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	<title>argumentistas.orgWong Kar Wai | argumentistas.org</title>
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		<title>My Blueberry Nights: o néon da paixão</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Oct 2008 17:01:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Nunes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Dossier]]></category>
		<category><![CDATA[cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Lawrence Block]]></category>
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		<description><![CDATA[O filme "My Blueberry Nights", de Wong Kar Wai e Lawrence Block, merece uma análise a Pedro Flores.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='series_toc'><h3>Índice: Revista#1</h3><ol><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/pedro-marta-santos-ainda-nao-somos-uma-profissao-somos-uma-perturbacao-neurotica/' title='Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica'>Pedro Marta Santos: ainda não somos uma profissão, somos uma perturbação neurótica</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/nuno-markl-a-comedia-e-um-organismo-vivo/' title='Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo'>Nuno Markl: a comédia é um organismo vivo</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/rui-vilhena-e-preciso-criar-historias-com-que-as-pessoas-possam-se-identificar/' title='Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar'>Rui Vilhena: é preciso criar histórias com que as pessoas possam se identificar</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/antonio-ferreira-um-guiao-e-como-uma-lista-de-compras/' title='António Ferreira: um guião é como uma lista de compras'>António Ferreira: um guião é como uma lista de compras</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/tiago-santos-como-ganhar-a-vida-numa-profissao-que-nao-existe/' title='Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe'>Tiago Santos: como ganhar a vida numa profissão que não existe</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/jorge-vaz-nande-devemos-sempre-olhar-para-a-nigeria/' title='Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria'>Jorge Vaz Nande: devemos sempre olhar para a Nigéria</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/perfil-neil-labute-matem-o-dramaturgo/' title='Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo'>Perfil: Neil Labute &#8211; matem o dramaturgo</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/dexter-o-mundo-ao-contrario/' title='Dexter: o mundo ao contrário'>Dexter: o mundo ao contrário</a></li><li>My Blueberry Nights: o néon da paixão</li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/sex-and-the-city-teorias-e-conspiracoes-sobre-a-comedia-romantica/' title='Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica'>Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica</a></li><li><a href='http://argumentistas.org/2008/10/the-servant-parasitas-da-alma/' title='The Servant: parasitas da alma'>The Servant: parasitas da alma</a></li></ol></div> <p><i>por Pedro Flores</i></p>
<p><a mce_href="http://argumentistas.org/beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/my_blueberry_nights02.jpg" href="../../../../../beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/my_blueberry_nights02.jpg"><img width="300" height="206" alt="" mce_src="http://argumentistas.org/beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/my_blueberry_nights02-300x206.jpg" src="../../../../../beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/my_blueberry_nights02-300x206.jpg" title="My Blueberry Nights" class="alignnone size-medium wp-image-190" /></a></p>
<h2>O N&eacute;on da Paix&atilde;o</h2>
<p>Sobre &quot;My Blueberry Nights&quot;, de Wong Kar-wai e <a href="http://www.imdb.com/name/nm0088747/" linkindex="89" set="yes">Lawrence Block</a><br />
<i><br />
</i></p>
<p>A can&ccedil;&atilde;o de Norah Jones avisa-nos nos momentos iniciais: &ldquo;I don&rsquo;t know how to begin/ &lsquo;cause the story has been told before&rdquo;. E, de facto, desde Chungking Express que com Wong Kar-Wai &eacute; sempre a mesma cantiga: filmes nocturnos que descrevem os encontros e desencontros do amor com um travo a doce melancolia. Se 2046 era o negativo desencantado de In the Mood for Love numa atmosfera futurista, My Blueberry Nights &eacute; agora a transposi&ccedil;&atilde;o desse universo para o territ&oacute;rio da Am&eacute;rica. Ali&aacute;s, a passagem da melodia de In The Mood For Love a meio deste filme &eacute; a prova dessa memoria f&iacute;lmica que aqui retorna e assombra My Blueberry Nights como um fantasma.</p>
<p>A hist&oacute;ria &eacute; linear: Lizzie (Norah Jones), uma rapariga simples a quem acabaram de quebrar o cora&ccedil;&atilde;o, afoga as m&aacute;goas no caf&eacute; gerido por Jeremy (Jude Law). Para esquecer o amor de sua vida, resolve fazer uma viagem pela Am&eacute;rica &ndash; Nova Iorque, Memphis, Las Vegas &#8211; onde trabalha como empregada de mesa. A&iacute;, conhece Arnie (David Strathairn) &ndash; um policia que procura no &aacute;lcool esquecer a ex-mulher (Rachel Weisz) e Leslie (Natalie Portman), uma jogadora compulsiva que tem uma rela&ccedil;&atilde;o problem&aacute;tica com o pai. Ao mesmo tempo, come&ccedil;a a corresponder-se com Jeremy, a quem confidencia as suas aventuras e estados de alma.</p>
<p>&Agrave; superf&iacute;cie, estamos portanto no dom&iacute;nio do filme de g&eacute;nero, especificamente do road-movie. H&aacute; algo que falta ao her&oacute;i e &eacute; isso que o faz partir. Ao longo da viagem, ele tem encontros fortuitos e envolve-se em perip&eacute;cias que reflectem a sua demanda e funcionam como caixa de resson&acirc;ncia do seu conflito interior. Deste modo, a viagem geogr&aacute;fica tem paralelo numa viagem emocional, de crescimento ou perdi&ccedil;&atilde;o, que culmina na transforma&ccedil;&atilde;o do her&oacute;i. Em tra&ccedil;os gerais, esta &eacute; a f&oacute;rmula que consagrou filmes como Easy Rider ou Thelma and Louise.</p>
<p>Por&eacute;m, este &eacute; um &ldquo;road movie&rdquo; de paisagens interiores. Se tem certamente elementos que caracterizam o g&eacute;nero, a sua ac&ccedil;&atilde;o acontece no &iacute;ntimo dos caf&eacute;s em torno de conflitos privados. Al&eacute;m disso, ao contr&aacute;rio do que costuma suceder nos filmes de estrada, aqui as personagens vivem isoladas do seu momento hist&oacute;rico-cultural, sem liga&ccedil;&atilde;o ao real, sem exist&ecirc;ncia para l&aacute; destes &ldquo;coffee-shops&rdquo;. E se &eacute; verdade que a maior parte do filme foi filmado &ldquo;in location&rdquo;, esta &eacute; na sua ess&ecirc;ncia uma Am&eacute;rica de est&uacute;dio, colorida por luzes artificiais e encerrada em si mesma, sem fora de campo. Tal como a Paris de O Fabuloso Destino de Am&eacute;lie Poulain, o territ&oacute;rio deste filme &eacute; menos a Am&eacute;rica real do que a da tela, nas suas conven&ccedil;&otilde;es, lugares-comuns, e imagin&aacute;rio pop. Uma Am&eacute;rica feita de juke-boxes e descapot&aacute;veis, sonhada apenas pela s&eacute;tima arte, fic&ccedil;&atilde;o inspirada em outras fic&ccedil;&otilde;es.</p>
<p>De facto, nesta viagem de Wong Kar Wai de Hong Kong para a Am&eacute;rica, h&aacute; algo que se perdeu na tradu&ccedil;&atilde;o. Onde antes predominava a ambival&ecirc;ncia do gesto e do n&atilde;o-dito proliferam agora di&aacute;logos melodram&aacute;ticos e banais. Onde antes havia o exotismo de Tony Leung ou Maggie Cheung h&aacute; agora a inverosimilhan&ccedil;a de Jude Law como empregado de caf&eacute;. Onde antes ponteava uma narra&ccedil;&atilde;o que servia de contraponto &agrave; imagem, surge agora uma &#8211; ali&aacute;s duas &#8211; voz-offs que apenas transmitem informa&ccedil;&atilde;o e explicam de modo redundante e redutor o que o espectador est&aacute; a ver. Ao menos para o olhar de um ocidental, o que se perdeu foi a cren&ccedil;a naquele universo feito de quartos de hotel e vestidos de cetim que nos transportava cegamente para a Hong Kong dos anos 60 ou a noite de Buenos Aires &#8211; mesmo que as suas anteriores recrea&ccedil;&otilde;es fossem j&aacute; historicamente irrealistas.</p>
<p>Esta hist&oacute;ria come&ccedil;a em Nova Iorque com uma premissa curiosa: uma jovem lan&ccedil;a-se em viagem pela Am&eacute;rica para esquecer as contrariedades do amor. Periodicamente, uma legenda avisa-nos que Lizzie est&aacute; cada vez mais distante do ponto de partida, e portanto, mais perto da reabilita&ccedil;&atilde;o &ndash; segundo a f&oacute;rmula &ldquo;longe da vista, longe do cora&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Por&eacute;m, de facto, o seu &uacute;nico objectivo declarado &eacute; amealhar dinheiro para comprar um carro. &Eacute; certo que Lizzie tamb&eacute;m se relaciona com os dramas de um par de outras personagens, mas permanece emocionalmente &agrave; dist&acirc;ncia como uma testemunha ou um frouxo adjuvante. Ou seja, Lizzie &eacute; uma protagonista passiva, de cora&ccedil;&atilde;o generoso &eacute; verdade, mas que pouco deseja e a nada se entrega.</p>
<p>Por isso, porque lhe faltam as expectativas de Lizzie para poder chorar e sorrir com ela, h&aacute; uma natural dificuldade do espectador em identificar-se com a hist&oacute;ria. N&atilde;o basta para o espectador que Norah Jones seja uma rapariga de cara laroca que est&aacute; com os &ldquo;blues&rdquo;. &Eacute; preciso que ela acredite, lute, sonhe como ningu&eacute;m antes o fez. Essa &eacute; a mat&eacute;ria de que s&atilde;o feitos os her&oacute;is. Infelizmente, esse n&atilde;o &eacute; o caso de Lizzie, e assim o fim da jornada da protagonista aparece-nos mais como uma ac&ccedil;&atilde;o da ordem do acaso ou do capricho do que uma verdadeira transforma&ccedil;&atilde;o interior.</p>
<p><a mce_href="http://argumentistas.org/beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/my_blueberry_nights_05.jpg" href="../../../../../beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/my_blueberry_nights_05.jpg"><img width="400" height="268" alt="" mce_src="http://argumentistas.org/beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/my_blueberry_nights_05.jpg" src="../../../../../beta1/wp-content/themes/mimbo2.2/images/my_blueberry_nights_05.jpg" title="My BlueBerry Nights" class="alignleft size-full wp-image-191" /></a></p>
<p>Ali&aacute;s, mesmo os dois subplots que ocupam uma parte significativa da narrativa s&atilde;o pouco originais e n&atilde;o suscitam uma liga&ccedil;&atilde;o afectiva com o espectador. As hist&oacute;rias do ex-marido alco&oacute;lico em Memphis e da jogadora compulsiva de roleta em Las Vegas, confundem-se de tal forma na paisagem de filmes de estrada americanos que quase nos aparecem como personagens-tipo: sem assinatura ou impress&atilde;o digital. Por outras palavras, falta-lhes a diferen&ccedil;a que caracteriza as personagens cativantes e memor&aacute;veis: a especificidade inimit&aacute;vel dos h&aacute;bitos, dos gestos, do guarda-roupa, ou da backstory.</p>
<p>&Eacute; verdade que alguns h&aacute; elementos originais &agrave; hist&oacute;ria &#8211; como a tarte de mirtilo que todos rejeitam, o frasco que guarda chaves de clientes perdidos de amor, os v&iacute;deos de seguran&ccedil;a que funcionam como di&aacute;rio de bordo do gerente. Como tamb&eacute;m existem cenas memor&aacute;veis: o alco&oacute;lico que celebra a &uacute;ltima noite de &aacute;lcool com um copo de whisky, a coincid&ecirc;ncia c&oacute;smica dos dois her&oacute;is que come&ccedil;am a sangrar do nariz no mesmo momento, ou o empregado de mesa que se recorda das pessoas n&atilde;o pelo seu aspecto mas por aquilo que costumam consumir. Ali&aacute;s, em regra, estes elementos s&atilde;o quase sempre bem empregues em estrat&eacute;gias de &ldquo;set-up&rdquo; e &ldquo;pay-off&rdquo; com consequ&ecirc;ncias narrativas para as personagens. Por&eacute;m, ao abandonarmos a sala, o sentimento geral &eacute; de que acab&aacute;mos de assistir a uma hist&oacute;ria algo previs&iacute;vel e auto-indulgente. Como o confirma circularmente Norah Jones, em jeito de coro grego, na &uacute;ltima cena: &ldquo;I guess it&rsquo;s how it goes/ the stories have all been told&rdquo;.</p>
<p>Na realidade, Wong Kar Wai est&aacute; menos interessado no drama ou na hist&oacute;ria do que no Belo. Quando filma a mulher, o cineasta apresenta-a muitas vezes sem rosto, apenas saltos altos e ancas que seduzem, um absoluto de mulher. Quando filma um acidente mortal, estiliza-o, captando os estilha&ccedil;os e reflexos met&aacute;licos do &acirc;ngulo mais fotog&eacute;nico. Quando filma uma cena de pancadaria, mant&eacute;m-se &agrave; distancia para n&atilde;o sujar a tela com sangue ou feridas obscenas. Wong Kar wai tem um fasc&iacute;nio pelo Belo, e por isso, mais do que narrar acontecimentos, o cineasta pretende criar uma atmosfera, um lugar onde o espectador mergulhe para entrar num estado on&iacute;rico de enamoramento pela tela.</p>
<p>Wong Kar Wai &eacute; pois um m&aacute;gico das imagens e a sua especialidade digamos que &eacute; a da hipnose. S&atilde;o diversas as t&eacute;cnicas usadas neste processo de hipnose. Em primeiro lugar, a repeti&ccedil;&atilde;o: como um p&ecirc;ndulo que se balan&ccedil;a repetem-se falas, momentos, ac&ccedil;&otilde;es. E repetem-se sobretudo can&ccedil;&otilde;es (The Greatest, de Cat Power &eacute; o refr&atilde;o do filme), em especial no final das sequ&ecirc;ncias, como respira&ccedil;&otilde;es narrativas que nos permitem aceder ao registo emocional das personagens. Em segundo lugar, os movimentos de c&acirc;mara: as suas deambula&ccedil;&otilde;es de valsa lenta, atrav&eacute;s de objectos ou vidros embaciados, a descobrir corpos e espa&ccedil;os por momentos, e logo a encobri-los de novo. Depois, a mestria da cor: como numa tela de Rothko, o realizador cria uma atmosfera circundante em que as diferentes tonalidades dos ambientes ecoam os diversos momentos e temperaturas da paix&atilde;o. E, finalmente, &#8211; a imagem de marca do realizador &#8211; a c&acirc;mara lenta: o slow-motion que isola os corpos do espa&ccedil;o circundante, congela o movimento na tela, e capta os tempos mortos da vida das personagens como acontecimentos emocionais irrepet&iacute;veis.</p>
<p>Wong Kar-Wai &eacute; um m&aacute;gico das imagens. Ao longo da sua carreira, o cineasta fez de sua miss&atilde;o trazer &agrave; luz a poesia e sensualidade dos lugares, dos corpos, dos objectos. Por isso, a espa&ccedil;os, o cineasta interrompe o desenrolar da ac&ccedil;&atilde;o com momentos de sil&ecirc;ncio total que nos permitem contemplar a dimens&atilde;o absoluta da imagem. Um gelado a derreter-se lentamente pode ser t&atilde;o comovente quanto um beijo apaixonado. Um descapot&aacute;vel cromado t&atilde;o emocionante quanto uma luta entre rivais. &Eacute; apenas um processo de sedu&ccedil;&atilde;o despertado atrav&eacute;s do olhar. O sil&ecirc;ncio absoluto: apenas a respira&ccedil;&atilde;o de Norah Jones e n&eacute;ons que acendem e apagam como corpos perdidos na noite.</p>
 <div class='series_links'><a href='http://argumentistas.org/2008/10/dexter-o-mundo-ao-contrario/' title='Dexter: o mundo ao contrário'>Artigo anterior</a> <a href='http://argumentistas.org/2008/10/sex-and-the-city-teorias-e-conspiracoes-sobre-a-comedia-romantica/' title='Sex and the City: teorias e conspirações sobre a comédia romântica'>Próximo artigo</a></div>]]></content:encoded>
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