal. Pelo menos nos primeiros anos de trabalho, tem de se aceitar fazer muita coisa com a qual n&atilde;o nos identificamos, mas aprende-se imenso com isso. Eu n&atilde;o me identificava minimamente com o programa Ai os Homens, e, no entanto, uma das primeiras coisas que escrevi quando cheguei &agrave;s Produ&ccedil;&otilde;es Fict&iacute;cias, foi o sketch humor&iacute;stico desse programa, o J&oacute;ni Bigode, interpretado pelo Ant&oacute;nio Feio. F&atilde; que sou do Ant&oacute;nio Feio, tive depois a felicidade de trabalhar com ele num registo onde ambos est&aacute;vamos muito mais contentes &ndash; a s&eacute;rie Para&iacute;so Filmes ou a tradu&ccedil;&atilde;o e adapta&ccedil;&atilde;o dos textos dos Monty Python que fiz para a pe&ccedil;a que ele encenou, recentemente &ndash; mas o Ai os Homens foi a coisa mais distante do meu universo em que trabalhei. Mas n&atilde;o me arrependo nada, aprendi muito. &Eacute; melhor afinarmos a nossa escrita num tipo de programa que n&atilde;o nos diga muito, do que come&ccedil;ar logo a escrever, cheio de expectativas, para um programa que est&aacute; mais pr&oacute;ximo do que achamos que &eacute; o nosso humor e falharmos nele. Outro conselho &eacute; resistir &agrave; tenta&ccedil;&atilde;o de aceitar muitos projectos. Eu aqui h&aacute; tempos era assim, tudo me parecia um desafio aliciante, e o humor pede concentra&ccedil;&atilde;o e dedica&ccedil;&atilde;o, e &eacute; imposs&iacute;vel emprestar a nossa concentra&ccedil;&atilde;o e a nossa dedica&ccedil;&atilde;o a uma quantidade imensa de coisas. Infelizmente, os argumentistas portugueses s&atilde;o, de uma forma geral, t&atilde;o escandalosamente mal pagos, que, para viver, por vezes n&atilde;o t&ecirc;m outro rem&eacute;dio sen&atilde;o aceitarem mais projectos do que deveriam estar a fazer.</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c64" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b>APAD &#8211; O que achas que os novos formatos &#8211; no telem&oacute;vel ou internet &ndash; est&atilde;o mudar na escrita de humor? Achas que esse &eacute; o futuro?</b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c67" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; Aqui h&aacute; tempos teria respondido que n&atilde;o, que a televis&atilde;o continua a ser quem dita as regras. Agora, felizmente, j&aacute; n&atilde;o estou assim t&atilde;o certo disso. Um exemplo concreto e nacional &eacute; o programa onde estou a trabalhar, Os Contempor&acirc;neos. A quantidade de pessoas que me diz que espera que os sketches sejam postos no You Tube ou no site da RTP para os ver, &eacute; tremenda. H&aacute; toda uma gera&ccedil;&atilde;o que perdeu a paci&ecirc;ncia para estar sentada num sof&aacute; &agrave; espera que comece o seu programa favorito. As pessoas sabem que, no dia seguinte, v&atilde;o poder, na Internet, construir a sua grelha e ver tudo quando e onde lhes apetecer. Isto come&ccedil;a a acontecer um pouco por todo o lado. Na Am&eacute;rica, as grandes esta&ccedil;&otilde;es est&atilde;o a disponibilizar os epis&oacute;dios das suas maiores s&eacute;ries on-line, minutos ap&oacute;s elas acabarem de ser transmitidas na televis&atilde;o. Mais incr&iacute;vel ainda: h&aacute; s&eacute;ries que estreiam exclusivamente na net, o que permite &agrave;s esta&ccedil;&otilde;es de televis&atilde;o testar o seu impacto junto do p&uacute;blico antes de as estrearem na TV. E, &eacute; claro, h&aacute; cada vez mais gente a criar conte&uacute;dos exclusivos para Internet, coisas que nunca ser&atilde;o vistas na televis&atilde;o e que est&atilde;o j&aacute; formatadas para serem vistas nestes formatos &ndash; net, telem&oacute;veis, consolas port&aacute;teis, iPods. E j&aacute; n&atilde;o falamos s&oacute; de amadores, que v&ecirc;m a Internet como uma op&ccedil;&atilde;o r&aacute;pida e barata onde podem disponibilizar o seu trabalho; vemos profissionais a criarem conte&uacute;dos de muita qualidade para estes novos suportes. Um dos casos mais falados nos &uacute;ltimos tempos &eacute; o do Joss Whedon, criador da s&eacute;rie Buffy Ca&ccedil;adora de Vampiros, que desenvolveu uma mini-s&eacute;rie hilariante, muit&iacute;ssimo bem escrita e produzida, em tr&ecirc;s actos, apresentada sob a forma de um v&iacute;deo-blog, o Dr. Horrible. Outro dia subscrevi tamb&eacute;m o videopodcast do The Onion, o famoso jornal c&oacute;mico americano, que todos os dias oferece no seu site um notici&aacute;rio falso hilariante, em v&iacute;deo. E estava a ver isso no meu iPhone, com uma qualidade de imagem e som espantosas e estava a pensar como, de facto, o mundo mudou&#8230; E n&atilde;o &eacute; preciso olhar para o estrangeiro para ver experi&ecirc;ncias interessantes e bem sucedidas na Internet. Por exemplo, &eacute; muito interessante o percurso da equipa portuguesa da BeActive, que anda a vender os seus conceitos de fic&ccedil;&atilde;o interactiva &ndash; como o Di&aacute;rio de Sofia ou o T2 Para 3 &ndash; a grandes produtoras internacionais.</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c70" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b>APAD &#8211; Como achas que est&aacute; o mercado de televis&atilde;o em Portugal para os argumentistas?</b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c73" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; N&atilde;o est&aacute; grande coisa, como sempre. Os argumentistas portugueses s&atilde;o mal pagos e parcamente respeitados. Lembro-me sempre da hist&oacute;ria real que me contaram de um produtor da televis&atilde;o portuguesa que se referiu aos argumentistas como &ldquo;a pior corja que h&aacute; no meio&rdquo;. Quando, na verdade, somos os mais inofensivos e achincalhados! Uma pessoa habitua-se, porque o amor pela arte de contar hist&oacute;rias sobrep&otilde;e-se a esse tipo de coisa, mas sinto que ainda se respeita muito pouco a pessoa que tem as id&eacute;ias e as escreve. Foi interessante, de repente, que o mundo percebesse, &agrave; conta da greve dos argumentistas americanos, que existem uns tipos que, se por algum motivo param de trabalhar, as pessoas deixam de ver as s&eacute;ries que gostam. A greve deles foi inspiradora, de certa maneira, embora duvide que uma mobiliza&ccedil;&atilde;o daquelas funcionasse, em Portugal. L&aacute;, eles s&atilde;o a ind&uacute;stria que se sabe; c&aacute; n&oacute;s continuamos muito no &ldquo;cada um por si&rdquo;.</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c76" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b>APAD &#8211; Que tend&ecirc;ncias consideras mais interessantes no actual panorama global?</b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c79" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; Agrada-me muito a melancolia que, de repente, entrou no humor. E que foi trazida, recentemente, pelo Ricky Gervais. N&atilde;o s&oacute; a melancolia, mas o embara&ccedil;o &ndash; coisas que, &agrave; partida, n&atilde;o parecem material pass&iacute;vel de provocar ataques de riso. Uma das coisas que gosto tanto no epis&oacute;dio especial final do The Office ingl&ecirc;s, como no epis&oacute;dio especial final do Extras &eacute; que, a dada altura de ambos, o Gervais e o Merchant entram por caminhos melodram&aacute;ticos sem que o espectador se aperceba como raio &eacute; que de repente deixou de se rir para ficar comovido. Acho isso extraordin&aacute;rio, acho que abre enormes horizontes para a com&eacute;dia, essa capacidade de, sem deixar de ser com&eacute;dia, poder, de vez em quando, ser uma coisa triste e po&eacute;tica. De certa maneira isso n&atilde;o &eacute; novo &ndash; se virmos bem, o Chaplin j&aacute; fazia isso. Mas hoje, sobretudo a escola brit&acirc;nica faz isso com uma sofistica&ccedil;&atilde;o e uma fluidez que s&atilde;o de deixar uma pessoa boquiaberta.</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c82" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b>APAD &#8211; O que dirias a um jovem guionista que quer fazer carreira na com&eacute;dia?</b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c85" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; Que se mantenha fiel ao que acredita, sem deixar de considerar a tal hip&oacute;tese de ter de escrever coisas para programas que, &agrave; partida, est&atilde;o longe daquilo em que acredita. Porque uma pessoa tem de ganhar a vida, e &eacute; raro que se comece logo a escrever aquilo que se quer. Que ainda assim, escrevendo esses programas, tente manter-se fiel ao m&aacute;ximo &agrave;quilo em que acredita e ao seu humor. Que n&atilde;o tenha medo de experimentar e que tenha sempre em mente a ideia de que &eacute; melhor um falhan&ccedil;o interessante do que um sucesso banal. Que use essa ferramenta extraordin&aacute;ria que estava longe de ser o que &eacute; hoje quando eu comecei, e que &eacute; a Internet: que mostre ao mundo alguns textos num blog, que ouse pegar numa c&acirc;mara de telem&oacute;vel e num programa rudimentar de edi&ccedil;&atilde;o de imagem e que, basicamente, fa&ccedil;a coisas. Quando as coisas s&atilde;o boas, acabam por ser notadas, mais cedo ou mais tarde. E que n&atilde;o desista&#8230; e que tenha paci&ecirc;ncia, que &agrave;s vezes, neste of&iacute;cio, as coisas demoram a concretizar-se ou a ter o resultado que esper&aacute;vamos.</p>
<p lang="pt-BR" id="io:c88" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;"><b>APAD &#8211; Achas que as empresas de guionismo t&ecirc;m futuro?</b></p>
<p lang="pt-BR" id="io:c91" class="western" style="margin-bottom: 0in;" mce_style="margin-bottom: 0in;">NM &#8211; Acho que sim, precisamente por causa do mundo c&atilde;o que est&aacute; l&aacute; fora para os argumentistas. Tudo o que possa ser uma uni&atilde;o que fa&ccedil;a a for&ccedil;a, &eacute; de ter em conta.</p>
 <div class='series_links'><a href='http://argumentistas.org/2008/10/pedro-marta-santos-ainda-nao-somos-uma-profissao-somos-uma-perturbacao-neurotica/' title='Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica'>Artigo anterior</a> <a href='http://argumentistas.org/2008/10/rui-vilhena-e-preciso-criar-historias-com-que-as-pessoas-possam-se-identificar/' title='Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar'>Próximo artigo</a></div>]]></content:encoded>
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		<title>Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Oct 2008 17:03:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Nunes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Rui Vilhena é um dos mais destacados guionistas nacionais, responsável por muitas telenovelas de sucesso e pela aguardada mini-série "Equador".]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='series_toc'><h3>Índice: Revista#1</h3><ol><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/pedro-marta-santos-ainda-nao-somos-uma-profissao-somos-uma-perturbacao-neurotica/' title='Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica'>Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/nuno-markl-a-comedia-e-um-organismo-vivo/' title='Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo'>Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo</a></li><li>Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar</li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/antonio-ferreira-um-guiao-e-como-uma-lista-de-compras/' title='António Ferreira: um guião é como uma lista de compras'>António Ferreira: um guião é como uma lista de compras</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/tiago-santos-como-ganhar-a-vida-numa-profissao-que-nao-existe/' title='Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe'>Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/jorge-vaz-nande-devemos-sempre-olhar-para-a-nigeria/' title='Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria'>Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/perfil-neil-labute-matem-o-dramaturgo/' title='Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo'>Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/dexter-o-mundo-ao-contrario/' title='Dexter: o mundo ao contrário'>Dexter: o mundo ao contrário</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/my-blueberry-nights-o-neon-da-paixao/' title='My Blueberry Nights: o néon da paixão'>My Blueberry Nights: o néon da paixão</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/sex-and-the-city-teorias-e-conspiracoes-sobre-a-comedia-romantica/' title='Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica'>Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/the-servant-parasitas-da-alma/' title='The Servant: parasitas da alma'>The Servant: parasitas da alma</a></li></ol></div> <p><a href="http://www.imdb.com/name/nm2000096/"><em>Rui Vilhena</em></a><em> &eacute; um dos mais destacados guionistas nacionais, respons&aacute;vel por muitas telenovelas de sucesso e pela aguardada mini-s&eacute;rie &quot;Equador&quot;.</em></p>
<p><a href="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/rui-vilhena-rev1-foto.jpg"><img width="500" height="400" src="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/rui-vilhena-rev1-foto.jpg" alt="" title="rui-vilhena-rev1-foto" class="aligncenter size-full wp-image-215" /></a></p>
<h2>Ser guionista</h2>
<p><b>APAD &#8211; Quando e porque come&ccedil;ou a escrever? O que o fascina na profiss&atilde;o? </b></p>
<p>Rui Vilhena &#8211; Sempre gostei muito de contar hist&oacute;rias. Quando fui para a Calif&oacute;rnia come&ccedil;ei a tirar alguns cursos ligados ao audiovisual e foi ent&atilde;o que passei a levar a s&eacute;rio, o que na &eacute;poca percebi, ser a minha voca&ccedil;&atilde;o.</p>
<p><b>APAD &#8211; Como &eacute; que elabora a estrutura de uma telenovela? Como mant&eacute;m o registro de tantas personagens e de tantos mini-plots? </b></p>
<p>RV &#8211; Penso que quase todos os autores de telenovelas utilizem o mesmo m&eacute;todo de trabalho. H&aacute; uma grelha contendo todas as cenas do epis&oacute;dio que &eacute; distribuida entre os demais autores. Uma vez escritas as cenas, estas s&atilde;o montadas, relidas e reescritas at&eacute; estarem de acordo com o perfil que se pretende dar a hist&oacute;ria. Como s&atilde;o muitas personagens, a concentra&ccedil;&atilde;o e a mem&oacute;ria s&atilde;o fundamentais para n&atilde;o perder o fio a meada.</p>
<p><b>APAD &#8211; Que segredos (que possam ser partilhados) utiliza na concep&ccedil;&atilde;o das suas hist&oacute;rias? Para al&eacute;m do trabalho &aacute;rduo h&aacute; alguma formula do sucesso para conquistar os p&uacute;blicos portugueses? H&aacute; personagens ou tramas a que os portugueses nutrem mais simpatia? </b></p>
<p>RV &#8211; A novela &eacute; o espelho da vida real. &Eacute; preciso criar hist&oacute;rias com que as pessoas possam se identificar &ndash; que pare&ccedil;am crediveis. No meu caso, gosto que o p&uacute;blico pense que &ldquo;isso podia estar a acontecer comigo&rdquo;, ou que conhe&ccedil;am algu&eacute;m que j&aacute; tenha passado por uma situa&ccedil;&atilde;o semelhante. Acredito que o p&uacute;blico de telenovela em geral, seja no M&eacute;xico, no Brasil ou em Portugal, tem gostos semelhantes &ndash; a paix&atilde;o pelo folhetim.</p>
<p><b>APAD &#8211; Que regras utiliza na concep&ccedil;&atilde;o das personagens? Como atinge o equil&iacute;brio entre as diversas personagens e hist&oacute;rias? Em que sentido tem preocupa&ccedil;&otilde;es de audi&ecirc;ncia e dos diversos p&uacute;blicos? </b></p>
<p>RV &#8211; A audi&ecirc;ncia &eacute; uma preocupa&ccedil;&atilde;o constante, assim como os diversos p&uacute;blicos. Regra geral, nas minhas novelas h&aacute; plots para todos: terceira idade, infanto-juvenil, adolescentes&hellip; Como a novela n&atilde;o &eacute; escrita para mim e para os meus amigos, &eacute; preciso estar atento a evolu&ccedil;&atilde;o da teledramaturgia, para que a novela acompanhe as novas tendencias dramaturgicas. Parece que estamos a falar de moda, mas a escrita &eacute; uma arte como outra qualquer, vive em constante muta&ccedil;&atilde;o. Hoje o p&uacute;blico de telenovelas &eacute; mais impaciente. Espera resolu&ccedil;&otilde;es r&aacute;pidas. Ningu&eacute;m quer esperar 200 cap&iacute;tulos para saber que Maria, afinal, n&atilde;o era filha de Pedro. &Eacute; fundamental que cada personagem tenha um conflito pr&oacute;prio. A fun&ccedil;&atilde;o de uma personagem n&atilde;o pode ser apenas &ldquo;ser irm&atilde; da protagonista&rdquo;. Sim, ela &eacute; irm&atilde;, mas &eacute; cleptomaniaca, ninfoman&iacute;aca &hellip; uma personagem sem conflito interior, &eacute; uma personagem sem alma. Depois de elaboradas cria-se a teia de aranha que ir&aacute; compor a evolu&ccedil;&atilde;o do relacionamento entre elas ao longo da trama.</p>
<p><b>APAD &#8211;  Que regras utiliza na concep&ccedil;&atilde;o de cenas? Tem alguma dicas ou sugest&otilde;es que possam ser &uacute;teis a jovens guionistas? </b></p>
<p>RV &#8211; Regra de ouro: uma boa cena tem ritmo, originalidade e alma. Para quem est&aacute; a come&ccedil;ar vejam tudo. Principalmente as s&eacute;ries americanas que hoje &eacute; o que se faz de melhor na televis&atilde;o.</p>
<p><b>APAD &#8211; O que &eacute; para si um bom di&aacute;logo? Que truques usa para escrever um di&aacute;logo memor&aacute;vel? </b></p>
<p>RV &#8211; Um bom di&aacute;logo &eacute; aquele que n&atilde;o ma&ccedil;e, que n&atilde;o esteja recheado de clich&eacute;s, que me fa&ccedil;a reflectir, que de alguma forma altere a minha maneira de pensar. A t&eacute;cnica &eacute; fundamental na elabora&ccedil;&atilde;o de um di&aacute;logo. Os meus chegam a ser matem&aacute;ticos (tamanho das falas, da cena, etc&hellip;)</p>
<p><b>APAD &#8211; Costuma trabalhar em equipa. Com quantas pessoas trabalha numa novela? Como &eacute; dividido o trabalho? Como consegue manter a coer&ecirc;ncia numa escrita a tantas m&atilde;os? </b></p>
<p>RV &#8211; Actualmente &ldquo;A Face do Mal&rdquo; conta com uma equipa de sete autores. &Eacute; fundamental que todos escrevam como se de um autor se tratasse, uma vez que o perfil das personagens n&atilde;o pode ser alterado. Se cada autor imprimisse o seu tom, as personagens seriam, de certeza, no m&iacute;nimo esquizofr&eacute;nicas.</p>
<h2>Produto e Marketing</h2>
<p><b>APAD &#8211; Em que medida a publicidade e o marketing s&atilde;o essenciais para o sucesso da novela nas audi&ecirc;ncias? Que outras formas de publicitar o produto s&atilde;o hoje comuns? </b></p>
<p>RV &#8211; Uma novela &eacute; um produto como outro qualquer. Precisa de uma excelente divulga&ccedil;&atilde;o. A internet parece ser a nova fronteira nesta &aacute;era. Eu mesmo j&aacute; tenho um video no YouTube a promover &ldquo;A Face do Mal&rdquo;.</p>
<p><b>APAD &#8211; Para si quais s&atilde;o os factores que mais influenciam o sucesso ou insucesso de um projecto para televis&atilde;o? </b></p>
<p>RV &#8211; Uma boa hist&oacute;ria &eacute; a pe&ccedil;a chave.</p>
<p><b>APAD &#8211; O que &eacute; necess&aacute;rio para um guionista criar uma boa rela&ccedil;&atilde;o com o produtor ou com o realizador? Como &eacute; a natureza deste trabalho em conjunto? </b></p>
<p>RV &#8211; Costumo dizer que o autor e o realizador s&atilde;o como marido e mulher. Se o casamento funciona, a novela tamb&eacute;m. &Eacute; preciso haver respeito, confian&ccedil;a e di&aacute;logo. A falta de comunica&ccedil;&atilde;o numa equipa pode levar o projecto &agrave; fal&ecirc;ncia.</p>
<p><b>APAD &#8211; Que diferen&ccedil;as costuma encontrar entre o gui&atilde;o e o produto final? </b></p>
<p>RV &#8211; H&aacute; sempre diferen&ccedil;as. Nunca &eacute; aquilo que imaginamos&hellip; pode estar pr&oacute;ximo, pior ou melhor&hellip; mas igual, &eacute; raro.</p>
<h2>O mercado</h2>
<p><b>APAD &#8211; Qual deve ser a expectativa para um jovem guionista no mercado portugu&ecirc;s (TV e Cinema)? </b></p>
<p>RV &#8211; A &aacute;rea &eacute; bastante promissora. O mercado est&aacute; faminto por novos profissionais. Mas lembrem-se: &eacute; importante ter conhecimento da t&eacute;cnica.</p>
<p><b>APAD &#8211; Acha que j&aacute; se pode falar numa verdadeira ind&uacute;stria televisiva em Portugal? </b></p>
<p>RV &#8211; Sem d&uacute;vida. Uma ind&uacute;stria que j&aacute; n&atilde;o fica nada a dever ao que se faz em outros pa&iacute;ses, nomeadamente no Brasil.</p>
<p><b>APAD &#8211; O guionista &eacute; algu&eacute;m que &eacute; valorizado na cadeia de valor destes produtos? </b></p>
<p>RV &#8211; O guionista come&ccedil;a a ser uma pe&ccedil;a cada vez mais importante. O texto &eacute; a base de tudo. Uma novela pode ter grandes cen&aacute;rios, excelentes actores, figurinos lind&iacute;ssimos, mas se a hist&oacute;ria n&atilde;o for boa, n&atilde;o tiver alma e n&atilde;o surpreender, o resto de nada vale.</p>
<p><b>APAD &#8211; Teve uma empresa de guionistas. Acha que uma organiza&ccedil;&atilde;o deste g&eacute;nero &eacute; uma boa solu&ccedil;&atilde;o? Haver&aacute; espa&ccedil;o para o surgimento de v&aacute;rias empresas do g&eacute;nero? </b></p>
<p>RV &#8211; Acho que &eacute; fundamental. Na Script tivemos a oportunidade de realizar diversos projectos na &aacute;era da forma&ccedil;&atilde;o e dar oportunidade a estagi&aacute;rios.</p>
<p><b>APAD &#8211; Que diferen&ccedil;as encontra entre a ind&uacute;stria em Portugal e a ind&uacute;stria noutros paises, como Brasil e Estados Unidos? </b></p>
<p>RV &#8211; Em Portugal ainda estamos muito voltados para a telenovela. Penso que o Equador ir&aacute; alterar um pouco este cen&aacute;rio pela qualidade da s&eacute;rie &ndash; e o interesse que certamente ir&aacute; despertar. Os Estados Unidos, depois de um grande investimento da ind&uacute;stria televisiva &#8211; foram buscar os grandes talentos do cinema (guionistas, realizadores, iluminadores) &#8211; est&atilde;o a produzir o que se faz de melhor na televis&atilde;o a n&iacute;vel mundial. Principamente no que se refere &agrave; qualidade dos di&aacute;logos. O importante &eacute; estarmos sempre atentos ao que est&aacute; a ser feito, &eacute; tentar perceber porque as s&eacute;ries x e y fazem sucesso, qual &eacute; o segredo&hellip; um guionista tem de estar sempre actualizado.</p>
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		<title>António Ferreira: um guião é como uma lista de compras</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Oct 2008 17:03:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Nunes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[António Ferreira (realizador, argumentista e/ou produtor de filmes como "Esquece tudo o que te disse" e "Respirar debaixo de água") é um dos novos e promissores autores do cinema português.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='series_toc'><h3>Índice: Revista#1</h3><ol><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/pedro-marta-santos-ainda-nao-somos-uma-profissao-somos-uma-perturbacao-neurotica/' title='Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica'>Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/nuno-markl-a-comedia-e-um-organismo-vivo/' title='Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo'>Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/rui-vilhena-e-preciso-criar-historias-com-que-as-pessoas-possam-se-identificar/' title='Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar'>Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar</a></li><li>António Ferreira: um guião é como uma lista de compras</li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/tiago-santos-como-ganhar-a-vida-numa-profissao-que-nao-existe/' title='Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe'>Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/jorge-vaz-nande-devemos-sempre-olhar-para-a-nigeria/' title='Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria'>Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/perfil-neil-labute-matem-o-dramaturgo/' title='Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo'>Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/dexter-o-mundo-ao-contrario/' title='Dexter: o mundo ao contrário'>Dexter: o mundo ao contrário</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/my-blueberry-nights-o-neon-da-paixao/' title='My Blueberry Nights: o néon da paixão'>My Blueberry Nights: o néon da paixão</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/sex-and-the-city-teorias-e-conspiracoes-sobre-a-comedia-romantica/' title='Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica'>Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/the-servant-parasitas-da-alma/' title='The Servant: parasitas da alma'>The Servant: parasitas da alma</a></li></ol></div> <p><em><a href="http://www.imdb.com/name/nm0274278/">Ant&oacute;nio Ferreira</a> (</em><em>realizador, argumentista e/ou produtor de filmes como &quot;Esquece tudo o que te disse&quot; e &quot;Respirar debaixo de &aacute;gua&quot;) </em><em>&eacute; um dos novos e promissores autores do cinema portugu&ecirc;s. <br />
</em></p>
<p><em><a href="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/underwater-rev1-foto.jpg"><img width="500" height="400" class="aligncenter size-full wp-image-211" title="underwater-rev1-foto" alt="" src="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/underwater-rev1-foto.jpg" /></a></em></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western" id="ahku12"><b>APAD &#8211; Como produtor, como reconheces um bom gui&atilde;o? Que qualidades tem de ter para dizeres: quero comprar com este projecto.</b></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western">Ant&oacute;nio Ferreira &#8211; Procuro sobretudo pegar em projectos com os quais me identifique e que veja que t&ecirc;m possibilidades de chegar &agrave; produ&ccedil;&atilde;o. A ZED tem se caracterizado por produzir filmes narrativos, que abordam quest&otilde;es actuais, sejam elas de car&aacute;cter pol&iacute;tico ou sociais. N&atilde;o h&aacute; formulas para gui&otilde;es ou filmes de sucesso, por isso muitas vezes o que me guia &eacute; a intui&ccedil;&atilde;o relativamente ao gui&atilde;o e a quem est&aacute; por detr&aacute;s dele.</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western" id="ahku13"><b>APAD &#8211; Recebes muitos gui&otilde;es? Quantos deles tem o m&iacute;nimo de qualidade? Que erros consideras mais comuns num guionista que est&aacute; a come&ccedil;ar?</b></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western">AF &#8211; Sim recebo bastantes. A grande maioria &eacute; de fraca qualidade. Normalmente o que recebo varia entre a tentativa de com&eacute;dia (que normalmente cai na caricatura desinteressante) e a tentativa de filme po&eacute;tico (com os tiques bem portugueses do suposto filme de autor). Quando recebo alguma coisa com interesse, procuro saber mais da pessoa que escreve, bem como ler outras coisas que tenha escrito. Acho que o maior problema dos gui&otilde;es escritos em Portugal, &eacute; o vazio de ideias por detr&aacute;s das hist&oacute;rias&#8230; ou se perdem em formalismos e ensaios est&eacute;ticos, ou acham que o que vai ter sucesso &eacute; uma hist&oacute;ria tipo &ldquo;malucos do riso&rdquo;. Por isso olho sempre para a ideia que est&aacute; por detr&aacute;s de uma hist&oacute;ria e se essa hist&oacute;ria est&aacute; bem contada e adequada ao meio cinematogr&aacute;fico.&nbsp;</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western" id="ahku20"><b>APAD &#8211; Tu escreves muitas vezes com guionistas ou com outros realizadores. Como &eacute; a vossa rela&ccedil;&atilde;o? Como &eacute; o vosso m&eacute;todo?</b></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western">AF &#8211; Costumo dizer que escrevo mais por necessidade do que por voca&ccedil;&atilde;o, pois a escrita &eacute; uma actividade que envolve muita disponibilidade mental, que eu com as fun&ccedil;&otilde;es de realizador e de produtor vou tendo cada vez menos. Quando me associo a algu&eacute;m na escrita, procuro uma pessoa que ache que tem a sensibilidade e o talento adequados para o projecto em causa. Por vezes escrevemos em conjunto, atrav&eacute;s de reuni&otilde;es e trocando vers&otilde;es por email, noutras circunst&acirc;ncias vou apenas acompanhando o processo de escrita juntamente com o argumentista, sendo que este &eacute; que faz o trabalho de colocar no papel o gui&atilde;o propriamente dito.&nbsp;</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western" id="ahku27"><b>APAD &#8211; Quais s&atilde;o as etapas por que passa a escrita de um gui&atilde;o para ti? Escreves logo em formato de argumento? Recorrer a m&eacute;todos como os cart&otilde;es na parede ou a leitura falada dos di&aacute;logos?</b></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western">AF &#8211; Normalmente esbo&ccedil;o um esqueleto do argumento, divis&atilde;o por cenas ou sequ&ecirc;ncias, e tamb&eacute;m costumo usar o m&eacute;todo dos cart&otilde;es na parede. Depois costumo come&ccedil;ar a &ldquo;p&ocirc;r carne&rdquo; em cima desse esqueleto (di&aacute;logos, desenvolvimento da cena, etc), melhorando-o vers&atilde;o ap&oacute;s vers&atilde;o. Normalmente estou a mexer no argumento at&eacute; muito perto da filmagem. Gosto de trabalhar um pouco com os actores antes de fazer uma vers&atilde;o final do gui&atilde;o.&nbsp;</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western" id="ahku34"><b>APAD &#8211; Em termos de estrutura do gui&atilde;o segues algum modelo, como a estrutura dos tr&ecirc;s actos? Tens algum conselho em termos da estrutura do filme?</b></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western">AF &#8211; Sim, tenho em conta os modelos cl&aacute;ssicos, mas n&atilde;o os sigo cegamente. Quando escrevo tenho muito claro que hist&oacute;ria quero contar e os personagens que tenho. Estes factores s&atilde;o o meu &ldquo;farol&rdquo; na escrita de um argumento e s&atilde;o eles que determinam o ritmo e tom do gui&atilde;o.</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western" id="ahku39"><b> APAD &#8211; O que faz uma boa cena e um bom di&aacute;logo? Tens algumas dicas ou conselhos?</b></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western">AF &#8211; Eu n&atilde;o acho muito estimulante um tipo de cinema mais contemplativo, como tal, acho que cada cena deve contribuir para o avan&ccedil;o da narrativa e deve ter uma fun&ccedil;&atilde;o clara no argumento. Se uma cena n&atilde;o acrescenta informa&ccedil;&atilde;o, deve na minha opini&atilde;o desaparecer, at&eacute; porque a minha experi&ecirc;ncia diz-me que s&atilde;o essas cenas que depois desaparecem na montagem. Como tal, para mim uma boa cena &eacute; aquela que faz avan&ccedil;ar a narrativa. Um bom di&aacute;logo &eacute; aquele que caracteriza o meu personagem e nos d&aacute; a informa&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria ao avan&ccedil;o da narrativa, de prefer&ecirc;ncia de uma forma cred&iacute;vel e subtil.&nbsp;</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western" id="ahku46"><b> APAD &#8211; Quando est&aacute;s a escrever tens algum tipo de preocupa&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o?</b></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western">AF &#8211; Infelizmente sim, pois &eacute; inevit&aacute;vel como produtor abstrair-me completamente dos aspectos da produ&ccedil;&atilde;o enquanto escrevo. Mas sou da opini&atilde;o que no momento da escrita n&atilde;o nos devemos limitar por quest&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o. Esses ajustes devem ser feitos mais tarde, quando o processo de produ&ccedil;&atilde;o se inicia.</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western" id="ahku53"><b> APAD &#8211; Costumas apresentar os teus projectos? Tens algum conselho para quem faz um pitch?</b></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western">AF &#8211; Infelizmente o modo de financiamento em Portugal n&atilde;o passa por convencermos quem financia da validade do projecto numa sess&atilde;o de pitching (&eacute; tudo feito atrav&eacute;s de dossiers). Todavia acho importante sermos capazes de resumir o nosso filme num par de par&aacute;grafos, ajuda-nos a ter em mente sobre o que &eacute; o nosso filme.</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western" id="ahku60"><b>APAD &#8211; Qual &eacute; a rela&ccedil;&atilde;o entre um guiao e a vers&atilde;o final do filme? O que muda de uma etapa para a outra? Como &eacute; o trabalho com os actores?</b></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western">AF &#8211; Muda muito. Costumo dizer que um gui&atilde;o &eacute; como uma lista de compras que levamos para a rodagem. Essa lista cont&eacute;m os ingredientes necess&aacute;rios a cozinhar o meu filme. Depois &eacute; na montagem que os misturo em diferentes propor&ccedil;&otilde;es. Por isso tamb&eacute;m quando filmo n&atilde;o tenho planifica&ccedil;&otilde;es ou storyboards. &Eacute; no set, com o trabalho com os actores e com o director de fotografia que tomo as decis&otilde;es. Do mesmo modo, &eacute; na montagem, olhando para o que consegui adquirir no &ldquo;supermercado&rdquo;, que decido como vou encadear os planos. Por isso, vejo um filme como um longo processo de cria&ccedil;&atilde;o, din&acirc;mico, que se vai adaptando &agrave;s circunst&acirc;ncias do processo de filmagem. Como tal, depende de filme para filme as diferen&ccedil;as entre o que estava escrito e o que depois apareceu no &eacute;cran.</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western" id="ahku75"><b>APAD &#8211; O que achas que o digital trouxe de novo ao cinema? Qual &eacute; a tua experi&ecirc;ncia com o formato?</b></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western">AF &#8211; Acho que o digital veio trazer facilidades de produ&ccedil;&atilde;o a quem tem menos recursos financeiros, embora isso n&atilde;o seja propriamente um milagre, pois os custos de produ&ccedil;&atilde;o de um filme n&atilde;o s&atilde;o apenas os da pel&iacute;cula. Eu pessoalmente sou um f&atilde; de novas tecnologias e desejo a morte s&uacute;bita ao 35mm, que &eacute; um suporte dispendioso, dif&iacute;cil de trabalhar, que consome tempo e dinheiro. As novas c&acirc;maras de alta resolu&ccedil;&atilde;o j&aacute; t&ecirc;m uma qualidade suficiente para os meios de exibi&ccedil;&atilde;o que existem e o 35mm s&oacute; sobrevive ainda por falta de uma rede de distribui&ccedil;&atilde;o em alta defini&ccedil;&atilde;o que come&ccedil;a agora a aparecer. Tamb&eacute;m n&atilde;o devemos esquecer que a vida de um filme no grande &eacute;cran &eacute; pouco mais de 1 ano (exibi&ccedil;&atilde;o comercial e festivais) e que o resto da vida de um filme ser&aacute; em DVD e outros formatos digitais. Por isso, &eacute; cada vez mais absurdo utilizar como suporte a pel&iacute;cula.</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western" id="ahku82"><b> APAD &#8211; Achas poss&iacute;vel falarmos de uma ind&uacute;stria portuguesa de cinema?</b></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0in;" style="margin-bottom: 0in;" class="western">AF &#8211; Acho poss&iacute;vel e desej&aacute;vel. S&atilde;o conhecidas as limita&ccedil;&otilde;es de mercado cinematogr&aacute;fico em Portugal, mas isso n&atilde;o significa que os nossos filmes n&atilde;o possam aspirar a uma depend&ecirc;ncia cada vez menor de subs&iacute;dios e a alcan&ccedil;arem uma saud&aacute;vel rela&ccedil;&atilde;o com o p&uacute;blico. Se os nossos filmes tivessem mais espectadores, fazer-se-iam com certeza mais filmes e haveria consideravelmente mais financiamento para as produ&ccedil;&otilde;es. &Eacute; assim em outros pa&iacute;ses europeus, at&eacute; de menor dimens&atilde;o do que o nosso. Agora claro que isso s&oacute; se conseguir&aacute; com mais produ&ccedil;&atilde;o cinematogr&aacute;fica que nos trar&aacute; diversidade e com filmes que sejam menos voltados para o umbigo dos realizadores e que procurem mais uma rela&ccedil;&atilde;o de comunica&ccedil;&atilde;o com o p&uacute;blico. Na minha opini&atilde;o, os principais respons&aacute;veis pelo estado m&oacute;rbido da cinematografia portuguesa s&atilde;o os criadores (realizadores e argumentistas) e do poder de decis&atilde;o que continua a esbanjar recursos em projectos que nunca deveriam ter sa&iacute;do do papel.</p>
 <div class='series_links'><a href='http://argumentistas.org/2008/10/rui-vilhena-e-preciso-criar-historias-com-que-as-pessoas-possam-se-identificar/' title='Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar'>Artigo anterior</a> <a href='http://argumentistas.org/2008/10/tiago-santos-como-ganhar-a-vida-numa-profissao-que-nao-existe/' title='Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe'>Próximo artigo</a></div>]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo</title>
		<link>http://argumentistas.org/2008/10/perfil-neil-labute-matem-o-dramaturgo/</link>
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		<pubDate>Sat, 11 Oct 2008 17:01:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Nunes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dossier]]></category>
		<category><![CDATA[Perfil]]></category>
		<category><![CDATA[cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Neil Labute]]></category>
		<category><![CDATA[teatro]]></category>

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		<description><![CDATA[Neil Labute é um dos dramaturgos e cineastas mais relevantes e provocadores da actualidade. Jorge Palinhos traça o seu perfil.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='series_toc'><h3>Índice: Revista#1</h3><ol><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/pedro-marta-santos-ainda-nao-somos-uma-profissao-somos-uma-perturbacao-neurotica/' title='Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica'>Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/nuno-markl-a-comedia-e-um-organismo-vivo/' title='Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo'>Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/rui-vilhena-e-preciso-criar-historias-com-que-as-pessoas-possam-se-identificar/' title='Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar'>Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/antonio-ferreira-um-guiao-e-como-uma-lista-de-compras/' title='António Ferreira: um guião é como uma lista de compras'>António Ferreira: um guião é como uma lista de compras</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/tiago-santos-como-ganhar-a-vida-numa-profissao-que-nao-existe/' title='Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe'>Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/jorge-vaz-nande-devemos-sempre-olhar-para-a-nigeria/' title='Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria'>Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria</a></li><li>Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo</li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/dexter-o-mundo-ao-contrario/' title='Dexter: o mundo ao contrário'>Dexter: o mundo ao contrário</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/my-blueberry-nights-o-neon-da-paixao/' title='My Blueberry Nights: o néon da paixão'>My Blueberry Nights: o néon da paixão</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/sex-and-the-city-teorias-e-conspiracoes-sobre-a-comedia-romantica/' title='Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica'>Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/the-servant-parasitas-da-alma/' title='The Servant: parasitas da alma'>The Servant: parasitas da alma</a></li></ol></div> <p><i>por Jorge Palinhos</i><sup><a href="http://argumentistas.org/2008/10/perfil-neil-labute-matem-o-dramaturgo/#footnote_0_236" id="identifier_0_236" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Al&amp;eacute;m de trabalhar como tradutor e coordenador editorial, Jorge Palinhos publicou tr&amp;ecirc;s pe&amp;ccedil;as de teatro, das quais duas foram premiadas com o Pr&amp;eacute;mio Miguel Rovisco e o Pr&amp;eacute;mio Manuel Deniz-Jacinto. Tem tamb&amp;eacute;m escrito gui&amp;otilde;es para curtas-metragens de cinema de anima&amp;ccedil;&amp;atilde;o e de imagem real, algumas das quais foram j&amp;aacute; produzidas ou est&amp;atilde;o em fase de produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o.">1</a></sup></p>
<h2><b>Matem o dramaturgo</b></h2>
<p>Um perfil de Neil Labute</p>
<p>Qualquer artigo sobre Neil LaBute sofre da recorr&ecirc;ncia de um campo sem&acirc;ntico espec&iacute;fico. Provocador, mal&eacute;volo, &ldquo;the meanest man in Hollywood&rdquo;, &ldquo;bad boy&rdquo;, irreverente, politicamente incorrecto, etc., s&atilde;o palavras que surgem em quase todos os perfis, biografias, entrevistas ou refer&ecirc;ncias a este dramaturgo, guionista, encenador e realizador norte-americano. Palavras que ter&atilde;o atingido o seu cl&iacute;max justamente na primeira pe&ccedil;a que levou ao palco: Filthy Talk for Troubled Times &#8211; em que um espectador abandonou a sala aos gritos de &ldquo;Matem o dramaturgo&rdquo;.E, contudo, as suas pe&ccedil;as de teatro s&atilde;o encenadas em todo o mundo &ndash; como, recentemente A Gorda (Fat Pig) no Teatro Villaret &ndash; e Labute &eacute; frequentemente convidado para encenar as suas pr&oacute;prias pe&ccedil;as por algumas das mais prestigiadas companhias americanas e inglesas, como a Steppenwolf Theatre Company, o Almeida Theatre, o MCC Theater e o Ambassador Theatre Group.</p>
<p><a href="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/in-the-company-of-men-rev1-foto.jpg"><img width="500" height="400" class="aligncenter size-full wp-image-243" title="in-the-company-of-men-rev1-foto" alt="" src="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/in-the-company-of-men-rev1-foto.jpg" /></a></p>
<p>Foi como argumentista e realizador que saltou para a ribalta: a sua primeira obra cinematogr&aacute;fica, In the Company of Men, conquistou o galard&atilde;o de melhor realizador do primeiro Festival de Sundance; a sua com&eacute;dia Nurse Betty recebeu o pr&eacute;mio de melhor argumento e foi nomeado para a Palma de Ouro em Cannes, tendo a sua protagonista, Renn&eacute;e Zellweger, recebido o Globo de Ouro de Melhor Interpreta&ccedil;&atilde;o. LaBute foi tamb&eacute;m respons&aacute;vel pela realiza&ccedil;&atilde;o de Possess&atilde;o, uma adapta&ccedil;&atilde;o do romance hom&oacute;nimo de A.S. Byatt, com Aaron Eckhart e Gwyneth Paltrow, entre outros, e um remake algo falhado de The Wicker Man.</p>
<p>Nascido em 1963 em Detroit, no seio de uma fam&iacute;lia oper&aacute;ria, LaBute era o mais novo de tr&ecirc;s irm&atilde;os, tendo a tempestuosa rela&ccedil;&atilde;o dos seus pais inspirado a sua obra In a Dark Dark House. O seu primeiro contacto com o teatro foi ainda no ensino secund&aacute;rio, onde come&ccedil;ou a participar nos grupos de teatro escolar como actor e em que escrevia pe&ccedil;as que depois apresentava aos professores sob pseud&oacute;nimo na esperan&ccedil;a de que estes quisessem encen&aacute;-las.</p>
<p>Uma bolsa de estudo levou-o &agrave; Universidade Brigham Young, no Utah, onde conheceria o seu c&uacute;mplice de longa data, Aaron Eckhart, e se converteria &agrave; Igreja dos Santos dos &Uacute;ltimos Dias, embora, mais tarde, a sua pe&ccedil;a Bash: Latter-Day Plays, onde se apresentam m&oacute;rmones devotos a terem v&aacute;rias atitudes muito duvidosas, tenha levantado pol&eacute;mica no seio da sua igreja e levado ao seu afastamento. Posteriormente estudou Dramaturgia na Universidade de Nova Iorque, mas, mais uma vez, a sua atitude provocadora gerou inimizades e controv&eacute;rsias.</p>
<p>Em 1997, com o dinheiro da indemniza&ccedil;&atilde;o que dois amigos tinham recebido por um acidente, aventura-se no seu primeiro filme. Com 25 000 d&oacute;lares filmou In The Company of Men, sobre dois homens que se vingam das suas frustra&ccedil;&otilde;es amorosas numa mulher surda. Com a pel&iacute;cula mais barata, fazendo a rodagem em locais gratuitos e com actores volunt&aacute;rios consegue filmar todas as sequ&ecirc;ncias antes de ficar sem dinheiro e sem pel&iacute;cula. O filme &eacute; enviado ainda sem montagem para o Festival de Sundance e &eacute; aceite, o que permite a Labute obter financiamento adicional para acabar a montagem e distribuir o filme, que acaba por ser premiado naquele festival, entre aplausos, pol&eacute;micas, acusa&ccedil;&otilde;es de misoginia e elogios de feminismo.</p>
<p>Corpulento, moreno, de &oacute;culos graduados e um ar eternamente cansado, n&atilde;o &eacute; preciso perspic&aacute;cia para ver de onde surgem tantos textos pol&eacute;micos e personagens d&uacute;bias. Cordial e prest&aacute;vel, &eacute; f&aacute;cil detectar o sentido de humor acutilante que atenua uma honestidade e um prazer quase infantil de provocar o interlocutor. Neil Labute escreve hist&oacute;rias sobre pessoas normais que n&atilde;o conseguem esconder os seus piores impulsos, e essas hist&oacute;rias muitas vezes s&atilde;o inspiradas nas suas pr&oacute;prias experi&ecirc;ncias. Como em A Gorda, uma das suas obras mais recentes, onde um homem se envergonha de manter uma rela&ccedil;&atilde;o com uma mulher particularmente volumosa, e que foi escrita ap&oacute;s uma tentativa de dieta falhada por parte do autor.</p>
<p>Agora, a sua obra mais recente, Reasons to be Pretty, est&aacute; em estreia na ultra-comercial Broadway. Neil Labute parece algo preocupado com a reac&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico &agrave; ferocidade da sua escrita e das suas personagens. Mas parece pouco prov&aacute;vel que este novo p&uacute;blico concretize o que o espectador da sua primeira pe&ccedil;a n&atilde;o teve pejo em proclamar.</p>
<p><b>Filmes que escreveu</b><br />
- In the Company of Men (1997)<br />
- Your Friends &amp; Neighbors (1998)<br />
- Tumble (2000)<br />
- The Shape of Things (2003)</p>
<p><b>Pe&ccedil;as de Teatro que escreveu</b><br />
- Filthy Talk For Troubled Times (1992)<br />
- In the Company of Men (1992)<br />
- Bash: Latter-Day Plays (1999)<br />
- The Shape of Things (2001)<br />
- The Distance From Here (2002)<br />
- The Mercy Seat (2002)<br />
- Autobahn (2003)<br />
- Fat Pig (2004)<br />
- This Is How It Goes (2005)<br />
- Some Girl(s) (2005)<br />
- Wrecks (2005)<br />
- In A Dark Dark House (2007)<br />
- Reasons to be pretty (2008)</p>
<p><b>Alguns links recomendados</b><br />
- <a href="http://movies.yahoo.com/movie/contributor/1800022566" mce_href="http://movies.yahoo.com/movie/contributor/1800022566" target="_blank">Perfil no Yahoo Movies</a><br />
- <a href="http://www.imdb.com/name/nm0001438/" mce_href="http://www.imdb.com/name/nm0001438/" target="_blank">P&aacute;gina no IMDB</a><br />
- <a href="http://www.salon.com/aug97/entertainment/labute970801.html" mce_href="http://www.salon.com/aug97/entertainment/labute970801.html" target="_blank">Entrevista na revista Salon</a><br />
- <a href="http://www.bombsite.com/issues/83/articles/2560" mce_href="http://www.bombsite.com/issues/83/articles/2560" target="_blank">Entrevista na revista Bomb</a><br />
- <a href="http://www.guardian.co.uk/world/2008/jan/15/usa.theatre" mce_href="http://www.guardian.co.uk/world/2008/jan/15/usa.theatre" target="_blank">Artigo de Neil LaBute sobre o teatro americano</a><br />
- <a href="http://www.guardian.co.uk/stage/2008/may/13/theatre.culture" mce_href="http://www.guardian.co.uk/stage/2008/may/13/theatre.culture">Artigo de Neil LaBute sobre os t&iacute;tulos das suas obras</a></p>
<ol class="footnotes"><li id="footnote_0_236" class="footnote">Al&eacute;m de trabalhar como tradutor e coordenador editorial, Jorge Palinhos publicou tr&ecirc;s pe&ccedil;as de teatro, das quais duas foram premiadas com o Pr&eacute;mio Miguel Rovisco e o Pr&eacute;mio Manuel Deniz-Jacinto. Tem tamb&eacute;m escrito gui&otilde;es para curtas-metragens de cinema de anima&ccedil;&atilde;o e de imagem real, algumas das quais foram j&aacute; produzidas ou est&atilde;o em fase de produ&ccedil;&atilde;o.</li></ol> <div class='series_links'><a href='http://argumentistas.org/2008/10/jorge-vaz-nande-devemos-sempre-olhar-para-a-nigeria/' title='Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria'>Artigo anterior</a> <a href='http://argumentistas.org/2008/10/dexter-o-mundo-ao-contrario/' title='Dexter: o mundo ao contrário'>Próximo artigo</a></div>]]></content:encoded>
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		<title>Dexter: o mundo ao contrário</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Oct 2008 17:01:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Nunes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Dossier]]></category>
		<category><![CDATA[Dexter]]></category>
		<category><![CDATA[televisão]]></category>

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		<description><![CDATA[Daniel Ribas analisa "Dexter", série de sucesso que vira o mundo ao contrário tendo como protagonista um simpático "serial killer".]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='series_toc'><h3>Índice: Revista#1</h3><ol><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/pedro-marta-santos-ainda-nao-somos-uma-profissao-somos-uma-perturbacao-neurotica/' title='Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica'>Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/nuno-markl-a-comedia-e-um-organismo-vivo/' title='Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo'>Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/rui-vilhena-e-preciso-criar-historias-com-que-as-pessoas-possam-se-identificar/' title='Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar'>Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/antonio-ferreira-um-guiao-e-como-uma-lista-de-compras/' title='António Ferreira: um guião é como uma lista de compras'>António Ferreira: um guião é como uma lista de compras</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/tiago-santos-como-ganhar-a-vida-numa-profissao-que-nao-existe/' title='Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe'>Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/jorge-vaz-nande-devemos-sempre-olhar-para-a-nigeria/' title='Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria'>Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/perfil-neil-labute-matem-o-dramaturgo/' title='Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo'>Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo</a></li><li>Dexter: o mundo ao contrário</li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/my-blueberry-nights-o-neon-da-paixao/' title='My Blueberry Nights: o néon da paixão'>My Blueberry Nights: o néon da paixão</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/sex-and-the-city-teorias-e-conspiracoes-sobre-a-comedia-romantica/' title='Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica'>Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/the-servant-parasitas-da-alma/' title='The Servant: parasitas da alma'>The Servant: parasitas da alma</a></li></ol></div> <p mce_style="margin-bottom: 0.14in;" style="margin-bottom: 0.14in;" class="western"><i>por Daniel Ribas</i><i><span mce_style="&rdquo;font-size:x-small;&rdquo;" style=""> (</span></i><i><span mce_style="&rdquo;font-size:x-small;&rdquo;" style="">(Daniel Ribas &eacute; argumentista e investigador da Universidade de Aveiro. Prepara uma tese de doutoramento sobre os filmes de Jo&atilde;o Canijo. &Eacute; tamb&eacute;m professor do Instituto Polit&eacute;cnico de Bragan&ccedil;a.))</span></i></p>
<h2>O Mundo ao Contr&aacute;rio</h2>
<p mce_style="margin-bottom: 0.14in;" style="margin-bottom: 0.14in;" class="western">Sobre &laquo;Dexter&raquo;<i><span mce_style="&rdquo;font-size:x-small;&rdquo;" style=""><br />
</span></i></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0.14in;" style="margin-bottom: 0.14in;" class="western">H&aacute; algo de surpreendente em &ldquo;Dexter&rdquo;. A s&eacute;rie, que caminha para a terceira temporada nos Estados Unidos (come&ccedil;ar&aacute; a emitir agora em Setembro), &eacute; um resultado da produtora americana ShowTime (respons&aacute;vel por outras s&eacute;ries de sucesso como &laquo;Erva/Weeds&raquo;, &laquo;Californication&raquo; e &laquo;L World&raquo;). &Eacute; certo que, no centro da estrutura dram&aacute;tica do gui&atilde;o, est&aacute; algo que at&eacute; &eacute; clich&eacute;: um <i id="b3001">vigilante</i> que decide fazer justi&ccedil;a pelas pr&oacute;prias m&atilde;os. Mas, apesar disso (ou at&eacute; por causa disso), a s&eacute;rie consegue sempre surpreender-nos, j&aacute; que, jogando com essas expectativas, &eacute; capaz de trazer muitos pormenores novos. O primeiro deles, que tem tudo a ver com o centro desta estrutura, &eacute; o seu her&oacute;i: Dexter &eacute; o nosso vigilante, mas &eacute; tamb&eacute;m a personagem que provoca mais compaix&atilde;o no espectador.</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0.14in;" style="margin-bottom: 0.14in;" class="western">Assim dito, talvez seja importante esclarecer qual &eacute; a linha narrativa da s&eacute;rie: Dexter &eacute; um especialista de ci&ecirc;ncias forenses, que trabalha no departamento de homic&iacute;dios da pol&iacute;cia de Los Angeles. &Eacute; ele que trabalha sobre os vest&iacute;gios de sangue nas cenas de crime. Contudo, Dexter assassina criminosos &agrave; noite, depois do trabalho. Para ele (e para o c&oacute;digo do seu pai adoptivo, Harry), estes assass&iacute;nios t&ecirc;m que ser justificados e, por isso, Dexter investiga a fundo (por conta pr&oacute;pria) estes criminosos e s&oacute; os mata quando a investiga&ccedil;&atilde;o policial <i id="b3003">normal</i> n&atilde;o os consegue acusar. A grande justifica&ccedil;&atilde;o narrativa para este comportamento <i id="b3004">serial-killer</i> de Dexter &eacute; um epis&oacute;dio na sua inf&acirc;ncia: ele foi resgatado por Harry (o seu futuro pai adoptivo, portanto) numa cena de crime terr&iacute;vel, dentro de um vag&atilde;o, onde a m&atilde;e tinha sido morta e o sangue cobria Dexter de vermelho.</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0.14in;" style="margin-bottom: 0.14in;" class="western">Para al&eacute;m deste comportamento desviante, Dexter tenta manter uma vida normal com a sua irm&atilde;, Debra e com Rita, a sua namorada. Este conjunto de personagens obriga Dexter a interagir e a fugir da sua aus&ecirc;ncia de sentimentos (&eacute; ele pr&oacute;prio que o repete, diversas vezes). A grande linha narrativa da primeira temporada &eacute; a investiga&ccedil;&atilde;o sobre um <i id="b3006">serial killer</i> que, descobrir-se-&aacute; mais tarde, tem uma liga&ccedil;&atilde;o afectiva com Dexter (n&atilde;o dizemos mais para n&atilde;o <i id="gogf">estragar</i> o visionamento a quem ainda n&atilde;o viu). Na segunda temporada, o departamento de homic&iacute;dios descobre o local onde as v&iacute;timas de Dexter eram abandonadas (no meio do mar). Uma ca&ccedil;a ao homem come&ccedil;a: a ca&ccedil;a a Dexter&hellip;</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0.14in;" style="margin-bottom: 0.14in;" class="western" id="b3007">A estrutura narrativa b&aacute;sica da s&eacute;rie &eacute;, portanto, a vida de um departamento de homic&iacute;dios. Contudo, ao contr&aacute;rio de outras s&eacute;ries semelhantes, em &laquo;Dexter&raquo; o cerne da ac&ccedil;&atilde;o policial est&aacute; na descoberta de <i id="b3008">serial-killers</i> em vez dos vulgares crimes passionais. Desta forma, a s&eacute;rie organiza-se atrav&eacute;s da sucessiva descoberta de provas que encontrem o assassino (um pouco &agrave; semelhan&ccedil;a de filmes que lidam com o mesmo tipo de criminosos). Na segunda temporada isso torna-se mais &oacute;bvio desde o primeiro epis&oacute;dio, o que leva mesmo &agrave; entrada em cena de uma nova personagem: o agente especial Frank Lundy, funcion&aacute;rio do FBI e destacado para criar uma <i id="li61">task-force</i> sobre o assassino.</p>
<p><a mce_href="http://argumentistas.org/beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/dex1.jpg" href="../../../../../beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/dex1.jpg"><img width="400" height="278" alt="" mce_src="http://argumentistas.org/beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/dex1.jpg" src="../../../../../beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/dex1.jpg" title="dex1" class="alignnone size-full wp-image-148" /></a></p>
<p mce_style="margin-bottom: 0.14in;" style="margin-bottom: 0.14in;" class="western" id="b3009">Para al&eacute;m destas linhas narrativas, h&aacute; hist&oacute;rias secund&aacute;rias que multiplicam as <i id="b30010">vidas</i> de Dexter: os namorados de Debra (e a sua vida como investigadora no departamento), a vida de Rita (com os seus filhos e o seu ex-marido) e at&eacute; a vida social dos colegas de trabalho. Estas diversas linhas narrativas pretendem apenas servir a hist&oacute;ria e a personalidade de Dexter (esta &eacute; uma s&eacute;rie de uma personagem, ao contr&aacute;rio de outras que apostam em <i id="j48.">ensembles </i>de actores). &Eacute; por isso que cada epis&oacute;dio &eacute; estruturado como uma <i id="b30011">&ldquo;aprendizagem&rdquo;</i> de Dexter, as suas diversas mudan&ccedil;as e o impacto que o mundo &agrave; sua volta tem em si. Cada epis&oacute;dio &eacute;, por isso, bastante redondo, mesmo que haja uma linha narrativa comum a cada temporada (at&eacute; por causa disso, cada epis&oacute;dio come&ccedil;a com o resumo do que aconteceu at&eacute; ent&atilde;o). Para al&eacute;m disso, no fim dos epis&oacute;dios (por norma, embora nem sempre) um novo problema &eacute; lan&ccedil;ado, de forma a que a curiosidade se mantenha e a audi&ecirc;ncia deseje o pr&oacute;ximo cap&iacute;tulo.</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0.14in;" style="margin-bottom: 0.14in;" class="western" id="b30012">Esta estrutura&ccedil;&atilde;o &eacute; acompanhada com uma constante sensa&ccedil;&atilde;o de perigo: que Dexter seja apanhado. Esta consci&ecirc;ncia leva-nos, provavelmente, &agrave; grande atrac&ccedil;&atilde;o da s&eacute;rie: cada espectador sofre de uma luta interior entre amar e odiar Dexter, em se sentir identificado e em repuls&aacute;-lo. Mesmo que seja &oacute;bvio um sentimento de identifica&ccedil;&atilde;o dominante, h&aacute; algumas vezes em que Dexter &eacute; caracterizado <i id="b30013">mesmo</i> como um <i id="b30014">serial-killer</i>. A&iacute; o equil&iacute;brio torna-se inst&aacute;vel e fica essa sensa&ccedil;&atilde;o de estranheza que &eacute; tamb&eacute;m a sensa&ccedil;&atilde;o que nos faz manter <i id="b30015">colados</i> ao desenvolvimento da s&eacute;rie.</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0.14in;" style="margin-bottom: 0.14in;" class="western" id="b30016">Outra das caracter&iacute;sticas marcantes de &laquo;Dexter&raquo; &eacute; a sua voz-off, que acompanha todos os epis&oacute;dios e que pontua os diferentes momentos da narrativa. &Eacute; tamb&eacute;m a voz-off que nos permite, nos momentos mais delicados, estabelecer uma identifica&ccedil;&atilde;o, al&eacute;m de acentuar a import&acirc;ncia do nosso <i id="e:3e">one-man-show</i>. E, ao contr&aacute;rio do que poderia ser previs&iacute;vel, a voz-off funciona, j&aacute; que a s&eacute;rie serve para <i id="e:3e0">entrar</i> no interior dos pensamentos e da forma de actuar de Dexter.</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0.14in;" style="margin-bottom: 0.14in;" class="western" id="b30018">&Eacute; neste sentido que &laquo;Dexter&raquo; nos parece uma das melhores s&eacute;ries que est&atilde;o actualmente em exibi&ccedil;&atilde;o, sobretudo pela capacidade de confrontar os dois lados da barricada (o bom e o mau) e atrav&eacute;s desse caos lan&ccedil;ar-nos no turbilh&atilde;o dos sentimentos paradoxais. Esta &eacute; a s&eacute;rie, tamb&eacute;m, que relan&ccedil;a um grande actor: Michael C. Hall, respons&aacute;vel por outra grande personagem (David Fisher), na s&eacute;rie &laquo;Sete Palmos de Terra&raquo;. Resta, por isso, a curiosidade de saber para onde vai a pr&oacute;xima temporada e para onde poder&atilde;o ir os argumentistas da s&eacute;rie&hellip;</p>
<p mce_style="margin-bottom: 0.14in;" style="margin-bottom: 0.14in;" class="western"><i><br />
</i></p>
<p><img width="486" height="412" mce_src="http://argumentistas.org/beta1/wp-includes/js/tinymce/plugins/media/img/trans.gif" src="../../../../../beta1/wp-includes/js/tinymce/plugins/media/img/trans.gif" class="mceItemFlash" title="&quot;name&quot;:&quot;flashObj&quot;,&quot;bgcolor&quot;:&quot;#FFFFFF&quot;,&quot;flashvars&quot;:&quot;videoId=1688292415&amp;playerId=271552642&amp;viewerSecureGatewayURL=https://console.brightcove.com/services/amfgateway&amp;servicesURL=http://services.brightcove.com/services&amp;cdnURL=http://admin.brightcove.com&amp;domain=embed&amp;autoStart=false&amp;&quot;,&quot;src&quot;:&quot;http://services.brightcove.com/services/viewer/federated_f8/271552642&quot;" alt="" /><br />
Trailer da Terceira &Eacute;poca de &laquo;Dexter&raquo;</p>
 <div class='series_links'><a href='http://argumentistas.org/2008/10/perfil-neil-labute-matem-o-dramaturgo/' title='Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo'>Artigo anterior</a> <a href='http://argumentistas.org/2008/10/my-blueberry-nights-o-neon-da-paixao/' title='My Blueberry Nights: o néon da paixão'>Próximo artigo</a></div>]]></content:encoded>
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		<title>My Blueberry Nights: o néon da paixão</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Oct 2008 17:01:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Nunes</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Dossier]]></category>
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		<description><![CDATA[O filme "My Blueberry Nights", de Wong Kar Wai e Lawrence Block, merece uma análise a Pedro Flores.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='series_toc'><h3>Índice: Revista#1</h3><ol><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/pedro-marta-santos-ainda-nao-somos-uma-profissao-somos-uma-perturbacao-neurotica/' title='Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica'>Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/nuno-markl-a-comedia-e-um-organismo-vivo/' title='Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo'>Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/rui-vilhena-e-preciso-criar-historias-com-que-as-pessoas-possam-se-identificar/' title='Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar'>Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/antonio-ferreira-um-guiao-e-como-uma-lista-de-compras/' title='António Ferreira: um guião é como uma lista de compras'>António Ferreira: um guião é como uma lista de compras</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/tiago-santos-como-ganhar-a-vida-numa-profissao-que-nao-existe/' title='Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe'>Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/jorge-vaz-nande-devemos-sempre-olhar-para-a-nigeria/' title='Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria'>Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/perfil-neil-labute-matem-o-dramaturgo/' title='Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo'>Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/dexter-o-mundo-ao-contrario/' title='Dexter: o mundo ao contrário'>Dexter: o mundo ao contrário</a></li><li>My Blueberry Nights: o néon da paixão</li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/sex-and-the-city-teorias-e-conspiracoes-sobre-a-comedia-romantica/' title='Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica'>Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/the-servant-parasitas-da-alma/' title='The Servant: parasitas da alma'>The Servant: parasitas da alma</a></li></ol></div> <p><i>por Pedro Flores</i></p>
<p><a mce_href="http://argumentistas.org/beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/my_blueberry_nights02.jpg" href="../../../../../beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/my_blueberry_nights02.jpg"><img width="300" height="206" alt="" mce_src="http://argumentistas.org/beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/my_blueberry_nights02-300x206.jpg" src="../../../../../beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/my_blueberry_nights02-300x206.jpg" title="My Blueberry Nights" class="alignnone size-medium wp-image-190" /></a></p>
<h2>O N&eacute;on da Paix&atilde;o</h2>
<p>Sobre &quot;My Blueberry Nights&quot;, de Wong Kar-wai e <a href="http://www.imdb.com/name/nm0088747/" linkindex="89" set="yes">Lawrence Block</a><br />
<i><br />
</i></p>
<p>A can&ccedil;&atilde;o de Norah Jones avisa-nos nos momentos iniciais: &ldquo;I don&rsquo;t know how to begin/ &lsquo;cause the story has been told before&rdquo;. E, de facto, desde Chungking Express que com Wong Kar-Wai &eacute; sempre a mesma cantiga: filmes nocturnos que descrevem os encontros e desencontros do amor com um travo a doce melancolia. Se 2046 era o negativo desencantado de In the Mood for Love numa atmosfera futurista, My Blueberry Nights &eacute; agora a transposi&ccedil;&atilde;o desse universo para o territ&oacute;rio da Am&eacute;rica. Ali&aacute;s, a passagem da melodia de In The Mood For Love a meio deste filme &eacute; a prova dessa memoria f&iacute;lmica que aqui retorna e assombra My Blueberry Nights como um fantasma.</p>
<p>A hist&oacute;ria &eacute; linear: Lizzie (Norah Jones), uma rapariga simples a quem acabaram de quebrar o cora&ccedil;&atilde;o, afoga as m&aacute;goas no caf&eacute; gerido por Jeremy (Jude Law). Para esquecer o amor de sua vida, resolve fazer uma viagem pela Am&eacute;rica &ndash; Nova Iorque, Memphis, Las Vegas &#8211; onde trabalha como empregada de mesa. A&iacute;, conhece Arnie (David Strathairn) &ndash; um policia que procura no &aacute;lcool esquecer a ex-mulher (Rachel Weisz) e Leslie (Natalie Portman), uma jogadora compulsiva que tem uma rela&ccedil;&atilde;o problem&aacute;tica com o pai. Ao mesmo tempo, come&ccedil;a a corresponder-se com Jeremy, a quem confidencia as suas aventuras e estados de alma.</p>
<p>&Agrave; superf&iacute;cie, estamos portanto no dom&iacute;nio do filme de g&eacute;nero, especificamente do road-movie. H&aacute; algo que falta ao her&oacute;i e &eacute; isso que o faz partir. Ao longo da viagem, ele tem encontros fortuitos e envolve-se em perip&eacute;cias que reflectem a sua demanda e funcionam como caixa de resson&acirc;ncia do seu conflito interior. Deste modo, a viagem geogr&aacute;fica tem paralelo numa viagem emocional, de crescimento ou perdi&ccedil;&atilde;o, que culmina na transforma&ccedil;&atilde;o do her&oacute;i. Em tra&ccedil;os gerais, esta &eacute; a f&oacute;rmula que consagrou filmes como Easy Rider ou Thelma and Louise.</p>
<p>Por&eacute;m, este &eacute; um &ldquo;road movie&rdquo; de paisagens interiores. Se tem certamente elementos que caracterizam o g&eacute;nero, a sua ac&ccedil;&atilde;o acontece no &iacute;ntimo dos caf&eacute;s em torno de conflitos privados. Al&eacute;m disso, ao contr&aacute;rio do que costuma suceder nos filmes de estrada, aqui as personagens vivem isoladas do seu momento hist&oacute;rico-cultural, sem liga&ccedil;&atilde;o ao real, sem exist&ecirc;ncia para l&aacute; destes &ldquo;coffee-shops&rdquo;. E se &eacute; verdade que a maior parte do filme foi filmado &ldquo;in location&rdquo;, esta &eacute; na sua ess&ecirc;ncia uma Am&eacute;rica de est&uacute;dio, colorida por luzes artificiais e encerrada em si mesma, sem fora de campo. Tal como a Paris de O Fabuloso Destino de Am&eacute;lie Poulain, o territ&oacute;rio deste filme &eacute; menos a Am&eacute;rica real do que a da tela, nas suas conven&ccedil;&otilde;es, lugares-comuns, e imagin&aacute;rio pop. Uma Am&eacute;rica feita de juke-boxes e descapot&aacute;veis, sonhada apenas pela s&eacute;tima arte, fic&ccedil;&atilde;o inspirada em outras fic&ccedil;&otilde;es.</p>
<p>De facto, nesta viagem de Wong Kar Wai de Hong Kong para a Am&eacute;rica, h&aacute; algo que se perdeu na tradu&ccedil;&atilde;o. Onde antes predominava a ambival&ecirc;ncia do gesto e do n&atilde;o-dito proliferam agora di&aacute;logos melodram&aacute;ticos e banais. Onde antes havia o exotismo de Tony Leung ou Maggie Cheung h&aacute; agora a inverosimilhan&ccedil;a de Jude Law como empregado de caf&eacute;. Onde antes ponteava uma narra&ccedil;&atilde;o que servia de contraponto &agrave; imagem, surge agora uma &#8211; ali&aacute;s duas &#8211; voz-offs que apenas transmitem informa&ccedil;&atilde;o e explicam de modo redundante e redutor o que o espectador est&aacute; a ver. Ao menos para o olhar de um ocidental, o que se perdeu foi a cren&ccedil;a naquele universo feito de quartos de hotel e vestidos de cetim que nos transportava cegamente para a Hong Kong dos anos 60 ou a noite de Buenos Aires &#8211; mesmo que as suas anteriores recrea&ccedil;&otilde;es fossem j&aacute; historicamente irrealistas.</p>
<p>Esta hist&oacute;ria come&ccedil;a em Nova Iorque com uma premissa curiosa: uma jovem lan&ccedil;a-se em viagem pela Am&eacute;rica para esquecer as contrariedades do amor. Periodicamente, uma legenda avisa-nos que Lizzie est&aacute; cada vez mais distante do ponto de partida, e portanto, mais perto da reabilita&ccedil;&atilde;o &ndash; segundo a f&oacute;rmula &ldquo;longe da vista, longe do cora&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Por&eacute;m, de facto, o seu &uacute;nico objectivo declarado &eacute; amealhar dinheiro para comprar um carro. &Eacute; certo que Lizzie tamb&eacute;m se relaciona com os dramas de um par de outras personagens, mas permanece emocionalmente &agrave; dist&acirc;ncia como uma testemunha ou um frouxo adjuvante. Ou seja, Lizzie &eacute; uma protagonista passiva, de cora&ccedil;&atilde;o generoso &eacute; verdade, mas que pouco deseja e a nada se entrega.</p>
<p>Por isso, porque lhe faltam as expectativas de Lizzie para poder chorar e sorrir com ela, h&aacute; uma natural dificuldade do espectador em identificar-se com a hist&oacute;ria. N&atilde;o basta para o espectador que Norah Jones seja uma rapariga de cara laroca que est&aacute; com os &ldquo;blues&rdquo;. &Eacute; preciso que ela acredite, lute, sonhe como ningu&eacute;m antes o fez. Essa &eacute; a mat&eacute;ria de que s&atilde;o feitos os her&oacute;is. Infelizmente, esse n&atilde;o &eacute; o caso de Lizzie, e assim o fim da jornada da protagonista aparece-nos mais como uma ac&ccedil;&atilde;o da ordem do acaso ou do capricho do que uma verdadeira transforma&ccedil;&atilde;o interior.</p>
<p><a mce_href="http://argumentistas.org/beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/my_blueberry_nights_05.jpg" href="../../../../../beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/my_blueberry_nights_05.jpg"><img width="400" height="268" alt="" mce_src="http://argumentistas.org/beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/my_blueberry_nights_05.jpg" src="../../../../../beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/my_blueberry_nights_05.jpg" title="My BlueBerry Nights" class="alignleft size-full wp-image-191" /></a></p>
<p>Ali&aacute;s, mesmo os dois subplots que ocupam uma parte significativa da narrativa s&atilde;o pouco originais e n&atilde;o suscitam uma liga&ccedil;&atilde;o afectiva com o espectador. As hist&oacute;rias do ex-marido alco&oacute;lico em Memphis e da jogadora compulsiva de roleta em Las Vegas, confundem-se de tal forma na paisagem de filmes de estrada americanos que quase nos aparecem como personagens-tipo: sem assinatura ou impress&atilde;o digital. Por outras palavras, falta-lhes a diferen&ccedil;a que caracteriza as personagens cativantes e memor&aacute;veis: a especificidade inimit&aacute;vel dos h&aacute;bitos, dos gestos, do guarda-roupa, ou da backstory.</p>
<p>&Eacute; verdade que alguns h&aacute; elementos originais &agrave; hist&oacute;ria &#8211; como a tarte de mirtilo que todos rejeitam, o frasco que guarda chaves de clientes perdidos de amor, os v&iacute;deos de seguran&ccedil;a que funcionam como di&aacute;rio de bordo do gerente. Como tamb&eacute;m existem cenas memor&aacute;veis: o alco&oacute;lico que celebra a &uacute;ltima noite de &aacute;lcool com um copo de whisky, a coincid&ecirc;ncia c&oacute;smica dos dois her&oacute;is que come&ccedil;am a sangrar do nariz no mesmo momento, ou o empregado de mesa que se recorda das pessoas n&atilde;o pelo seu aspecto mas por aquilo que costumam consumir. Ali&aacute;s, em regra, estes elementos s&atilde;o quase sempre bem empregues em estrat&eacute;gias de &ldquo;set-up&rdquo; e &ldquo;pay-off&rdquo; com consequ&ecirc;ncias narrativas para as personagens. Por&eacute;m, ao abandonarmos a sala, o sentimento geral &eacute; de que acab&aacute;mos de assistir a uma hist&oacute;ria algo previs&iacute;vel e auto-indulgente. Como o confirma circularmente Norah Jones, em jeito de coro grego, na &uacute;ltima cena: &ldquo;I guess it&rsquo;s how it goes/ the stories have all been told&rdquo;.</p>
<p>Na realidade, Wong Kar Wai est&aacute; menos interessado no drama ou na hist&oacute;ria do que no Belo. Quando filma a mulher, o cineasta apresenta-a muitas vezes sem rosto, apenas saltos altos e ancas que seduzem, um absoluto de mulher. Quando filma um acidente mortal, estiliza-o, captando os estilha&ccedil;os e reflexos met&aacute;licos do &acirc;ngulo mais fotog&eacute;nico. Quando filma uma cena de pancadaria, mant&eacute;m-se &agrave; distancia para n&atilde;o sujar a tela com sangue ou feridas obscenas. Wong Kar wai tem um fasc&iacute;nio pelo Belo, e por isso, mais do que narrar acontecimentos, o cineasta pretende criar uma atmosfera, um lugar onde o espectador mergulhe para entrar num estado on&iacute;rico de enamoramento pela tela.</p>
<p>Wong Kar Wai &eacute; pois um m&aacute;gico das imagens e a sua especialidade digamos que &eacute; a da hipnose. S&atilde;o diversas as t&eacute;cnicas usadas neste processo de hipnose. Em primeiro lugar, a repeti&ccedil;&atilde;o: como um p&ecirc;ndulo que se balan&ccedil;a repetem-se falas, momentos, ac&ccedil;&otilde;es. E repetem-se sobretudo can&ccedil;&otilde;es (The Greatest, de Cat Power &eacute; o refr&atilde;o do filme), em especial no final das sequ&ecirc;ncias, como respira&ccedil;&otilde;es narrativas que nos permitem aceder ao registo emocional das personagens. Em segundo lugar, os movimentos de c&acirc;mara: as suas deambula&ccedil;&otilde;es de valsa lenta, atrav&eacute;s de objectos ou vidros embaciados, a descobrir corpos e espa&ccedil;os por momentos, e logo a encobri-los de novo. Depois, a mestria da cor: como numa tela de Rothko, o realizador cria uma atmosfera circundante em que as diferentes tonalidades dos ambientes ecoam os diversos momentos e temperaturas da paix&atilde;o. E, finalmente, &#8211; a imagem de marca do realizador &#8211; a c&acirc;mara lenta: o slow-motion que isola os corpos do espa&ccedil;o circundante, congela o movimento na tela, e capta os tempos mortos da vida das personagens como acontecimentos emocionais irrepet&iacute;veis.</p>
<p>Wong Kar-Wai &eacute; um m&aacute;gico das imagens. Ao longo da sua carreira, o cineasta fez de sua miss&atilde;o trazer &agrave; luz a poesia e sensualidade dos lugares, dos corpos, dos objectos. Por isso, a espa&ccedil;os, o cineasta interrompe o desenrolar da ac&ccedil;&atilde;o com momentos de sil&ecirc;ncio total que nos permitem contemplar a dimens&atilde;o absoluta da imagem. Um gelado a derreter-se lentamente pode ser t&atilde;o comovente quanto um beijo apaixonado. Um descapot&aacute;vel cromado t&atilde;o emocionante quanto uma luta entre rivais. &Eacute; apenas um processo de sedu&ccedil;&atilde;o despertado atrav&eacute;s do olhar. O sil&ecirc;ncio absoluto: apenas a respira&ccedil;&atilde;o de Norah Jones e n&eacute;ons que acendem e apagam como corpos perdidos na noite.</p>
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		<title>Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Oct 2008 17:00:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Nunes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<div class='series_toc'><h3>Índice: Revista#1</h3><ol><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/pedro-marta-santos-ainda-nao-somos-uma-profissao-somos-uma-perturbacao-neurotica/' title='Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica'>Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/nuno-markl-a-comedia-e-um-organismo-vivo/' title='Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo'>Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/rui-vilhena-e-preciso-criar-historias-com-que-as-pessoas-possam-se-identificar/' title='Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar'>Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/antonio-ferreira-um-guiao-e-como-uma-lista-de-compras/' title='António Ferreira: um guião é como uma lista de compras'>António Ferreira: um guião é como uma lista de compras</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/tiago-santos-como-ganhar-a-vida-numa-profissao-que-nao-existe/' title='Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe'>Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/jorge-vaz-nande-devemos-sempre-olhar-para-a-nigeria/' title='Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria'>Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/perfil-neil-labute-matem-o-dramaturgo/' title='Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo'>Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/dexter-o-mundo-ao-contrario/' title='Dexter: o mundo ao contrário'>Dexter: o mundo ao contrário</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/my-blueberry-nights-o-neon-da-paixao/' title='My Blueberry Nights: o néon da paixão'>My Blueberry Nights: o néon da paixão</a></li><li>Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica</li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/the-servant-parasitas-da-alma/' title='The Servant: parasitas da alma'>The Servant: parasitas da alma</a></li></ol></div> <p><i>por Daniel Ribas<sup><a href="http://argumentistas.org/2008/10/sex-and-the-city-teorias-e-conspiracoes-sobre-a-comedia-romantica/#footnote_0_276" id="identifier_0_276" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Daniel Ribas &#38;eacute; argumentista e investigador da Universidade de Aveiro. Prepara uma tese de doutoramento sobre os filmes de Jo&#38;atilde;o Canijo. &#38;Eacute; tamb&#38;eacute;m professor do Instituto Polit&#38;eacute;cnico de Bragan&#38;ccedil;a.">1</a></sup></span></i></p>
<p><a href="http://argumentistas.org/2008/10/sex-and-the-city-teorias-e-conspiracoes-sobre-a-comedia-romantica/" class="more-link">Read more on Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica&#8230;</a></p>
<ol class="footnotes"><li id="footnote_0_276" class="footnote"></i><i><span style="" mce_style="&#8221;font-size:x-small;&#8221;">Daniel Ribas &#233; argumentista e investigador da Universidade de Aveiro. Prepara uma tese de doutoramento sobre os filmes de Jo&#227;o Canijo. &#201; tamb&#233;m professor do Instituto Polit&#233;cnico de Bragan&#231;a.</li></ol> <div class='series_links'><a href='http://argumentistas.org/2008/10/my-blueberry-nights-o-neon-da-paixao/' title='My Blueberry Nights: o néon da paixão'>Artigo anterior</a> <a href='http://argumentistas.org/2008/10/the-servant-parasitas-da-alma/' title='The Servant: parasitas da alma'>Próximo artigo</a></div>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='series_toc'><h3>Índice: Revista#1</h3><ol><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/pedro-marta-santos-ainda-nao-somos-uma-profissao-somos-uma-perturbacao-neurotica/' title='Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica'>Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/nuno-markl-a-comedia-e-um-organismo-vivo/' title='Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo'>Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/rui-vilhena-e-preciso-criar-historias-com-que-as-pessoas-possam-se-identificar/' title='Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar'>Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/antonio-ferreira-um-guiao-e-como-uma-lista-de-compras/' title='António Ferreira: um guião é como uma lista de compras'>António Ferreira: um guião é como uma lista de compras</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/tiago-santos-como-ganhar-a-vida-numa-profissao-que-nao-existe/' title='Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe'>Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/jorge-vaz-nande-devemos-sempre-olhar-para-a-nigeria/' title='Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria'>Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/perfil-neil-labute-matem-o-dramaturgo/' title='Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo'>Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/dexter-o-mundo-ao-contrario/' title='Dexter: o mundo ao contrário'>Dexter: o mundo ao contrário</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/my-blueberry-nights-o-neon-da-paixao/' title='My Blueberry Nights: o néon da paixão'>My Blueberry Nights: o néon da paixão</a></li><li>Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica</li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/the-servant-parasitas-da-alma/' title='The Servant: parasitas da alma'>The Servant: parasitas da alma</a></li></ol></div> <p><i>por Daniel Ribas<sup><a href="http://argumentistas.org/2008/10/sex-and-the-city-teorias-e-conspiracoes-sobre-a-comedia-romantica/#footnote_0_276" id="identifier_0_276" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Daniel Ribas &amp;eacute; argumentista e investigador da Universidade de Aveiro. Prepara uma tese de doutoramento sobre os filmes de Jo&amp;atilde;o Canijo. &amp;Eacute; tamb&amp;eacute;m professor do Instituto Polit&amp;eacute;cnico de Bragan&amp;ccedil;a.">1</a></sup></span></i></p>
<p><a href="../../../../../beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/1024x768_satc_1.jpg" mce_href="http://argumentistas.org/beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/1024x768_satc_1.jpg"><img width="366" height="274" class="alignleft size-medium wp-image-202" title="Sex and the City" src="../../../../../beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/1024x768_satc_1-300x225.jpg" mce_src="http://argumentistas.org/beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/1024x768_satc_1-300x225.jpg" alt="" /></a></p>
<h2>Teorias e Conspira&ccedil;&otilde;es sobre a Com&eacute;dia Rom&acirc;ntica</h2>
<p>Sobre &laquo;Sex and the City&raquo;, de <a set="yes" linkindex="85" href="http://www.imdb.com/name/nm0455078/">Michael Patrick King</a><br />
<i><br />
</i></p>
<p>Um dos grandes lan&ccedil;amentos do Ver&atilde;o, acompanhando a tend&ecirc;ncia de transforma&ccedil;&atilde;o das s&eacute;ries de televis&atilde;o em filmes para cinema, foi a de &laquo;Sexo e a Cidade&raquo;. N&atilde;o &eacute; que esta tend&ecirc;ncia nos tenha trazido muito boas apari&ccedil;&otilde;es: desde &laquo;Get Smart/Olho Vivo&raquo; at&eacute; &laquo;Ficheiros Secretos&raquo;, as adapta&ccedil;&otilde;es apenas nos trouxeram um leve sabor a um epis&oacute;dio mais comprido. Para al&eacute;m disso, os argumentistas de Hollywood confrontaram-se com um problema: em que g&eacute;nero encaixar estes epis&oacute;dios de televis&atilde;o em ponto grande. &Eacute; verdade, apesar das s&eacute;ries terem uma personalidade vincada, o formato cinema obriga a uma nova f&oacute;rmula, que permita, sobretudo, aguentar s&eacute;ries que durar&atilde;o 50 minutos e que passam, desta forma, para o dobro do tempo. &laquo;Sexo e a Cidade&raquo; n&atilde;o foi excep&ccedil;&atilde;o. O g&eacute;nero importado foi o da com&eacute;dia rom&acirc;ntica e o resultado, na nossa opini&atilde;o, n&atilde;o foi o melhor.</p>
<p>A narrativa &#8211; mais uma vez iniciada e contada pela voz de Carrie &#8211; apanha as quatro protagonistas num patamar diferente da vida: todas elas est&atilde;o agora apaixonadas e a viver com os seus respectivos homens. Por um lado, Charlotte e Miranda casaram e tiveram filhos (a de Charlotte &eacute; adoptada); por outro, Samantha vive agora em Los Angeles com um actor de Hollywood (sendo a sua agente). Finalmente, Carrie juntou-se com Mr. Big, o eterno e adiado amor da s&eacute;rie de televis&atilde;o. Na verdade, o filme come&ccedil;a com a decis&atilde;o de ambos em se casar. Contudo, Mr. Big/John acaba por deixar Carrie pendurada no dia de casamento. &Eacute; a oportunidade para o filme dar um longo tempo para a recupera&ccedil;&atilde;o emocional de Carrie e a respectiva reconcilia&ccedil;&atilde;o com Mr. Big. Durante esse tempo, veremos as voltas que as vidas das suas tr&ecirc;s amigas d&atilde;o.</p>
<p>A f&oacute;rmula da com&eacute;dia rom&acirc;ntica est&aacute; de l&aacute; da forma mais clara: um par de apaixonados surgem juntos (outras deriva&ccedil;&otilde;es da f&oacute;rmula mostram dois amigos/conhecidos que ainda n&atilde;o sabem que est&atilde;o apaixonados) e prestes a serem felizes (no caso em aprecia&ccedil;&atilde;o Carrie e Mr. Big est&atilde;o juntos, felizes e v&atilde;o casar-se). Contudo, um obst&aacute;culo surge, obrigatoriamente a partir de um mal-entendido (no caso Mr. Big tem d&uacute;vidas e ao tentar telefonar para Carrie esta n&atilde;o atende). Esse obst&aacute;culo leva a uma ruptura &quot;inconcili&aacute;vel&quot;. Mas, como n&atilde;o h&aacute; bem que sempre dure nem mal que nunca acabe, o tempo acaba por &quot;reconciliar&quot; os dois pombinhos. No entretanto, o filme tem que se divertir com a &quot;recupera&ccedil;&atilde;o&quot; de ambos e mostrar &#8211; atrav&eacute;s das hist&oacute;rias paralelas &#8211; que eles foram feitos um para o outro (no caso &eacute; a hist&oacute;ria de Miranda e o suposto problema causado por ela &#8211; quando diz a Mr. Big na noite anterior ao casamento que ir&aacute; fazer uma asneira &#8211; que ir&aacute; fazer a revela&ccedil;&atilde;o aos olhos de Carrie).</p>
<p><a href="../../../../../beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/1024x768_satc_4.jpg" mce_href="http://argumentistas.org/beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/1024x768_satc_4.jpg"><img width="340" height="254" class="alignleft size-medium wp-image-205" title="Sex and the City" src="../../../../../beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/1024x768_satc_4-300x225.jpg" mce_src="http://argumentistas.org/beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/1024x768_satc_4-300x225.jpg" alt="" /></a></p>
<p>Lentamente porque o filme tem que durar mais tempo, l&aacute; caminhamos para o fim, que j&aacute; advinh&aacute;ramos no in&iacute;cio. &laquo;O Sexo e a Cidade&raquo;, enquanto s&eacute;rie, n&atilde;o fugia a um certo romantismo, reconhecemos. Contudo, mesmo sem sermos f&atilde;s, tamb&eacute;m reconhecemos que a s&eacute;rie trazia para a ribalta os little problems das mulheres e uma forma desinibida de os mostrar. Deixando de lado o problema de saber se esses problemas s&atilde;o, de facto, os que interessam, na s&eacute;rie a estrutura usada fazia algum sentido e deixava no ar a pequena tristeza da solid&atilde;o de Carrie. Esse lado nova-iorquino era sedutor&#8230;</p>
<p>Com este epis&oacute;dio grande em forma de com&eacute;dia rom&acirc;ntica, &laquo;O Sexo e a Cidade&raquo; nivelou a sua estrutura pelas menos inspiradas pel&iacute;culas de Hollywood: abriu a audi&ecirc;ncia e afunilou a sedu&ccedil;&atilde;o. Uma pergunta surge, como &eacute; &oacute;bvio: de que forma poderia a s&eacute;rie transportar o seu ar cosmopolita sem se tornar uma com&eacute;dia rom&acirc;ntica ins&iacute;pida? Talvez o grande problema seja mesmo o ponto de partida: todas as quatro amigas est&atilde;o arranjadas e essa normaliza&ccedil;&atilde;o &eacute; o que retira a carga de novidade que a s&eacute;rie tinha (at&eacute; Samantha se normalizou&#8230;). N&atilde;o sabemos que outros caminhos poderiam surgir, mas uma piscadela de olho a Woody Allen talvez servisse para repor os n&iacute;veis de inspira&ccedil;&atilde;o necess&aacute;rios. Assim, como chegou ao cinema, apenas servir&aacute; para rever e olhar as cria&ccedil;&otilde;es estil&iacute;sticas da moda nova-iorquina. &Eacute; pouco, demasiado pouco.</p>
<ol class="footnotes"><li id="footnote_0_276" class="footnote"></i><i><span style="" mce_style="&rdquo;font-size:x-small;&rdquo;">Daniel Ribas &eacute; argumentista e investigador da Universidade de Aveiro. Prepara uma tese de doutoramento sobre os filmes de Jo&atilde;o Canijo. &Eacute; tamb&eacute;m professor do Instituto Polit&eacute;cnico de Bragan&ccedil;a.</li></ol> <div class='series_links'><a href='http://argumentistas.org/2008/10/my-blueberry-nights-o-neon-da-paixao/' title='My Blueberry Nights: o néon da paixão'>Artigo anterior</a> <a href='http://argumentistas.org/2008/10/the-servant-parasitas-da-alma/' title='The Servant: parasitas da alma'>Próximo artigo</a></div>]]></content:encoded>
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		<title>The Servant: parasitas da alma</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Oct 2008 16:59:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Nunes</dc:creator>
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		<description><![CDATA["O Criado" ("The Servant") é um clássico que não perdeu intensidade e força com o passar dos anos. Pedro Flores escalpeliza os mecanismos dramáticos que ainda o tornam actual.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='series_toc'><h3>Índice: Revista#1</h3><ol><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/pedro-marta-santos-ainda-nao-somos-uma-profissao-somos-uma-perturbacao-neurotica/' title='Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica'>Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/nuno-markl-a-comedia-e-um-organismo-vivo/' title='Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo'>Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/rui-vilhena-e-preciso-criar-historias-com-que-as-pessoas-possam-se-identificar/' title='Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar'>Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/antonio-ferreira-um-guiao-e-como-uma-lista-de-compras/' title='António Ferreira: um guião é como uma lista de compras'>António Ferreira: um guião é como uma lista de compras</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/tiago-santos-como-ganhar-a-vida-numa-profissao-que-nao-existe/' title='Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe'>Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/jorge-vaz-nande-devemos-sempre-olhar-para-a-nigeria/' title='Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria'>Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/perfil-neil-labute-matem-o-dramaturgo/' title='Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo'>Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/dexter-o-mundo-ao-contrario/' title='Dexter: o mundo ao contrário'>Dexter: o mundo ao contrário</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/my-blueberry-nights-o-neon-da-paixao/' title='My Blueberry Nights: o néon da paixão'>My Blueberry Nights: o néon da paixão</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/sex-and-the-city-teorias-e-conspiracoes-sobre-a-comedia-romantica/' title='Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica'>Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica</a></li><li>The Servant: parasitas da alma</li></ol></div> <p><i>por Pedro Flores</i></p>
<p><a href="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/the-servant-rev1-foto1.jpg"><img width="500" height="400" class="aligncenter size-full wp-image-287" title="the-servant-rev1-foto1" alt="" src="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/the-servant-rev1-foto1.jpg" /></a></p>
<p><b>Parasitas da Alma</b></p>
<p>Sobre &laquo;The Servant&raquo;, de Joseph Losey e <a set="yes" linkindex="95" href="http://www.imdb.com/name/nm0056217/">Harold Pinter</a><br />
<i><br />
</i></p>
<p>Reza a lenda que Joseph Losey foi ver The Caretaker em cena e impressionado com o talento do jovem Harold Pinter lhe escreveu a dar os parab&eacute;ns. Dias mais tarde, o dramaturgo respondeu-lhe a agradecer a gentileza e a pedir trabalho. Foi assim, do acidental encontro entre um g&eacute;nio da palavra e um mestre da realiza&ccedil;&atilde;o que surgiu The Servant, uma das obras-primas do cinema brit&acirc;nico. Adaptada ao grande ecr&atilde; a partir de um conto de Robin Maugham, o filme descreve os labirintos da rela&ccedil;&atilde;o entre um jovem aristocrata ingl&ecirc;s &ndash; Tony (James Fox) e o seu criado Barrett (Dirk Bogarde).</p>
<p>Tony &eacute; um fidalgo do s&eacute;culo vinte que regressa de um pa&iacute;s africano para se estabelecer em Londres. Qual diletante ocioso, ele ocupa os dias a passear com a sua noiva Susan (Wendy Craig) e a projectar construir tr&ecirc;s cidades de raiz no meio da selva amaz&oacute;nica. Para lhe cuidar das tarefas dom&eacute;sticas, Tony contrata Barrett, um criado para todo o servi&ccedil;o, daqueles que espalham classe e antecipam os desejos do seu senhor. Barrett tem boas maneiras e sabe cozinhar, opina sobre a decora&ccedil;&atilde;o da casa, traz o pequeno almo&ccedil;o &agrave; cama, e demolha os p&eacute;s do patr&atilde;o em &aacute;gua quente. Mais do que apenas um criado, Barrett &eacute; uma esp&eacute;cie de m&atilde;e ausente, a ama seca de um adulto ing&eacute;nuo, incapaz e mimado. &Eacute; o nascimento desta rela&ccedil;&atilde;o e o eclodir do tri&acirc;ngulo Barrett &#8211; Tony &#8211; Susan que ocupam o primeiro acto deste filme.</p>
<p>Na verdade, cedo constatamos que Susan n&atilde;o partilha da admira&ccedil;&atilde;o de Tony pelo criado. Porque raz&atilde;o? Porque Barrett, mesmo quando n&atilde;o solicitado, est&aacute; sempre &agrave; espreita, atr&aacute;s de cada porta, de espanador na m&atilde;o pronto a servir. Susan sabe -ou pressente- que Barrett rapidamente adquiriu influ&ecirc;ncia sobre o patr&atilde;o e que ter&aacute; de competir com ele pelo controle sobre Tony. A rivalidade cresce em surdina, Susan faz a vida negra ao criado e acaba por pedir ao noivo que o despe&ccedil;a. Por&eacute;m, com o seu pat&eacute;tico orgulho colonialista Tony defende sempre o seu Barrett: &ldquo;He may be a servant, but he is still an human being.&rdquo;</p>
<p>Este antagonismo entre Susan e Barrett traduz-se visualmente na luta pelo dom&iacute;nio da casa. No cinema, como na vida, a casa &eacute; tradicionalmente caracterizada como um territ&oacute;rio feminino. Por&eacute;m, neste filme ela est&aacute; habitada por dois homens e a entrada a uma mulher parece vedada: &ldquo;The thought of some woman running aroung the house and telling me what to do, rather puts me off!&rdquo;. Susan sabe-o &#8211; ou pressente-o &#8211; e por isso procura chamar a si todas as decis&otilde;es dom&eacute;sticas, contra a vontade de Barrett. Esta &eacute; tamb&eacute;m uma batalha de egos, por isso, quando Susan e Barrett disputam ferozmente o lugar de uma jarra de flores, o que eles decidem &eacute; quem realmente det&eacute;m o poder naquele territ&oacute;rio. De igual forma, ao mesmo tempo que Barrett vai ganhando ascendente sobre Tony os seus dom&iacute;nios na casa v&atilde;o-se expandindo: inicialmente confinado &agrave; cozinha, o criado come&ccedil;a a usar a casa de banho do patr&atilde;o at&eacute; que termina a dormir com outra pessoa na sua cama.</p>
<p>Porque h&aacute; um quarto vago na casa, o que permite a entrada em cena de um novo elemento. Sob o pretexto de precisar de apoio nas lides dom&eacute;sticas, Barret convence Tony a contratar uma criada &#8211; Vera (Sarah Miles) &#8211; apresentada ao patr&atilde;o como sua respeit&aacute;vel irm&atilde; mas na verdade sua namorada. Ao contr&aacute;rio de Barrett, que mostra cultura e usa de gestos educados, Vera &eacute; apenas mais uma parola que chega &agrave; cidade. Por&eacute;m, exibindo uma sensualidade que falta a Susan, o seu aparecimento despoleta o desejo de Tony, e desequilibra ainda mais a rela&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as a favor de Barrett. Deste modo, &agrave; partida para o segundo acto, o filme apresenta uma estrutura em quadril&aacute;tero que inclui v&aacute;rios tri&acirc;ngulos: Barrett &#8211; Tony &#8211; Susan; Tony &ndash; Vera &ndash; Barret; e Vera &ndash; Tony &ndash; Susan. &Eacute; em torno destes tr&ecirc;s tri&acirc;ngulos e das suas din&acirc;micas de amor, ci&uacute;me e poder que a ac&ccedil;&atilde;o dram&aacute;tica se vai desenrolar.</p>
<p>Como vimos, estas quatro personagens pertencem a dois universos sociais antag&oacute;nicos &ndash; a aristocracia e o povo &ndash; que se encontram nesta casa e colidem dramaticamente. O que est&aacute; em causa &eacute; muitas vezes a educa&ccedil;&atilde;o, as virtudes, o sangue: &eacute; portanto ainda uma quest&atilde;o de classe. Nesse sentido, The Servant serve tamb&eacute;m como retrato de uma aristocracia decadente e de uma estrutura social brit&acirc;nica em muta&ccedil;&atilde;o mas ainda extremamente hierarquizada. Poder-se-ia pensar que estamos perante o t&iacute;pico filme brit&acirc;nico de cr&iacute;tica ao establishment e louvor das classes desfavorecidas, na linha de um &ldquo;kitchen sink drama&rdquo; ou do realismo social de Ken Loach. Por&eacute;m, neste filme ambas as personagens do povo surgem com tra&ccedil;os pouco apraz&iacute;veis: Vera &eacute; caracterizada como tonta e vulgar, e Barrett como uma pessoa falsa, grosseira e manipuladora &ndash; os ant&iacute;podas de um working class hero. Quer dizer, The Servant prefere a caracteriza&ccedil;&atilde;o realista do indiv&iacute;duo &agrave; idealiza&ccedil;&atilde;o da luta de classes. Este n&atilde;o &eacute; um tempo para her&oacute;is, nem nas classes mais desfavorecidas.</p>
<p>Na verdade, o que realmente interessa a Pinter &eacute; o estudo da linguagem das rela&ccedil;&otilde;es, dos jogos em que os humanos se envolvem. Em particular, dos jogos de poder, esses que determinam a supremacia de um humano sobre outro e que se escondem em cada gesto ou palavra nossa. Quem fica de p&eacute; e quem fica sentado, quem fala em primeiro ou &uacute;ltimo lugar, quem olha em picado ou em contra-picado, n&atilde;o s&atilde;o quest&otilde;es de pormenor em The Servant: &eacute; a ess&ecirc;ncia do filme. &Eacute; para mostrar o seu poder que Barrett trata a namorada como um cachorro, chama por ela ao assobio e d&aacute;-lhe palmadas no lombo. &Eacute; para usufruir de supremacia que Tony se coloca no topo da escadaria quando joga &agrave; bola com Barrett. &Eacute; para sublinhar o seu dom&iacute;nio que Susan esbofeteia Barrett na cara. Quer dizer, a cada encontro de personagens jogam-se bra&ccedil;os-de-ferro imprevis&iacute;veis, e &eacute; essa indetermina&ccedil;&atilde;o que confere dinamismo &agrave;s cenas e &agrave; hist&oacute;ria.</p>
<p><a href="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/the-servant-rev1-foto2.jpg"><img width="500" height="400" class="aligncenter size-full wp-image-288" title="the-servant-rev1-foto2" alt="" src="http://argumentistas.org/wp-content/uploads/the-servant-rev1-foto2.jpg" /></a></p>
<p>Ali&aacute;s, estes jogos de poder s&atilde;o magnificamente explorados pela mise-en-sc&eacute;ne. A prefer&ecirc;ncia por planos longos faz com que as cenas surjam cuidadosamente coreografadas, quer em profundidade quer pelo movimento de c&acirc;mara. Assim, usa-se a profundidade de campo de modo a que diferentes personagens tenham diferentes escalas no plano e essas escalas evoluam de acordo com a din&acirc;mica da cena. Quem est&aacute; em primeiro plano e quem est&aacute; em fundo traduz um jogo de poder, e coloca a &ecirc;nfase na rela&ccedil;&atilde;o &#8211; e n&atilde;o no individuo. Do mesmo modo, a profundidade de campo permite tamb&eacute;m inscrever as personagens neste espa&ccedil;o claustrof&oacute;bico e fechado como um palco de onde parece imposs&iacute;vel fugir.</p>
<p>Em Pinter, os jogos de poder ganham-se ou perdem-se atrav&eacute;s da palavra. Invariavelmente, as suas personagens elogiam, obedecem, criticam, seduzem com uma agenda oculta, uma segunda inten&ccedil;&atilde;o. Aqui as cenas come&ccedil;am in media res, com os dados j&aacute; lan&ccedil;ados, e as palavras significam sempre aquilo e outra coisa, um desconhecido que o espectador &#8211; tal como o interlocutor &#8211; tem de descortinar paulatinamente. Assim, em cada cena o que est&aacute; em jogo &ndash; o subtexto &#8211; est&aacute; encoberto por hesita&ccedil;&otilde;es, double-entendres, ou frases inconsequentes que disfar&ccedil;am a verdadeira inten&ccedil;&atilde;o da personagem. Estamos pois no reino do disfarce, da mentira f&aacute;cil e da manipula&ccedil;&atilde;o, e este &eacute; um jogo em que todos participam.</p>
<p>De facto, o decl&iacute;nio deste anti-her&oacute;i aristocrata parte justamente de uma estrat&eacute;gia de manipula&ccedil;&atilde;o. Um plano cuidadosamente urdido por Barrett faz com Tony se encontre &agrave; noite sozinho em casa com Vera. Numa cena de memor&aacute;vel tens&atilde;o, Vera surge de mini-saia e p&eacute;s descal&ccedil;os na cozinha a seduzir o patr&atilde;o, enquanto gotas de &aacute;gua caem na banca e o telefone toca sem parar. A partir deste momento, Tony passa a estar demasiado ocupado para a noiva e a entregar-se a tempo inteiro &agrave; jovem criada (e &agrave;s bebidas alco&oacute;licas). &Eacute; justamente aqui que principia a decad&ecirc;ncia de Tony e se come&ccedil;a a inverter a rela&ccedil;&atilde;o de poder entre senhor e criado.</p>
<p>Em geral, estes momentos de sedu&ccedil;&atilde;o caracterizam-se pelo engenho e discri&ccedil;&atilde;o com que s&atilde;o apresentados. Durante o cinema cl&aacute;ssico o sexo era imagem tabu pelo que os realizadores e guionistas tinham de recorrer &agrave; met&aacute;fora para comunicarem momentos de intimidade. O champagne que borbulha nos flutes, o fumo insinuante dos cigarros, o calor ardente da lareira, s&atilde;o alguns dos elementos cl&aacute;ssicos de que The Servant se serve com alguma originalidade. Por&eacute;m, o que distingue este filme da generalidade &eacute; justamente a sexualiza&ccedil;&atilde;o de objectos aparentemente in&oacute;cuos, como rel&oacute;gios de parede, espelhos convexos ou torneiras de cozinha. Reprimido ou ausente nas personagens, o desejo insinua-se nas objectos comuns e espalha-se a toda a casa. Do mesmo modo, a paisagem sonora, quer atrav&eacute;s de efeitos em fora de campo, quer atrav&eacute;s do jazz quente da can&ccedil;&atilde;o &ldquo;Now while I love you alone&rdquo;, promove uma atmosfera de v&iacute;cio e sensualidade.</p>
<p>Esta decad&ecirc;ncia agudiza-se sobremaneira depois de Tony despedir Barrett e ficar isolado na mans&atilde;o. Numa cena de antologia &#8211; em que o espectador apenas v&ecirc; a sombra de Barrett e ouve di&aacute;logos em off &#8211; o patr&atilde;o encontra o criado na sua cama com a sua suposta &ldquo;irm&atilde;&rdquo; e confronta-o com o crime de lesa-majestade. &Eacute; a partir deste momento que compreendemos a real import&acirc;ncia de Barrett na casa. A lou&ccedil;a imunda na banca, a correspond&ecirc;ncia por abrir, as flores que murcham na jarra sinalizam a sua aus&ecirc;ncia e o vazio que deixou. Sem Barrett, Tony n&atilde;o tem capacidades para cuidar de si e &eacute; confrontado com essa mesma depend&ecirc;ncia. Um vinculo que era exclusivamente laboral, rapidamente se tornou numa necessidade e num la&ccedil;o afectivo vital. Esta rela&ccedil;&atilde;o de depend&ecirc;ncia &eacute; magnificamente ilustrada pela cena em que Tony entra no quarto de Vera e se agarra aos seus len&ccedil;&oacute;is, desesperadamente s&oacute;.</p>
<p>Dias mais tarde, Barrett encontra Tony num pub e consegue convencer o patr&atilde;o a aceit&aacute;-lo de volta. Por&eacute;m, depois do que ambos disseram e presenciaram, a sua rela&ccedil;&atilde;o s&oacute; podia estar diferente. Por vezes h&aacute; uma intimidade mais pronunciada, quase de casal, em que se conversa sobre a elabora&ccedil;&atilde;o do jantar ou se discute a arruma&ccedil;&atilde;o da casa. Outras vezes estabelecem-se brincadeiras de adolescentes, em que os dois jogam &agrave;s escondidas a amea&ccedil;ar: &ldquo;You&rsquo;ve got a guilty secret!&rdquo; Outras ainda, h&aacute; comportamentos sado-masoquistas como o patr&atilde;o a obrigar o criado a limpar o ch&atilde;o enquanto lhe chama parolo. Assim, fomentados pelo seu isolamento do mundo, cria-se aos poucos um ambiente de tens&atilde;o sexual entre os dois, em que o que excita &eacute; a tamb&eacute;m a rela&ccedil;&atilde;o de poder. Nesta atmosfera homoer&oacute;tica, o desespero sexual de Tony revela-se pat&eacute;tico e comovente, e Barrett, mais uma vez, explora esse facto em favor do seu dom&iacute;nio sobre o outro.</p>
<p>Este &eacute; pois um filme sobre a queda de um jovem aristocrata na ru&iacute;na moral. Sobre uma descida aos infernos em que o cicerone vai corrompendo as almas no caminho. Sobre a invers&atilde;o de uma rela&ccedil;&atilde;o de poder at&eacute; ao dom&iacute;nio absoluto do criado sobre o patr&atilde;o. Na &uacute;ltima cena, Barrett organiza uma orgia para oferecer a Tony, com mulheres de riso felliniano, c&acirc;maras fotogr&aacute;ficas que disparam flashes e m&uacute;sica embriagante. Depois da entrega a uma devassid&atilde;o sem regras, a festa termina simbolicamente com o criado a subir ao primeiro andar e o senhor a arrastar-se pelo soalho como um bicho. Quer dizer, o jovem aristocrata v&ecirc;-se agora reduzido a uma criatura in&uacute;til, viciada no &aacute;lcool e impotente face aos desafios da vida. Como num filme de terror, o monstro &eacute; tamb&eacute;m o melhor amigo e a vitima &eacute; t&atilde;o culpada quanto o carrasco. Como num document&aacute;rio de natureza, o humano &eacute; aqui retratado como um ser dependente do outro, dominado pela agress&atilde;o e pelo desejo, como um parasita da alma.</p>
<p>Trailer:</p>
<p><img width="425" height="344" alt="" title="&quot;allowFullScreen&quot;:&quot;true&quot;,&quot;src&quot;:&quot;http://www.youtube.com/v/aZ_GUH3i9z8&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&quot;" class="mceItemFlash" src="../../../../../beta1/wp-includes/js/tinymce/plugins/media/img/trans.gif" mce_src="http://argumentistas.org/beta1/wp-includes/js/tinymce/plugins/media/img/trans.gif" /></p>
<p>&nbsp;</p>
 <div class='series_links'><a href='http://argumentistas.org/2008/10/sex-and-the-city-teorias-e-conspiracoes-sobre-a-comedia-romantica/' title='Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica'>Artigo anterior</a> </div>]]></content:encoded>
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		<pubDate>Mon, 14 Jul 2008 14:42:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Daniel Ribas</dc:creator>
				<category><![CDATA[APAD]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
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